É POSSÍVEL VIVER A QUARESMA OUVINDO NAS HOMILIAS TEMAS COMO ESGOTO, BANHEIRO, BIOMAS, ÁGUA TRATADA?????

É POSSÍVEL VIVER A QUARESMA OUVINDO NAS HOMILIAS lTEMAS COMO ESGOTO, BANHEIRO, BIOMAS, ÁGUA TRATADA?????

Há cristãos incomodados com os dois últimos temas das Campanhas da Fraternidade 2016/2017. Por que falar de esgoto ou de biomas numa época em que o foco deveria ser a Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus? Para compreender estas escolhas temáticas do Magistério é preciso voltar os olhos para o gravíssimo problema da sustentabilidade do planeta terra. A situação é preocupante, como alertou o papa Francisco na encíclica Laudato Si, a primeira encíclica ecológica do magistério.

O Papa Francisco nos convida a ouvir os gritos do planeta e dos pobres, explorados pelos que buscam o lucro fácil. Francisco exorta todos a uma «conversão ecológica», segundo a expressão de São João Paulo II, isto é, a «mudar de rumo», assumindo a beleza e a responsabilidade de um compromisso para o «cuidado da casa comum». O Papa  Francisco  se dirige aos fiéis católicos, retomando as palavras de São João Paulo II, afirmando que os deveres em relação à natureza e ao Criador fazem parte da fé e da evangelização » (64),

Levando-se em consideração que Deus criou o universo e com carinho especial o Planeta Terra para nele desenvolver o seu plano de amor ao ser humano, não preocupar-se com o meio ambiente é desconsiderar o Plano de Amor Divino. A pessoa mais velha do mundo tem 117 anos, ou seja, nasceu em 1899.  Em 2133 (outros 117 anos à frente), provavelmente todos os humanos de hoje já estarão mortos. E que mundo a nossa geração deixará para os humanos do futuro que deverão viver o Plano do Amor Divino no planeta terra?

É certo que a nossa fé aponta o fim dos tempos, mas o final deverá ser por iniciativa divina e não provocado pelo pecado humano que, na busca do lucro fácil,  detona a natureza e explora os mais fracos e pobres.

Concluindo, ao celebrar a Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, temos que viver a nossa fé a partir da cristificação do universo. Fazer com que as pessoas vivam a fé desencarnada, alienadas dos problemas sociais e ambientais, é percorrer o caminho contrário da Salvação. Jesus é o caminho, a verdade e a vida. É seguindo os seus passos que chegamos à vida eterna. Portanto, é preciso que cada cristão se insira de fato em sua realidade sócio, política, econômica e ecológica (bioma).

Lembre-se que ao encarnar-se na história humana, ( que envolve as realidades religiosas, sociais, políticas e ecológicas) Jesus também se tornou um terráqueo. Propôs a vida fraterna vivida em todos os biomas. Por isso enviou seus discípulos a anunciar a Boa Nova a todo mundo, em todos os lugares. E disse mais:que seus seguidores lutem para que todos tenham vida, e vida em abundância. Para que a vida em abundância seja real para todos, é preciso atmosfera sem poluição, rede de esgoto, banheiros, água tratada, etc. E que as demais espécies que dividem conosco o planeta terra também sejam respeitados.

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CF 2017 letra das quatro músicas inéditas, específicas do TEMA BIOMAS e oração oficial

Dia primeiro de março – quarta feira de cinzas – inicia a quaresma

Dia cinco de março  é o primeiro domingo da quaresma

FAIXA 1- HINO DA CF 2017

1- Louvado seja, ó Senhor, pela mãe terra, que nos acolhe, nos alegra e dá o pão. Queremos ser os teus parceiros na tarefa de cultivar o bem guardar a criação.

REFRÃO – Da Amazônia até os Pampas, do Cerrado aos Manguezais, chegue a ti o nosso canto pela vida e pela paz

2- Vendo a riqueza dos biomas que criaste, feliz disseste: tudo é belo, tudo é bom! E prá cuidar a tua obra nos chamaste a preservar e cultivar tão grande dom

3- Por toda a costa do país espalhas vid. São muitos rostos – da Caatinga ao Pantanal -‘ negros e índios, camponeses gente linda, lutando juntos por um mundo mais igual

4- Senhor, agora nos conduzes ao deserto e então nos falas com carinho ao coração prá nos mostrar que somos tão diversos, mas um só Deus nos faz pulsar o coração

5- Se contemplamos essa mãe com reverência, não com olhares de ganância ou ambição, o consumismo, o desperdício, a indiferença se tornam luta, compromisso e proteção

6-  Que entre nós cresça uma nova ecologia onde a pessoa, a natureza, a vida enfim possam cantar na mais perdeita sinfonia ao Criador que faz da terra o seu jardim

 

FAIXA 02 – EM NOSSA CASA FRATERNIDADE

  1. Das matas, do cerrado, da caatinga ao pantanal, dos pampas, da Amazônia e de todo o manguezal, um grito de lamento sobe ao céu, ao Criador: “o guardião da casa aqui virou depredador”

REFRÃO: Em nossa casa, fraternidade! Senhor, pedimos pela nossa conversão. Seja no campo ou na cidade, vamos guardar e cultivar a criação.

  1. Deus fez o universo e viu que tudo era bom, nenhum sinal de morte, de maldade ou servidão. E cheio de ternura, o Espírito soprou. O ser humano livre à sua imagem Deus criou.
  1. Ao longo da história o paraíso perdeu, optamos, gananciosos, por só ver o próprio “eu”. Das trevas do egoísmo, Cristo vem nos libertar. Na construção do Reino, Deus conosco quer contar.
  1. Jesus lá no deserto venceu toda tentação. O mal veio até Ele com destreza e sedução. Os dons que recebemos, o saber, a fé, o amor nos sirvam prá crescer e renunciar o mal que for.
  1. A Igreja servidora, sendo “luz e sal”, pregando a Boa Nova, a Ecologia Integral. No horizonte, o sonho de uma Nova Terra traz a esperança de uma Casa- Bioma da paz!

 

FAIXA 3- EU ORDENEI OS CÉUS E A TERRA

  1. Eu ordenei os céus e a terra em meio às águas. Formei a luz com a diversidade astral. Enchi de seres vivos ares, terra e águas os confiei à minha obra principal.

REFRÃO: Eis que te fiz à minha imagem e semelhança e confiei em tuas mãos a criação pra cultivares, guardares com consciência, não prá deixares sem sustento o teu irmão.

  1. Moldei prá ti um paraíso verde e puro, com rios, matas, lagos, campos, pantanais, caatingas, mangues, pampas, brejos e cerrados e povoei com toda espécie de animais.
  1. A terra geme e sofre as dores de um parto, os ares sofrem com tamanha poluição. A água luta prá chegar ao seu destino. O que tens feito em defesa do irmão?
  1. Eu quero o verde entoando salmos pela vida, sem fumaça de queimadas pelo ar, cantarolando, a água seiga o seu curso, gerando vida pela terra onde passar.
  1. Quando enfim a criação em grande festa, agradecida, o seu louvor me entoar não mais clamores, mas louvores, ó meu povo, quero ouvir brados de alegria, sem cessar.
  1. Então verei a humanidade redimida, nações e raças, povos, credos, um só louvor. Nas diferenças, tolerantes, convivendo. Não é utopia e nem sonho, é meu amor!

FAIXA 4 – E DEUS VIU QUE ERA BOM

  1. No princípio, nosso Deus criou o mundo: Terra e Céus, diversidade em dom fecundo (cf. Gn 1,1). Qual jardim numa perfeita harmonia (cf. Gn 2,8) foi moldado com feliz Sabedoria (cf. Sl 103,24)

REFRÃO: E Deus viu que era bom, e Deus viu que era bom (cf. Gn 1). Tudo quanto Ele criou é bom (cf. Gn 1,31). E nos chamou a cultivar e bem guardar a criação (Cf. Gn 2,15) os biomas defender e preservar: Fazer fraternidade neste chão.

  1. Amazônia, santuário deste mundo, machucada em seu seio tão fecundo. Mata Atlântica com tal diversidade, dizimada, empobrece a humanidade.
  1. Coração deste país Grande Cerrado, pelo fogo a pecuária degradado. A caatinga devastada e insustentável faz da terra um deserto inabitável
  1. Pelos Pampas onde a vida já receia: Tantos seres reduzidos a areia. Desta terra, nosso Édem – Pantanal. Maltratado por ganância sem igual.
  1. Povos todos com seus sonhos e culturas, tenham olhos para as gerações futuras: “Novos céus e nova terra” se apresentem, na esperança de atirudes que se assentem.
  1. Bendigamos ao Senhor, autor do mundo, que confere à criação amor profundo. Toda a terra, com os céus, cante também (cf. Sl 66,4) e que a vida cante claro o nosso Amém!

 

ORAÇÃO OFICIAL DA CF  2017

Deus, nosso Pai e Senhor, nós vos louvamos e bendizemos, por vossa infinita bondade

Criastes o universo com sabedoria e o entregastes em nossas frágeis mãos

para que dele cuidemos com carinho e amor

Ajudai-nos a ser responsáveis e zelosos pela Casa Comum

Cresça em nosso imenso Brasil

o desejo e o empenho de cuidar mais e mais da vida das pessoas

e da beleza e riqueza da criação

alimentando o sonho do novo céu e da nova terra que prometestes. Amém!

 

 

 

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AMORIS LAETITIA: CASAIS EM SEGUNDA UNIÃO: situação pastoral antes e a partir da Carta Pós-Sinodal do Papa Francisco

AMORIS LAETITIA: CASAIS EM SEGUNDA UNIÃO: situação pastoral antes e a partir da Carta Pós-Sinodal do Papa Francisco

ACOLHIMENTO AO CASAL EM SEGUNDA UNIÃO Antes e a partir da Carta Pós-Sinodal AMORIS LÆTITIA

“ É mesquinho deter-se a considerar se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano.” (AL n.304)

SACRAMENTO DA PENITÊNCIA – reflexões preliminares

O sacramento da penitência aplica a graça divina à pessoa ferida pelo pecado. Por is-so este sacramento é o ambiente do “Primado da graça”. Afirmar o sacramento da penitência como Primado da Graça, é o mesmo que como dizer o primado da misericórdia . O ministro autorizado a ministrar este sacramento deve dar atenção primária às pessoas, na singularidade de suas histórias, do caminho de vida de cada um, com suas feridas e suas misérias, para as quais se dirigem os olhos de Deus. São olhos de misericórdia, que não se fixam em primeiro lugar na lei, para justificar ou culpar, mas na pessoa, para curar e sanar .
É este o ponto de partida da Exortação Apostólica Pós-Sinodal AMORIS LÆTITIA do Santo Papa Francisco, explicitado de forma clara no parágrafo 305 e complementado na nota de rodapé número 351

SEGUNDA UNIÃO: os desafios pastorais

A Carta Pós-Sinodal AMORIS LÆTITIA não traz novidade ao tratar da misericórdia da Igreja aos casais em segunda união. Este é um tema recorrente na Igreja há muitos anos. Importante destacar que quando se fala do acesso à Penitência e à Eucaristia pelos recasa-dos, não se discute a indissolubilidade do sacramento do matrimônio. O que AMORIS LÆTITIA faz é olhar com carinho as duas discussões: indissolubilidade do matrimônio (indiscutível) e a misericórdia da Igreja diante daqueles que não puderem manter esta indissolubilidade. Diz o Papa Francisco: “Por isso, um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações « irregulares », como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas. É o caso dos corações fechados, que muitas vezes se escondem até por detrás dos ensinamentos da Igreja « para se sentar na cátedra de Moi-sés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos difíceis e as famílias feridas”.(AL 305) .
Não há no texto de AMORIS LÆTITIA, e em nenhum momento da história da Igreja, uma aceitação geral à comunhão pelos recasados. O que é dito é que o ministro do sacra-mento da penitência dê atenção primária às pessoas que os procuram, na singularidade de suas histórias, do caminho de vida de cada um, com suas feridas e suas misérias diante do matrimônio falido, para as quais também se dirigem os olhos de Deus . Como veremos adi-ante, há um caminho a ser percorrido, como também um questionário a ser efetivado para aqueles que, em situação irregular, buscam o sacramento da penitência.
A discussão sobre a acolhida aos recasados não é nova. Há ainda quem torne a participação dos divorciados recasados ainda mais restrita . O que AMORIS LÆTITIA faz é trazer uma nova luz: a passagem da moral da lei à moral da pessoa. Esta é uma reflexão de fundamental importância, uma das coisas mais importantes deste Sínodo. A questão, em resumo, não é apenas de questões individuais, mas, primeiro, de enfoque da teologia moral.

A ACOLHIDA AOS RECASADOS NO DECURSO DA HISTÓRIA

Esta discussão já havia sido trazida à tona durante o Pontificado de Paulo VI, pela Sacra Congregação para a Doutrina da Fé. Na carta “Haec Sacra Congregatio” de 11 de abril de 1973, que trata sobre a indissolubilidade do matrimônio, no parágrafo final se lê: “Em relação à admissão aos sacramentos, os ordinários do lugar queiram, por um lado, convidar à observância da disciplina vigente na Igreja, e, por outro, fazer com que os pastores das almas tenham uma particular preocupação com aqueles que vivam em uma união irregular, aplicando na solução de tais casos, além de outros meios justos, a aprovada práxis da Igreja em foro interno”.
A Exortação Apostólica Familiaris Consortio, de sua Santidade João Paulo II, no pará-grafo 84, afirma: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforça-ram por salvar o primeiro matrimônio e foram injustamente abandonados e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimônio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimônio irreparavelmente destruído nunca tinha sido válido. Juntamente com o Sínodo exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, promovendo com caridade solícita que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, participar na sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança”.
Nesta sua exortação apostólica, São João Paulo II afirma: “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divor-ciados que contraíram nova união” Esta norma geral tinha em vista não preservar a profana-ção Eucarística, (uma vez que, como afirma a Familiaris Consortio: eles (os recasados) não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, parti-cipar na sua vida), mas sim, através desta rígida postura disciplinar, não incentivar a relativi-zação do valor da indissolubilidade matrimonial.

AMORIS LAETITIA CONTRADIZ FAMILIARIS CONSORTIO?

Os ensinamentos da Igreja não podem anular os anteriores, pois isso seria colocar em dúvida a infalibilidade do magistério. O que se pode entender é o caráter cumulativo do ensinamento da Igreja. Questões doutrinais não são discutíveis, que é o caso da indissolubilidade matrimonial. O que o Papa Francisco traz à tona no texto de Amoris Laetitia é uma questão disciplinar sem grave importância, por isso a coloca numa singela nota de rodapé.
Em todos os tempos e em qualquer época, o que a Igreja sempre advogou é a verdade expressa pelo Senhor Jesus: “O que Deus uniu o homem não separe”. (Mc 10,9; cf. Mt 5,32; 19,9; Lc 16,18). Esta verdade era um dado que repercutia positivamente nas sociedades marcadas pelo anúncio da Boa Nova de Jesus. Contudo, a partir da dos anos 60 do século passado, muitas sociedades, inclusive a brasileira adotaram o divórcio que, conforme palavras da Familiaris Consortio é uma praga que se alastra nas sociedades. Se antes não havia o vasto desafio dos recasados, hoje o número de famílias em tais situações é alarmante. Conforme já foi dito, desde o Pontificado de Paulo VI a questão do acolhimento dos divorcia-dos em segunda núpcias pelos sacerdotes deve ser feito com critérios que possam distinguir caso a caso.
Dom Damasceno, arcebispo de Aparecida, diz que Amoris Laetitia não provocou mu-dança doutrinal e informa que durante o sínodo, foram apresentadas sugestões sobre como tratar o assunto . De acordo com ele, muitos casais procuram o tribunal eclesiástico para decretar nulo o primeiro matrimônio, processo que deve ser simplificado, sem que se perca a sua rigidez analítica.
Outra possibilidade apresentada é adotar a prática das igrejas orientais que, segundo dom Damasceno, admitem a comunhão de casais em segunda união após um processo de acompanhamento, conversão e análise da situação deles ao longo da vida matrimonial . “Mas não são normas gerais, há normas a serem aplicadas caso a caso”, ressaltou Dom Damasceno.

REFLEXÕES ESPECÍFICAS SOBRE A ACOLHIDA AOS RECASADOS

A questão da acolhida dos sacerdotes aos recasados que procuram o sacramento da penitência não é recente. Vários bispos e teólogos trataram do tema e apresentaram itinerários de acolhida.
O Cardeal W. Kasper (Cf. W. Kasper. Il vangelo della famiglia, Brescia: Queriniana, p. 50) diz que no que concerne à postura favorável ao acesso à comunhão, a proposta é avan-çada em circunstâncias bem precisas e o acesso não é oferecido de forma generalizada, mas somente após um caminho penitencial. Não é evidente evocar uma “prática ortodoxa” como inspiração, pois, como o demonstra E. Schockenhoff, teólogo favorável ao acesso à comunhão pelos recasados, a prática não é uniforme e levanta alguns questionamentos sobre a forma de penitência oferecida (cf. La Chiesa e i divorziati risposati. Questioni aperte. Brescia: Queriniana, 2014).
Segundo Schockenhoff, um divorciado em segunda união poderia receber o sacra-mento da Penitência e da Eucaristia, seguindo estas etapas:
1) Se se arrepende do seu fracasso no primeiro matrimônio;
2) Se esclareceu as obriga-ções do primeiro matrimônio e se definitivamente excluiu que volte atrás;
3) Se não pode abandonar sem outras culpas os compromissos assumidos com o novo matrimônio civil;
4) Se, porém, se esforça para viver no melhor das suas possibilidades o segundo matrimônio a partir da fé e para educar os próprios filhos na fé;
5) Se tem o desejo dos sacramentos como fonte de força na sua situação.

Não resta dúvida de que os sacerdotes que assumem esta postura de acolhida deve-rão realizar um grande esforço na estruturação da Pastoral Familiar que permita esclarecer a indissolubilidade do sacramento do matrimônio. Ao mesmo tempo, evangelizar a comunidade para a acolhida integral dos recasados que se inserem nas condições que os reintegram ao acesso à Penitência e Eucaristia . Igual importância deve se dar ao acompanhamento dos casais em conflito a fim de se evitar tratar somente o problema sem antes buscar preveni-lo.

A exortação apostólica Familiaris Consortio, de são João Paulo II, continha uma regra canônica proibindo os casais em segunda união de receberem o sacramento da eucaristia: “A Igreja, contudo, reafirma sua práxis, fundada na sagrada escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união.” (n.º 84d). O mesmo não ocorre com a exortação apostólica do papa Francisco, Amoris Laetitia, que, desde 8/4/2016 (data de sua publicação), passou a fornecer os critérios principais para o tratamento dos divorciados recasados, entre outros assuntos.
Reportando-se a um princípio da teologia moral, o santo padre afirma na Amoris Laetitia: “A Igreja possui uma sólida reflexão sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes. Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada irregular vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante” (AL n. 301). Traça-se, também, uma distinção, já conhecida da teologia moral, entre pecado objetivo e pecado subjetivo: “Por causa dos condicionalismos e dos fatores atenuantes, é possível que uma pessoa, no meio de uma situação objetiva de pecado – mas subjetivamente não seja culpável ou não o seja plenamente – ,possa viver na graça de Deus (…)” (AL n.305).
Na verdade, mesmo sob a égide da Familiaris Consortio, malgrado a norma proibitiva transcrita acima, havia situações em que o penitente, no foro do sacramento da reconciliação, diante do confessor e, por conseguinte, diante de Deus, era autorizado a se aproximar do altar do Senhor.
Numa nota de rodapé do n.º 305 da exortação (Capítulo VIII da Amoris Laetitia), Francisco diz categoricamente: “Em certos casos, poderia também haver a ajuda dos sacramentos. Por isso, aos sacerdotes lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor. E de igual modo assinalo que a eucaristia não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. ”
Por fim, dever-se-iam reter na memória estas significativas palavras do atual bispo de Roma, reproduzidas na Amoris Laetitia: “ É mesquinho deter-se a considerar se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano.” (AL n.304).

fonte: https://pt.zenit.org/articles/os-casais-em-segunda-uniao-e-o-acesso-ao-sacramento-da-eucaristia-segundo-a-amoris-laetitia/

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Biomas brasileiros CF 2017 texto base / Gênesis 2,15 /

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2017

Resumo para estudo

Tema – Fraternidade: Biomas Brasileiros e defesa da vida

Lema – Cultivar e guardar a criação (Gênesis 2,15)

OBJETIVOI GERAL DA CF 2017: Cuidar da criação de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos à luz do Evangelho.

ORAÇÃO OFICIAL DA CF  2017

Deus, nosso Pai e Senhor, nós vos louvamos e bendizemos, por vossa infinita bondade

Criastes o universo com sabedoria e o entregastes em nossas frágeis mãos

para que dele cuidemos com carinho e amor

Ajudai-nos a ser responsáveis e zelosos pela Casa Comum

Cresça em nosso imenso Brasil

o desejo e o empenho de cuidar mais e mais da vida das pessoas

e da beleza e riqueza da criação

alimentando o sonho do novo céu e da nova terra que prometestes. Amém!

HINO OFICIAL DA CF 2017 –

letra Pe. José Antônio de Oliveira

música: Wanderson Luis Freitas da Silva

REFRÃO – Da Amazônia até os Pampas, do Cerrado aos Manguezais, chegue a ti o nosso canto pela vida e pela paz

1- Louvado seja, ó Senhor, pela mãe terra, que nos acolhe, nos alegra e dá o pão. Queremos ser os teus parceiros na tarefa de cultivar o bem guardar a criação.

2- Vendo a riqueza dos biomas que criaste, feliz disseste: tudo é belo, tudo é bom! E prá cuidar a tua obra nos chamaste a preservar e cultivar tão grande dom

3- Por toda a costa do país espalhas vid. São muitos rostos – da Caatinga ao Pantanal -‘ negros e índios, camponeses gente linda, lutando juntos por um mundo mais igual

4- Senhor, agora nos conduzes ao deserto e então nos falas com carinho ao coração prá nos mostrar que somos tão diversos, mas um só Deus nos faz pulsar o coração

5- Se contemplamos essa mãe com reverência, não com olhares de ganância ou ambição, o consumismo, o desperdício, a indiferença se tornam luta, compromisso e proteção

6-  Que entre nós cresça uma nova ecologia onde a pessoa, a natureza, a vida enfim possam cantar na mais perfeita sinfonia ao Criador que faz da terra o seu jardim

LEITURA RÁPIDA TEXTO BASE CF 2017

INTRODUÇÃO

Biomas são conjuntos de ecossistemas com características semelhantes dispostos em uma mesma região e que historicamente foram influenciados pelos mesmos processos de formação. No Brasil temos 06 biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Nesses biomas vivem pessoas, povos, resultantes da imensa miscigenação brasileira.

Os biomas brasileiros sofrem interferências negativas desde a chegada dos primeiros colonizadores ao Brasil, logo após Pero Vaz de Caminha ter escrito para o rei de Portugal afirmando que as “águas são muitas, infinitas. Em tal maneira graciosa (a terra) que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem”.

Os colonizadores começaram a extração do pau-brasil usando, no início, a mão de obra escrava de indígenas e mais tarde dos africanos. Hoje, após mais de 500 anos daquela carta, o que restou da beleza natural descrita por Pero Vaz de Caminha?

A Igreja Católica há algum tempo, tem sido voz profética a respeito da questão ecológica. Neste início do terceiro milênio, ter uma população de mais de 200 milhões de brasileiros, sendo mais de 160 milhões vivendo em cidades gera sérias preocupações. O impacto dessa concentração populacional sobre o meio ambiente produz problemas que põem em risco as riquezas dos biomas brasileiros.

À luz da fé, nos interrogaremos nas reflexões desta Campanha da Fraternidade de 2017 sobre o significado dos desafios apresentados pela situação atual dos biomas e dos povos que neles vivem. E abordaremos as principais iniciativas já existentes para a manutenção de nossa riqueza natural básica. Apontaremos propostas sobre o que podemos e devemos fazer em respeito à criação que Deus nos deu para cultivá-la e guardá-la.

CAPÍTULO I – VER – OS BIOMAS BRASILEIROS

Bioma Amazônia: Localização

A Amazônia, maior bioma do Brasil, ocupa 61% do território nacional – formado pelos estados da região norte: Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima, Rondônia e Tocantins. A Lei n. 1806 de 1953 inseriu neste bioma os estados do Mato Grosso e Maranhão, criando a Amazônia Legal.

CARACTERÍSTICAS NATURAIS BIODIVERSIDADE

O bioma Amazônia é marcado pela maior hidrográfica de água doce do mundo, a bacia amazônica. Seu principal rio, o Amazonas, lança no Oceano Atlântico cerca de 175 milhões de litros d´água a cada segundo, levando nas águas materiais orgânicos e sedimentos que geram no oceano biodiversidade marinha, colaborando para a temperatura do planeta. Também há o rio aéreo (evapotranspiração) que leva água em forma de vapor pela região Centro-Oeste, Sul, Sudeste do Brasil.

A vegetação característica do bioma Amazônia é de árvores altas. Nas planícies que acompanham o Rio Amazonas e seus afluentes, encontram-se as matas de várzeas (periodicamente inundadas) e as matas de igapó (permanentemente inundadas). Estima-se que esse bioma abrigue mais da metade de todas as espécies vivas do Brasil.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE/2016) houve redução no processo de desmatamento da Amazônia, contudo, ainda continua e são mais de 700.000 quilômetros quadrados de desmatamento que continua a crescer. Nesta região vivem aproximadamente 24 milhões de pessoas, sendo que 80% delas nas áreas urbanas, sem saneamento básico e outras mazelas.

SOCIODIVERSIDADE DO BIOMA AMAZÔNIA

=       Há décadas os conflitos pelo território deste bioma geram mortes. Os conflitos e a violência contra os trabalhadores do campo se concentram de forma expressiva na Amazônia, para onde avança o capital tanto nacional como internacional. O manejo florestal passou a ser uma atividade na qual foram inúmeras as denúncias de trabalho escravo.

A expropriação privada de grandes áreas de terra continua sendo a principal causa de desmatamento. A pecuária é a principal atividade implantada nas áreas recentemente desmatadas. A construção de grandes hidrelétricas e atividades de mineração são responsáveis por boa parte dos danos ambientais e sociais nas comunidades.

CONTEXTUALIZAÇÃO POLÍTICA

O problema fundamental da Amazônia é o modelo de desenvolvimento adotado para a região. A disputa pelas riquezas faz com que a legislação flutue conforme os interesses das corporações econômicas que atuam na região.

A concentração urbana indica que a vida na floresta muitas vezes é inviabilizada para as populações originárias e tradicionais. Todas as lutas indígenas, de ribeirinhos, de quilombolas é sempre um passo a cada dia para manter seus territórios. Porém, mesmo contra a corrente do modelo, é graças a essas populações que ainda temos grande parte da floresta em pé.

CONTRIBUIÇÃO ECLESIAL

A Igreja Católica na Amazônia Legal vive e cresce no enraizamento na sabedoria tradicional e na piedade popular que durante séculos mantém viva a fé e a espiritualidade do povo da floresta. Diversos leigos, sacerdotes, religiosos (as) derramaram seu sangue em nome da dimensão sociotransformadora da fé, cuja defesa dessas populações e do meio ambiente foram seu principal esforço.

BIOMA CAATINGA: LOCALIZAÇÃO

A Caatinga, cujo nome é de origem indígena e significa “mata clara e aberta”, encontra-se envolvida pelo clima semiárido entre a estreita faixa da Mata Atlântica e o Cerrado.  É um bioma exclusivamente brasileiro, que abrange territórios de 8 estados do Nordeste e o Norte de Minas Gerais, onde vivem 27 milhões de pessoas.

CARACTERÍSTICAS NATURAIS – Biodiversidade

A Caatinga apresenta uma grande riqueza de ambientes e espécies, que não é encontrada em nenhum outro bioma. A seca, a luminosidade e o calor característicos de áreas tropicais resultam numa vegetação de savana estépica, espinhosa e decidual (quando as folhas caem em determinada época). Há também áreas serranas, brejos e outros tipos de bolsão climático mais ameno.

Esse bioma está sujeito a dois períodos secos anuais: um de longo período de estiagem, seguido de chuvas intermitentes e um de seca curta seguido de chuvas torrenciais (que podem faltar durante anos). Dos ecossistemas originais da caatinga, 80% foram alterados, em especial por causa de desmatamentos e queimadas.

Com 70% do seu subsolo formado por rochas cristalinas, o bioma Caatinga tem poucas nascentes e rios perenes, portanto, poucos aquíferos. Com o que diz respeito à fauna, o bioma Caatinga abriga 178 espécies de mamíferos, 591 tipos de aves, 177 tipos de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 classes de peixes e 221 espécies de abelhas.

OS POVOS ORIGINÁRIOS E A CULTURA – sociodiversidade

Aproximadamente 40% da população do Bioma Caatinga ainda está no meio rural, sendo considerada a região mais ruralizada do Brasil. Entretanto, a ampliação dos centros urbanos médios e pequenos na Caatinga crescem, como em todas as regiões do Brasil e padecem dos mesmos problemas de saneamento, violência e outros males dos centros urbanos brasileiros.

A BELEZA, AS FRAGILIDADES E OS DESAFIOS DO BIOMA CAATINGA

A caatinga, por ser uma vegetação geralmente baixa, favorece a apicultura. É também  a vegetação baixa o melhor alimento para a criação de animais de pequeno e médio porte como cabras, ovelhas e outros adaptados ao clima semiárido.

Este bioma tem sido agredido pelas queimadas e pelo desmatamento para plantio de culturas que raramente se adaptam adequadamente como o caso do ciclo do algodão. Outras causas do desmatamento são o gado bovino solto nas caatingas e a geração de madeira para a indústria de gesso e para as carvoarias. O desmatamento gera a desertificação provocada pela economia irresponsável e predadora.

CONTEXTUALIZAÇÃO POLÍTICA

A partir da década de 90 do século passado foi abandonada a ideia de lutar contra a seca – característica do bioma caatinga – e passou-se a difundir a ideia de aprender a conviver com o semiárido. Esta mudança de ideia promoveu a captação da água da chuva para beber, da defesa dos territórios das comunidades tradicionais e indígenas, valorização da cultura local, dos saberes dos povos caatingueiros, do aproveitamento da energia solar, dos ventos e outros potenciais da região. Também se expandiu a rede de infraestrutura social, como energia elétrica, adutoras, telefonia, internet, etc. Contudo, há ainda a debilitada infraestrutura da saúde, violência no campo e a presença das drogas nas cidades interioranas. A insegurança no campo tem provocado a migração para as áreas urbanas. 

CONTRIBUIÇÃO ECLESIAL

As festas de São João, rodas de São Gonçalo, celebrações da Quaresma e Semana Santa são marcas da religiosidade popular da caatinga. Padre Ibiapina, um cearense, aproveitou-se desta religiosidade popular para implantar várias resoluções dos problemas do povo. Ainda no século XIX ele concretizou a captação da água das chuvas nas cisternas nas casas da Caridade, onde se acolhiam enfermos, mulheres grávidas e viajantes.

Seguiram os passos do religioso cearense o padre Cícero e muitos de seus discípulos que souberam acolher o povo liberto da escravidão e remanescentes indígenas, fundando comunidades como Caldeirão no Crato (CE) e Canudos (BA).

Atualmente se observa que a vida de fé das comunidades cristãs neste bioma é marcada pela piedade popular, que se caracteriza pela devoção e pelas romarias nos expressivos santuários da região, como Bom Jesus da Lapa (BA), Santuário Frei Damião (PB), Santuário de São Francisco, em Canindé (CE), etc. Não podemos deixar de citar que experiências da ação evangelizadora como a Campanha da Fraternidade e CEBs, surgiram na região Nordeste.

BIOMA Cerrado: LOCALIZAÇÃO

O Cerrado tem duas estações climáticas bem definidas: chuvosa e seca. O solo, de composição arenosa, é considerado o bioma brasileiro mais antigo. Sua vegetação é encontrada na região Centro-Oeste e também na região oeste de Minas Gerais e das regiões sul do Maranhão e do Piauí. Nesta área vivem 22 milhões de pessoas.

CARACTERÍSTICAS DO CERRADO

É no Cerrado que está a nascente das três maiores bacias da América do Sul (Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata), o que resulta em elevado potencial aquífero e grande biodiversidade. Esse bioma abriga mais de 6,5 mil espécies de plantas já catalogadas.

No Cerrado predominam formações da savana e clima tropical quente subúmido, com uma estação seca e uma chuvosa e temperatura média anual entre 22°C e 27°C.

Além dos planaltos, com extensas chapadas, existem nessas regiões florestas de galeria, conhecidas como mata ciliar e mata ribeirinha, ao longo do curso d’água e com folhagem persistente durante todo o ano; e a vereda, em vales encharcados e que é composta de agrupamentos da palmeira buriti sobre uma camada de gramíneas (estas são constituídas por plantas de diversas espécies, como gramas e bambus).

CERRADO – Caixa d´água do Brasil

Embora o Cerrado não produza água, ele acumula as águas das chuvas em seu subsolo poroso, principalmente as vindas dos “rios aéreos” amazônicos. Assim, os biomas Amazônico e Cerrado se unem perfeitamente para a produção e distribuição da água para o Brasil.

BIODIVERSIDADE

O conjunto de todos os seres vivos do bioma Cerrado representa 5% da fauna mundial. A alta diversidade de ambientes se reflete em uma elevada riqueza de espécies vegetais (23.000) e animais (320.000), sendo que 90.000 são de insetos. Entretanto há que se alertar que das 427 espécies listadas em risco de extinção, 132 estão no Cerrado.

OS POVOS ORIGINÁRIOS E A CULTURA – sociodiversidade

Os indígenas, primeiros habitantes do Cerrado, junto com os camponeses, constituem os grupos importantes no Cerrado. Denomina-se camponês aquele agricultor que possui autoidentidade reconhecida como povos e comunidades tradicionais. São eles os guardiões do patrimônio ecológico e cultural deste bioma.

BELEZA, FRAGILIDADES E DESAFIOS DO BIOMA CERRADO

É o bioma Cerrado que abastece a bacia do Rio São Francisco. Um bioma tão antigo mostra-se frágil em sua capacidade de resistência e regeneração. A mão humana pode extinguir rapidamente um dos biomas mais antigos da face da terra.

REALIDADE POLÍTICA E OS DESAFIOS DO CERRADO

Com o pretexto da defesa e preservação da Amazônia, avança sobre o Cerrado a ocupação desordenada em vista da exploração econômica, com a destruição da biodiversidade e ameaça à vida e à cultura dos povos originários e comunidades tradicionais. Amparados por decisões governamentais de caráter duvidoso, o agronegócio avança sobre o bioma cerrado, principalmente para exploração do solo e aproveitamento desordenado das águas no subsolo. O agronegócio produz amplo desmatamento, sequestram a terra dos povos e comunidades tradicionais, modificam a química do solo, além de alterar o regime das águas, trazendo grande prejuízo a todo o território brasileiro. O que é preocupante é que o Cerrado, uma vez destruído, não se reconstitui.

O cerrado é o ecossistema brasileiro que mais sofreu alteração com a ocupação humana. A atividade garimpeira, por exemplo, intensa na região, contaminou os rios de mercúrio e contribuiu para seu assoreamento. A mineração favoreceu o desgaste e a erosão dos solos. Nos últimos 30 anos, a pecuária extensiva, as monoculturas e a abertura de estradas destruíram boa parte do cerrado. Hoje, menos de 2% está protegido em parques ou reservas.

CONTRIBUIÇÃO ECLESIAL

A Igreja Católica está empenhada na aprovação da Proposta de Emenda Constitucional –PEC 115/150 -, que inclui o Cerrado e a Caatinga como Patrimônios Nacionais. Também produz material popular para ativar a consciência da preservação ambiental junto às comunidades.

BIOMA MATA ATLÂNTICA 

A Mata Atlântica abrangia  uma área equivalente a 1.315.460 quilômetros quadrados e estendia-se originalmente por 17 estados. Hoje restam 8,5% de remanescentes florestais. Atualmente, somados todos os fragmentos de floresta acima de 3 hectares, temos 12,5% da sua área original.

Desde o descobrimento do Brasil a Mata Atlântica vem sendo destruída. O pau-brasil, característico dela, foi o principal alvo da extração e exploração daqueles que colonizavam o Brasil.

Os relatos antigos falam de uma floresta aparentemente intocada, apesar de habitada por vários povos indígenas. Hoje a concentração urbana neste bioma abriga a maioria das capitais litorâneas e regiões metropolitanas. Nestas regiões o saneamento básico ainda é um sonho para muitos.

CARACTERÍSTICAS NATURIAS – biodiversidade

Seu principal tipo de vegetação é a floresta normalmente composta por árvores altas e relacionada a um clima quente e úmido. A Mata Atlântica já foi um dos mais ricos e variados conjuntos florestais pluviais da América do Sul, mas atualmente é reconhecida como o bioma brasileiro mais descaracterizado. Isso porque os primeiros episódios de colonização no Brasil e os ciclos de desenvolvimento do país levaram o homem a ocupar e destruir parte desse espaço.

Vivem na Mata Atlântica mais de 220 mil espécies de plantas, sendo 8 mil endêmicas (que existe somente em uma determinada área ou região geográfica); 270 espécies conhecidas de mamíferos; 992 espécies de aves; 197 répteis; 372 anfíbios; 350 peixes.

A pressão sobre a Mata Atlântica é histórica e ao longo do tempo muda de aspecto e aumenta em intensidade. Começa com a extração do pau-brasil, passa por vários ciclos econômicos de cana de açucar, café, ouro, fumo. A devastação total da araucária ocorreu a partir do século XX com a intensa exploração da agricultura e agropecuária, assim como a expansão urbana desordenada.

OS POVOS ORIGINÁRIOS E A CULTURA – sociodiversidade

Originalmente, os povos Tamoio, Temininó, Tupiniquim, Caetés, Tabajara, Potiguar, Pataxó e Guarani ocupavam esse imenso território litorâneo. Foram eles os primeiros a sofrerem com a chegada dos colonizadores. Os brancos além de espelhar doenças, usaram os índios como escravos e soldados nas guerras.

Hoje, milhares de comunidades tradicionais pesqueiras dependem dos manguezais para sua reprodução física e cultural. Para as comunidades pesqueiras o manguezal não é apenas um lugar que se retira o sustento, mas é espécie de lugar sagrado. Há um rito de profundo respeito às águas, a lama, ao cheiro, a fauna e flora existentes nos manguezais de modo que se institui uma linguagem própria e uma cosmovisão específica da criação.

Entre as interferências no processo cultural do bioma Mata Atlântica estão as empresas nacionais e transnacionais. Elas investem na monocultura do eucalipto, o que provoca, em vários estados brasileiros, o “deserto verde”.

Outra situação preocupante  é que grande parte do que resta da Mata Atlântica está nas mãos de proprietários particulares, que precisam ser conscientizados sobre a necessidade da preservação do bioma Mata Atlântica.

A BELEZA, AS FRAGILIDADES

E OS DESAFIOS DO BIOMA MATA ATLÂNTICA

Das 633 espécies de animais ameaçados de extinção no Brasil, 383 ocorrem na Mata Atlântica. Junto a esta preocupação estão as grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Porto Alegre e outras que padecem de desmoronamentos e a falta de saneamento básico. A concentração populacional na área urbana leva à ocupação em áreas de risco, de mananciais e encostas de morros. Os serviços de tratamento de esgoto, resíduos sólidos ainda são muito precários o que aumenta a degradação do ambiente. O maior problema deste e de outros biomas são as consequências de um modelo econômico que para gerar riqueza tem que concentrar pessoas e destruir o ambiente no qual se insere.

CONTEXTUALIZAÇÃO POLÍTICA

A ganância capitalista, conivência do poder público e falta de consciência ecológica tem provocado a degradação do meio ambiente e a expulsão de diversas comunidades. A ausência do saneamento básico é outra grave ameaça. Grande parte dos esgotos das residências de áreas urbanas e rurais é despejada diretamente nos rios, no mar e nos mangues.

A falta do comprometimento político em relação ao uso e ao cuidado da água tem gerado consequências sentidas pela população nestes últimos anos com a baixa do espelho d´água em muitos reservatórios (represas) e consequente racionamento do líquido da vida.

CONTRIBUIÇÃO ECLESIAL

Com a chegada dos primeiros missionários jesuítas, Padre Manoel da Nóbrega, José de Anchieta e outros, deu-se início ao processo de aldeamento, a construção de conventos e colégios. Também outras ordens religiosas e congregações deram a sua contribuição: os franciscanos, beneditinos, carmelitas e outros.

Não podemos deixar de lembrar também das pastorais sociais, com atuação nos diversos seguimentos da sociedade, defendendo a vida, nas várias instâncias em que ela é ameaçada pelo modelo econômico em desenvolvimento.

BIOMA PANTANAL: LOCALIZAÇÃO

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o bioma Pantanal é considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta. O Pantanal é um bioma praticamente exclusivo do Brasil, pois apenas uma pequena faixa dele adentra outros países (o Paraguai e a Bolívia).

CARACTERÍSTICAS NATURAIS – biodiversidade

O BIOMA Pantanal é caracterizado por inundações de longa duração (devido ao solo pouco permeável) que ocorrem anualmente na planície, e provocam alterações no ambiente, na vida silvestre e no cotidiano das populações locais. A vegetação predominante é a savana. A cobertura vegetal original de áreas que circundam o Pantanal foi em grande parte substituída por lavouras e pastagens, num processo que já repercute na Planície do Pantanal.

Esse bioma é muito influenciado pelos regimes dos rios presentes nesses lugares, pois, durante o período chuvoso (outubro a abril), a água do pantanal alaga grande parte da planície da região. Quando o período chuvoso acaba, os rios diminuem o seu volume d’água e retornam para os seus leitos. Por essa razão, a vegetação e os animais precisam adequar-se a essa movimentação das águas. Todos esses fatores tornam a vegetação do pantanal muito diversificada, havendo exemplares higrófilos (adaptados à umidade), plantas típicas do Cerrado e da Amazônia e, nas áreas mais secas, espécies xerófilas. A fauna é constituída por várias espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis etc.

OS POVOS ORIGINÁRIOS E A CULTURA –  sociodiversidade

Quando chegaram os primeiros colonizadores, 1,5 milhões de indígenas habitavam a região. Hoje, esta população é muito pequena e grande parte dos indígenas remanescentes vive em cidades da região ou trabalham nas fazendas. Outra pequena parte reside numa área indígena do Pantanal. Hoje, a população no pantanal brasileiro é de aproximadamente 1.100.000 pessoas.

A BELEZA, AS FRAGILIDADES E OS DESAFIOS DO BIOMA PANTANAL

Durante a cheia, os rios, lagos e riachos ficam interligados por canais e lacunas ou desaparecem no mar de águas permitindo o deslocamento de espécies. Esse processo é um dos principais responsáveis pela constante renovação da vida e pelo fornecimento de nutrientes. Na época da seca formam-se então lagoas e corixos isolados, os quais retêm grandes quantidades de peixes e plantas aquáticas. Vale lembrar que o Pantanal é uma das áreas mais importantes para aves aquáticas e espécies migratórias, como abrigo, fonte de alimentação e reprodução.

A expansão desordenada e rápida da agropecuária, com a utilização de pesadas cargas de agroquímicos, a exploração de diamantes e de ouro nos planaltos, com a utilização intensiva de mercúrio, são responsáveis por profundas transformações regionais. A mineração ativa na região podem afetar os lençóis freáticos que abastecem os rios, córregos e poços, contaminando a água.

O tráfico, a caça e a venda de peles, couro ou artefatos provenientes de animais silvestres são práticas que, embora ilegais, ainda ocorrem. Várias espécies de animais já estiveram ameaçadas de extinção. As situações mais conhecidas nacional e internacionalmente são o jacaré do pantanal e a onça.

CONTEXTUALIZAÇÃO POLÍTICA

A falta de visão e políticas integradas para o Pantanal, que considerem as necessidades essenciais das populações locais resulta em ações isoladas e com pouca repercussão em sua totalidade. Além disso, as principais demandas sociais vão sendo postas em segundo plano.

CONTRIBUIÇÃO ECLESIAL

Para a Igreja Católica, o bioma Pantanal não representa somente um santuário ecológico onde se preservam espécies, mas sim um lugar onde o ser humano faz uma profunda experiência de Deus, da natureza e do outro.  Atuam na região com expressivo empenho o Conselho Indigenista Missionário, Cáritas, Pastoral da Criança, Pastoral da Saúde, Comunidades Eclesiais de Base, etc. Estas ações da Igreja na região do Pantanal dedicam especial atenção aos povos originários, ribeirinhos e pantaneiros.

BIOMA PAMPA: LOCALIZAÇÃO

O bioma pampa está presente, no Brasil, somente no Rio Grande do Sul, ocupando 63% do território do Estado. Ele constitui os pampas sul-americanos, que se estendem pelo Uruguai e pela Argentina e, internacionalmente, são classificados de Estepe. O pampa é marcado por clima chuvoso, sem período seco regular e com frentes polares e temperaturas negativas no inverno.

Esse bioma é bastante influenciado pelo clima subtropical e pela formação do relevo, que é constituído principalmente por planícies. Em virtude do clima frio e seco, a vegetação não consegue desenvolver-se, sendo constituída principalmente por gramíneas, como capim-barba-de-bode, capim-gordura, capim-mimoso etc.

Esse tipo de paisagem apresenta dois tipos bem definidos:

1-Campos Limpos – Ocorrem quando a vegetação não apresenta arbustos, ganhando uma paisagem mais homogênea, sem diferenças muito grandes entre uma parte e outra.

2-Campos sujos – Ocorrem quando há uma maior presença desses arbustos, que se misturam à paisagem.

CARACTERÍSTICAS NATURAIS – biodiversidade

A vegetação predominante do pampa é constituída de ervas e arbustos, recobrindo um relevo nivelado levemente ondulado. Formações florestais não são comuns nesse bioma e, quando ocorrem, são do tipo floresta ombrófila densa (árvores altas) e floresta estacional decidual (com árvores que perdem as folhas no período de seca).

As estimativas indicam valores em torno de três mil espécies de plantas. A fauna é expressiva, com quase 500 espécies de aves. Também ocorrem mais de 100 espécies de mamíferos. O vento é uma das características marcantes do cenário dos pampas.

A progressiva introdução e expansão das monoculturas e das pastagens com espécies exóticas têm levado a uma rápida degradação e descaracterização das paisagens naturais do bioma Pampa. Estimativas de perda de habitat dão conta de que em 2002 restavam 41,32% e em 2008 restavam apenas 36,03% da vegetação nativa do Bioma Pampa.

OS POVOS ORIGINÁRIOS E A CULTURA – sociodiversidade

Os primeiros europeus a ocupar o Rio Grande do Sul foram os jesuítas espanhóis vindos do Paraguai que fugindo dos bandeirantes paulistas se estabeleceram na parte noroeste do estado trazendo indígenas e gado bovino. Esse gado recém-chegado era criado solto. Não havia nenhum rigor ou cuidado especial já que muito bem adaptado o gado crescia livre alimentando-se de vastas pastagens.

No século XVIII os negros chegam ao Rio Grande do Sul, participando das lavouras de trigo, nas charqueadas e nas estâncias de criação, assim como a ocupação da região da campanha pelos portugueses devido ao tratado de Madri.

A partir do século XIX iniciou-se o cercamento dos campos, provocando importantes mudanças no modo de vida do gaúcho. Surgem as fazendas, o que muda as relações familiares. Também o caráter principal da subsistência cede lugar à fazenda com função comercial.

A mulher tem assumido seu papel na conservação do Pampa. Em épocas passadas elas eram responsáveis pelas lidas domésticas, alimentação da família e cuidado com os filhos. As mulheres dos peões além de trabalharem em suas casas também trabalhavam na casa dos patrões e muitas ainda na agricultura para autoconsumo.

Atualmente, muitas mulheres rurais nos Pampas são responsáveis e mantenedoras da economia doméstica, organizando-se em cooperativas, lidando com a pecuária de leite, artesanato, etc. Também muitas delas são conhecedoras das ervas medicinais e dos processos de curas naturais auxiliando na preservação dos recursos naturais.

A ovinocultura, tanto pelo uso da carne como da lã, ainda é a mais forte tradição da região Pampa, mas sua principal atividade continua sendo a criação do gado bovino. O chimarrão, o churrasco, a música de fronteira, são riquezas que permanecem mesmo em tempos da industria cultural.

A BELEZA, AS FRAGILIDADES E OS DESAFIOS DO BIOMA PAMPA

Esse bioma é bastante influenciado pelo clima subtropical e pela formação do relevo, que é constituído principalmente por planícies. Em virtude do clima frio e seco, a vegetação não consegue desenvolver-se, sendo constituída principalmente por gramíneas, como capim-barba-de-bode, capim-gordura, capim-mimoso etc. São exemplos de animais que vivem nesse bioma o veado, garça, lontras, capivaras e outros.

Entre os desafios e as fragilidades do bioma Pampa estão as iniciativas governamentais que contrariam a vocação natural da região para a pecuária e o turismo. Estas iniciativas incluem grandes plantios de pinus e eucaliptos que causam impactos ambientais, tais como: alteração dos recursos hídricos; interferência no regime dos ventos e de evaporação.

Outras preocupações que ameaçam o bioma Pampa são a ampliação da área de soja, trigo e arroz e a cultura da mamona para a elaboração de biocombustível. Há ainda a antiga e constante ameaça da mineração e queima de carvão mineral, o que aumenta a incidência e frequência de doenças pulmonares.

CONTEXTUALIZAÇÃO POLÍTICA

É no Pampa que existe a grande maioria dos latifúndios do Rio Grande do Sul que, além da criação de gado, apostam na monocultura de eucalipto, acácia e pinus. Estes monocultivos são denominados pelos Movimentos Sociais de “Deserto Verde”, exatamente porque são extremamente nocivos ao meio ambiente, prejudicando a fauna e a flora originais do Pampa.

É importante destacar que, apesar de ser região latifundiária, há muitas famílias de pequenos agricultores, indígenas, quilombolas.

CONTRIBUIÇÃO ECLESIAL

A Igreja está presente na região desde a primeira evangelização, mas com características muito próprias. Foi ali que os missionários jesuítas fundaram “As Missões dos Sete Povos”. Nos últimos anos, seja pela presença das Pastorais Sociais, das Semanas Sociais, das Campanhas da Fraternidade, das CEBs, muito se valoriza a agricultura familiar, os territórios das comunidades tradicionais e os remanescentes indígenas.

CAPÍTULO II – JULGAR

NA SAGRADA ESCRITURA

A Sagrada Escritura  não se preocupa diretamente com os biomas. Contudo, oferece elementos que iluminam a temática a partir do projeto de Deus nela apresentado. Tal projeto inicia-se pela criação e organização do mundo. E conhece uma ruptura por causa do pecado. Seu verdadeiro significado é revelado em Cristo Jesus. A reflexão que segue está dividida nesses três momentos buscando apresentar que o mundo e as criaturas fazem parte desse projeto de Deus.

HARMONIA ORIGINAL: o mundo criado 

A FÉ JUDAICO-CRISTÃ APONTA UM CAMINHO OBJETIVO: O MUNDO FOI CRIADO POR DEUS

A criação é apresentada em dois relatos. O primeiro apresenta a criação sendo realizada em sete dias (Gn 1,1-2,4a). Cada um dos seis primeiros dias tem em seu programa um elemento necessário para a continuidade da obra no outro dia (Gn 1,3-24). O sétimo dia tem como programa o descanso divino.  O segundo relato destaca Deus providenciando a chuva e para a fecundação da terra e só depois cria o homem e o coloca como guardião de toda obra criada.

A criação é obra prima das mãos de Deus (Salmo 8).  A acusação que a ordem de Deus “enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28) favoreceria a exploração selvagem da natureza se baseia em uma má compreensão do texto.  O Papa Francisco na encíclica Laudato SI explica que “cultivar” quer dizer proteger, cuidar, preservar, velar. Isso implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. A criação pertence a Deus  (Sl 24; Lv 25,23). O homem, que é imagem e semelhança de Deus, recebeu a vocação de cuidar e guardar com atenção dos seres que dela fazem parte.

A ALIANÇA ROMPIDA E O PECADO

As primeiras páginas do livro do Gênesis relatam também a triste realidade do pecado do homem (Gn 3,6). O ser humano provoca uma ruptura nas relações. A primeira relação a ser ferida é com Deus. As relações interpessoais também são afetadas (Gn 3,12-13). E a ruptura dos relacionamentos inclui o mundo criado (Gn 19; Ex 8-11; 2 Sm 24). O relato do pecado afirma como consequência da queda a hostilidade da terra ao homem (Gn 3,19).

Aos profetas caberá a missão de denunciar o pecado confrontado com o plano de Deus e também a insistência para o valor do arrependimento (Am 5,4;. Os 14; Jr 3,12; Is 55,7; 57,15; Ez 18,23). Os profetas têm consciência plena de que as relações serão restauradas (Is 2,4; Is 60,18-19): “o lobo, então, será hóspede do cordeiro, o leopardo vai se deitar ao lado do cabrito, o bezerro e o leãozinho pastam juntos, uma criança pequena toca os dois(…) O bebê vai brincar no buraco da cobra venenosa (Is 11,6-8).

TEMPOS MESSIÂNICOS: restauração de tudo em Cristo

Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, e todos recebermos a dignidade de filhos (Gl 4,4-5). A iniciativa é sempre de Deus, porque o homem em si é incapaz de se reconciliar com seu Criador por suas próprias forças(2 Cor 5,18; Rm 5,10; Mt 6,9-13; Jo 20,17).

Jesus, nas suas mensagens catequéticas utiliza de elementos da criação (Jo 4,10-14; Mt 5,45; Jo 15;; Mc 4,1-20). Assim, por meio da contemplação da natureza o ser humano é convidado por Jesus a compreender que sua vida está nas mãos de Deus (Mt 6,28-29). Somente buscando o Reino de Deus em primeiro lugar o homem pode libertar-se do incansável desejo de possuir (Mt 6,33-34).

A redenção da criação é apresentada em Apocalipse 21-22 através da imagem da Jerusalém celeste. Antes disso, o livro do Apocalipse apresenta o desequilíbrio gerado pelo pecado do homem em toda a criação: rios poluídos (Ap 8,8); queimadas (Ap 8,7); terremotos (Ap 16,18); doenças (Ap 9,4-5). Quando tudo parece perdido, Deus age e coloca fim no sofrimento, fazendo surgir um novo céu e uma nova terra (Ap 21,1). Jesus reconstrói toda a criação e faz novas todas as coisas (Ap 21,5)

LAUDATO SI: ponto culminante de um caminho

A reflexão seguinte quer contribuir para conhecer o caminho de aprofundamento da consciência eclesial sobre a ecologia e para situar nele a encíclica Laudato Si. O desafio da convivência com os biomas, embora não seja tratado especificamente, se ilumina de modo particular com a reflexão a respeito da interligação de todas as criaturas.

BEATO PAULO VI: a tomada de consciência do desafio ecológico

O Beato Paulo VI iniciou a reflexão do magistério pontifício sobre ecologia na carta apostólica Octogesima Adveniens, em comemoração dos 80 anos da encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII. Dizia Paulo VI que: “Não só mjá o ambiente material se torna uma ameaça permanente, poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto; é mesmo o quadro humano que o homem não consegue dominar, criando assim, para o dia de amanhã, um ambiente global, que poderá tornar-se para a humanidade insuportável” (AO 21).

SÃO JOÃO PAULO II: ecologia e ética

A mensagem de São João Paulo II para o vigésimo terceiro Dia Mundial da Paz foi centrada no tema “Paz com Deus criador, paz com toda a Criação” (01/01/1990). Disse o Santo Papa polonês: “O gradual esgotamento da camada do ozônio e o consequente efeito estufa que ele provoca já atingiram dimensões críticas, por causa da crescente difusão das indústrias, das grandes concentrações urbanas e do consumo de energia. Lixo industrial, gases produzidos pelo uso de combustíveis fósseis, desflorestamento imoderado” (…) “tudo isto, como se sabe é nocivo para a atmosfera e para o ambiente”.

Em sua encíclica Centesimus Annus (01/05/1991) São João Paulo II considera que o homem, tomado mais pelo desejo do ter e do prazer, do que pelo ser e crescer consome de maneira desordenada os recursos da terra e da sua própria vida. Segundo ele, a atenção à preservação dos habitat naturais das diversas espécies animais ameaçadas de extinção deve ir de mãos dadas com o respeito pela estrutura natural e moral, da qual o homem foi dotado. Para São João Paulo II a crise ambiental não é só científica e tecnológica, mas fundamentalmente moral.

BENTO XVI: a ecologia humana

Por diversas vezes o Papa Bento XVI foi apresentado como “o primeiro papa verde”. Em sua mensagem para o sexagésimo Dia Mundial da Paz (01/01/2007) ele retomou e consolidou a relação inseparável que existe entre ecologia da natureza, ecologia humana e ecologia social.

Na encíclica Caritas in Veritate (29/06/2009) Bento XVI recordou a urgência de uma solidariedade que leve a uma redistribuição mundial dos recursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possam ter acesso a eles. Na audiência Geral de 26/08/2009 afirmou: “é indispensável converter o atual modelo de desenvolvimento global para uma maior e compartilhada assunção de responsabilidade em relação à criação: isso é exigido não só pelas emergências ambientais, mas também pelo escândalo da fome e da miséria”.

FRANCISCO: uma ecologia integral

No magistério do Papa Francisco aparece uma clara visão global, em continuidade com seus antecessores. Em sua exortação apostólica Evangelii Gaudium (24/11/2013) o pontífice argentino afirmou: “Nós, os seres humanos, não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras criaturas. Pela nossa realidade corpórea, Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação”.

O Papa Francisco diz que o tempo para encontrar soluções globais está acabando. Por isso percebeu o sumo pontífice que já era chegado o momento de produzir um documento oficial sobre a ecologia. E assim nasce a Laudato SI aos 24 de maio de 2015. Nesta, que é a primeira encíclica ecológica, o Papa indica como um dos eixos fundamentais da reflexão ecológica a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta. Tanto a natureza como os pobres são usados como formas para o lucro fácil: exploração da mão de obra barata e extração desenfreada dos recursos naturais, tudo em nome do lucro fácil disfarçado de progresso humano.

CONCLUSÃO

A reflexão sobre os biomas e os povos originários recebe uma rica iluminação da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja. É preciso que a constatação das riquezas e dos desafios ligados ao tema da Campanha da Fraternidade seja levada à ação a partir de uma reflexão serena e profunda dos ensinamentos da tradição cristã.

A partir da fé cristã, é grande a contribuição que pode ser dada às questões da ecologia integral e, em particular, à convivência harmônica com os nossos biomas. Como afirma o Papa Francisco: “as convicções da fé oferecem aos cristãos – e, em parte, também a outros crentes – motivações importantes para cuidar da natureza e dos irmãos e irmãs mais frágeis”. (Laudato Si n.64).

CAPÍTULO III- AGIR

O agir da Campanha da Fraternidade de 2017 está em sintonia com a Doutrina Social da Igreja, principalmente com a encíclica Laudato SI e com a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016. Elas indicam a necessidade da conversão pessoal e social, dos cristãos e não cristãos, para cultivar e cuidar da criação. A encíclica Laudato Si propõe a ecologia integral como condição para a vida do planeta.

A Campanha da Fraternidade 2017 também está em sintonia com a celebração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Sob as bênçãos de Maria, rogamos a Deus para nos encorajar a fim de que possamos fazer ecoar nosso grito à sociedade brasileira e ao mundo que os biomas pedem socorro.

O AGIR NO BIOMA AMAZÔNIA

Precisa ser superada a ideia da Amazônia como terra a ser explorada. É preciso aprender com os povos originários e comunidades tradicionais a convivência com o meio ambiente. É preciso igualmente fortalecer as cooperativas, baseadas no agroextrativismo que gera renda para muitas famílias. Também é necessário fortalecer as políticas públicas por saneamento básico e transporte público de qualidade.

O AGIR NO BIOMA CAATINGA

A Caatinga é um bioma extremamente frágil. Nas últimas décadas 40 mil quilômetros quadrados deste bioma se transformaram em deserto por interferência do homem. Padre Cícero, em meados do século passado, deixou vários preceitos ecológicos que continuam atuais:

“Não derrube o mato e nem toque fogo no roçado. Não cace, deixe os bichos viverem. Não crie boi ou bodes soltos. Não plante em serra cima, faça uma cisterna para guardar água da chuva. Plante a cada dia pelo menos um pé de árvore”.

Além dos preceitos do Padre Cícero é preciso ainda retomar as discussões sobre a realidade urbana, principalmente em relação ao esgotamento sanitário. Ampliar o uso de cisternas para captação das águas da chuva e desenvolver a captação da energia solar e uso da energia eólica. Reforçar a luta pela demarcação dos territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Trazer para as escolas o estudo sobre um correto entendimento do bioma caatinga para que as pessoas ali residentes aprendam a conviver e superar os desafios da seca.

O AGIR NO BIOMA CERRADO

Promover o intercâmbio entre as comunidades locais. Fortalecer a agricultura familiar e a preservação e recuperação das frutas e das ervas medicinais. Reforçar a campanha promovida por diversas entidades cujo lema é: Cerrado, berço das águas: sem Cerrado, sem água, sem vida. Exigir controle mais rígido sobre o licenciamento de novos projetos de irrigação.

O AGIR NO BIOMA MATA ATLÂNTICA

Exigir do poder público a recuperação das áreas degradadas do bioma, como as matas ciliares e nascentes. Exigir que as políticas de saneamento básico sejam implantadas em toda a área urbanizada e rural do bioma Mata Atlântica. Cuidar das nascentes e dos rios. Apoiar as ações em defesa do bioma frente ao avanço das mineradoras que degradam e retiram riquezas. Denunciar os projetos econômicos imobiliários em áreas de Preservação Permanente (APP). Apoiar a produção agroecológica camponesa com base na agricultura familiar, como alternativa ao latifúndio e o agronegócio. Incentivar o consumo de produtos agroecológicos e sustentáveis da Economia Solidária.

O AGIR NO BIOMA PANTANAL

Dar visibilidade as populações pantaneiras com suas culturas e costumes. Apoiar os povos indígenas para garantir que suas terras ancestrais lhes sejam demarcadas, afastando os fazendeiros gananciosos da região. Promover campanhas de conscientização quanto ao descarte adequado dos resíduos sólidos e esgotos sanitários, para preservar os rios, lagos e igarapés. Promover a integração das lideranças indígenas e das populações tradicionais na luta pelas causas comuns. Assegurar a presença efetiva da Igreja na assistência espiritual às comunidades católicas indígenas.

O AGIR NO BIOMA PAMPA

É notório que o bioma Pampa está sendo ameaçado e tem seus ecossistemas modificados, Por esta razão, propomos:

Incentivar ações que promovam o direito à vida e a cultura dos povos tradicionais que habitam o bioma. Conscientizar da necessidade de defender a biodiversidade animal e vegetal do bioma. Propor novos métodos de produção das áreas ocupadas pelo agronegócio através da recomposição da vegetação original e de cultivo agroecológico. Motivar a recuperação das fontes de água potável, rios, lagoas e banhados através de políticas de despoluição, replantio das matas ciliares e redefinição de seu uso. Exigir políticas públicas para o controle de exploração e comercialização da água, com incentivo ao controle social.

CONCLUSÃO GERAL

As indicações do agir não são de caráter geral. É importante que cada comunidade, a partir do bioma em que vive, e em relação com os povos originários desse bioma, faça o discernimento  de quais ações são possíveis e, entre elas quais são as mais importantes e de impacto mais positivo e duradouro. Para este discernimento é importante ouvir a mensagem do Papa Francisco proferida no dia 01/09/2016 no Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Francisco convida a renovar o diálogo sobre os sofrimentos que afligem os pobres e a devastação do meio ambiente. Para o Papa Francisco, é por nossa causa que milhares  de espécies já não dão glória a Deus com sua existência. É devido à atividade humana que o planeta continua a aquecer. Este aquecimento provoca mudanças climáticas que geram a dolorosa crise dos migrantes forçados. Os pobres do mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos.

A Campanha da Fraternidade 2017, abordando a realidade dos biomas brasileiros e as pessoas que neles moram, deseja despertar as comunidades, famílias e pessoas de boa vontade para o cuidado e cultivo da casa comum. Cuidar da obra saída das mãos de Deus deveria ser um compromisso de todo cristão.

A criação é obra amorosa de Deus confiada a seus filhos e filhas. Nossa Senhora, Mãe de Deus e dos homens acompanhará as comunidades e famílias no caminho do cuidado e cultivo da casa comum no tempo quaresmal.

 

Abaixo sites para pesquisas e outras informações sobre biomas brasileiros e artigos relacionados ao tema.

Fontes:

http://www.cnbb.org.br/images/2016_03/edital_cfe.pdfhttp://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/biomas-brasileiros.htm

CF 2017: Uma nova concepção de vida fraterna

http://www.brasil.gov.br/meio-ambiente/2009/10/biomas-brasileiros

http://biomasnacionais.blogspot.com.br/p/principais-problemas-ambientais.html

http://www.comciencia.br/reportagens/2005/08/10.shtml

 

1- BIOMAS BRASILEIROS

O território brasileiro, com cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, possui uma grande variedade de características naturais (solo, relevo, vegetação e fauna), que interagem entre si formando uma composição natural única. Entre as principais características naturais que mais apresentam variação, estão os biomas. Um bioma é um conjunto de tipos de vegetação que abrange grandes áreas contínuas, em escala regional, com flora e fauna similares, definida pelas condições físicas predominantes nas regiões. Esses aspectos climáticos, geográficos e litológicos (das rochas), por exemplo, fazem com que um bioma seja dotado de uma diversidade biológica singular, própria.
Resumindo, biomas são conjuntos de ecossistemas com características semelhantes dispostos em uma mesma região e que historicamente foram influenciados pelos mesmos processos de formação.

OS BIOMAS BRASILEIROS, SUAS CARACTERÍSTICAS E PROBLEMAS QUE ENFRENTAM

De acordo com o IBGE, o país possui seis grandes biomas, que, juntos, possuem uma das maiores biodiversidades do planeta. Os biomas existentes no Brasil são (da maior extensão para a menor): a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, a Caatinga, o Pampa e o Pantanal.
A seguir, conheça cada bioma do Brasil:

1- BIOMA AMAZÔNIA
Extensão aproximada: 4.196.943 quilômetros quadrados

A Amazônia é a maior reserva de biodiversidade do mundo e o maior bioma do Brasil – ocupa quase metade (49,29%) do território nacional. Esse bioma cobre totalmente cinco Estados (Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima), quase totalmente Rondônia (98,8%) e parcialmente Mato Grosso (54%), Maranhão (34%) e Tocantins (9%). Ele é dominado pelo clima quente e úmido (com temperatura média de 25 °C) e por florestas. Tem chuvas torrenciais bem distribuídas durante o ano e rios com fluxo intenso. É este bioma muito influenciado pelo clima equatorial, que se caracteriza pela baixa amplitude térmica e grande umidade, proveniente da evapotranspiração dos rios e das árvores.
O bioma Amazônia é marcado pela bacia amazônica, que escoa 20% do volume de água doce do mundo. No território brasileiro, encontram-se 60% da bacia, que ocupa 40% da América do Sul e 5% da superfície da Terra, com uma área de aproximadamente 6,5 milhões de quilômetros quadrados.
A vegetação característica é de vegetação florestal muito rica e densa e apresenta espécies de diferentes tamanhos – algumas podem alcançar até 50 metros de altura – com folhas largas e grandes, que não caem no outono. A fauna também é muito diversificada, composta por insetos, que estão presentes em todos os estratos da floresta, uma infinidade de espécies de aves, macacos, jabutis, antas, pacas, onças e outros. Nas planícies que acompanham o Rio Amazonas e seus afluentes, encontram-se as matas de várzeas (periodicamente inundadas) e as matas de igapó (permanentemente inundadas). Estima-se que esse bioma abrigue mais da metade de todas as espécies vivas do Brasil.

PROBLEMAS DO BIOMA AMAZÔNIA

Um dos principais problemas do bioma Amazônia é o desmatamento ilegal e predatório. Madereiras instalam-se na região para cortar e vender troncos de árvores nobres. Há também fazendeiros que provocam queimadas na floresta para ampliação de áreas de cultivo (principalmente de soja).
Estes dois problemas preocupam cientistas e ambientalistas do mundo, pois em pouco tempo, podem provocar um desequilíbrio no ecossistema da região, colocando em risco a floresta.
Outro problema é a biopirataria na floresta amazônica. Cientistas estrangeiros entram na floresta, sem autorização de autoridades brasileiras, para obter amostras de plantas ou espécies animais. Levam estas para seus países, pesquisam e desenvolvem substâncias, registrando patente e depois lucrando com isso. O grande problema é que o Brasil teria que pagar, futuramente, para utilizar substâncias cujas matérias-primas são originárias do nosso território.

2- BIOMA CERRADO:
Extensão aproximada: 2.036.448 quilômetros quadrados

É o segundo maior bioma da América do Sul e cobre 22% do território brasileiro. Ele ocupa totalmente o Distrito Federal e boa parte de Goiás (97%), de Tocantins (91%), do Maranhão (65%), do Mato Grosso do Sul (61%) e de Minas Gerais (57%), além de cobrir áreas menores de outros seis Estados.
É um bioma característico do clima tropical continental, que, em razão da ocorrência de duas estações bem definidas – uma úmida (verão) e outra seca (inverno) –, possui uma vegetação com árvores e arbustos de pequeno porte, troncos retorcidos, casca grossa e, geralmente, caducifólia (as folhas caem no outono).
No Cerrado predominam formações da savana e clima tropical quente subúmido, com uma estação seca e uma chuvosa e temperatura média anual entre 22 °C e 27 °C. Além dos planaltos, com extensas chapadas, existem nessas regiões florestas de galeria, conhecidas como mata ciliar e mata ribeirinha, ao longo do curso d’água e com folhagem persistente durante todo o ano; e a vereda, em vales encharcados e que é composta de agrupamentos da palmeira buriti sobre uma camada de gramíneas (estas são constituídas por plantas de diversas espécies, como gramas e bambus).
É no Cerrado que está a nascente das três maiores bacias da América do Sul (Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata), o que resulta em elevado potencial aquífero e grande biodiversidade. Esse bioma abriga mais de 6,5 mil espécies de plantas já catalogadas.
A fauna da região é bastante rica, constituída por capivaras, lobos-guarás, tamanduás, antas, seriemas etc.

PROBLEMAS DO BIOMA CERRADO

O cerrado é o ecossistema brasileiro que mais sofreu alteração com a ocupação humana. Atualmente, vivem ali cerca de 20 milhões de pessoas. A atividade garimpeira, por exemplo, intensa na região, contaminou os rios de mercúrio e contribuiu para seu assoreamento.
A mineração favoreceu o desgaste e a erosão dos solos. Nos últimos 30 anos, a pecuária extensiva, as monoculturas e a abertura de estradasdestruíram boa parte do cerrado. Hoje, menos de 2% está protegido em parques ou reservas.

3- BIOMA MATA ATLÂNTICA:
Extensão aproximada: 1.110.182 quilômetros quadrados

A Mata Atlântica é um complexo ambiental que engloba cadeias de montanhas, vales, planaltos e planícies de toda a faixa continental atlântica leste brasileira, além de avançar sobre o Planalto Meridional até o Rio Grande do Sul. Ela ocupa totalmente o Espírito Santo, o Rio de Janeiro e Santa Catarina, 98% do Paraná e áreas de mais 11 Unidades da Federação.
O exemplar de Floresta Tropical do Brasil praticamente já desapareceu, pois, como estava localizada na faixa litorânea do país, grande parte de sua vegetação original foi devastada pela intensa ocupação do litoral. Por conta disso, atualmente é reconhecida como o bioma brasileiro mais descaracterizado. Isso porque os primeiros episódios de colonização no Brasil e os ciclos de desenvolvimento do país levaram o homem a ocupar e destruir parte desse espaço.
Seu principal tipo de vegetação é a floresta ombrófila densa, normalmente composta por árvores altas e relacionada a um clima quente e úmido. A Mata Atlântica já foi um dos mais ricos e variados conjuntos florestais pluviais da América do Sul, mas
Originalmente, a vegetação desse bioma encontrava-se localizada em uma extensa área do litoral brasileiro, que se estendia do Piauí ao Rio Grande do Sul, e era constituída por uma vegetação florestal densa, com praticamente as mesmas características da Floresta Amazônica: com diversos tamanhos, latifoliada (folhas largas e grandes) e perene (folhas que não caem). A fauna dessa região já foi praticamente extinta e era constituída por micos-leões, lontra, onça-pintada, tatu-canastra, arara-azul e outros.

PROBLEMAS DO BIOMA MATA ATLÂNTICA

A destruição da Mata Atlântica começou no início da colonização européia, com a extração do pau-brasil (Caesalpinia echinata) e continua até os dias atuais, principalmente pela pressão urbana.
A Mata Atlântica originalmente ocupava 16% do território brasileiro, distribuída por 17 Estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, e Piauí. Atualmente este ecossistema está reduzido a menos de 7% de sua extensão original, dispostos de forma fragmentada ao longo da costa brasileira, no interior das regiões Sul e Sudeste, além de trechos nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul e no interior dos estados nordestinos.Do que se perdeu, pouco se sabe, milhares, ou talvez milhões, de espécies não puderam ser conhecidas.
Das espécies vegetais, muitas correm risco de extinção por terem seu ecossistema reduzido, por serem retiradas da mata para comercialização ilegal ou por serem extraídas de forma irracional como ocorreu com o pau-brasil e atualmente ocorre com o palmito juçara (Euterpe edulis), entre muitas outras espécies.
Para a fauna, observa-se um número elevado de espécies ameaçadas de extinção, sendo a fragmentação deste ecossistema, uma das principais causas. A fragmentação do habitat de algumas espécies, principalmente de mamíferos de médio e grande porte, faz com que as populações remanescentes, em geral, estejam subdivididas e representadas por um número consideravelmente pequeno de indivíduos.
Apesar de toda a destruição que o ecossistema vem sofrendo, aproximadamente 100 milhões de brasileiros dependem desta floresta para a produção de água, manutenção do equilíbrio climático e controle da erosão e enchentes.

4- BIOMA CAATINGA
Extensão aproximada: 844.453 quilômetros quadrados

A Caatinga, cujo nome é de origem indígena e significa “mata clara e aberta”, é exclusivamente brasileira e ocupa cerca de 11% do país. É o principal bioma da Região Nordeste, ocupando totalmente o Ceará e parte do Rio Grande do Norte (95%), da Paraíba (92%), de Pernambuco (83%), do Piauí (63%), da Bahia (54%), de Sergipe (49%), do Alagoas (48%) e do Maranhão (1%). A caatinga também cobre 2% de Minas Gerais.
A Caatinga, portanto, estende-se por todo o sertão brasileiro, ocupando cerca de 11% do território nacional. Trata-se da região mais seca do país, localizando-se na zona de clima tropical semiárido.
Esse bioma apresenta uma grande riqueza de ambientes e espécies, que não é encontrada em nenhum outro bioma. A seca, a luminosidade e o calor característicos de áreas tropicais resultam numa vegetação de savana estépica, espinhosa e decidual (quando as folhas caem em determinada época). Há também áreas serranas, brejos e outros tipos de bolsão climático mais ameno.
Também o bioma da Caatinga está sujeito a dois períodos secos anuais: um de longo período de estiagem, seguido de chuvas intermitentes e um de seca curta seguido de chuvas torrenciais (que podem faltar durante anos). Dos ecossistemas originais da caatinga, 80% foram alterados, em especial por causa de desmatamentos e queimadas.
A vegetação dessa região é composta, principalmente, por plantas xerófilas (acostumadas com a aridez, como as cactáceas) e caducifólias (que perdem a folha durante o período mais seco), além de algumas árvores com raízes bem grandes que conseguem captar a água do lençol freático em grandes profundidades e que, por isso, não perdem as suas folhas, como o juazeiro. A fauna desse bioma é composta por uma grande variedade de répteis, sapo cururu, asa-branca, cutia, gambá, preá, veado-catingueiro, tatupeba etc.

PROBLEMAS DO BIOMA CAATINGA

Na Caatinga, vegetação nativa e solos agricultáveis estão em franco desaparecimento. A pecuária e o reflorestamento, sobretudo com Algaroba (Prosopis sp.) e sua exploração como lenha e carvão vegetal, tem sido a única alternativa econômica do sertanejo. Em seu conjunto, a região semi-árida está inserida num contexto onde a ação antrófica tem contribuído para o avanço sobre remanescentes florestais que, em determinados casos, é substituído ou seletivamente explorado, causando uma degeneração da composição das matas nativas da região. Por outro lado, no vale do São Francisco, onde existe elevado potencial para irrigação, já desponta uma agricultura moderna, com elevada produtividade, e boa parte da produção direcionada para o mercado externo. Devido aos elevados índices de aridez que caracteriza a maior parte da região, o uso da terra está diretamente ligado à disponibilidade de água nos solos. As terras agrícolas estão localizadas em áreas de baixadas, tabuleiros e terraços aluviais de solos profundos, com boa retenção de umidade. Nestes solos alcançam-se elevadas produtividades, o que compensa as perdas nos anos de maior déficit hídrico. Assim, a agricultura irrigada, que já ocupa uma área superior a 640 mil hectares, é uma atividade econômica de grande significado para a região nordestina. Incentivou o surgimento de diversas agroindústrias, propiciando a verticalização da produção. Todavia, a má drenagem tem provocado um sério problema de salinização.
De resto, tende a se tornar mais grave o problema da desertificação. Estudo recente do Núcleo Desert da Universidade Federal do Piauí constatou que em 71 microregiões o empobrecimento generalizado dos recursos da terra já atinge mais de 52 mil hectares.

5- BIOMA PAMPA
Extensão aproximada: 176.496 quilômetros quadrados

O bioma pampa está presente somente no Rio Grande do Sul, ocupando 63% do território do Estado. Ele constitui os pampas sul-americanos, que se estendem pelo Uruguai e pela Argentina e, internacionalmente, são classificados de Estepe. O pampa é marcado por clima chuvoso, sem período seco regular e com frentes polares e temperaturas negativas no inverno.
Localizado no extremo sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, o bioma Pampa é bastante influenciado pelo clima subtropical e pela formação do relevo, que é constituído principalmente por planícies. Em virtude do clima frio e seco, a vegetação não consegue desenvolver-se, sendo constituída principalmente por gramíneas, como capim-barba-de-bode, capim-gordura, capim-mimoso etc.
A vegetação predominante do pampa é constituída de ervas e arbustos, recobrindo um relevo nivelado levemente ondulado. Formações florestais não são comuns nesse bioma e, quando ocorrem, são do tipo floresta ombrófila densa (árvores altas) e floresta estacional decidual (com árvores que perdem as folhas no período de seca).
São exemplos de animais que vivem nesse bioma o veado, garça, lontras, capivaras e outros.

PROBLEMAS DO BIOMA PAMPA

Nos Pampas, a agropecuária tem bastante força, o que vem provocando problemas ambientais, como a erosão do solo. Cerca de 50% deste, é ocupado por áreas rurais: valor relativamente pequeno, se comparado aos outros biomas. Entretanto, os Pampas é o que possui menor porcentagem territorial destinada à conservação e um dos menos estudados.

6- BIOMA PANTANAL
Extensão aproximada: 150.355 quilômetros quadrados

O bioma Pantanal cobre 25% de Mato Grosso do Sul e 7% de Mato Grosso e seus limites coincidem com os da Planície do Pantanal, mais conhecida como Pantanal mato-grossense. O Pantanal é um bioma praticamente exclusivo do Brasil, pois apenas uma pequena faixa dele adentra outros países (o Paraguai e a Bolívia).
Trata-se este bioma da maior planície inundável do país e é muito influenciado pelos regimes dos rios presentes nesses lugares, pois, durante o período chuvoso (outubro a abril), a água do pantanal alaga grande parte da planície da região. Quando o período chuvoso acaba, os rios diminuem o seu volume d’água e retornam para os seus leitos. Por essa razão, a vegetação e os animais precisam adequar-se a essa movimentação das águas. Todos esses fatores tornam a vegetação do pantanal muito diversificada, havendo exemplares higrófilos (adaptados à umidade), plantas típicas do Cerrado e da Amazônia e, nas áreas mais secas, espécies xerófilas. A vegetação predominante é a savana. A fauna é constituída por várias espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis etc.
A cobertura vegetal original de áreas que circundam o Pantanal foi em grande parte substituída por lavouras e pastagens, num processo que já repercute na Planície do Pantanal.

PROBLEMAS DO BIOMA PANTANAL:

No Pantanal, os principais impactos ambientais podem ser enumerados a partir dos seguintes fatores:
a- Pecuária extensiva – Emulação com a fauna nativa.
b- Pesca predatória e caça ao jacaré – redução das reservas pesqueiras e possibilidade de extinção de algumas espécies de animais.
c- Garimpo de ouro e pedras preciosas – Processo de erosão, contaminação dos rios.
d- Turismo e migração desordenada e predatória – Fogos na região, causando a morte das aves.
e- Aproveitamento dos cerrados – A má administração das lavouras causa grandes erosões no solo e a utilização de biocidas e fertilizantes contamina os rios.
f- Plantio de cana-de-açúcar – Provoca dano à preservação ambiental, trazendo grandes perigos para a contaminação de rios.

“Pontuações históricas da”  DEGRADAÇÃO DE BIOMAS BRASILEIROS

autor: Waldir Mantovani: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/08/10.shtml

A exploração de recursos naturais e a ocupação do território brasileiro têm uma longa história de alterações relevantes e da degradação de áreas naturais. É resultado, entre outros fatores, da ausência de uma cultura de ocupação de seus espaços que respeitasse as características dos seus diversos biomas, da apropriação dos bens da natureza por grupos restritos de pessoas ou instituições, sendo seus benefícios distribuídos de forma desigual entre os componentes da sociedade, e da desconsideração, por parte dos projetos institucionais e de diversos empreendimentos, das alterações do meio ambiente em seus custos, em geral restando à sociedade os prejuízos causados.
Essas alterações em nossos biomas são mais evidentes a partir das atividades agrícolas das numerosas tribos indígenas que ocupavam principalmente a faixa litorânea de nosso país, e que dominavam a técnica da agricultura de corte e queima, e é ampliada na colonização pelos portugueses, a partir do século XVI, inicialmente com os ciclos do pau-brasil, uma espécie de árvore da floresta pluvial tropical atlântica, e da cana-de-açúcar em extensas áreas das zonas litorâneas, mormente no Nordeste e, após, com a busca de minérios preciosos e posterior estabelecimento de áreas de garimpos em várias regiões do território brasileiro.
Atividades de agricultura e de garimpo exigiam mão de obra não disponível entre os colonizadores, o que estimulou entradas de tropas organizadas ao interior de nosso continente até a região amazônica, na busca de mão de obra indígena e de plantas aromáticas, medicinais e alimentícias.
A mão de obra indígena foi posteriormente substituída pela mão de obra escrava trazida da África, ainda no século XVI, aumentando as populações nas vilas e cidades, o que exigiu uma maior produção de alimentos e incentivou a importação de animais, como cavalos e gado bovino, que ocuparam áreas interiores de pastos naturais, no cerrado e nos campos sulinos, principalmente no Nordeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil. As moendas de cana-de-açúcar ainda exigiam grande quantidade de lenha, o que era obtido das florestas.
O século XIX é marcado pela exploração de recursos naturais, como a borracha na Amazônia, pela exploração de madeira de elevado valor econômico, nas diversas florestas brasileiras, e pelas implantações das culturas do café, em áreas dos domínios das florestas pluvial atlântica e estacional semidecídua, principalmente no Sudeste e Sul do Brasil, do fumo, em áreas da floresta com araucária, no Sul, e da caatinga, no Nordeste, e do algodão, em áreas da caatinga, no Nordeste. Agrava a conservação de áreas desses biomas o caráter itinerante que essas culturas tiveram, sempre ocupando novas áreas, com solos não desgastados.
Um importante fluxo imigratório deu-se nas épocas das primeira e segunda guerras mundiais e acentuou-se durante a expansão da cafeicultura, principalmente no final do século XIX, fazendo com que muitos europeus se estabelecessem nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, aumentando as populações humanas nessas regiões e a demanda por moradia, alimentação e diversos outros recursos da natureza.
No século XX houve novamente uma expansão das culturas de cana-de-açúcar e de algodão, principalmente no Sul e Sudeste, e um estímulo às culturas de citros, no sudeste, de chá, no sul e sudeste, e da soja, desde o Sul, pelo Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, sob o impulso da industrialização nacional ocorrida no terço final deste século, com grande impacto em áreas dos domínios da floresta com araucária, estacional semidecídua e do cerrado.
O crescimento das atividades pecuárias no século XX levou à ocupação de extensas áreas nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte do país, em detrimento de áreas naturais dos campos sulinos, do cerrado e das florestas com araucária, estacional semidecídua e pluvial amazônica. Esta expansão foi realizada com o estabelecimento de pastos baseados em espécies de gramíneas exóticas, em geral africanas, muitas das quais se transformaram em competidoras com as espécies nativas de diversos biomas, por um processo que se denomina de invasão biológica.
Na década de 70 as áreas do domínio do cerrado foram designadas prioritárias para a expansão de uma nova fronteira agrícola, a ser ocupada por diversas atividades agropecuárias, sem que houvesse um planejamento à sua conservação.
Nosso país é extremamente rico em diversos minerais, em grande parte ainda exportados em sua forma bruta, cuja extração representa das mais importantes fontes de problemas ambientais, localmente levando a modificações no ambiente e, em escala maior, exigindo soluções ao seu escoamento.
Por sua história de ocupação, as grandes cidades brasileiras estão preponderantemente situadas no litoral brasileiro ou nos planaltos sob clima temperado quente e úmido, influenciando diretamente a conservação de áreas das florestas pluviais atlântica, com araucária e sobre as planícies litorâneas.
A maioria da população brasileira está concentrada em áreas urbanas que raramente foram adequadamente planejadas, de forma que a maior parte dos municípios não possui sistemas de coleta e de tratamento de esgotos e do lixo, interferindo na qualidade das águas interiores e continentais. Um fator de agravamento do crescimento não controlado das grandes cidades no sudeste deveu-se aos vários fluxos de migração, principalmente do nordeste, que acompanharam o crescimento urbano e industrial desta região.
As águas interiores e continentais brasileiras são diretamente afetadas pelo conjunto de atividades anteriormente citadas, seja pelo lançamento de dejetos e produtos químicos oriundos das aglomerações urbanas, de origem doméstica ou industrial, ou das atividades agropecuárias, incluindo a erosão de solos e a contaminação de águas por produtos químicos, além da super exploração de alguns recursos naturais, como várias espécies de peixes, e a alteração da velocidade e das características físicas e químicas das águas, nas barragens para fins da geração de energia e abastecimento.
A industrialização e a opção pelo transporte individual, na maioria das cidades, também geraram, desde o final do século XX, problemas de poluição atmosférica, com consequências importantes à saúde humana.
A expansão da malha de rodovias e da rede ferroviária permitiu o acesso a diversas regiões do território brasileiro ainda conservadas, e estimulou a produção agropecuária e o crescimento populacional, preponderando a migração.
Principalmente a partir da década de 70, mas emergindo de forma acentuada na de 80, os problemas ambientais começaram a ganhar um grande espaço nas discussões feitas em nossa sociedade, sempre relacionadas à conservação biológica e dos recursos naturais e à qualidade de vida humana, amparadas por uma legislação bastante evoluída.
Para todos os biomas brasileiros, um dos fatores mais relevantes à degradação é o crescimento populacional, em geral associado à ausência de planejamento para o uso de espaços e recursos disponíveis de forma sustentada, como é genericamente denominado o uso que não leve ao esgotamento dos recursos naturais. Uma das consequências do aumento populacional é a ampliação de áreas para a atividade agropecuária, com devastação de áreas da vegetação natural, que pode ter ampliado seu efeito à degradação com o uso de tecnologia avançada, além dos aumentos de áreas urbanas e da demanda por serviços e recursos naturais. Os efeitos do crescimento populacional podem ser multiplicados por processos de migração, impactando ainda mais certas regiões.
Há diversos biomas mantidos em Unidades de Conservação restritivas com áreas insuficientes para representar toda a heterogeneidade que contêm. As Unidades de Conservação com uso indireto, gerenciadas pela União ou pelos estados, somam 19.625.376ha, enquanto as de uso direto, menos restritivas, 140.881.814ha, e as reservas de recursos 51.045ha. A contribuição dos municípios é muito pequena.
Entre os biomas terrestres há problemas comuns que podem levar à degradação, ressaltando-se a sua substituição por culturas monoespecíficas ou pecuária, com a diminuição da diversidade biológica e, como consequência, a do uso potencial de recursos contidos nas espécies. Em geral essas atividades acarretam aumento de processos erosivos, agravados pela existência de solos arenosos, topografia acidentada e precipitações elevadas, além de promoverem a destruição de hábitats. Na substituição dos biomas por outros sistemas, agrícolas ou urbanos, são perdidas, também, importantes funções de equilíbrio que os biomas exercem no ambiente, seja na proteção do solo, na manutenção dos ciclos hidrológicos, no tamponamento dos efeitos dos fatores físicos do ambiente sobre a superfície da terra, seja a radiação solar, a temperatura, a precipitação e a ação de ventos. Também podem ser perdidos valores estéticos, quando paisagens naturais, em geral heterogêneas, são substituídas por paisagens antropizadas, geralmente homogêneas.
Os recursos que representam ou que estão contidos em muitas espécies de plantas e de animais têm características restritivas à exploração, que podem ser generalizados para os diversos biomas, terrestres, aquáticos ou de transição. Quanto mais rico e diverso for o bioma, mais difícil a exploração do recurso, dado o pequeno número de organismos apresentados por uma população. Isto é relevado pelo fato de todos os biomas apresentados possuirem variações regionais e locais de estrutura e de composição florística e faunística, que aumentam a diversidade biológica que contêm.
Em relação às espécies de animais, o maior problema relacionado com a extração, caça ou pesca, bem como com a extração seletiva de plantas, é a diminuição excessiva de organismos nas populações, o que pode acarretar a extinção local ou, dependendo da extensão e da intensidade de exploração, em grande escala, com consequências nas cadeias ou teias tróficas das quais participam as espécies exploradas.
Principalmente devido à perda de hábitat, mas também por causa da caça para diversos fins, dentre as espécies de animais em perigo de extinção ressaltam-se aqueles do topo da cadeia alimentar, como a onça-parda ou sussuarana, a onça pintada, os gatos-do-mato, como a jaguatirica e os gatos-maracajás, os cachorros-do-mato, o lobo-guará, os gaviões e os falcões, que necessitam de territórios muito amplos para caça e reprodução, os jacarés, a lontra, as doninhas, as ariranhas, as sucuris, as surucucus, os grandes mamíferos, como a anta, os cervos, os veados, os tamanduás, os tatus, as preguiças, as baleias, botos, golfinhos e peixes-boi, os primatas: micos, sagüis, guaribas, bugios, uacaris, sauás e diversos macacos, os peixes consumidos por sua carne, como o pirarucu e o tambaqui e diversas outras espécies sob sobrepesca, assim como as tartarugas, o jaboti, os cágados e o tracajá, e lagartos, algumas aves são caçadas para consumo, como o inambu, o jaó, o macuco, o mutum, o jacu, os patos, as pombas, as rolinhas, enquanto outras são ornamentais, como os periquitos, os papagaios, as arararas, os galos-da-serra e as saíras, ou canoras, como os sabiás, o canário-da-terra, o bicudo, o pitassilgo, o pássaro-preto, o curió e as coleirinhas, entre outras.
Afora a grande quantidade de espécies conhecidas que são extintas localmente, ressaltam-se as extinções de espécies pouco conhecidas ou ainda não descritas pela ciência, como as de algas, fungos, briófitas, pteridófitas, insetos, escorpiões, aracnídeos, miriápodes, anfíbios e outros grupos de plantas e de animais, notadamente de pequeno porte.
A fragmentação de hábitats naturais acarreta a diminuição do tamanho de várias populações, de plantas e de animais, seja pela diminuição das áreas ou pela competição pelos recursos remanescentes, tornando-as muitas vezes inviáveis, impedindo a circulação de animais de diversas espécies, com o estabelecimento de áreas de agricultura, áreas urbanas, estradas ou outros obstáculos, intransponíveis, além do estabelecimento de efeitos de borda, como mudanças microclimáticas e da luminosidade, que facilitam a invasão biológica e o perigo de incêndios e de outros fatores de perturbação.
Os tipos de usos mais comuns em relação às plantas referem-se à produção de alimentos na forma de frutos, sementes ou palmitos, de condimentos, aromatizantes e corantes, de uso têxtil, produtoras de cortiça, taníferas, com elevados teores nas cascas ou nos troncos, com exsudatos no tronco, como resinas, gomas, bálsamo, produtoras de óleos e gorduras, medicinais, ornamentais para jardinagem, empregadas no artesanato, plantas apícolas e aparentadas de plantas cultivadas, como no caso do cajú, da mandioca, do abacaxi, da ata, da pinha, do cará, do caqui, da goiaba, do maracujá, do amendoim e do guaraná, entre outras.
A introdução de espécies de plantas e de animais no território brasileiro tem elevado o problema das invasões biológicas passíveis de ocorrerem nos diversos biomas, o que tem acarretado a diminuição da diversidade biológica, quando são competidores mais fortes, ou representam pragas ou agentes de doenças. Alterações em áreas naturais têm levado à transformação de espécies sob equilíbrio em pragas ou patógenos, agentes de doenças diversas.
Para todos os biomas, um dos problemas mais relevantes refere-se ao aumento da população humana, principalmente concentrada em grandes núcleos urbanos, devido a geração de lixo, a impermeabilização do solo, a necessidade de aumento da produção agrícola, a geração de esgoto, não tratado, o aumento na demanda de água para fins domésticos, industriais, de serviços, de lazer e para a produção de alimentos, seja pescado ou para uso na agricultura.
A maioria dos municípios brasileiros não possui rede coletora de esgoto (Norte, 92%, Centro-Oeste, 87%, Nordeste 74%, Sul, 61% e Sudeste, 9%), o que é agravado pelo fato de a grande maioria dos municípios, independente da região, não promover o tratamento deste esgoto (98% no Norte, 96% no Nordeste e no Centro-Oeste, 93% no Sul e 85% no Sudeste). Também o lixo não recebe tratamento adequado, sendo a grande maioria depositada em vazadouros a céu aberto, sendo importante fator de degradação de biomas, notadamente aquáticos.
Os biomas localizados ao longo do litoral, terrestres, de interfaces ou aquáticos, estão mais sujeitos à degradação proveniente de grandes aglomerados humanos, já que a maioria da população brasileira está concentrada nessa região.

 

Cf 2017 – Uma nova concepção de fraternidade   por Nicolau João Bakker, svd

Fonte: http://portalkairos.org/cf-2017-uma-nova-concepcao-de-vida-fraterna/#ixzz4EwiYPFFL

 Introdução:

Surpreendeu-me o tema da CF de 2017: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida“. O que a fraternidade tem a ver com os biomas brasileiros? Tradicionalmente nossos biomas são seis: a Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pantanal, e os Pampas do Sul. Ultimamente se acrescenta a eles a Zona Costeira e Marinha. Não é um pouco artificial ligar estes biomas ao conceito de fraternidade?

A fim de encontrar uma resposta mergulhei na minha infância. Lembrei-me do lugar onde nasci: quase dois metros abaixo do nível do mar, num dos famosos “pôlderes” holandeses, uma grande e rica extensão de terra cercada pelos não menos famosos “diques” da Holanda. Tudo fruto de uma luta mais do que secular contra a temível bravura do mar. Chamavam-nos de “frísios do Oeste”, isto em oposição aos frísios “de verdade” que moravam do outro lado de um grande braço do mar, a 25 km. de distância. Lá se falava uma outra língua que nem sequer entendia. Aliás, mesmo do nosso lado, em cada aldeia, de 3 em 3 km, o linguajar do povo – e também o modo de brincar, caçoar, torcer e opinar – era um pouco diferente. Em seu conjunto, nós, frísios do Oeste, constituíamos claramente uma “tribo” bem diferente das demais tribos holandesas. Depois de adulto me dei conta que até na religião éramos diferentes. Tínhamos, sem dúvida, um modo bem próprio de encarar as nossas obrigações religiosas.

Quando minha família, na década de 1950, emigrou para o Brasil, estabelecendo-se numa pequena cooperativa agrícola na área metropolitana de Campinas (Holambra), eu, com 21 anos de idade, enfrentei um mundo totalmente novo. Juntamente com meu pai e meus três irmãos, era preciso aprender a tirar o sustento para uma família de 11, não mais a partir de um único alqueire do bioma pôlder, mas agora a partir de um bioma inteiramente diferente. Os muitos cupinzeiros esparramados pelo velho pasto à nossa frente não deixavam dúvida. Estávamos diante de um “latifúndio” de 14 alqueires de cerrado paulista. Trabalhando na roça com paulistas, mineiros e cearenses, goianos, baianos e paranaenses, fui logo percebendo que cada um/a trazia do seu bioma de origem – evidentemente com variedades regionais – um mundo próprio, não apenas no sotaque, nos costumes e nas tradições, mas também em todo um jeito particular de encarar a vida.

De fato, mais do que nosso estado ou região de origem, é o bioma que define o viver, conviver e sobreviver do ser humano. A modernidade, com sua fortíssima tendência de criar o “homo globalis” – fruto de uma mídia homogeneizadora e um novo estilo de vida, urbano, escolarizado, e industrializado – tende a aniquilar o efeito bioma, mas não há como. Cada bioma é o resultado de forças cósmicas que mudam apenas a longuíssimo prazo e que ultrapassam em muito a capacidade humana de, de alguma forma, dominá-los. Muito antes de o ser humano destruir o bioma, o bioma irá destruir o ser humano. Em muitos sentidos o bioma “gera” o ser humano, dando-lhe sua característica própria, não apenas nas feições do corpo, mas também nas da alma. A não ser que algum imperialismo religioso a tenha modificado, em cada canto do planeta encontraremos uma população originária dirigindo ao mundo do além uma oração particular e muito própria.

O objetivo deste artigo é demonstrar que, das ciências da vida, surge uma nova concepção de “vida fraterna”. Se queremos realmente “defender a Vida”, como pede a Campanha da Fraternidade, vamos ter que “educar o nosso olhar” – como dizia Teilhard de Chardin (†1955) – e perceber que, de fato, somos irmãos e irmãs não apenas dos nossos semelhantes, os seres humanos, mas também, como já intuía São Francisco de Assis (†1226), de todos os demais seres vivos do planeta. Faremos isto, em primeiro lugar, observando “a Vida como ela é”. Em seguida veremos que também o bioma, como a própria “Vida”, é sempre uma “teia partilhada”. E, finalmente, tiraremos algumas conclusões pastorais “em defesa da Vida”.

I –  “A Vida como ela é”

A fraternidade, antes de ser um fenômeno social, é um fenômeno biológico. Trata-se de um exagero colocar as coisas desta forma? Parece, mas não é. A “Vida”, apesar das ocasionais aparências contrárias, é, toda ela fraternal ou sororal. Podemos perceber isso melhor quando colocamos debaixo da lupa uma célula viva, de qualquer ser vivente que seja, observando o seu “metabolismo” celular.1 Antes de mais nada devemos então distinguir entre células sem núcleo central e células com núcleo central. Os especialistas falam em células “procariontes” e células “eucariontes”. Durante os primeiros dois bilhões de anos, a Vida no planeta Terra, iniciada há cerca de 3,7 bilhões de anos, foi comandada basicamente pelas bactérias, seres vivos unicelulares sem núcleo central. Seu DNA é mil vezes mais simples que o nosso e não passa de um único cordão de uns 4000 genes que flutua livremente no líquido – o “citoplasma” – celular. Mas não subestime as bactérias. Elas, sem sexo algum, podem multiplicar-se a cada vinte minutos e partilhar entre si até 15% do seu código genético diariamente! Esse “pool gênico” deu a elas a capacidade de adaptar-se às mais diversas e duras condições de um planeta em permanente transformação. As bactérias acabaram “inventando” os principais mecanismos de sustentação da “Vida” que ainda hoje marcam o dia a dia do metabolismo celular: a fermentação, a fotossíntese, a fixação do nitrogênio, a respiração aeróbia, a pigmentação, a locomoção, etc.

Vejamos isto colocando debaixo da lupa a “nossa” célula, a eucarionte, isto é, a que possui um núcleo central e que apresenta uma complexidade muito maior do que a das bactérias. Devemos à grande microbióloga, Lynn Margulis, a comprovação científica de que não são apenas as mutações genéticas e as transferências genéticas diretas – como a das bactérias – que fazem evoluir a vida, mas que existe também a poderosa força da “simbiogênese”.2 É aí que percebemos com maior clareza que a “Vida”, em qualquer nível, depende inteiramente da tal “fraternidade biológica”. Todas as células eucariontes são fruto de uma integração, uma colaboração íntima e permanente – uma “simbiose” – entre forças vivas antes separadas. Tomemos como exemplo a simples alga do mar, a antecessora das plantas. Colocada debaixo da lupa, os especialistas percebem que seu núcleo genético é uma fusão de dois tipos diferentes de bactérias: a “arqueofermentadora” – capaz de decompor cadeias de carbono, ou acúcares, transformando-os em fonte de energia – e uma outra já capaz de locomoção, a “nadadora”. Mais adiante uma terceira bactéria veio enriquecer o conjunto da célula: a “respiradora”, especializada em respirar oxigênio. Estes novos seres que, há aproximadamente dois bilhões de anos, resultaram desta múltipla fusão, ainda unicelulares, vieram receber depois a inestimável colaboração de uma quarta bactéria, a “fotossintetizadora” (a cianobactéria verde-azulada). Mas os resquícios desta encontramos apenas no “reino” das plantas, e não no reino dos fungos ou no reino dos animais.

Ajustemos, porém, ainda mais a lente da nossa lupa. Dentro do núcleo central de cada célula eucarionte podemos observar claramente um pequeno “mininúcleo” que, em conjunto com o DNA principal do núcleo central, dá origem aos aproximadamente 500.000 “centros de produção”, ou “ribossomos”, espalhados pelo fluido celular, cada um produzindo, além das proteínas e enzimas necessárias, também as quatro “organelas” principais que sustentam a Vida da célula: 1) as “usinas solares”, ou cloroplastos, que – apenas nas células vegetais – absorvem do ar o dióxido de carbono e a energia do sol, e da terra a água e os minerais, para, com ajuda de enzimas, transformar tudo em açúcares alimentares, devolvendo ao ar o oxigênio (= fotossíntese); 2) as “casas de força”, ou mitocôndrias, que, também com ajuda de enzimas, realizam a respiração celular, usando a energia proveniente do oxigênio para decompor as indispensáveis moléculas de açúcar, transformando-as em “transportadores de energia”, as famosas moléculas de “adenosina trifosfato” (ATP), que fornecem energia a todas as células, e ao corpo, quando e aonde for necessário; 3) são produzidas ainda as “bolsas de armazenamento” que servem de reserva e acondicionamento dos produtos celulares para serem usados quando necessário; e, 4) as “usinas de reciclagem” onde se faz o reuso de elementos não usados ou danificados. Que bela lição de “Vida”, onde tudo colabora com tudo e nada é desperdiçado!

Foram esses novos seres com núcleo central e alta complexidade, chamados “protistas”, que evoluíram, passando de unicelulares a multicelulares, até transformar-se, por caminhos diferentes, nas atuais plantas, fungos e animais. Ao reino destes últimos – devemos humildemente reconhecer – pertencemos todos nós. As bactérias, enquanto isso, como também os protistas, mantêm seus reinos próprios. Sabe-se lá o que ainda vão inventar para garantir a sobrevivência da “Vida” no planeta! Estão quase onipresentes, tanto dentro quanto fora do nosso corpo. Um minúsculo centímetro cúbico de terra fértil contém bilhões delas! Continuam da maior importância. Um exemplo? Repare na atmosfera terrestre. Nela há 21% de oxigênio. Se o nível subisse para 25%, tudo na terra entraria em combustão. Se baixasse para 15%, nada conseguiria respirar. São principalmente as bactérias que mantêm o nível adequado.

Se queremos entender a “Vida” como ela é, não existe melhor retrato do que este do metabolismo celular. A célula, porém, não é inteiramente autônoma, pois através de sua “membrana” – resistente, mas permeável – ocorre um vai e vem contínuo de material orgânico. É sempre o “meio ambiente” local que dá sustento à Vida, permitindo, inclusive, (raros) momentos de superação. Mas não existem comandos externos, ou causas únicas. As células se renovam permanentemente, e isto “por própria conta”. Elas, sem causa externa, tiram cópias de si mesmas, ou “se auto-replicam” como dizem os entendidos. Qualquer mudança é sempre fruto da ação conjunta da célula toda, e a Vida apenas permanece como fruto de relações. Qualquer isolamento significa morte. Uma espécie de fraternidade faz, portanto, parte da essência da Vida não-consciente. Se na Vida consciente as coisas, frequentemente, são diferentes, não é a conversão ecológica, ressaltada pelos últimos papas, a única solução? A mesma teia de interrelações colaborativas que caracteriza a célula, caracteriza também o órgão no qual a célula está inserida. E assim também o organismo e as interrelações entre órgãos e organismo. Não importa tratar-se de uma humilde planta, um animal feroz ou qualquer outro ser vivo. Apenas a Vida consciente pode interferir no padrão das relações vitais, no sentido de efetivamente contrariá-las.

II –  Biomas: teias de vida partilhada

Estendendo agora o nosso olhar para os grandes biomas devemos, em primeiro lugar, perceber que a mesma teia de relações que caracteriza a Vida da célula caracteriza também o bioma. O caráter bioquímico da Vida não permite exceção à regra. Assim como a célula, o órgão e o organismo, também o bioma, por maior que seja, não é inteiramente autônomo. Através de suas divisas – sua “membrana” permeável – ocorre um permanente vai e vem de energias cósmicas que lhe dão sustento. As nuvens carregadas de vapor do mar trazem água, o elemento mais precioso e indispensável da natureza. Sobras são passadas adiante. Os ventos expulsam o calor excessivo do ar, restaurando a temperatura ideal. A energia solar está abundantemente disponível para a fotossíntese de todas as plantas verdes. Da mesma forma o oxigênio, fornecendo energia às mitocôndrias de todos os seres viventes. Como já vimos, é o meio ambiente adequado que permite à Vida prosperar.

Mas cada bioma tem também sua personalidade própria, sua identidade. E esta, também, se renova e se perpetua “por conta própria”, graças às inúmeras relações colaborativas que são específicas a ela. Um exemplo prático talvez ajude a esclarecê-lo. Recentemente, numa viagem ao sul do Pantanal com alguns familiares, passamos por uma estreita estrada de terra rumo à Pousada & Camping Santa Clara. Num determinado percurso de não mais de 30 km. passamos por quase 40 pontes de madeira, todas de difícil manutenção. Ao lado da estrada uma imensidão de água de sete metros de profundidade, quase cobrindo a mata verde, buscando uma saída apressada por baixo das pontes. Perguntando ao rústico mas bem informado guia turístico da Pousada sobre o porquê de tantas pontes de difícil e cara manutenção, obtive uma resposta muito esclarecedora. “Aqui no Pantanal”, dizia-me com simplicidade o simpático guia, “dependemos muito da água. Nas águas altas nem acesso à Pousada não tem. Repare naquela árvore. A parte mais escura do casco mostra que a água, ainda há pouco, estava acima da estrada. As muitas pontes estão aí para a água escoar o mais depressa possível. Daqui a dois meses todos os pastos por aqui estarão secos. Temos agora as últimas chuvas de verão. Elas são muito importantes para nós. O sedimento das águas deixa uma fina camada de lodo sobre as raízes da grama, não permitindo que a nova grama se desenvolva bem para o gado comer. A grama tem que crescer antes do tempo da seca. Sem estas chuvas o gado pode morrer e eu perco o meu emprego.”

Tiro na mosca. Da sabedoria humilde de um experiente pantaneiro recebi uma grande lição ecológica: cada bioma é uma autêntica teia de vida partilhada. Todos/as dependem de tudo e de todos/as. Na estrada passamos, de fato, por uma grande boiada, voltando dos poucos campos altos para as grandes baixadas. Seguramente mais de mil bois, todos miseravelmente magros, à espera de novos e mais generosos pastos. Entendi que, originalmente, cada bioma tem sua economia muito própria. Pareceu-me até que os boiadeiros haviam encarnado o lento mas seguro ritmo das estações. Amavelmente nos deixavam passar, mas sem nenhuma pressa, deixando aos bois a decisão de sair ou não do caminho. Nas pousadas por onde passamos encontramos na mesa os produtos locais, sempre com algum toque diferente, original. Produtos oferecidos com orgulho pantaneiro. Nas conversas não apenas o sotaque, mas todo um jeito próprio de sentir as coisas do lugar e contar sua história. Uma “cultura” própria, diríamos nós. Em fim, cada bioma com seu jeito particular de viver, conviver e sobreviver. Assim como na célula, assim no bioma. Uma grande teia partilhada.

Volto a perguntar: trata-se de um exagero falar em “fraternidade biológica”? Entendo que não, porque a mais perfeita fraternidade cristã nada mais é do que pôr em prática, conscientemente, o que a própria “Vida” é de forma inconsciente. A Vida é sempre uma teia de relações colaborativas. Em qualquer nível, por onde olharmos para ela, em nenhum momento encontramos a imposição de algum elemento não-colaborativo ou mal intencionado. É comum alguma influência estranha ou até ameaçadora entrar no sistema, mas o conjunto das relações colaborativas estará apto a oferecer resistência e recuperar o equilíbrio, ou então, lentamente, adaptar-se. Como tudo está interrelacionado, qualquer “meio ambiente”, grande ou pequeno, estará sujeito, historicamente, a momentos de crise, ou até, esporadicamente, a grandes cataclismas, mas sempre de novo cada sistema, e os diferentes sistemas entre si, por suas próprias forças vitais internas, voltarão, adaptando-se, ao velho ou a um novo equilíbrio.
Não é o tema de reflexão deste artigo, mas é preciso fazer menção a algo misterioso que as ciências da Vida têm muita dificuldade em captar. Algo natural, pois a ciência, por si só, não pode captá-lo. Apenas pela fé é possível captar o sentido mais profundo daquilo que chamamos “Vida”. O renomado filósofo alemão, Hans Jonas, usa uma expressão muito adequada. Em toda a criação, ele diz, existe um “horizonte de transcendência”. Por mais de um bilhão de anos, a Terra desconhecia a “Vida”. Apenas o interminável intercâmbio entre os elementos físico-químicos, em resposta ao meio ambiente cósmico. Mas existe uma espécie de “fraternidade inicial” entre os elementos da natureza. Suas diferentes polaridades elétricas os levam a “transcender” a individualidade e formar conjuntos marcados pela estabilidade. Em especial o carbono – a mãe de todos os produtos orgânicos – se presta a incontáveis combinações. Logo que o meio ambiente da Terra o permitiu, a fraternidade inicial evoluiu para a “fraternidade bioquímica” ou biológica que acima retratamos. De estágio em estágio, esta evolui na direção de uma complexidade cada vez maior. Dissemos acima que “o caráter bioquímico da Vida não permite exceção à regra”. Pois, a própria tendência à transcendência faz parte da regra! Após 620 milhões de anos de evolução, o cérebro humano possibilitou ao ser humano criar consciência de si mesmo e captar “o sentido” da Vida. Aí surge a “fraternidade consciente”, a marca registrada de todas as religiões, entre as quais a cristã.

Ninguém sabe qual o ponto final do processo. O inexistente não se sujeita à comprovação científica. Apenas a fé pode intuir a continuidade do “horizonte”. Nós, cristãos/ãs, acreditamos num “Reino” a construir, a “Nova Jerusalém” que, mais do que uma conquista, será um dom, pois “descerá do céu” (Ap 21,10). Ainda há um longo caminho à nossa frente. Quem sabe, uma globalização mais positiva possa um dia levar a humanidade a ter relações colaborativas muito mais amplas e profundas. As fraternidades conscientes construirão então a “Vida em Plenitude” sonhada por Jesus (Jo 10,10). Felicidade humana nada mais é do que isso.

III  – Por uma pastoral “em defesa da Vida”

Ocasionalmente alguns me perguntam: suas reflexões pastorais não são um pouco utópicas, longe da realidade pastoral do dia a dia? Digo: sim e não. A reflexão que acabo de fazer pode parecer teórica – e é -, mas ela é indispensável para quem, – padres, irmãs ou leigos/as -, se propõe a fazer algo concreto na direção do que pede a CF de 2017. Querer atuar “em defesa da Vida” sem ter uma clareza maior do que a “Vida” é, facilmente leva a equívocos. Apenas teorias, é verdade, de nada adiantam, pois a pastoral é feita de ações concretas, mas construir muros sem adequar o prumo é ilusório. É desperdício do nosso precioso tempo. Já dizia Santo Agostinho (†430) que não adiantam os grandes passos quando feitos nos caminhos errados. Por outro lado, lembrando meus tempos de professor de Pastoral, aprendi que “receitas prontas” não são muito educativas. Como vimos, a Vida apenas prospera com colaborações “autônomas”, embora integradas. Vamos tentar chegar mais perto do dia a dia sem cair na armadilha de aprisionar a criatividade.

3.1 Romper a couraça institucional

Esta é, no meu entender, a primeira pré-condição para um bom trabalho “em defesa da Vida”. E, acredite, ela mexe profundamente com nosso dia a dia. Se o papa insiste numa “Igreja em saída”, é porque estamos demasiadamente presos aos nossos incontáveis e incontornáveis compromissos paroquiais (ou institucionais). Estou em paróquia e sinto o desafio diariamente. Existe uma ciência, a da “cognição” ou “do conhecimento”, que afirma: nosso modo de atuar define o nosso modo de pensar! É, humanamente, quase impossível romper com as tradições que nos prendem, com as convenções sociais que nos ditam as regras, e com o contexto sócio-cultural que nos impede de ver o que está para além do nosso horizonte. Via de regra, o que se sedimentou no inconsciente fala mais alto do que o consciente.

Ora, não esqueçamos – especialmente nós, agentes pastorais, padres, religiosos/as ou leigos/as – que a Igreja, durante séculos, se manteve “avessa” ao mundo. A Igreja-Instituição se voltou com exclusividade para as preocupações intra-eclesiais. Depois do Concílio Vaticano II, marcadamente na América Latina, houve uma curta reação. As CEBs e as Pastorais Sociais deram um novo rosto à Igreja, mas, globalmente, as forças renovadoras não prevaleceram. Sem uma sacudida forte no ministério ordenado, especialmente por parte do Vaticano, o clericalismo irá prevalecer e os padres – em geral os animadores gerais do processo – se verão, na prática, presos aos limites impostos pela instituição. No momento do “agir”, a CF, seja no social, seja no ecológico, irá propor, sugerir, etc., mas ficará apenas no papel. Romper couraças institucionais é muito mais difícil do que imaginamos. Requer uma espécie de conversão. Quem quer partir “em defesa da Vida” deve largar (em parte!) a agenda paroquial, mobilizar tempo, e ir para onde a “Vida” corre perigo.

3.2 Saber articular-se

Esta é outra pré-condição. Hoje, em quase todos os cantos do Brasil, tem gente se preocupando com o meio ambiente. O grande bioma, pela sua enorme extensão, costuma ficar fora do alcance dos binóculos, mas lembrem: a “Vida” é feita de relações colaborativas. São tão importantes os níveis locais quanto os maiores. O bioma costuma ser dividido em grandes “bacias hidrográficas”. Estas são feitas de diferentes “sub-bacias” menores. E cada bacia menor se constitui de inúmeras “microbacias”. A “Vida” surgiu da água, e dela depende. Você que é padre, irmã, ou leigo/a, não vale a pena dar uma olhada ao redor, ver quem já está atuando, ou querendo atuar, e “articular-se” com estas pessoas “em defesa da “Vida”? Em certa fase de minha vida tive a oportunidade de atuar junto a uma ONG de meio ambiente de um pequeno município no interior do estado de São Paulo (na grande bacia hidrográfica do Rio Piracicaba).3 Fiz uma pequena cartilha popular sobre as 16 microbacias do município (Holambra). Cito uma parte do texto: “Microbacia é uma pequena área geográfica; toda água nela existente, ou toda chuva que nela cair, acaba fluindo para o mesmo córrego que lhe dá o nome”. E em destaque: “Todo ser humano vive numa microbacia. Não permita que se jogue qualquer sujeira nela. A microbacia é a sua casa”!

Você, leitor/a, já sabe o nome de “sua” microbacia? Procure saber e mãos à obra.4 O importante é “articular-se”. Mas, “ah!, são de outra religião”. Não importa. “São de outro partido”. Também não importa. “Não são da nossa paróquia”. Importa menos ainda. A única coisa que importa é “defender a Vida”. Com essa mania da nossa Igreja (ou será dos nossos bispos?) de apenas incentivar as pastorais “internas”, a “Vida” lá fora está numa agonia danada. Para muitos já é tarde demais para reverter a situação. Aliás, essa imperiosa necessidade de melhorarmos as nossas articulações não tem a ver apenas com o meio ambiente. É igualmente importante para todas as nossas pastorais sociais. Se em décadas passadas estas foram, quem sabe, até supervalorizadas, hoje elas – quando ainda existem – estão numa situação de dar dó. Frequentemente não existe mais nada, nem na Paróquia, nem na Região Pastoral. Não custa, porém, dar início a algo novo. Ultimamente, o que tem dado certo é a criação de pequenos “fóruns”. São mais maleáveis, pois podem priorizar ora a questão social, ora a questão ecológica. Por aqui criamos, de forma suprapartidária e suprarreligiosa, o nosso “fórum de entidades”. Estamos, neste momento, na preparação de um “Ato Ecumênico contra a violência” e, também, na preparação da nossa “Sexta Caminhada Ecológica”. Para esta última ainda falta definir o foco.

3.3 Focar nos inimigos do bioma

Seria muito saudável que todos/as fizéssemos uma boa análise da surpreendente Encíclica Laudato Si do papa Francisco. Não fala de biomas, mas está perfeitamente dentro daquilo “que a Vida é”. Mais de trinta vezes aborda o tema “tudo está interligado”.5 Mas, como o atual sucessor de Pedro não é de dar pontos sem nó, quase quarenta vezes cita como causa principal de uma eventual “catástrofe ecológica” (nº 4) o atual paradigma tecnocientífico, visto por todos os governos como o único caminho de enfrentamento e superação. Uma verdadeira ilusão global. Todos os biomas são fruto de uma delicada interrelação entre o clima predominante na área e uma grande variedade de condições locais, tais como: o tipo de solo, fauna e flora, a distribuição geográfica das águas, a densidade populacional, as condições de mercado, e até a tradição cultural das populações originárias. O que faz o tal paradigma tecnocientífico? Desconsidera e atravessa todas as condições específicas do bioma e impõe um sistema “exógeno” (extra-biômico) e único de produção e consumo, sem qualquer preocupação com as consequências sociais e ecológicas. Rasga-se simplesmente toda a “teia (tradicional) de vida partilhada”. E, como vimos acima, rasgando a teia da “Vida”, a morte é certa.

Evidentemente, trata-se de uma realidade mais visível nas áreas rurais do que nas áreas urbanas. Vocês que atuam numa área rural, seja na catequese, na liturgia, no dízimo, na pastoral familiar, da juventude, ou em qualquer outra pastoral ou movimento, já pensaram como incluir esta questão da defesa da “Vida” em sua agenda de trabalho? Vejam ao seu redor e reparem aonde o paradigma tecnocientífico está fazendo seus maiores estragos. Pode ser uma reserva indígena ameaçada que necessita, urgentemente, de apoio; uma quilombola prestes a ser invadida e fatiada pelo “progresso”; a crescente leva dos sem-terra; uma grande área de ribeirinhos que vê minguar sua tradicional fonte de proteínas (peixe?; produtos naturais?); uma rica reserva natural clamando por defensores; ou então, como ocorre na maioria dos casos, uma rica e produtiva agricultura orgânica e familiar que perde mercado porque todos/as se deixam seduzir pelos belos produtos apregoados na mídia. Ninguém se mexe, ninguém conscientiza, ninguém se articula contra? Perdida em meio às suas múltiplas e bem-intencionadas preocupações intra-eclesiais, a Igreja não pode correr o perigo de, pela omissão, ser como o “fermento” dos fariseus contra o qual Jesus admoestou os seus discípulos (Mt 16, 5-12)?

3.4 Valorizar o bioma como berço da fé

A configuração concreta da fé não é o/a missionário/a quem traz, mas o chão do bioma. O planeta Terra apresenta um grande mosaico de biomas. Em cada um deles, a “Vida”, como já vimos, tem rosto próprio. Os antropólogos culturais costumam ressaltar as grandes diferenças nos costumes e tradições das diferentes tribos e etnias. Nestas tradições, por mais que a modernidade queira eliminá-las, a fé ocupa um lugar central. Por quê? Simplesmente porque é, antes de tudo, o bioma que condiciona o modo do viver, do conviver e do sobreviver. Daí, desta realidade, nasce a comunicação humana, o modo de falar e o modo de pensar. Para manter a “Vida” de cada coletividade, inúmeras relações colaborativas são necessárias. Uma das principais é a busca coletiva do “sentido”, e é desta busca coletiva do sentido que nasce a fé da comunidade. O bioma é como que o berço da fé.
O chamado mundo cristão ocidental, com sua ânsia globalizadora – tanto na economia como também na fé -, por um longo tempo tentou passar por cima de tudo isto. Na economia, o pensamento único ainda é quase total, embora cresça, entre os descartados, a força de uma proposta alternativa (a economia solidária). Na fé, porém, as coisas já mudaram um bocado. Embora ainda com alguma restrição por parte do Vaticano, a ideia de uma “Revelação diferenciada”, tão cara ao teólogo belga Jacques Dupuis (†2004), se impôs entre os teólogos e, cada vez mais, também no senso de fé do povo cristão. Deus se revela em todas as religiões, e quanto maior o diálogo fraterno, mais rica a humanidade. Há quem creia que todas estas expressões de fé, que surgem das tradições populares, pertencem à “civilização agrária” que chegou ao fim. Seria preciso então mirar em algo totalmente novo para o futuro. Mais do que isso, creio que é preciso olhar para trás. Para o chão do qual nasce o ser humano e sua fé. Para a vida biológica que configura a “Vida” do ser humano. Um ser humano que sempre estará em busca de um sentido para a sua Vida, a fim de preservá-la o melhor que pode. Seu único recurso: a fé! Inclusive para ditar o rumo de sua economia.

Tudo isso é, pastoralmente, muito relevante. A missão da Igreja não deve ser globalizadora, mas “localizadora”. Valorizar mais a riqueza que cada bioma traz em defesa da “Vida”: acolher os modos de pensar característicos da população na evangelização, adotar as expressões típicas de sua mística na liturgia, e apoiar os caminhos próprios de sua população para superar os problemas por meio da ação sócio-transformadora. Em REB 298/2015, o missiólogo Paulo Suess comenta a fala do então (1992) cardeal Ratzinger, na comemoração do 5º Centenário da conquista das Américas, em Salzburg (Austria), tratando do tema “Evangelho e Inculturação”. Firmemente ancorado nas verdades incontestáveis da Congregação da Doutrina, o cardeal opina que uma “Páscoa curativa” deve sanar todas as culturas, não bastando a mera inculturação da fé. Dá para entender a preocupação do futuro papa, mas nós, cristãos/ãs, também precisamos de uma Páscoa curativa. A própria “Vida” nos ensina o caminho: o do diálogo fraterno, sem imposições.

Conclusão

Estabelecer um nexo entre biomas e fraternidade cristã, até muito recentemente, seria impensável. Mesmo hoje é preciso enfocar o tema de forma adequada para não tirar conclusões apressadas e sem nexo. Talvez, mais do que uma questão de doutrina, seja uma questão de espiritualidade. No cristianismo, mais importante do que o conhecer é o viver, o praticar.

Perceber que a fé cristã tem algo a ver com o ar que respiramos, com a flora e a fauna, e com as paisagens, as águas e o mar; dar-nos conta, enfim, que tudo está interligado, que não somos donos, mas parte da natureza, e que “somos todos terra”, como afirma o papa Francisco (LS 2), tudo isso está mais para sentimento, empatia e emoção do que para frias argumentações doutrinais. A Bíblia toda expressa esta reverência. Jesus a manifesta quando fala dos lírios do campo, e Francisco de Assis faz o mesmo quando pede ao irmão Antonio para, mais do que ensinar a doutrina teológica aos frades menores, se preocupe em ensinar o caminho da piedade. Sem uma mística, o ser humano não muda suas atitudes (LS 216).

Foi ao escrever este artigo que veio-me a ideia de fazer distinção entre fraternidade inicial, fraternidade biológica e fraternidade consciente. Não tenho dúvida que ocorreu um processo evolutivo neste sentido. A consciência humana, aliás, continua em evolução. Sem isto seria incorreto falar em “nova” concepção de vida fraterna. O amar ao próximo como a si mesmo não foi “inventado” por Jesus, como às vezes é sugerido. Já fazia parte da Antiga Aliança. Esta concepção religiosa nem é própria apenas da tradição semítica. Ela, embora com linguagens as mais diversas, é própria de todas as religiões, da humanidade enfim. Por trás de uma certa antropologia cultural – que marcou a nossa história escrita – devemos perceber a antropologia biológica que a antecedeu…. e que continua fortemente presente. Não se trata de uma linguagem meramente metafórica.

Na filosofia da nossa assim chamada pós-modernidade podemos observar uma fortíssima e surpreendente tendência para repensar a incansável busca humana por espiritualidade. Também a teologia moderna está em busca de um novo pensar sobre Deus e a religiosidade humana. Por mais importante que seja não perder de vista a riqueza das doutrinas acumuladas no passado, as ciências da “Vida” parecem sugerir que o melhor caminho talvez seja o de atentar melhor para “a Vida como ela é”, para assim captar, com maior segurança, o que possa ser a “Vida em Plenitude” almejada por Jesus. Neste sentido, também os biomas têm uma lição a dar. Que a Campanha da Fraternidade de 2017 nos ajude a não perder o foco.

Nicolau João Bakker, svd

Fonte: http://portalkairos.org/cf-2017-uma-nova-concepcao-de-vida-fraterna/#ixzz4EwiYPFFL

 

 

 

 

 

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Leitura rápida DOCUMENTO 105 CNBB -CRISTÃOS LEIGAS E LEIGOS NA IGREJA E NA SOCIEDADE –(Mateus 5,13-14)

CRISTÃOS LEIGAS E LEIGOS NA IGREJA E NA SOCIEDADE – Sal da Terra e Luz do Mundo (Mateus 5,13-14)

CNBB DOCUMENTO 105

O Documento 105 está dividido em três capítulos além de uma Introdução e conclusão. O primeiro capítulo é titulado “O Cristão Leigo, Sujeito na Igreja e no Mundo: esperanças e angústias” e trata da descoberta da vocação e missão do cristão leigo e leiga na Igreja e na Sociedade. O segundo capítulo é titulado: “Sujeito Eclesial: Discípulos Missionários e Cidadãos do Mundo” e trata da compreensão da identidade e da dignidade laical como sujeito eclesial e identifica a atuação dos leigos, considerando a diversidade de carismas, serviços e ministérios na Igreja.
O terceiro capítulo, o mais longo, é titulado “A Ação Transformadora na Igreja e no Mundo” e aborda a dimensão missionária da Igreja e indica aspectos, princípios e critérios de formação do laicato, e aponta ainda lugares específicos da ação dos leigos. A Conclusão apresenta nove aspectos de itens importantes encontrados no Documento da CNBB 105.

INTRODUÇÃO

3- A realidade eclesial, pastoral e social dos tempos atuais torna-se um forte apelo a uma avaliação, aprofundamento e abertura do laicato.
5-O Concílio Vaticano II propõe: “O Caráter secular caracteriza os leigos. A vocação própria dos leigos é administrar e ordenar as coisas temporais, em busca do Reino de Deus”.
6-O Beato Paulo VI lembra: Dos leigos, “a sua primeira e imediata tarefa não é a instituição e desenvolvimento da comunidade eclesial – esse é o papel específico dos pastores. A primeira e imediata tarefa dos leigos é o vasto e complicado mundo da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes..
7-Contudo, apesar do desenvolvimento da comunidade não ser a sua tarefa primeira, os leigos são chamados a participar da ação pastoral da Igreja (Documento de Aparecida n.211).
8-Portanto, o leigo não pode substituir o pastor naquilo que lhe compete por vocação, o pastor não pode igualmente substituir o leigo naquilo que lhe é próprio vocacionalmente.
11-A partir da sua vocação específica, cristãos leigos vivem o seguimento de Jesus na família, na comunidade igreja, no trabalho profissional, nas diversas participações na sociedade civil, colaborando assim na construção de uma sociedade justa e solidária.

Capítulo 1 – O CRISTÃO LEIGO, SUJEITO NA IGREJA E NO MUNDO: ESPERANÇAS E ANGÚSTIAS

Sal da Terra e luz do mundo (Mateus 5,13-14), assim Jesus definiu a missão que aos seus discípulos missionários confiou. As imagens do sal e da luz são particularmente significativas se aplicadas aos cristãos leigos . Nem o sal, nem a luz, nem a Igreja e nenhum cristão vivem para si mesmos. No caso dos cristãos, somente surtirão o efeito da Boa Nova, se estiverem ligados a Jesus Cristo (João 15,18).
O grande campo de ação dos cristãos é o mundo. Por isso o Concílio Vaticano II afirma que a Igreja está dentro do mundo, não fora. Na relação com o mundo a Igreja se vê pequena: pequeno rebanho, sal na comida, fermento na massa, semente lançada na terra.

CRISTÃOS LEIGOS NOS DOCUMENTOS DA IGREJA

Já em 1968 o documento de Medellin (n.10.2.6) destacava a importância da ação dos leigos cristãos na Igreja e na sociedade. Tal tema se repetiu no Documento de Puebla (1979- n.786) que identifica os leigos como homens e mulheres da Igreja no coração do mundo e homens e mulheres do mundo no coração da Igreja. O Documento de Santo Domingo (1992- n.98) os chamava de protagonistas da transformação da sociedade. Já o Documento de Aparecida (2007-n.213) pediu maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o ser e o fazer do leigo na Igreja, que por seu Batismo e Confirmação é discípulo e missionário de Jesus Cristo.
Em 1.999 o episcopado brasileiro lançou o documento 62 ”MISSÃO E MINISTÉRIOS DOS CRISTÃOS LEIGOS ” que oferece à Igreja orientação para o discernimento sobre o laicato e sua atuação na organização dos ministérios na comunidade.
Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (n.20.24) o Papa Francisco lança um vigoroso chamado para que todo o povo de Deus saia para evangelizar. Por último, o Ano da misericórdia (08/12/2015 a 20/11/2016) convida a abrir as portas do coração à prática das obras da misericórdia e ir ao encontro dos excluídos ou discriminados.

2- AVANÇOS E RECUOS

Em todo este período de destaque da vocação dos cristãos leigos , a partir do Concílio Vaticano II, houve avanços e recuos.

2.1- Avanços

1- A criação do Conselho Nacional do Laicato do Brasil.
2- Aumento do número de cristãos leigos que exercem o ministério de teólogos e pregadores da Palavra.
3- As pequenas comunidades onde acontecem a reflexão bíblica, celebrações da Palavra e escolas de teologia têm oportunizado espaços de participação e diversificação dos ministérios leigos.
4- Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos missionários estão surgindo em muitos lugares.
Com alegria e perseverança cristãos, leigos , visitam casas, hospitais, presídios e atuam em movimentos da Igreja e também sociais e políticos, colaborando na santificação das estruturas e realidade do mundo. Também dão atenção e cuidado aos migrantes, bem como a oferta de comunidades terapêuticas em atenção aos portadores de hanseníase e do vírus HIV, como também na pastoral do acolhimento e atendimento às pessoas necessitadas.
Leigos dinamizam a Pastoral do Dízimo e colaboram na transparente contabilidade das paróquias. Também mantém comunhão com seus pastores, seguindo os planos de pastoral da diocese e das paróquias que abraçam.
Há os cristãos, leigos e leigos, comprometidos com os movimentos sociais que buscam a dignidade da vida para todo e também aqueles que atuam voluntariamente no trabalho de cada dia, inclusive nas tarefas mais humildes. São eles o perfume de Cristo, a luz da Boa Nova, o fermento do Reino.
O Papa Francisco destaca que a atuação voluntária dos leigos na obra evangelizadora revela a revolução da ternura; o prazer de ser povo e a nova consciência de que a vida de cada pessoa é uma missão. Podemos afirmar, com alegria e renovada esperança, que os cristãos leigos são os grandes protagonistas desses avanços em unidade com seus pastores.

2.2- RECUOS

Lembrando que o mundo é o primeiro lugar da presença, atuação e missão dos cristãos leigos , vê-se que ainda é insuficiente e até omissa a sua ação nas estruturas e realidades do mundo, como nas universidades, nos ambientes do trabalho, da política, cultura, medicina, judiciário e outros. Isso acontece porque, apesar da insistência dos documentos da Igreja em apontar o mundo como primeiro âmbito da atuação dos leigos , há ainda uma grande parcela que tende a valorizar quase ou exclusivamente o serviço no interior da Igreja.
Outro problema que inibe o avanço da ação laical é a não participação dos leigos nos Conselhos Pastorais das Paróquias ou a proliferação de uns poucos cristãos “iluminados” que dominam o processo pastoral, excluindo uma grande maioria. Tudo isso colabora para a inibição da participação na dimensão social da fé. Então, a ação evangelizadora fica restrita à administração dos sacramentos somente às pessoas que procuram o batismo, o catecismo para a primeira Eucaristia, Crisma, Matrimônio. Ou atendendo às práticas devocionais e aos que participam das missas dos fiéis defuntos. Todas estas práticas retiram o protagonismo laical e centra a ação no sacerdote. Este tipo de prática pastoral revela a resistência quanto à opção pelos pobres, que são excluídos do processo único da sacramentalização e devocional.
Temos que considerar que tal realidade também é consequência da falta de uma séria formação de lideranças laicais. A formação que existe se dá, na maioria das vezes, de forma amadorística, gerando conflitos e submissão dos leigos ao clero ou a alguns leigos “iluminados”.

3- ROSTOS DO LAICATO

Os leigos que atuam nas nossas comunidades são casais cristãos que crescem na santidade familiar. Todas as crianças, frutos destes casais, que, participando ou não da catequese, também atuam na Infância Missionária e do serviço dos Coroinhas. Elas são germe de um laicato maduro.
As mulheres contribuem de forma indipensável na sociedade e nas responsabilidades pastorais. Todavia, a Igreja reconhece que ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Mais uma vez reafirmamos a opção preferencial pelos jovens e os idosos que têm merecido atenção do Papa Francisco e dos recentes Sínodos da Família.
Um número significativo de cristãos leigos vive como solteiros. Ser solteiro pode ser também uma opção de vida e um sinal de que a felicidade não está só no casamento ou vocação religiosa e sacerdotal. Aos viúvos e viúvas recordamos que desde o Antigo Testamento Deus se colocou ao seu lado (1Tm 5,16).
Lembramos com alegria dos cristãos leigos que são ministros da coordenação ou articulação paroquial e líderes nas dioceses e movimentos. Liderar é um ato de amor à Igreja. Enfim, entre tantos outros, há os que atuam nas pastorais e movimentos sociais, ONGs, partidos políticos, sindicatos, Conselhos de Políticas Públicas, como homens e mulheres da Igreja no coração do mundo.

CAMPO ESPECÍFICO DE AÇÃO: O MUNDO

Queremos recordar e insistir que o primeiro campo e âmbito da missão do cristão é o mundo. A vocação específica dos leigos é estar no meio do mundo, à frente de tarefas variadas da ordem temporal. Os cristãos leigos levam o Evangelho para dentro das estruturas do mundo, onde homens e mulheres vivem, agindo em toda parte santamente e consagram a Deus o próprio mundo.

O MUNDO GLOBALIZADO

Apesar de tantos avanços da atual sociedade globalizada (tecnologias, sistema jurídico e financeiro, sistema de controle social, e outros) há deficiências gritantes em relação ao direito comum das pessoas e dos povos, bem como em relação ao que permite a cada um viver a verdadeira felicidade. Por isso é chamada de “globalização da indiferença”.
Vivendo neste mundo, o cristão que não tem consciência de ser sujeito corre o risco da alienação, da acomodação e da indiferença. Precisamos vencer a indiferença com as obras de misericórdia para conquistar a paz. Caim se mostrou indiferente ao irmão. O bom samaritano, pelo contrário, deixou-se comover, aproximou-se e cuidou do próximo. Venceu a indiferença pela misericórdia. A globalização da indiferença, infelizmente, nos tornou insensíveis.
Neste mundo globalizado a alma do mercado entra na alma humana criando um círculo vicioso que incluiu de maneira perversa as mais diferentes condições de vida coletiva e individual. Esse é o ápice do processo da globalização econômica: o consumo se torna o modo de vida comum cada vez mais universalizado.
Essa lógica individualista se caracteriza por: 1-satisfação pessoal e indiferença pelo outro; 2- supremacia do desejo em relação às necessidades; 3- predomínio da aparência em relação à realidade; 4- inclusão perversa: são incluídos somente as pessoas que podem consumir; 5- falsa satisfação promovida pelo mercado de consumo que propõe felicidade efêmera através de produtos que meses ou dias após a aquisição se tornam obsoletos.

CONTRADIÇÕES DO MUNDO GLOBALIZADO

Os grandes problemas humanos estão presentes, em nível mundial e local, e expõem por si mesmos as contradições do sistema globalizado:
1-desenvolvimento da pobreza (o desemprego, a falta de moradia, a fome e a violência são hoje fatos mundiais); 2-confiança no mercado e crises constante (O Estado defende os mercados financeiro e produtivo investindo bilhões nestes ambientes, em detrimento das múltiplas formas de exclusão que persistem, como falta de moradia, escolas e outros itens básicos para uma vida digna); 3- enriquecimento de uns e a degradação ambiental; 4- bem estar de uns e exclusão da maioria: a humanidade permanece dividida entre alguns que têm muito e muitíssimos que não tem o mínimo para subsistir; 5- busca de riqueza e tráfico: tanto o tráfico de drogas como o de pessoas, o ser humano não passa de mercadoria que esvazia a sua dignidade; 6- segregação de grupos sociais privilegiados e segregação em bolsões de pobreza e miséria: a violência é o grande flagelo que também decorre dessa segregação e atinge todos os cidadãos; 7- redes sociais virtuais e indiferença real
É preciso dizer não a tudo isso

DISCERNIMENTOS NECESSÁRIOS

A Igreja vive dentro deste mundo globalizado, interpelada a um permanente discernimento. O desafio do cristão será sempre viver no mundo sem ser do mundo (Jo 17,15-16). Discernir significa aprender a separar as coisas positivas das negativas que fazem parte do mesmo modo da vida atual.
Viver na Igreja significa aprender permanentemente, a seguir o caminho e a verdade do Evangelho dentro das condições concretas do mundo. Para viver a sua missão no mundo de hoje, a Igreja como um todo e os cristãos leigos são desafiados à aprendizagem permanente de distinguir:
1-a pluralidade que respeita as diferenças, diferente do relativismo que se pauta na indiferença aos valores e aos outros.
2-a secularidade que valoriza as conquistas humanas e a liberdade religiosa, diferente do secularismo que considera Deus como intruso ou desnecessário.
3-os benefícios da tecnologia presente nas diversas dimensões da vida, diferente da dependência de aparelhos eletrônicos.
4-o uso das redes sociais como expressão de relações humanas, diferente da comunicação virtual que dispensa a relação pessoal.
5-o consumo de bens necessários à subsistência, diferente da busca desordenada da satisfação.
6-o uso do dinheiro para justa aquisição de bens, diferente da idolatria do dinheiro como valor absoluto que tudo direciona.
7-a autonomia, a liberdade e a responsabilidade pessoal, diferente do individualismo que nega o dever para com a vida comum.
8-os valores e as instituições tradicionais, diferente do tradicionalismo que se nega a dialogar com o mundo.
9-a vivência comunitária, que possibilita a justa relação do “eu” com o outro, diferente do comunitarismo sectário que isola o grupo do mundo.

TENTAÇÕES DA MISSÃO

O mundo influencia a Igreja, oferece-lhe tentações, inspira desvios, impõe modelos de vida, a ponto de mundanizá-la. Daí a necessidade contínua de renovação e conversão. Eis algumas tentações da Igreja:
1- ideologização da mensagem evangélica. Significa interpretar o Evangelho fora da Bíblia e da Igreja para defender interesses pessoais.
2- reducionismo socializante. Consiste em reduzir a Palavra de Deus a partir da ótica puramente social.
3- ideologização psicológica. Entende o encontro com Jesus Cristo como uma dinâmica psicológica do autoconhecimento.
4- proposta gnóstica. Costuma ocorrer quando grupos de “católicos iluminados” julgam ter uma espiritualidade superior à dos outros.
5- proposta pelagiana. Busca a solução dos problemas sem contar nem recorrer à graça de Deus.
6- funcionalismo. Consiste em apostar na função e na prosperidade do plano pastoral. Os sacramentos e a evangelização se transformam em função burocrática, sem conversão. A Igreja é assim transformada numa ONG.
7- clericalismo. O padre centraliza tudo em sua pessoa e poder pessoal e clericaliza os leigos “iluminados” que dominam os outros.
8- individualismo. Os individualismos religiosos isolam pessoas e comunidades, e não buscam a inclusão ou a comunhão.
9- comunitarismo sectário. É a atitude de quem vê sua fé verdadeira perante outras falsas. Os membros do comunitarismo sectário veem-se como salvos perante os outros, que não fazem parte do grupo, condenados.
10- secularismo. É a negação da religiosidade como dimensão do ser humano
O Papa Francisco ainda aponta outras tentações que podem incidir sobre os agentes de pastorais: 1- pessimismo estéril; 2- acomodação; 3- isolamento; 4- falta de valorização dos leigos; 5- falta de valorização da mulher; 6- falta de valorização dos jovens e idosos.

A NECESSÁRIA MUDANÇA DE MENTALIDADE E DE ESTRUTURA

A Igreja não é uma ilha de perfeitos, mas uma comunidade missionária e de aprendizagem em seu modo de ser, organizar e agir como seguidora de Jesus Cristo. Viver e atuar neste mundo globalizado implica mudança de mentalidade e de estruturas.
A inserção na realidade do mundo exige da Igreja como um todo ser:
1- Comunidade de discípulos de Jesus Cristo; 2- Escola de vivência cristã; 3- Organização comunitária feita de diversidade de sujeitos investidos de dons e funções distintos; 4- Comunidade inserida no mundo como testemunha e servidora do Reino de Deus que busca inserir a Boa Nova em todos os ambientes sociais; 5- Povo de Deus que busca também os sinais do Reino no mundo; 6- Comunidade que se abre permanentemente para as urgências do mundo; 7- Comunidade que mostra a fraternidade de ajuda e serviço mútuo, com especial atenção às pessoas mais frágeis e necessitadas; 8- Igreja em saída, de portas abertas, que vai em direção aos outros para chegar às periferias humanas e acompanhar os que ficaram caídos à beira do caminho.
A Igreja direcionada e pautada pelo Reino de Deus caminha para frente, dentro da história, com lucidez e esperança, com paciência e misericórdia, com coragem e humildade. A Igreja, com estas características, incluindo dentre elas as atitudes de escuta e diálogo, se insere no mundo como quem aprende e ensina, sabe dizer sim ao que é positivo e não ao que prejudica a dignidade humana. Assim a Igreja se insere no mundo com a atitude do serviço iluminado pela postura amorosa e serviçal presente na Santa Ceia.

CAPÍTULO 2

SUJEITO ECLESIAL: discípulos missionários e cidadãos do mundo

Jesus nos ensina a sermos sujeitos de nossa vida. Além de mestre, Jesus é o modelo para todo cristão que é chamado a ser sujeito livre e responsável, capaz de opções, de decisões e de um amor condicional. No seguimento de Jesus, como seus discípulos, todos somos sujeitos de nossa vida e de nossa missão, conscientes de nossa dignidade.
Neste capítulo retomamos a teologia à luz da eclesiologia do Vaticano II da Igreja como comunhão da diversidade. Pelos sacramentos da iniciação cristã, sobretudo pelo Batismo, todos nos tornamos membros vivos do povo de Deus.

IGREJA, COMUNHÃO NA DIVERSIDADE

O povo de Deus, a Igreja, e sua unidade se realiza na diversidade de rostos, carismas, funções e ministérios. Em função do bem comum, a comunidade organiza-se no compromisso de cada membro e busca os meios de tornar mais operantes os diversos dons recebidos do Espírito.
Os modelos de organização eclesial podem mudar ao longo da história; permanece, no entanto, a regra mais fundamental: a primazia do amor (1 Cor 13), da qual advém a possibilidade de integrar organicamente a diversidade e o serviço de todos os que exercem alguma função dentro da comunidade.

IGREJA, POVO DE DEUS PEREGRINO E EVANGELIZADOR

O povo de Deus, convocado por Cristo, que institui uma nova aliança, provém dentre judeus e gentios e cresce na unidade do Espírito (1 Pedro 2,10). Este povo tem a Cristo por cabeça. Sua condição é a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus. Sua Lei é o mandamento novo de amar como Cristo amou (João 13,34).
A noção da Igreja como povo de Deus lembra que a salvação, embora pessoal, não considera as pessoas de maneira individualista, mas como inter-relacionadas e interdependentes. A inter-relação e a interdependência levam a valorizar a diversidade de rostos, de grupos, de membros, de carismas e funções deste povo.
O sujeito da evangelização é todo o povo de Deus, a Igreja. Ela não pode perder de vista o serviço à vida e à esperança, através de uma obra evangelizadora audaz e missionária.

A IGREJA, CORPO DE CRISTO NA HISTÓRIA

Os cristãos são chamados a serem os olhos, os ouvidos, as mãos, a boca, o coração de Cristo na Igreja e no mundo. Esta realidade da presença de Cristo é explicitada na imagem proposta por Paulo, a de que a Igreja é o Corpo de Cristo (1 Coríntios 12,12-30; Romanos 12,4-5). Cristo vive e age na Igreja, que é seu sacramento, sinal e instrumento.
O Apóstolo Paulo deixa claro que Cristo é a cabeça deste corpo (Efésios 1,22). A primazia do Cristo-cabeça lembra à Igreja que Ele é o centro de tudo.

A INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ.

O Concílio Vaticano II valorizou a fundamentação sacramental da Igreja, especialmente pelos sacramentos da iniciação cristã. Esses sacramentos fundam a igual dignidade de todos os membros de Cristo. O Batismo nos incorpora a Cristo, pois fomos batizados num só Espírito para formarmos um só corpo (1 Coríntios 12,13; Efésios 4,5). A Crisma nos unge com o óleo do mesmo Espírito de Cristo para sermos defensores e difusores da fé. A Eucaristia une a todos na mesma fração do pão (1 Coríntios 10,17).
A tomada de consciência desta responsabilidade laical, que nasce do Batismo e da Confirmação, não se manifesta de igual modo em toda parte; em alguns casos, porque não se formaram para assumir responsabilidades importantes, em outros por não encontrar espaço nas suas Igrejas paroquiais para poderem exprimir-se e agir por causa de um excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões. Nesse sentido, há de se acolher a decisão que nós, bispos do Brasil, tomamos de fazer com que a catequese em nosso país se transforme em processo de inspiração catecumenal.

IDENTIDADE E DIGNIDADE DA VOCAÇÃO LAICAL

108- A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante do povo de Deus contribui para a união já que os pastores e os demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do Senhor, prestam serviço uns aos outros e aos fiéis: e estes deem alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores.
Por isso, não é evangélico pensar que os clérigos – ministros ordenados – sejam mais importantes e mais dignos, sejam mais Igreja do que os leigos. Esta mentalidade errônea, em seu princípio, esquece que a dignidade não advém dos serviços e ministérios que cada um exerce, mas da própria iniciativa divina, sempre gratuita, da incorporação a Cristo pelo Batismo.

O SACERDÓCIO COMUM

Os cristãos leigos são portadores da graça batismal, participantes do sacerdócio comum, fundado no único sacerdócio de Cristo. O sacerdócio batismal concede direitos na Igreja. Dentre outros, lembramos alguns: associar-se em movimentos de espiritualidade e de apostolado, conhecer a fé, participar dos sacramentos, manifestar-se e ser ouvidos em questões de fé, cooperar na edificação do povo de Deus, educar filhos na fé cristã. Aos direitos acrescentam-se os deveres: participar do múnus profético, sacerdotal e real, colaborar com os pastores na ação evangelizadora, dar testemunho do Evangelho em todos os ambientes. Para os exercícios destes direitos e deveres, nunca deveria faltar-lhes a ajuda dos ministros ordenados. A renovação da Igreja na América Latina não será possível sem a presença dos leigos, por isso, lhes compete, em grande parte, a responsabilidade do futuro da Igreja.

O PERFIL MARIANO DA IGREJA

Para compreendermos, em toda a sua grandeza e dignidade, a natureza e missão dos cristãos leigos, podemos dirigir o nosso olhar para Maria. Nela encontramos a máxima realização da existência cristã. Por sua fé e obediência à vontade de Deus e por sua constante meditação e prática da Palavra, ela é a discípula mais perfeita do Senhor. Mulher livre, forte e discípula de Jesus, Maria foi o verdadeiro sujeito na comunidade cristã.
Perseverando junto aos apóstolos à espera do Espírito, Maria cooperou com o nascimento da Igreja missionária, imprimindo-lhe um selo mariano e maternal, que identifica profundamente a Igreja de Cristo. Maria é a figura da Igreja. Ela precede todos os caminhos rumo à santidade. Na sua pessoa a Igreja já atingiu a perfeição.
Em Maria, mulher leiga, santa, Mãe de Deus, os fiéis leigos encontram razões teológicas para a compreensão de sua identidade e dignidade no povo de Deus. Maria é membro supereminente e de todo singular da Igreja, como seu tipo e modelo excelente na fé e na caridade.

VOCAÇÃO UNIVERSAL À SANTIDADE

Os cristãos leigos, homens e mulheres, são chamados antes de tudo à santidade. A santidade de vida torna a Igreja atraente e convincente, pois os santos movem e abalam o mundo. Se nem todos são chamados ao mesmo caminho, ministérios e trabalhos, todos, no entanto, são chamados à santidade.
Os cristãos leigos se santificam de forma peculiar na sua inserção nas realidades temporais, na sua participação nas atividades terrenas. Santificam-se no cotidiano, na vida familiar, profissional e social. Os santos movem o mundo. O horizonte para que deve tender todo caminho pastoral é a santidade.

LIBERDADE, AUTONOMIA E RELACIONALIDADE

É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gálatas 5,1). O cristão leigo é verdadeiro sujeito na medida em que cresce na consciência de sua dignidade de batizado. O cristão leigo também cresce em sua consciência de sujeito quando descobre que sua liberdade, autonomia e relacionalidade não são apenas características de cada ser humano maduro, mas quando experimenta essas características como dom do Cristo crucificado e ressuscitado.
Portanto, a Igreja é a comunhão de libertos para uma vida nova, para o serviço, em harmonia e respeito. A verdadeira comunhão cristã gera autonomia, liberdade e corresponsabilidade, por sua vez, estas são necessárias para a autêntica comunhão (Gálatas 2,1-2.9-11). É na Igreja e como Igreja que o cristão leigo vivencia a liberdade, a autonomia e a relacionalidade.

A MATURIDADE DOS CRISTÃOS LEIGOS

Os cristãos leigos são embaixadores de Cristo.e participam do pleno direito na missão da Igreja e tem um lugar insubstituível no anúncio e serviço do Evangelho.
130- Para uma adequada formação de verdadeiros sujeitos maduros e corresponsáveis para a missão, é necessário que a liberdade e autonomia se desenvolvam não no fechamento ou na indiferença, mas na abertura solidária aos outros e às suas realidades.
A vivência comunitária favorece o amadurecimento cristão, que acontece numa dinâmica que exige o equilíbrio entre o eu e o outro, sem isolamento nos dons e funções individuais e sem aniquilamento da individualidade em função da comunidade

ENTRAVES À VIVÊNCIA DO CRISTÃO COMO SUJEITO NA IGREJA E NO MUNDO

O cristão encontra alguns entraves para a vivência de sua fé de modo integral e integrado. Algumas oposições estão tão enraizadas na mentalidade e na prática das comunidades e dos fiéis que podem chegar a impedir alguns cristãos leigos a se verem como verdadeiros sujeitos na Igreja e no mundo. É empobrecedor, para a fé cristã, opor e excluir realidades que deveriam estar relacionadas e articuladas. Eis algumas delas:
1-Oposição entre fé e vida – segundo esta mentalidade e prática, o mundo da fé é superior e até mesmo oposto ao mundo da vida. Nos Evangelhos, ao contrário, Jesus nos mostra como a fé em Deus se expressa em torno das dimensões da vida: pessoal (Mateus 6,21); familiar (Mateus 19,14; Lucas 15,11); comunitária (Mateus 18,21); profissional (Lucas19,8); sociopolítica (Mateus 6,24). Por isso não podemos separar a fé da vida, mas pela fé viver e realizar ações consequentes para a revelação e expansão do Reino de Deus na história.
2-Oposição entre sagrado e profano – Isso acontece quando opomos objetos, pessoas, situações, tempos e lugares que seriam profanos de pessoas, situações, tempos e lugares ou objetos que seriam sagrados. Jesus não frequentava apenas as sinagogas (espaço sagrado), mas também atuava nas barcas, nas margens dos lagos, nas casas, nas cidades, nos caminhos. Jesus não viveu isolado, mas relacionou-se com todo tipo de pessoas. Chegou mesmo a dizer que os publicanos e as prostitutas precederiam os anciãos e os sumos sacerdotes no Reino de Deus (Mateus 21,31).
3-Oposição entre Igreja e o mundo – Para muitos a Igreja é vista como refúgio, arca da salvação, lugar para o encontro com Deus, enquanto o mundo é lugar do pecado, da perdição e da maldade. Por isso é preciso fugir do mundo e refugiar-se nas sacristias, conventos, mosteiros, Igrejas, templos. A novidade maravilhosa da Encarnação nos leva a valorizar este único mundo e esta única história, onde vivemos e que nos compete transformar em unidade com o todo do gênero humano. A Igreja está comprometida com este mundo como sacramento e sinal da salvação misericordiosa de Deus e, nesta missão, peregrina até que o Reino de Deus se manifeste plenamente em novo céu e nova terra.
4-Oposição entre identidade eclesial e ecumenismo – Há quem se preocupe que a opção da Igreja pelo ecumenismo possa levar à perda da identidade católica. Por isso se fecham em suas comunidades e não conseguem ver as expressões evangélicas presentes em outras igrejas cristãs. Devemos lembrar que o diálogo ecumênico é uma postura inerente à natureza e missão da Igreja e não simplesmente uma estratégia de evangelização. Portanto, quanto mais católica, mais dialogal será a Igreja. Tal atitude colabora para que o desejo de Jess se realize: “que todos sejam um” (João 17,21).
A valorização das tarefas no interior da Igreja em detrimento dos compromissos com a inserção na realidade leva os cristãos leigas e leigos à esquizofrenia religiosa: o cristão leigo corre o risco do comodismo, da indiferença, da intolerância e da incoerência em sua vida de sujeito eclesial e cidadão do mundo.

ÂMBITOS DE COMUNHÃO ECLESIAL E ATUAÇÃO DO LEIGO COMO SUJEITO

Temos insistido que a presença e atuação dos cristãos leigas e leigos se dá na Igreja e no mundo. No âmbito da Igreja há muitos espaços nos quais os cristãos leigos exercem o seu ser e seu agir cristãos. Citamos alguns deles:

A FAMÍLIA, que é o âmbito não só da geração, mas também do acolhimento da vida que chega como um presente de Deus. É a beleza de ser amado primeiro: os filhos são amados antes de chegar. Na celebração sacramento do matrimônio os cristãos leigos exercem seu sacerdócio batismal. Eles são os ministros da celebração. Exercem seu sacerdócio, não só na celebração, mas igualmente n a consumação do sacramento, na geração e educação dos filhos. Santificam-se no cotidiano da família, Igreja doméstica.
A PARÓQUIA E AS COMUNIDADES ECLESIAIS: são espaço para a vivência da unidade na diversidade em que os cristãos leigos atuam como sujeitos e tem cidadania plena. As pequenas comunidades, onde se celebram as reflexões bíblicas e as novenas ou encontros nos tempos fortes, os grupos de terço, as pastorais são formas concretas de comunhão e participação nas quais o cristão leigo atua como sujeito eclesial.
OS CONSELHOS PASTORAIS E OS CONSELHOS DE ASSUNTO ECONÔMICO: consequência do espírito da Igreja vivida em comunhão, fundamentada na Santíssima Trindade. A ausência dos Conselhos Pastorais é reflexo da centralização da Igreja na figura do padre. Criem-se os Conselhos de Pastoral em todos os níveis: comunitário, paroquial, diocesano, regional e nacional. Reconhecemos que estamos muito atrasados nisso. Os Conselhos devem ser apoiados, acompanhados e respeitados, superando qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão. Os Conselhos de Assuntos Econômicos são determinantes para todas as pessoas jurídicas da Igreja e têm a tarefa de colaborar na administração, manutenção e planejamento financeiro das comunidades, paróquias e dioceses. A concordância entre o Conselho Econômico e o Conselho Pastoral contribui para que não aconteça o mau uso do dinheiro e a prática da corrupção na Igreja, mas transparência na prestação de contas a quem a sustenta e ao Estado.
AS ASSEMBLÉIAS E REUNIÕES PASTORAIS: Nas assembleias e reuniões pastorais aprende-se a ser Igreja. Elas precisam ser bem preparadas, com boa recepção, metodologia, oração e espiritualidade. Deve haver, com antecedência, estudo de algum trema ou reflexões provocadas por perguntas que farão parte da pauta no dia da assembleia. Nas assembleias temos oportunidade de ser Igreja comunidade, Igreja família, Igreja comunhão. Ciúmes, fofocas, manipulações, além de trazer divisões, agressões, brigas, causam fracasso pastoral.
AS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE E AS PEQUENAS COMUNIDADE: são uma forma de vivência comunitária da fé, de inserção na sociedade, de exercício do profetismo e de compromisso com a trans formação da realidade sob a luz do Evangelho. As pequenas comunidades, como lembra o Documento de Aparecida no número 308, são ambientes propícios para escutar a Palavra de Deus, para viver a fraternidade, para animar na oração, para aprofundar processos de formação na fé e para fortalecer o exigente compromisso de ser apóstolo na sociedade hoje.

CRITÉRIOS DE ECLESIALIDADE

Para preservar a unidade da Igreja, o Papa Francisco, como também São João Paulo II, lembram que as comunidades cristãs devem seguir os seguintes critérios:
1-primazia à vocação de cada cristão; 2- responsabilidade em professar a fé católica no conteúdo integral; 3- o testemunho de uma comunhão sólida com o Papa, com o Bispo, com o Pároco na estima recíproca de todas as formas de apostolado na Igreja; 4- A conformidade e a participação na finalidade apostólica da Igreja, que é a evangelização e santificação das pessoas; 5- O empenho de uma presença na sociedade a serviço da dignidade integral da pessoa humana mediante a participação e solidariedade para construir condições mais justas e fraternas.

CARISMAS, SERVIÇOS E MINISTÉRIOS NA IGREJA

Assim como Deus é um na diversidade das três pessoas, também a Igreja é unidade na diversidade. O mesmo Espírito divino que garante a comunhão na mesma fé e no mesmo amor, em um só Senhor e um só Batismo (Efésios 4,5), suscita também a diversidade de dons, carismas e serviços e ministérios no interior da Igreja. A diversidade de dons suscitada pelo Espírito possibilita respostas criativas aos desafios de cada momento histórico (1 Coríntios 12, 4-10; Romanos 12, 6-8; 1 Pedro 4, 10-11).
Por meio dos carismas, serviços e ministérios, o Espírito Santo capacita a todos na Igreja para o bem comum, a missão evangelizadora. E a transformação social, em vista do Reino de Deus. Carismas, segundo São João Paulo II, são dons e impulsos especiais que podem assumir as mais variadas formas, como expressão da liberdade absoluta do Espírito e como resposta às necessidades da Igreja; têm uma utilidade eclesial, quer sejam extraordinários ou simples.
É importante destacar que todo ministério é um carisma, por ser um dom de Deus, mas nem todo carisma é um ministério, pois o ministério assume a forma de serviço, bem determinado, envolvendo um conjunto mais amplo de funções que responda a exigências permanentes da comunidade e da missão, comporte verdadeira responsabilidade e seja colhido e reconhecido pela comunidade eclesial.
O empenho para que haja participação de todos nos destinos da comunidade supõe reconhecer a diversidade de carismas e ministérios dos leigos. Por isso não é mais possível pensar uma Igreja que não incentive a participação e a corresponsabilidade dos cristãos, leigos, na missão.

SERVIÇO CRISTÃO AO MUNDO

A atuação cristã dos leigos no social e no político não deve ser considerada ministério, mas serviço cristão ao mundo na perspectiva do Reino. Assim, a participação consciente e decisiva dos cristãos em movimentos sociais, entidades de classe (sindicatos), partidos políticos, conselhos de políticas públicas e outros, sempre à luz da Doutrina Social da Igreja, constitui-se num inestimável serviço à humanidade e é parte integrante da missão de todo o povo de Deus. Portanto, ser cristão, sujeito eclesial e ser cidadão não podem ser vistos de maneira separada.
Permanecendo Igreja, como ramo na videira (João 15,5) o cristão leigo transita no ambiente eclesial (Igreja) ao mundo civil, para, a modo de sal, luz (Mateus 5,13-14) e fermento (Mateus 13,33; Lucas 20,21), somar com todos os cidadãos de boa vontade, na construção da cidadania plena para todos. Não é preciso sair da Igreja para ir ao mundo como não é preciso sair do mundo para entrar e viver na Igreja.

CAPÍTULO III
A AÇÃO TRANSFORMADORA NA IGREJA E NO MUNDO

Antes de deixar este mundo, Jesus Cristo enviou seus discípulos em missão: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura” (Marcos 16,15). Jesus envia seus discípulos como fermento, sal e luz ao mundo. O fermento, quando misturado à massa, desaparece. No entanto, a massa já não é mais a mesma. A ação dos cristãos leigas e leigos na caminhada da Igreja é história viva, sofrida e frutuosa.

IGREJA COMUNIDADE MISSIONÁRIA

A Igreja em “chave de missão” significa estar a serviço do reino, em diálogo com o mundo, inculturada na realidade histórica, inserida na sociedade, encarnada na vida do povo. Uma Igreja em saída entra na noite do povo, é capaz de fazer-se próxima e companheira, mãe de coração aberto, para curar feridas e aquecer o coração.
A Igreja é comunhão no amor, seguidora de Cristo e servidora da humanidade. Por isso a essência da Igreja é a missão, a Igreja é toda ela missionária. Igreja é a comunidade de missionários que age na terra segundo o modelo das três pessoas divinas, que tudo fazem em vista do Reino, do amor, justiça e paz.
O Papa Francisco quer uma Igreja de portas abertas, mais forte no querigma do que no legalismo. Uma Igreja da misericórdia mais do que da severidade.
O Papa Francisco diz que não podemos ficar tranquilos no templo, nem dizer que foi sempre assim. A vida é uma missão. Os cristãos leigos , motivados pelo Para Francisco, não terão medo de se sujar com a lama da estrada. Antes, terão medo de ficar fechados nas estruturas que criamos. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus.
O Papa Francisco afirma que cada cristão, consciente do seu batismo, deve dizer: “Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou no mundo”. Quando todos os cristãos, leigos, como também os ministros ordenados tiverem esta consciência faremos a passagem de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária.
O cristão discípulo missionário enfrentará como profeta, as realidades que contradizem o Reino de Deus e insistirá em dizer: Não a uma economia da exclusão. Não à cultura do descartável. Não à globalização da indiferença. Não à especulação financeira. Não ao dinheiro que domina ao invés de servir. Não à desigualdade social que gera violência. Não à fuga dos compromissos. Não ao pessimismo. Não à guerra entre nós Ficar na pastoral de mera conservação é não ter coragem para enfrentar estas situações. Embora não desgastados por este enfrentamento, as comunidades cristãs que primam só pela conservação com certeza perderão o entusiasmo, e a alegria que brota da verdadeira missão. Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário. Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização. Não deixemos que nos roubem a esperança. Não deixemos que nos roubem a comunidade. Não deixemos que nos roubem o Evangelho. Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno. Eis o que significa ser missionário no mundo globalizado, consumista e secularizado.

IGREJA POBRE, PARA OS POBRES, COM OS POBRES

Jesus se fez pobre para todos salvar. Por isso há que se afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres, O Papa Francisco afirma que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual.
O Documento de Aparecida descreve que são estes pobres que precisam do cuidado espiritual: pessoas que vivem e moram nas ruas, os migrantes, os enfermos, os dependentes de drogas, os detidos nas prisões.
O que nos move à missão? Quando olhamos os rostos dos que sofrem, do trabalhador desempregado, da mãe que perdeu o filho para o narcotráfico, da criança explorada, quando recordamos estes rostos e nomes, estremecem nossas entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos. Isso nos comove e faz chorar e nos impele à missão, disse o papa Francisco no II Encontro Mundial de Movimentos Populares.

A IGREJA DO SERVIÇO, DA ESCUTA, DO DIÁLOGO

A Igreja se propõe a trabalhar na construção de uma cultura do encontro. Isso implica não se fechar na própria comunidade, no grupo de amigos, na própria religião, em si mesmo. Na cultura do encontro todos contribuem e recebem. Trata-se de uma postura aberta e disponível para a qual é necessária uma humildade social que considere, por exemplo, a importância das culturas e religiões e o respeito aos direitos autênticos de cada um. Trata-se de um desafio para toda a Igreja, passar de atitudes fechadas à formação de uma nova cultura, que constrói cidadania no diálogo e que não tem medo de acolher o que o outro, o diferente, tem a oferecer. Esse é o espaço aberto para os cristãos leigos, nesta sociedade dilacerada pelo desrespeito ao diferente, pela intolerância e pelo medo do outro.

UMA ESPIRITUALIDADE ENCARNADA

Uma espiritualidade encarnada caracteriza-se pelo seguimento de Jesus, pela vida no Espírito, pela comunhão fraterna e pela inserção no mundo. Não podemos querer um Cristo sem carne e sem cruz.. A espiritualidade cristã sempre terá por fundamento os mistérios da encarnação e da redenção de Jesus Cristo. Esse enfoque deve permear a formação laical desde o processo da iniciação cristã.
A partir de Jesus Cristo, os cristãos leigos infundem uma inspiração de fé e amor nos ambientes e realidade em que vivem e trabalham. Em meio a missão, como sal, luz e fermento, leigos e leigas, nos ambientes em que vivem no mundo, testemunham sua identidade cristã, como ramos na videira, na comunidade, na fé, oração e partilha.
Para que esta atitude esteja fortalecida, a oração e a contemplação são fundamentais. É preciso cultivar um espaço interior dinamizado por um espírito contemplativo que permita um encontro significativo com o Deus revelado por Jesus Cristo, que nos permite descobrir que somos depositários de um bem que humaniza, que nos ajuda a viver uma vida nova, portanto, a buscar esta vida nova para todos.
O verdadeiro trabalhador da vinha nunca deixa de ser discípulo. A experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo sempre renovada é a única capaz de sustentar a missão. Por isso o discípulo missionário deve dedicar tempo à oração sincera, que leva a saborear a amizade e a mensagem de Jesus.
Em virtude do Batismo, que está na origem do sacerdócio comum dos fiéis, os cristãos leigos são chamados a viver e a transmitir a comunhão com a Trindade, fonte de nossa vida comunitária e do amor transbordante que devemos testemunhar.
O Apóstolo Paulo destaca o fundamento trinitário da vida em comunidade, feita de diversidades e de unidade. O Deus, uno e trino, é fonte e modelo de toda vida comunitária. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos (1 Crríntios 12,4-6).
Um desafio para os cristãos leigos é superar as divisões (Atos 2,42-45;4,32-35) e avançar no seguimento de Cristo, aprendendo e praticando as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do Mestre Jesus: sua obediência ao Pai, compaixão diante da dor humana, amor serviçal até o dom de sua vida na cruz: “ Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8,34).

ESPIRITUALIDADE DA COMUNHÃO E MISSÃO

Em sua inserção no mundo, os cristãos leigos são convidados a viver a espiritualidade de comunhão e missão. Comunidade missionária, a Igreja está voltada ao mesmo tempo para dentro e para fora. Para que este movimento seja eficaz, é necessária a espiritualidade da comunhão que gera a abertura ao diferente. O outro não é apenas alguém, mas um irmão, dom de Deus, continuação da Encarnação do Senhor. O outro é diferente de mim. E esta diferença nos distingue, mas não nos separa. Espiritualidade de comunhão e missão significa respeito mútuo, diálogo, proximidade, partilha, benevolência e beneficência.
A espiritualidade da comunhão e missão se comprova no esforço e na prática da misericórdia, do perdão da reconciliação e da fraternidade, até o amor aos inimigos. Sem a espiritualidade de comunhão e missão caímos nas “máscaras de comunhão” e damos espaço ao terrorismo da fofoca, às suspeitas, ciúmes, invejas que são sentimentos e atitudes destrutivas.

MÍSTICAS QUE NÃO SERVEM

Há certo cristianismo feito de devoções- próprio de uma vivência individual e sentimental da fé – que na realidade não corresponde a uma autêntica piedade popular. Alguns promovem estas devoções sem se preocupar com a promoção social e a formação dos fiéis, fazendo em alguns casos para obter benefícios econômicos ou algum poder sobre os outros.
O Papa Francisco alerta que a missão precisa do pulmão da oração, da mística, da espiritualidade, da vida interior. Todavia, continua o papa, “Não nos servem, para a missão, místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e ações pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração”.

ESPIRITUALIDADE POPULAR

O povo se evangeliza a si mesmo iluminado pelo Espírito Santo. A religiosidade popular é fruto do evangelho inculturado, é um lugar teológico ao qual devemos prestar atenção porque tem muito para nos ensinar.
Pensemos na fé firme das mães rezando ao pé da cama de seus filhos doentes, na carga imensa de esperança contida numa vela acesa, no olhar que se volta para o crucifixo, para o céu, para Maria e os santos. A espiritualidade popular, que também precisa ser evangelizada, revelam a fé e o amor a Deus neste ambiente de secularização e de indiferença religiosa em que vivemos. A espiritualidade popular é uma confissão de fé que evangeliza filhos, vizinhos, parentes, amigos e toda a sociedade.

O MUNDANISMO ESPIRITUAL

Uma forma de mundanismo espiritual, segundo o Papa Francisco, consiste em só confiar nas próprias forças e se sentir superior aos outros por ser fiel a certo estilo católico, próprio do passado. O mundanismo espiritual atinge tanto a liturgia como a militância social: 1- há uma pretensão de dominar o espaço da Igreja com um cuidado exibicionista da liturgia; 2- por outro lado, o mundanismo espiritual se esconde atrás do fascínio de poder mostrar conquistas sociais e políticas.

A PRESENÇA E ORGANIZAÇÃO DOS CRISTÃOS LEIGOS NO BRASIL

Durante a primeira metade do século XX constatamos a presença das confrarias e associações que em geral eram conduzidas pelo clero. Em 1935, no Brasil, foi oficializada a Ação Católica Geral e, mais tarde, a Ação Católica Especializada, que acolhia a Juventude Agrária Católica, Juventude Estudantil Católica, Juventude Operária Católica, Juventude Universitária Católica e Ação Católica Operária. Articulada em âmbito nacional, a Ação Católica teve presença significativa na realidade da Igreja e social daquele período. Nos anos que antecederam o Concílio Vaticano II, os membros da Ação Católica descobriram que sua ação decorria do batismo recebido e não de um mandato do bispo. Esta nova consciência gerava o compromisso com a ação transformadora da sociedade, buscando impregná-la dos valores evangélicos. Neste período também foi sendo delineado os traços da teologia do laicato e por conseguinte o estatuto próprio do leigo na Igreja como iria aparecer mais tarde.
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), constituídas no Brasil, desde 1960, assumem como centro a Palavra sempre numa dimensão missionária que conduz ao engajamento nas lutas de transformação da sociedade na perspectiva do Reino de Deus.
Outro espaço privilegiado de participação dos cristãos leigos, são as Pastorais Sociais. Elas significam a solicitude e o cuidado de toda a Igreja missionária diante de situações reais de marginalização, exclusão e injustiça. A sua atuação deve ser profético-transformadora, indo além do assistencialismo.
Ressaltamos a participação do cristão leigo, jovem, na Igreja e no mundo através das diversas pastorais da juventude: Juventude Estudantil, Universitária, Rural, etc. Destacamos os incontáveis cristãos leigos que atuam nas universidades, escolas, hospitais, asilos, creches, ,meios de comunicação, onde quer que seja, evangelizando pelo testemunho e contribuindo para a expansão do Reino de Deus.
A participação e presença dos cristãos leigos acontecem também na dinâmica interna das comunidades nos conselhos econômicos, pastorais, na vida litúrgica, nas diversas pastorais, na catequese. São jovens, adultos, idosos e até crianças que se colocam à serviço da dinâmica da Igreja no ambiente interno da evangelização.

O CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL

Nos anos de 1970, no Brasil, fruto do Concílio Vaticano II, criou-se o então Conselho Nacional dos Leigos, hoje Conselho Nacional do Laicato do Brasil. A partir de 1964, com o golpe militar e também conflitos com a hierarquia e outros segmentos leigos, resultou na extinção da Juventude Universitária Católica e da Juventude Estudantil Católica. Em 1970, na 11ª Assembleia Geral da CNBB foi aprovada, com a participação de leigos, o Secretariado Nacional do Apostolado Leigo que, em 1975 criou o Conselho Nacional dos Leigos.
Todo este esforço para organizar a ação laical na Igreja e no mundo tem seus fundamentos. Na evangelização do mundo de hoje há questões às quais só os cristãos leigos oficialmente organizados podem dar respostas como Igreja inserida no mundo. O Documento de Aparecida, em seu número 215, destaca: “Reconhecemos o valor e a eficácia dos Conselhos paroquiais, Conselhos Diocesanos e nacionais de fieis leigos, porque incentivam a comunhão e a participação na Igreja e sua presença ativa no mundo”.
O tema do laicato retornou na Assembleia da CNBB em 1998, que gerou o Documento 62 sobre a Missão e Ministérios dos leigos. Este documento, no número 191, diz: “é desejável que em sua missão os cristãos leigos, superando eventuais divisões e preconceitos, busquem valorizar suas diversas formas de organização, em especial os Conselhos de Leigos em todos os níveis”
Em 2004 a CNBB aprovou o estatuto do Conselho Nacional dos Leigos do Brasil (CNLB). Além de ser um organismo de comunhão, o CNLB tem por objetivo criar e apoiar mecanismos de formação e capacitação que ajudem o laicato a descobrir sua identidade, vocação, espiritualidade e missão, com vistas à construção de uma sociedade justa e fraterna, sinal do Reino de Deus.

DIVERSAS FORMAS DE EXPRESSÃO LAICAL

Destacamos a presença muito viva das associações laicais nascidas a partir dos carismas das ordens e congregações religiosas, que contribuem para que muitos cristãos leigos vivam profunda espiritualidade e assumam presença junto aos mais pobres, numa perspectiva de assistência, promoção humana e no compromisso sociotransformador.
A Igreja conta hoje com uma gama variada de associações de fiéis que agregam leigos, outras que agregam leigos e clérigos e ainda aquelas que contemplam leigos consagrados. Há também as novas comunidades, que têm emergido com significativa força, centradas nos laços comunitários, que pedem de cada membro uma adesão estável visível e institucionalizada. Muitas delas configuram um espaço misto de vida leiga, religiosa e clerical.
Todas as formas de associação existem para a edificação da Igreja e para contribuir com a sua missão no mundo. Nesse sentido, são de grande atualidade as orientações dadas pelo Apóstolo Paulo à comunidade de Corinto: os dons existem para a edificação da Igreja e não podem servir como busca de poder religioso dentro da comunidade (1 Coríntios 12,28—13.14

A FORMAÇÃO DO LAICATO

Cada organização laical deve assumir a formação de seus membros como primordial, o que exige empenho de todos. Sem uma formação permanente, contínua e consistente, o cristão leigo corre o risco de estagnar-se em sua caminhada eclesial. A formação do sujeito eclesial, para ser integral precisa considerar as dimensões humana e espiritual, teológica e pastoral, teórica e prática.

A FORMAÇÃO DE SUJEITOS ECLESIAIS

A Igreja, particularmente os bispos e os presbíteros, tem a missão de formar cristãos leigos missionários, conscientes e ativos, de forma que cada qual venha a contribuir com a educação dos demais numa ação de aprendizagem mútua por todos os meios que sejam necessários.
A formação contínua dos cristãos leigos implica em amadurecimento contínuo da missão para que de fato a Igreja esteja sempre em saída, enfrentando os inúmeros desafios do século XXI.

FUNDAMENTOS DA FORMAÇÃO

A formação é uma exigência de nossa condição humana, pois convivemos com limitações. Isso exige de todo o Povo de Deus, e de cada um em particular, a busca permanente da compreensão e da vivência da nossa fé. Por essa razão, é necessário encontrar, em cada contexto, os meios mais adequados de compreensão e comunicação do Evangelho, recorrendo para tanto à teologia e as diversas ciências. As mudanças rápidas e profundas pelas quais passam a sociedade e a própria Igreja exigem cuidado especial para que uma formação adequada permita que mensagem se torne compreensível e promova o desejo de seguir o projeto de Jesus Cristo.

PRINCÍPIOS DA FORMAÇÃO DO LAICATO

A formação, entendida como educação permanente da fé, possui um aspecto espontâneo que acontece na vivência prática da própria fé. A formação possui também um aspecto sistemático e formal como atividade planejada e executada pela e na comunidade eclesial. Isso se refere a todas as modalidades de formação oferecidas em cursos regulares: formação básica oferecida a todos os sujeitos em suas respectivas comunidades, bem como formação específica relacionada a cada função e a cada grupo eclesial.
A formação deve contribuir para que os cristãos leigos vivam o seguimento de Jesus Cristo e deem resposta do que significa ser cristão hoje, no Brasil e no mundo, situando-os como cristãos no lugar e na época em que vivem. Para pensar a formação, devemos fazê-lo a partir dos sinais dos tempos, do nosso continente, marcado pela cultura cristã e pela pobreza.
A Doutrina Social da Igreja oferece critérios e valores, respostas e rumos pra as necessidades, as perguntas e questionamentos da ordem social, em vista do bem comum. Lamentavelmente esta Doutrina ainda é muito desconhecida nos diversos setores da Igreja.
Fundamentada na Palavra de Deus e nos documentos do Magistério da Igreja, a formação do laicato católico terá as seguintes características:
1- Mistagógica- relacionada com a catequese, a liturgia e a vida para favorecer a conversão pessoal e pastoral.
2- Integral- para responder aos aspectos da fé, da razão, da emoção e da espiritualidade.
3- Missionária e Inculturada- para que os cristãos, conscientes da sua vocação e missão, vão ao encontro dos demais em sua realidade.
4- Articulada – de modo a superar as separações entre fé e vida, Igreja e mundo, clero e leigo.
5- Prática- de modo que o cristão leigo e leiga se insiram na realidade da sociedade como agentes de transformação.
6- Dialogante, que destrói os muros que separam as pastorais e as comunidades, superando isolamentos e autoritarismos eclesiais e sociais.
7- Específica- de modo que atenda às necessidades de cada ação pastoral na Igreja e na Sociedade.
8- Permanente e atualizada – capaz de acompanhar e responder com prontidão aos desafios advindos da realidade global e local, levando sempre em conta as orientações da Doutrina Social da Igreja.
9- Planejada- pedagogicamente organizada a partir de projetos tecnicamente elaborados com garantia de recursos capazes de responder aos proposto nos itens anteriores.

PROJETO DIOCESANO DE FORMAÇÃO

O Documento de Aparecida, no número 281, ressalta a necessidade de que cada diocese tenha um projeto de formação do laicato. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora na Igreja do Brasil 2015-2019 enfatiza um projeto diocesano de formação para os leigos que contemple:
1-objetivos, diretrizes, prioridades e meios articulados com o plano pastoral dicoesano. 2-formação básica de todos os membros da comunidade; formação específica, conforme os campos da missão, especialmente de quem atua na sociedade e dos formadores. 3- aprimoramento bíblico-teológico dos cristãos leitos e leigas 4-presença de cristãos leigos na coordenação e execução do projeto. 5- diálogo com as diferentes formas organizativas dos cristãos leigos . 6- união entre fé, vida e liturgia para a autenticidade da vida comunitária e testemunho evangélico na transformação da sociedade.

A AÇÃO TRANSFORMADORA DO CRISTÃO LEIGO NO MUNDO

O Reino de Deus é dom e missão. Como dom deve ser acolhido e como missão deve ser buscado, testemunhado e anunciado. Para esta missão a Igreja contribui em comunhão com todos os homens e mulheres que buscam construir uma sociedade justa e fraterna.
A Igreja existe para o Reino de Deus. Dessa convicção ela se nutre e nessa direção se organiza em suas estruturas. Pela força do Espírito a ação da Igreja é direcionada para fora de si mesma como servidora do ser humano, buscando a transformação da sociedade através das graças do Reino de Deus.

MODOS DE AÇÃO TRANSFORMADORA

A ação transformadora do cristão leigo e leiga no mundo pode ter diferentes modos de realização, entre os quais destacamos:
1-O testemunho como presença que anuncia Jesus Cristo em cada lugar e situação onde se encontra, a começar pela família; 2- a ética e a competência no ambiente profissional; 3- o anúncio querigmático nos encontros pessoais, nas visitas domiciliares e no ambiente de trabalho; 4-Os serviços, pastorais e ministérios pelos quais os cristãos leigos marcam presença no mundo; 5-a inserção na vida social através das pastorais sociais; 6- os meios de organização e atuação na vida cultural e política com vistas para o mundo justo, sustentável e fraterno.
São João Paulo II lembra que: “Ao descobrir e viver a própria vocação e missão os fiéis leigos devem ser formados para aquela unidade de que está assinalada a sua própria situação de membros da Igreja e de cidadãos da sociedade humana”.

CRITÉRIOS GERAIS DA AÇÃO TRANSFORMADORA

O Papa Francisco sugere alguns critérios gerais para a ação transformadora dos cristãos leigos no mundo:
1- A ação evangelizadora inclui sempre a Igreja, a sociedade e cada pessoa individualmente. 2- A ação requer discernimento das realidades concretas. O mundo é uma realidade a ser constantemente discernida. Este discernimento deve ser iluminado pelos valores do Reino de Deus, sempre a partir da fé que ilumina as realidades do mundo. 3- Todos somos convidados a sair da própria comodidade e alcançar as periferias que precisam da luz do Evangelho. 4-A ação evangelizadora inclui a opção preferencial pelos pobres, a solidariedade, a defesa da vida humana, especialmente onde ela é negada ou agredida. 5- A ação de dialogar com o mundo social., cultural, religioso e ecumênico deve promover a cultura do encontro e a inclusão do outro na vivência da fraternidade. 6- A ação deve considerar a primazia do humano antes de qualquer outra, sob o risco de cair em idolatria.

PRINCÍPIOS PARA A AÇÃO TRANSFORMADORA

O Papa Francisco elenca explicitamente quatro princípios específicos que visam contribuir para a construção de um povo em paz, justiça e fraternidade.
1-O tempo é superior ao espaço:É necessário planejar e esperar os resultados da ação em um horizonte mais amplo, dentro do qual a paciência aguarda os frutos amadurecerem, a esperança supera todos os desânimos e a fé transcende os imediatismos da ação. 2- A Unidade prevalece sobre os conflitos: A ação se depara sempre com situações conflitantes. A convicção de que a unidade é um princípio superior que norteia a ação permite encarar de frente o conflito e buscar caminhos de superação. 3- A realidade é mais importante que as ideias: A ação transformadora ocorre a partir de um ideal transformador. Contudo, esse ideal não pode dispensar a realidade, lugar da encarnação da Palavra de Deus. 4- O todo é superior à parte: É necessário ter sempre como horizonte maior a pessoa de Jesus Cristo e seu Reino. Desse modo se evitarão todas as formas de isolamentos locais e de relativismos individualistas.

A AÇÃO DOS CRISTÃOS LEIGOS NOS AREÓPAGOS MODERNOS

O Apóstolo Paulo, depois de ter pregado em numerosos lugares, chega a Atenas e vai ao areópago, onde anuncia o Evangelho, usando uma linguagem adaptada e compreensível para aquele ambiente (Atos 17, 22-31). O areópago que representava o centro da cultura do povo ateniense é tomado como símbolo dos novos ambientes onde o Evangelho deve ser proclamado.
Os cristãos leigos são os primeiros membros da Igreja a se sentirem interpelados na missão junto aos areópagos – essas grandes áreas culturais ou mundos ou fenômenos sociais ou, mesmo, sinais dos tempos. O Papa emérito Bento XVI ofereceu-nos luzes e encorajamento para o profetismo dos leigos na missão junto a esses areópagos. Diz o Papa: “O sacramento da Eucaristia tem um caráter social. A união com Cristo é ao mesmo tempo união com todos os outros a quem ele se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim. É necessário explicitar a relação entre o mistério eucarístico e o compromisso em prol da justiça, à vontade de transformar também, as estruturas injustas. A Igreja não deve ficar à margem da luta pela justiça”.
A partir da Eucaristia nasce a coragem profética. Não podemos ficar insensíveis diante dos processos de globalização que faz crescer a distância entre ricos e pobres. É impossível calar diante dos grandes campos de deslocados ou refugiados, amontoados em condições precárias. Basta dizer que menos da metade das somas globalmente destinadas a armamentos poderia tirar de modo estável da indigência o exército ilimitado dos pobres. Isso interpela a nossa consciência.

A FAMÍLIA: AREÓPAGO PRIMORDIAL

A família, comunidade de vida e amor, escola de valores e Igreja doméstica, é a grande benfeitora da humanidade. Nela se aprendem as orientações básicas da vida: o afeto, a convivência, a educação para o amor, a justiça e a experiência de fé. O mundo se torna uma grande família onde os cristãos leigos são protagonistas da evangelização, que deve sempre primar pela valorização da família, que as jovens gerações também desejam constituir.
Reafirmamos e defendemos a dignidade, a inviolabilidade e os direitos do embrião humano. O aborto é uma violação do direito à vida, uma crueldade e grave injustiça contra os inocentes e indefesos. Recomendamos aos leigos que assumam com alegria e dedicação o cuidado da família e a transmissão da fé aos filhos em sintonia com o plano de Deus e os ensinamentos do Magistério da Igreja.

O MUNDO DA POLÍTICA

Deixemo-nos tocar pelo que nos ensina o Papa Francisco sobre os leigos e a política: “Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente a sanar as raízes profundas dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade é o princípio não só das microrrelações, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos. Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo e a vida dos pobres”.
Grande impulso foi dado pelo Papa emérito Bento XVI a respeito da ação política dos leigos: “O leigo cristão é chamado a assumir diretamente a sua responsabilidade política e social. Dirijo, pois, um apelo a todos os fiéis para que se tornem realmente obreiros da paz e da justiça”.
É urgente que as dioceses busquem:
1- estimular a participação dos cristãos leigos na política. Há necessidade de romper o preconceito de que a política é coisa suja. Ao contrário, ela é essencial para a transformação da sociedade. 2- impulsionar os cristãos leigos na participação dos mecanismos de controle social e da gestão participativa (conselhos municipais). 3- Incentivar e preparar cristãos leigos a participarem de partidos políticos e serem candidatos para o executivo e o legislativo, contribuindo para a transformação social, 4- Mostrar aos membros das nossas comunidades que há várias maneiras de tomar parte na política: nos conselhos paritários de políticas públicas, movimentos sociais, conselhos de escola, coleta de assinaturas para projetos de lei de iniciativa popular. 5- Incentivar e animar a constituição de cursos ou escolas de Fé e Política ou Fé e Cidadania. 6- Acompanhar os cristãos que estão com mandatos (executivo ou legislativo), no judiciário e no ministério público a fim de que vivam também aí a missão profética, promovendo reuniões, encontros, momentos de oração, reflexão e retiros.

O MUNDO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

As Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2015-2019 sugerem aos leigos cristãos que colaborem com os movimentos populares e entidades da sociedade civil em favor da implantação e da execução de políticas públicas voltadas para a defesa e a promoção da vida e do bem comum.
Nos Conselhos de Direitos há um grande espaço para os cristãos leigos se empenharem por políticas públicas em favor da saúde e da educação, do emprego e da segurança, da mobilidade urbana e do lazer. Esses Conselhos de Direitos são um lugar privilegiado de participação de cristãos leigos na vida polític.

O MUNDO DO TRABALHO

267- As Dioceses se esforcem para:
1- Criar e fortalecer as pastorais do mundo do Trabalho urbano e rural. 2- Criar e motivar grupos de partilha e de reflexão para os diferentes profissionais e empresários, estimulando-os a serem discípulos missionários em sua atuação profissional. 3-Promover a formação para uma autêntica espiritualidade do mundo do trabalho, na efetivação do progresso terreno e no desenvolvimento do Reino de Deus. 4-Animar e manifestar nossa solidariedade aos trabalhadores na conquista e preservação de seus direitos. 5- Incentivar os cristãos leigos a participarem dos sindicatos e outras organizações e a se articularem em vista de avanços nas políticas públicas em prol do bem comum. 6- acolher os trabalhadores em nossas comunidades. 7- apoiar e participar de iniciativas de combate ao trabalho escravo.

O MUNDO DA CULTURA E DA EDUCAÇÃO
As Dioceses e Paróquias se esforcem para:
1-criar círculos de partilha e reflexão entre os diversos campos do saber e da ciência, estimulando-os a serem aí discípulos missionários. 2- Implantar a Pastoral da Cultura e divulgar a importância do “Átro dos Gentios” que é o espaço do encontro entre crentes e não crentes em torno do tema Deus. 3- Animar os comunicadores e os formadores de opinião a manifestarem os valores do Reino através dos meios de comunicação. 4-Incentivar e apoiar os cristãos leigos para que, nos diferentes campos das artes e da cultura popular, apontem para o sentido da vida e da sua transcendência para a obra evangelizadora.
É urgente que a Pastoral da Educação e a Pastoral Universitária se tornem viva expressão nas paróquias e dioceses.

PASTORAL DA COMUNICAÇÃO

Todos nós na Igreja precisamos ser conscientizados a respeito da necessidade, prioridade e urgência da comunicação em todos os seus níveis. Aquilo que não é comunicado, não é conhecido. As Boas Obras sejam comunicadas para a glória do Pai, o bem da sociedade, a divulgação do Evangelho e para o bom exemplo, incentivo e alegria de todos. Daí a necessidade das Paróquias e Dioceses implantarem a Pastoral da Comunicação.

O CUIDADO COM A NOSSA CASA COMUM

Pela nossa realidade corpórea, Deus nos uniu tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação. Por isso os cristãos leigos devem assumir com coragem a busca de uma comunhão com a criação, a defesa da água, do clima, das florestas e dos mares, como bens públicos a serviço de todas as criaturas.

INDICATIVOS E ENCAMINHAMENTOS DE AÇÕES PASTORAIS

Neste tópico queremos retomar indicativos e propor encaminhamentos para as Dioceses, Paróquias e outros organismos da Igreja:
1-Despertar os cristãos leigos para a sua vocação espiritualidade e missão que brotam do batismo; 2- convocar os cristãos leigos para as assembleias paroquiais, diocesanas e regionais e nacionais da CNBB. Incentivá-los e efetivá-los nos Conselhos de Pastoral , econômico, missionário e outros; 3- Divulgar o esforço da CNBB na realização as assembleias das Igrejas e encontros dos organismos eclesiais; 4- Reconhecer a dignidade da mulher e sua indispensável contribuição para a Igreja e a sociedade, ampliando sua presença nos conselhos eclesiais; 5- incentivar os cristãos leigos na participação social e política; 6-aprofundar a questão dos ministérios leigos, estimulando a criação de novos; 7 apoiar ou implantar a Pastoral familiar para que esteja atenta às famílias vulneráveis e fragilizadas, assim como às novas formas de convivência familiar; 8- Criar ou fortalecer as Pastorais Sociais, em espírito missionário e que lutem por políticas públicas e de inclusão social; 9-incentivar a juventude a participar nas instâncias decisórias da Igreja e da sociedade;10- cuidar para que as pessoas idosas sejam atendidas pastoralmente e tenham espaço e condições de participar das atividades da Igreja; 11-incentivar os cristãos, leigos , bem como os ministros ordenados, a que, inseridos numa sociedade pluralista do ponto de vista cultural e religioso, vivenciem e construam caminhos de diálogo ecumênico e inter-religioso, de cooperação com o diferente e com as novas culturas.

COMPROMISSOS

Antes de concluir este documento, queremos incentivar nossas comunidades a assumirem estes compromissos:
1-Envolver todos os cristãos na reflexão e aplicação deste documento. 2-Celebrar o dia dos Cristãos Leigos na solenidade de Cristo Rei, a cada ano. 3- Estimular que no decorrer do mês de novembro haja ampla discussão sobre a vocação dos leigos cristãos na Igreja e na Sociedade 4-Celebrar o dia 1º de maio – São José Operário –como valorização do trabalho e denuncia de tudo o que contradiz a dignidade do trabalhador. 5- Recuperar e divulgar os cristãos leigos mártires e daqueles que viveram o seu compromisso batismal no cotidiano da vida e se tornaram ou são referências. 6- Criar ou fortalecer os Conselhos Regionais e Diocesanos de Leigos. 7- Fortalecer e ampliar o diálogo e o trabalho junto às diferentes formas de expressão do laicato. 8- Realizar o Ano do Laicato, que terá como eixo central a presença e a atuação dos cristãos leigos como ramos, sal, luz e fermento na Igreja e na Sociedade.

CONCLUSÃO

Incentivamos os irmãos leigos a acreditarem na própria vocação, como sujeitos de uma missão específica. Reconhecemos o direito e a autonomia das diferentes formas de organização e articulação do laicato expressos nos documentos do Vaticano II. Conclamamos, de modo especial, os irmãos e irmãs religiosos e religiosas e a todos os consagrados e consagradas, que buscam viver na alergia seus votos de castidade, pobreza e obediência, a manter viva, também nos irmãos leigos e leigas, a consciência do valor das coisas que passam, sem descuidar dos bens que não passam. Pedimos aos irmãos diáconos permanentes que, em sua maioria, vivem a realidade do matrimônio e do trabalho, que se dediquem a todos os cristãos leigos e leigas e às famílias, motivados pela graça de terem recebido os sacramentos do Matrimônio e da Ordem. Incentivamos e encorajamos os irmãos presbíteros, indispensáveis colaboradores dos bispos, a serem cada vez mais amigos dos irmãos leigos e leigas. Como bispos nos propomos a acolher cada vez mais com coração fraterno a todos os cristãos leigos e leigas, valorizando sua atuação na Igreja e no mundo, ouvindo suas opiniões e sugestões, confiando-lhes responsabilidades e ministérios.
Pedimos a Maria, mãe da Igreja, cheia de fé e de graça, totalmente consagrada ao Senhor, exemplo de mulher solícita e laboriosa, que acompanhe a todos os leigos e leigas, seus filhos e filhas, em cada dia da vida. Sob sua maternal proteção ecoem em nossos corações as suas palavras: “Fazei tudo o que ele vos disser” (João 2,5).

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A ORAÇÃO DO PAI NOSSO E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO

A ORAÇÃO DO PAI NOSSO E OS DONS DO ESPÍRITO SANTO
Na oração do Pai Nosso Jesus nos ensina a fazermos sete pedidos a Deus e cada um deles tem uma relação direta com os sete dons do Espírito Santo.
1- SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME – Para santificarmos o nome de Deus em nossas vidas, temos que ter o dom da SABEDORIA: saber escolher a coisa certa, na hora certa e do jeito certo.
2- VENHA A NÓS O VOSSO REINO – precisamos do dom do ENTENDIMENTO: compreender corretamente o Reino de Deus. O Reino onde cada pessoa é valorizada pelo que é, e onde a justiça é plena e vida em abundância para todos.
3- SEJA FEITA A VOSSA VONTADE – precisamos do dom da CIÊNCIA:compreender de fato a vontade de Deus e realizá-la em nossas vidas a partir da compreensão das Sagradas Escrituras;
4- O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DIA HOJE – O Dom do CONSELHO é o Pão da Palavra que alimenta a nossa alma e nos mantêm sustentados na caminhada para o céu, fazendo-nos fortificados no seguimento de Jesus como discípulos e missionários de Jesus Cristo.
5- PERDOA AS NOSSAS OFENSAS COMO NÓS PERDOAMOS
PIEDADE é o dom que nos torna sensíveis ao amor de Deus por nós e assim podemos sentir o dom do Amor de Jesus pela humanidade ao se entregar totalmente para o perdão de todos os pecados humanos.
6- NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO –
FORTALEZA é o dom que nos dá condições para que vençamos as tentações e consigamos viver imunes às artimanhas do tentador
7- MAS LIVRA-NOS DE TODO MAL –
TEMOR A DEUS é o dom que alimenta o desejo de jamais ofendermos nosso Criador. Este é o temor que devemos ter: jamais rompermos a nossa relação com o amor Divino

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AMORIS LAETITIA – Exortação Apostólica Papa Francisco

AMORIS LAETITIA
EXORTAÇÃO APOSTÓLICA DO PAPA FRANCISCO SOBRE AS FAMÍLIAS
fonte
http://pt.radiovaticana.va/news/2016/04/08/exorta%C3%A7%C3%A3o_%E2%80%9Camoris_laetitia%E2%80%9D_a_alegria_do_amor_na_fam%C3%ADlia/1221252

Foi publicada na manhã desta sexta-feira, dia 8 de abril a Exortação Apostólica pós-Sinodal do Papa Francisco sobre a família. “Amoris laetitia”, a “Alegria do Amor” é um texto de nove capítulos no qual o Santo Padre recolhe os resultados de dois Sínodos dos Bispos sobre a família ocorridos em 2014 e 2015 citando anteriores documentos papais, contributos de conferências episcopais e de várias personalidades.
É uma Exortação Apostólica ampla com mais de 300 parágrafos e que nos primeiros 7 evidencia a plena consciência da complexidade do tema. Em particular, o Papa escreve que para algumas questões ”em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De facto, “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”.
Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”
No primeiro capítulo o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras, em particular, com uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia ”aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares”(AL 8).
Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”
Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo ”os pés assentes na terra” (AL 6) como se pode ler na Exortação. A humildade do realismo ajuda a não apresentar ”um ideal teológico do matrimónio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são”(AL 36). O matrimónio é “um caminho dinâmico de crescimento e realização”. “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las”(AL37) refere o Papa Francisco no seu texto, pois, Jesus propunha um ideal exigente, mas ”não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL 38).
Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”
O terceiro capítulo da Exortação é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimónio e da família. Em 30 parágrafos ilustra a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimónio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, da Humanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II.
O Papa Francisco neste capítulo terceiro lembra um princípio geral importante: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem uma capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (AL 79).
Capítulo quarto: “O amor no matrimónio”
O amor no matrimónio é o título do quarto capítulo desta Exortação e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de S. Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 13, 4-7). Este capítulo desenvolve o carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: ”não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimónio como sinal implica um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus” (AL 122).
Também neste capítulo uma reflexão sobre o amor ao longo da vida e da sua transformação. Pode-se ler no documento: “Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade” (AL 163).
Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”
O capítulo quinto desta Exortação Apostólica foca-se sobre a fecundidade, do acolher de uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A “Amoris laetitia” não toma em consideração a família ”mononuclear”, mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimónio tem um profundo carácter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.
Capítulo sexto: “Algumas perspetivas pastorais”
No capítulo sexto da exortação o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Em particular, o Papa observa que ”os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias” (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psico-afetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro ”pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados” (AL 202).
Também neste sexto capítulo uma importante referência à preparação para o matrimónio e do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que ”cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL 232).
Espaço neste capítulo para o acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas. É colocado em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito. Ao mesmo tempo é reiterada a plena comunhão na Eucaristia dos divorciados e em relação aos divorciados recasados é reforçada a sua “comunhão eclesial” e o acompanhamento das suas situações que não deve ser visto como uma debilidade da indissolubilidade do matrimónio mas uma expressão de caridade.
Referidas também as situações dos matrimónios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas as formas de agressão e violência. No final do capítulo uma especial nota para o tema da perda das pessoas queridas e também da viuvez.
Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”
O capítulo sétimo é integralmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É ressaltado pelo Santo Padre que “o que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL 261).
A secção dedicada à educação sexual intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber ”se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade”. A educação sexual deve ser realizada ”no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua” (AL 280) – lê-se na Exortação. É feita uma advertência em relação à expressão ”sexo seguro”, pois transmite ”uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento”. (AL 283).
Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O capítulo oitavo faz um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: ”acompanhar, discernir e integrar”, os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a ”lógica da misericórdia pastoral”.
As situações ditas de irregulares devem ter um discernimento pessoal e pastoral e – segundo a Exortação – “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis”.
Em particular, o Santo Padre afirma numa nota de pé de página que “em certos casos poderá existir também a ajuda dos sacramentos”, recordando que o confessionário não deve ser uma sala de tortura e que a Eucaristia “não é um prémio para os perfeitos, mas um alimento para os débeis”.
Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: ”é compreensível que não se devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL 300).
O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja ”sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes” no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: ”É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem descuidar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma” (AL 304).
Espaço ainda neste capítulo para a lógica da misericórdia pastoral e para o convite do Papa Francisco nas suas palavras finais: «Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximarem-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312).
Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”
O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, ”feita de milhares de gestos reais e concretos” (AL 315). Diz-se com clareza que ”aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística” (AL 316). Tudo, ”os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição” (AL 317).
No parágrafo conclusivo, o Papa afirma: ”Nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida”

fonte
http://pt.radiovaticana.va/news/2016/04/08/exorta%C3%A7%C3%A3o_%E2%80%9Camoris_laetitia%E2%80%9D_a_alegria_do_amor_na_fam%C3%ADlia/1221252

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