homilias TRIDUO PASCAL. Quinta-feira santa; sexta-feira santa; sábado santo.

TRIDUO PASCAL. Quinta-feira santa; sexta-feira santa; sábado santo.

Iniciando o tríduo pascal, celebramos a Ceia, na qual o Senhor se entrega por nós nos sinais simbólico-sacramentais da Oração eucarística – a grande ação de graças – e a comunhão do pão e do vinho. A Igreja, por vontade de Cristo, repete a Ceia para perpetuar a Páscoa.

 

João 19.17-30: Missão Cumprida!
“Tudo está consumado!” 

Hoje vamos meditar sobre a morte de Jesus na cruz. O processo de morte e ressurreição faz parte do ciclo da vida e da natureza. Tudo morre e renasce. Faz parte também da caminhada. Um ato de amor é doação de si em benefício da vida do outro. Muitas vezes, com muita dor e sofrimento. Mas a cruz não faz parte da vida. A cruz era morte cruel, imposta pelo sistema da época a todos aqueles que a ele se opunham ou que eram perigosos para o sistema opressor. Num mundo organizado com egoísmo, o amor só sobrevive crucificado, pois ele é uma acusação contra o sistema e o subverte. O sistema tem medo do amor. Como diz o canto de Zé Vicente: “Soldados tristes, calados, com olhos esbugalhados, vendo avançar o amor!” Jesus soube integrar e assumir a morte em sua vida como parte da sua missão. Ao lado dele sobraram umas poucas pessoas que o apoiavam.

O texto nos descreve os últimos momentos da vida de Jesus, desde a saída da casa de Pilatos até a morte na cruz.

  1. Situando
  2. Todos os quatro evangelhos descrevem a paixão, morte e ressurreição de Jesus, mas cada um o faz do seu jeito. Em Mateus, Jesus realiza e encerra o Antigo Testamento e inicia um novo período (Mt 27,50-54). Em Marcos, Jesus revela sua divindade aos pagãos (Mc 15,37-39). Em Lucas, Jesus é o justo que morre conforme o ideal descrito no livro de Sabedoria (Lc 23,44-48). Em João, como veremos, Jesus é o Rei que, do alto do trono da sua cruz, triunfa sobre o poder do mal. 2. A descrição da paixão de Jesus, do começo ao fim, está permeada de evocações do AT. Algumas são explícitas, indicadas pelo próprio evangelista. Outras, a maioria, é implícita. Só as descobre quem conhece de memória o AT. Este uso do AT tem um significado profundo, que será esclarecido no Alargando.
  3. Comentando
  4. João 19,17-18: Via-sacra e crucifixão
    Os condenados à morte de cruz deviam eles mesmos carregar a cruz até o lugar da crucificação. A morte de cruz era o castigo terrível que o Império Romano reservava para os que se levantavam contra o poder do imperador de Roma. Era um suplício exemplar, isto é, servia para meter medo nos outros. Jesus é crucificado com dois outros num lugar que o povo chamava de caveira (Calvário ou Gólgota). Era um pequeno morro, perto da porta da cidade, onde eram colocadas as cruzes dos condenados, para que todos os passantes pudessem vê-los.
  5. João 19,19-22: O letreiro com a sentença
    Um letreiro pregado na cruz indicava o motivo da condenação. Pilatos mandou escrever: “Jesus de Nazaré, rei dos judeus”, ou seja, o motivo era subversão, pois, para os romanos, quem se faz rei sem licença de Roma é um subversivo. O letreiro estava escrito nas três línguas que se usavam: latim, grego e hebraico. Os sacerdotes queriam corrigir o texto e diziam a Pilatos: “Ele não era rei, mas dizia que era rei.” Desta vez, Pilatos ficou firme e não mudou.
  6. João 19,23-24: Os soldados roubaram as vestes de Jesus
    João nada informa sobre a maneira como Jesus foi flagelado, nem sobre a via-sacra e tantos outros aspectos da paixão. Mas ele insiste no detalhe de que os soldados, além de repartir entre si as vestes, sortearam a túnica, tecida de uma peça só. É que neste detalhe se realizava a profecia do Salmo 22 que diz: “Repartem entre si minhas vestes e sobre a minha túnica tiram sorte” (Sl 22,19). Assim ficava mais claro para os leitores e as leitoras que Jesus era o messias que realizava as profecias.
  7. João 19,25-27: As mulheres e o Discípulo Amado junto à cruz
    Perto da cruz estavam três ou quatro mulheres. Entre elas a mãe de Jesus. Jesus entregou o Discípulo Amado à sua mãe, e entregou sua mãe ao Discípulo Amado. Este episódio, mencionado somente pelo Evangelho de João, tem um valor simbólico muito profundo. A mãe de Jesus representa o AT. Representa também Eva, a mãe de todos os viventes. O Discípulo Amado representa o NT, a comunidade que nasceu ao redor de Jesus. Representa também a nova humanidade que se forma a partir da vivência do Evangelho. Os dois se complementam. Veja o Alargando do Círculo 3: “A mãe de Jesus no Evangelho de João”.
  8. João 19,28-30: Jesus entrega o espírito e morre
    No Evangelho de João, a descrição da morte de Jesus é feita com muita solenidade. Pois quem morre é o Senhor da vida, consciente da missão que tinha recebido do Pai. João evoca as palavras do início do Livro da Glorificação: “Sabendo Jesus que estava tudo consumado” (cf Jo 13,1). Jesus tinha vindo da parte do Pai e agora, realizada a missão que lhe tinha sido entregue, volta para junto do Pai. E para cumprir a Escritura até o último detalhe, e nada ficar sem cumprimento, ele diz: “Tenho sede!” Isso se refere ao salmo onde se diz: “Na minha sede me deram vinagre para beber” (Sl 69,22). Um soldado ensopou uma esponja no vinagre, encostou na boca de Jesus, e ele bebeu. Assim, após ter realizado tudo como o Pai queria, Jesus, ele mesmo, determina a hora da partida. Inclinou a cabeça e entregou o Espírito. Aqui termina a antiga criação e nasce a nova. “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (12,24).
  9. Alargando

O uso do Antigo Testamento na descrição da paixão e morte de Jesus
Nestes poucos versículos da descrição da morte de Jesus (Jo 19,17-37)  aparecem 12 evocações do Antigo Testamento. Eis a lista:

Evangelho de João

1) “Jesus saiu carregando a sua cruz” (Jo 19, 17).
2) “Crucificaram com ele dois outros, um de cada lado, Jesus no meio” (Jo 19,18).
3) “Jesus de Nazaré, Rei dos judeus” (Jo 19, 19).
4) Os soldados dividiram as vestes e lançaram a sorte sobre a túnica (Jo 19,23-24).
5) “Mulher, eis aí o teu filho!” e “Filho, eis aí tua mãe!” (Jo 19, 26-27).
6) “Jesus diz: Tenho sede!” (Jo 19,28) e lhe deram vinagre para beber.
7) Jesus morre dizendo: “Tudo está consumado” (Jo 19,30).
8) “Inclinando a cabeça entregou o Espírito” (Jo 19,30).
9) A preocupação de enterrar os crucificados antes do início do sábado (Jo 19,31).
10) “Do seu lado saíram sangue e água” (Jo 19,34).
11) “Não quebraram as pernas de Jesus” (Jo 19, 33).
12) “Traspassou-lhe o lado com a lança” (Jo 19, 34).

Antigo Testamento

1) Evoca Isaque carregando a lenha do seu próprio sacrifício (Gn 22,6).
2) Evoca a profecia do servo sofredor que foi “contado entre os criminosos” (Is 53,12).
3) Evoca a profecia de Isaías que diz: “O teu Deus reina!” (Is 52,7).
4) O próprio evangelho diz que isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura (Sl 22,19).
5) Evoca a nova Eva, mãe de todos os viventes (Gn 3,20), a nova humanidade que nasce.
6) Evoca o salmo: “Na minha sede me deram vinagre para beber!” (Sl 69,22).
7) Evoca o salmo: “Vim para fazer a tua vontade” (Sl 40,8-9). Jesus cumpriu a vontade de Deus.
8) Evoca o salmo: “Em tuas mãos entrego o meu espírito!” (Sl 31,6).
9) Evoca a lei: um crucificado não pode permanecer na cruz durante a noite (Dt 21,22-23).
10) Evoca o sangue da aliança (Ex 24,8) e a água que sai do lado do templo (Ez 47,1-12).
11) Evoca o rito do cordeiro pascal: “Nenhum osso lhe será quebrado” (Ex 12,46; Sl 34,21).
12) Evoca a profecia: “Olharão para aquele que transpassaram” (Zc 12,10; Is 53,7).
Não existe qualquer ordem nem esquema neste uso do AT. Na sua maior parte, não se trata de citações explícitas, mas de evocações que só funcionam num ambiente onde os leitores e as leitoras conhecem o AT de memória. É uma releitura do AT feita a partir da experiência da ressurreição. Para nós que conhecemos pouco o AT, estas citações não têm muito efeito. Mas para as comunidades do Discípulo Amado, que conheciam o AT, esta maneira de descrever a paixão e morte de Jesus por meio de evocações do AT tornava a paixão transparente. Fazia perceber como a força da vida e da ressurreição já estava presente e atuante na hora da própria morte. Usando o AT, João tirou um raio-X da morte e a transformou em fonte de vida e de luz. O desafio para nós é fazermos a mesma leitura transparente da nossa vida e da nossa história.

 

AFONSO DIAS É BÍBLISTA, E ASSESSOR DO CEBÍ-SP E SUL DE MG. (11)4538-1446 OU (11) 97189-5746(vivo) ou (35)9924-0250 – MG abdias49@bol.com.br

Publicado em Não categorizado | Deixe um comentário

CUIDADO MORAL E PASTORAL DE NOSSAS FAMÍLIAS EM SITUAÇÕES “ESPECIAIS”

O CUIDADO MORAL E PASTORAL

DE NOSSAS FAMÍLIAS EM SITUAÇÕES “ESPECIAIS”

Prof. Dr. Nilo Agostini Endereço do Autor: Caixa Postal 50470 03029-970 São Paulo SP

E-mail: nilo_agostini@hotmail.com

 Texto publicado na REB, fasc. 271, julho, 2008, p. 614-632.

 

 

Introdução

A  família constitui-se, segundo a Igreja, “num patrimônio da humanidade”, num dos seus “mais importantes tesouros”. Em nossa condição de discípulos e missionários de Jesus Cristo, sentimo-nos chamados a trabalhar em prol da família, empreendendo em favor dela os nossos melhores esforços. Sendo a família “um dos bens mais preciosos da humanidade”, ela permanece a comunidade fundamental, o horizonte de vida permanente, o sustentáculo do humano.

Por isso, a Igreja tem um olhar de atenção redobrada diante das “situações de conflito”. Estas costumam ser mencionadas também de outras maneiras: ora como “situações especiais”, ora como “situações difíceis”, ora como “situações irregulares”. A CNBB, através da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, publicou o Guia de Orientação para os Casos Especiais. Não esqueçamos que “Deus ama as famílias, apesar de tantas feridas e divisões”.

Sabemos como é urgente a presença pastoral da Igreja em favor da família, sobretudo em nossos dias. João Paulo II tem sido enfático em afirmar que “é preciso empregar todas as forças para que a pastoral da família se afirme e desenvolva, dedicando-se a um setor verdadeiramente prioritário, com a certeza de que a evangelização, no futuro, depende em grande parte da Igreja doméstica”, para, em seguida, sublinhar: “A solicitude pastoral da Igreja não se limitará somente às famílias cristãs mais próximas, mas alargando os próprios horizontes à medida do coração de Cristo, mostrar-se-á ainda mais viva para o conjunto das famílias em geral e para aquelas, em particular, que encontram em situações difíceis ou irregulares. Para todas elas a Igreja terá uma palavra de verdade, de bondade, de compreensão, de esperança, de participação viva nas suas dificuldades por vezes dramáticas; a todas oferecerá ajuda desinteressada a fim de que possam aproximar-se do modelo de família, que o Criador quis desde o ‘princípio’ e que Cristo renovou com a graça redentora”.

 

  1. Atitude pastoral necessária em favor da família

 

Já em 1974, na sua XIV Assembléia Geral, a CNBB incluía como prioridade, no seu então Plano Bienal (1975/1976), a Pastoral da Família. A Comissão Representativa da CNBB, em consonância com a Comissão Episcopal de Pastoral, aprovou e publicou em março de 1975 o documento Em favor da Família, no qual se projetam algumas linhas de ação, assim resumidas:

“a) Criar condições para que a família possa realizar sua tríplice missão de formadora de pessoas, de evangelizadora e de construtora da sociedade;

  1. b) Levar em consideração a evolução pela qual passa a instituição familiar e bem assim os novos valores que surgem;
  2. c) Colaborar na realização de estruturas sociais que permitam às famílias marginalizadas atingir condições mínimas de estabilidade;
  3. d) Incentivar e aprimorar a pastoral junto aos casais cristãos, a começar pela preparação séria para a consciente celebração do sacramento do matrimônio”.

Os pontos acima já demonstram uma clareza que foi se impondo pouco a pouco na prática de uma Pastoral Familiar. Esta foi superando o quadro de uma Pastoral da Família, mais centrada no núcleo familiar como tal, sem ter em contra a incidência dos fatores socioeconômicos e culturais sobre o quadro familiar, o que a Pastoral Familiar procura hoje incluir.

Em nossos dias, diante do considerável número de movimentos, institutos e serviços familiares, a Pastoral Familiar busca um entrosamento de todo esse empenho existente. Sobre isso, já líamos nos texto-base da Campanha da Fraternidade de 1994:

“Algumas vezes, os movimentos, serviços e institutos parecem centrar-se em suas necessidades internas. Pode acontecer que alguns deles tenham dificuldades em trabalhar mais em união com a Pastoral Familiar paroquial ou diocesana. Nem sempre paróquias e dioceses têm Pastoral Familiar organizada e os movimentos ocupam este vácuo, não sabendo ou não podendo colocar as bases de uma Pastoral Familiar mais ampla e mais completa. Certo é que, devido à sua estruturação, à formação permanente de seus membros, ao número relativamente elevado de seu contingente, esses movimentos poderão dar uma indispensável colaboração na concretização de todas as etapas da Pastoral Familiar”.

A Pastoral Familiar deve permear toda a ação evangelizadora da Igreja, desde os tempos fortes da atividade pastoral (Natal em Família, Campanha da Fraternidade, Semana Nacional da Família) até a proposta de uma educação para o amor, que deve estar presente em todas as pastorais. Como nos diz o Documento de Aparecida, é próprio da Pastoral Familiar “comprometer de maneira integral e orgânica as outras pastorais, os movimentos e associações matrimoniais e familiares a favor das famílias”.

Um dos desafios, para a Pastoral Familiar, é integrar os menos favorecidos. Precisamos, na verdade, superar os clichês que rotulam os aparentemente “superiores” e os “inferiores” da sociedade, os “cultos” e os “incultos”, os aparentemente “certinhos” e os “errados” etc. A Pastoral Familiar, incluídos os movimentos afins, crescerão à medida que se abrirem a toda uma cultura que brota dos empobrecidos, com uma força vital toda própria, assim descrita por João Paulo II em Puebla, no México: “A sua visão de vida, que reconhece a sacralidade do ser humano e do mundo, o seu respeito pela natureza, a humildade, a simplicidade, a solidariedade são valores que hão de estimular o esforço, por levar a cabo uma autêntica evangelização inculturada”.

Hoje, em nosso continente, identificamos difíceis condições de vida que ameaçam a  instituição familiar. Em especial, é preocupante a situação das crianças e dos idosos, sobretudos daquelas e daqueles que se encontram em situação de risco pessoal e social; são numerosas as crianças e adolescentes desprotegidos, abandonados ou em perigo; hoje cresce a consciência da necessária atenção aos idosos, sem esquecer as famílias de migrantes. Merece contínua atenção a dignidade e participação das mulheres e a responsabilidade do homem na família. Os melhores esforços devem ser empreendidos para que as situações degradantes e de risco humano-social sejam transformadas e “a família assuma seu ser e sua missão no âmbito da sociedade e da Igreja”.

 

  1. O aporte ético-moral

Quando falamos do aporte ético-moral, entra em cena a capacidade de discernimento, fruto de uma consciência reta, verídica, crítica e prudente. Capta-se o que é preciso fazer (= moral), quais os caminhos possíveis e/ou necessários (= moral), do modo de proceder (= postura ético-moral), qual a postura prudencial-crítico-reflexiva de discernimento, avaliação e depuração (= ética) que é mais indicada ou necessária para tratar devidamente a realidade da “família”; captam-se os parâmetros mais indicados etc.

Como se vê, são muitas as questões. Diante delas podemos reagir dizendo que o ideal evangélico e as normas que dele derivam são claros… Basta ajustar-se. Ninguém duvida do ideal “sede perfeitos como o Pai celeste é perfeito”, nem do convite “convertei-vos e crede no Evangelho”. Ocorre, porém, que o ponto de partida é tomar as pessoas naquilo que elas são, na sua situação real, em todos os seus aspectos15, e, a partir daí, esboçar um caminho numa pedagogia do crescimento, da progressão, passo após passo.

Na Familiaris Consortio, João Paulo II supõe a pedagogia do crescimento ao afirmar: “A ação pastoral da Igreja deve ser progressiva, também no sentido que deve seguir a família, acompanhando-a passo a passo nas diversas etapas da sua formação e desenvolvimento”.

Este acompanhamento progressivo pode ser captado no próprio caminhar do povo de Israel. Na escravidão do Egito, a convocação e as exigências são umas; para o povo que está a caminho da Terra Prometida, no deserto, as exigências são outras; e para o povo que já está na Terra Prometida, o apelo e outro ainda. Fica o ideal comum a ser buscado sempre. Porém, a cada etapa cabem os devidos passos, sem queimar etapas e, assim, sem cair no artifício do “vamos fazer de conta que aqui estou ou estamos”, como se ideal já estivesse de todo realizado.

Deixar de tomar em conta a “situação real” das pessoas, da comunidade, da sociedade e partir de imediato para a cobrança do “ideal”, ou fazer de conta que nele já nos encontramos todos, cria situações que levam a um “faz de conta” artificial, com previsão de quedas, regressões, desilusões, capitulações. É como forçar a criança a ingerir alimentos sólidos quando só consegue ou lhe convém absorver alimentos líquidos.

São Paulo ilustra bem a situação que acabamos de tocar ao dizer aos coríntios:

“Dei-vos a beber leite, não vos dei comida sólida, porque ainda não podíeis suportá-la” (1Cor 3,2). Na carta aos Hebreus, lemos: “Ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus. Tendes necessidade de leite em lugar de alimentos sólidos” (Hb 5,12). Ou ainda aos Coríntios: “Quando era criança, falava como criança, raciocinava como criança; quando cheguei a ser homem, deixei as coisas de criança agora inúteis” (1Cor 13,11-12). “Jesus não entra em cena ‘cobrando comportamentos’, mas proclamando a todos uma boa-notícia. Significativamente as maiores exigências evangélicas são precedidas do ‘bem-aventurados’. As exigências evangélicas não são ditadas por normas desencarnadas, mas por uma pedagogia do amor. A força ou a fraqueza de uma norma se concretiza no fascínio que ela desperta ou deixa de despertar. Uma vez fascinados por um ideal, os seres humanos são capazes de tudo, inclusive de dar sua vida por uma causa. Mas sem este fascínio se sentem impotentes, e mesmo revoltados. A tarefa primeira do agente de Pastoral Familiar não é cobrar comportamentos, mas, a partir da valorização das sementes divinas numa situação, fascinar ou ouvintes por um ideal”.

Importa fascinar as pessoas pelas propostas que emanam do Evangelho. Ao mesmo tempo, cuide-se para abrir os caminhos, apontar as possibilidades, criar as condições, evitar degradações, mesmo que se faça necessário proferir palavras com voz profética diante de situações que submergem nossas famílias em condições tanto subumanas quanto

de incertezas no rumo a seguir.

“Visto que a família é o valor mais querido por nossos povos, cremos que se deve assumir a preocupação por ela como um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da Igreja. Em toda diocese se requer uma pastoral familiar ‘intensa e vigorosa’ para proclamar o evangelho da família, promover a cultura da vida, e trabalhar para que os direitos das famílias sejam reconhecidos e respeitados”.

 

  1. As situações “especiais” e os “casos difíceis” num contexto de instabilidade familiar

São cada vez mais numerosas, em nossos dias, as situações especiais ou irregulares nas quais se encontram nossas famílias. São, não raras vezes, casos difíceis, vividos em meio a muitos conflitos e não poucos sofrimentos. Importa saber tratar com o devido embasamento ético-moral os que vivem nestas situações. Entre estas situações, podemos enumerar, como o faz a Familiaris Consortio, as uniões livres, o matrimônio por experiência, os casais unidos só em matrimônio civil, os separados e divorciados, os que contraem segunda união, os sem família e muitas outras situações particulares. Podemos elencar estas ou outras situações na forma como o faz o Diretório da Pastoral Familiar, da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família da CNBB: uniões de fato; separação mantendo a fidelidade ao vínculo conjugal; matrimônio canônico precedido por um divórcio civil; casados na Igreja, divorciados civilmente e novamente unidos pelo casamento civil; católicos unidos apenas no civil; crianças e famílias em situação de risco pessoal e social; crianças e adolescentes desprotegidos, abandonados ou em perigo; atenção aos idosos; famílias de migrantes.

Com relação às situações aqui aludidas, queremos apontar algumas linhas gerais e norteadoras do acompanhamento pastoral que aí se fazem necessárias. Para isto, se requer o empenho e o cuidado moral e pastoral nos seguintes pontos:

  1. a) Conhecer as situações e as suas causas concretas, caso por caso;
  2. b) Empenhar-se numa ação de esclarecimento paciente;
  3. c) Não abandonar, por motivo algum os que se encontram em qualquer uma dessas situações. João Paulo II diz-nos: “Que elas não se considerem separados da Igreja”.
  4. d) Buscar, sempre que possível, “aplainar o caminho para regularizar a situação”.
  5. e) Fazer sempre uma obra de prevenção, evitando ulteriores degradações;
  6. f) Distinguir entre o mal e a pessoa. “Ele (Jesus) foi intransigente para com o mal, porém misericordioso para com os homens”.
  7. g) Oferecer às famílias em dificuldades apoio e orientação, no diálogo;
  8. h) Aos cônjuges separados, preste-se apoio e acolhida, com especial atenção aos filhos;
  9. i) Distinguir quem é causa e quem é vítima em cada um dos casos. É bom sempre ter presente que “a pessoa é mais que a situação em que está envolvida”;
  10. j) Distinguir, com atenção e perspicácia, os que procuram ‘recursos’ mal intencionados;
  11. k) Sejam dadas as orientações necessárias para os que pode ou devem recorrer aos tribunais eclesiásticos.

Na Familiaris Consortio são apresentados também os chamados “casos difíceis” da Pastoral Familiar, além dos já citados. Trata-se de circunstâncias particulares, tais como, “as famílias dos emigrantes por motivos de trabalho; as famílias dos que são obrigados a ausências longas, por exemplo, os militares, os marinheiros, os itinerantes de todo tipo; as famílias dos presos, dos prófugos e dos exilados; as famílias que vivem praticamente marginalizadas nas grandes cidades; aquelas que não têm casa, as incompletas ou ‘monoparentais’; as famílias com filhos deficientes ou drogados; as famílias dos alcoólatras; as famílias desenraizadas do seu ambiente social e cultural ou em risco de perdê-lo; as discriminadas por motivos políticos ou por outras razões; as famílias ideologicamente divididas; as que dificilmente conseguem ter um contato com a paróquia; as que sofrem violência ou tratamentos injustos por causa da própria fé; as que se compõem de cônjuges menores; os idosos, não raramente forçados a viver na solidão e sem meios adequados de subsistência”.

Para estes casos, solicitava João Paulo II que haja “um empenho pastoral ainda mais generoso, inteligente e prudente, na linha do Bom Pastor, para aquelas famílias que – muitas vezes independentemente da própria vontade ou pressionadas por outras exigências de natureza diversa – se encontram em situações objetivamente difíceis. A este propósito é necessário voltar especialmente a atenção para algumas categorias particulares, mais necessitadas não só de assistência, mas de uma ação mais incisiva sobre a opinião pública e sobretudo sobre as estruturas culturais, econômicas e jurídicas, a fim de se poderem eliminar ao máximo as causas profundas do seu mal-estar”.

Importa, ao mesmo tempo, deixar claro que “as notas essenciais do matrimônio sacramental são a unidade, a indissolubilidade, o bem dos cônjuges e a procriação e educação dos filhos”. O caráter indissolúvel do matrimônio aparece sempre como uma “premissa maior”. Ao mesmo tempo, busca-se lembrar que a graça sacramental coloca os cônjuges num caminho de santificação e que, portanto, é caminho de crescimento, de aperfeiçoamento gradual, fortificando a unidade indissolúvel.

Não podemos, é claro, fechar os olhos para a diversidade de situações conjugais e familiares. Hoje em dia, constatamos que a família deixou de ser uma realidade monolítica, dentro do quadro que herdamos de uma família patriarcal e extensa. A nucleação familiar encontra-se reduzida, com uma composição variável, portanto, polifacética.

A análise das irregularidades nos faz constatar que, além do fenômeno estrutural, existe o relacional. Constatamos muitas vezes que “a família pode estar estruturalmente bem organizada e, no entanto, ser irregular pela desarmonia em suas relações: esponsais, familiares, filiais, fraternas, falta de um dos membros”. Além disso, damo-nos conta de uma real instabilidade familiar em nossos dias.

A instabilidade familiar torna-se mais claramente presente em nosso país à medida que a sociedade se urbaniza, a industrialização avança e uma visão moderna de indivíduo se impõe, esta veiculada com força pelos meios de comunicação social. A revolução industrial trouxe alterações no núcleo familiar, quer na maneira como se leva a cabo a atividade produtiva, não mais decidida dentro do quadro familiar, quer na transformação das relações sociais, antes centradas na grande família.

“O indivíduo passa a trocar sua energia por um salário que é pessoal. A força da tradição decai. Fatores mais racionais, de capacidade, realização e eficácia, passam a reger a vida, numa sociedade que deixa de ser estática. Esses fatores afetam em cheio o tipo de família patriarcal. De instituição principal, a família passa a uma posição subalterna, face ao econômico capitalizado. A grande indústria passa a tratar com indivíduos e não mais com famílias. Isso vai ‘liberando’ o indivíduo de suas obrigações, cargas e dependências familiares, o que vale também para as mulheres e os jovens. O trabalho, que se dava dentro do grupo familiar extenso, agora passa a um meio não familiar, cujos critérios são igualmente extrafamiliares”.

 

  1. Análise de algumas situações “especiais” ou “irregulares”

Passamos, a seguir, à análise dos principais casos especiais ou irregulares, que são os mais comuns na Pastoral Familiar. Entendemos por estes casos ou situações “aquelas formas de vida que os cristãos adotam no âmbito do matrimônio e da família e que não se mantêm dentro dos limites marcados pela normativa atual da Igreja”. Mesmo com brevidade, vejamos os aspectos que convêm analisar em cada uma das principais situações:

 

Uniões de fato

Situação: Trata-se aqui dos que se unem sem algum vínculo institucional, quer civil quer religioso. Formam famílias sem a preocupação de qualquer mediação ou reconhecimento público e/ou religioso. Dispensam a mediação de qualquer instância reguladora ou autoridade que possa sancionar o amor e a constituição da família.

Diversidade de situações: As situações que envolvem tais casos ou que estão na sua origem são muito diversas, tais como: constrangimentos econômicos, culturais e religiosos, causando dano ou perda num desses níveis ou discriminação; atitude de desprezo, contestação ou rejeição face a qualquer forma de instituição ou mediação que seja suporte do matrimônio; ignorância ou pobreza extremas, às vezes fruto de injustiças ou imaturidade psicológica; costumes de alguns países que prevêem um matrimônio só depois de um período de coabitação; e o atual secularismo que prescinde de qualquer vínculo institucional.

Aspectos problemáticos: As consequências destas uniões de fato são: “uma situação objetiva de pecado; a aceitação pacífica de um estilo de vida contrário ao sentido religioso do matrimônio e a falta de completas garantias e de segurança para o(a) companheiro(a) e os possíveis filhos”.

A Familiaris Consortio assim se exprime sobre a diversidade de situações:

“Cada um desses elementos põe à Igreja problemas pastorais, pelas graves conseqüências quer religiosas e morais (perda do sentido religioso do matrimônio à luz da Aliança de Deus com o seu Povo; privação da graça do sacramento; escândalo grave), quer também sociais (destruição do conceito de família; enfraquecimento do sentido de fidelidade mesmo para com a sociedade; possíveis traumas psicológicos nos filhos; afirmação do egoísmo)”.

–  Acompanhamento pastoral: Cabe aos pastores e à comunidade eclesial acompanhar caso por caso, estar próximos, conhecer as causas concretas para cada situação, sempre com discrição, respeito e afeto. Em muitos destes casos, a ação evangelizadora, através das pastorais, ajudará “a descobrir a essência do matrimônio e da família segundo o plano de Deus”, mostrando “a conveniência do matrimônio civil” e acompanhando estas pessoas “para que venham a receber o sacramento e, passo a passo, conduzi-las até chegarem a possuir a vida plena da graça, como objetivo final da sua ação pastoral”. Junto à sociedade importa atuar no sentido de valorizar a família e o matrimônio, superando toda forma de desprezo na opinião pública, bem como toda forma de situações econômicas inadequadas para a sustentabilidade digna da família (emprego, salário, moradia, saúde, educação, lazer, segurança etc). A estabilidade da família e do matrimônio é uma das colunas mestras para a estabilidade da própria sociedade e da fecundidade da Igreja.

 

Separação mantendo a fidelidade ao vínculo conjugal

Situação: Quando a convivência matrimonial chega a níveis insustentáveis, certo número de cônjuges assume, como remédio extremo e mal menor, “a separação da vida conjugal ou o divórcio civil e, ao mesmo tempo, permanecem fiéis ao vínculo contraído, convertendo-se, em meio a uma sociedade divorcista, em testemunhas eloqüentes do sinal sacramental do amor indestrutível de Cristo pela Igreja”.

Diversidade de situações: Na origem desta convivência matrimonial insustentável estão situações muito diversas que deverão ser diligente e cuidadosamente compreendidas e esclarecidas de caso para caso, a fim de “sustentar a coragem e o heroísmo desses esposos separados ou abandonados, mas fiéis à indissolubilidade do vínculo conjugal”.

Aspectos problemáticos: O Diretório da Pastoral Familiar inova ao incluir este caso, que não consta nem na Familiaris Consortio nem nas Orientações pastorais sobre o Matrimônio da CNBB, de 1978. Porém, ela é prescrita no Código de Direito Canônico, nos cânones 1151 a 1155. É sempre problemática tal situação, seja pelos motivos que a provocaram, incorrendo na dissolução da convivência conjugal, seja pela dificuldade dos cônjuges expressarem o perdão, deixando de mover-se pela caridade cristã. Situações de grave perigo podem se apresentar tanto para o outro cônjuge quanto para os filhos, devendo haver providência em favor do cônjuge inocente e dos filhos, cuja educação e sustento deverão ser garantidos.

Acompanhamento pastoral: Sempre que cessar a causa da separação,deve-se restaurar a convivência, “salvo determinação contrária da autoridade eclesiástica”. Por viverem fiéis à indissolubilidade do vinculo conjugal, este cônjuges “permanecem em comunhão plena com a Igreja, podendo evidentemente participar dos sacramentos. Talvez mais do que ninguém necessitam dos sacramentos como fontes da graça”. A comunidade eclesial deve se sentir envolvida no apoio, sustentando estes cônjuges, rodeando-os com sua estima, solidariedade, compreensão e ajuda concreta. Esses cônjuges precisam ser fortalecidos para “permanecerem abertos ao perdão, mesmo quando a reconciliação não seja possível”. A participação em diferentes pastorais e/ou organizações apostólicas deve ser estimulada, inclusive como auxílio espiritual e material aos que se encontram na mesma situação. Urge uma ação pastoral dos separados, auxiliando-os a “viver evangelicamente uma situação tão difícil”. Não se fechem as portas para estes cônjuges participarem da catequese, liturgia e caridade. Convém criar e promover grupos de pessoas separadas para uma ajuda mútua, organizando várias formas de encontro, desde simples conversas até retiros, momentos de oração, reuniões e encontros diversos. Não faltem aconselhamentos espirituais.

 

Matrimônio canônico precedido por um divórcio civil

Situação: Aumentam os casos dos “matrimônios sacramentais entre batizados, nos quais um dos cônjuges ou ambos desfizeram uma união anterior, meramente civil”.

Diversidade de situações: Se muitos são os motivos que podem estar na origem do divórcio civil, muitas também são as reações que a legitimação de uma nova união pode provocar. Pode haver “um impacto, às vezes forte, no cônjuge abandonado e nos filhos da união anterior”.

Aspectos problemáticos: Além do impacto que a legitimação na Igreja pode provocar, “nem todos estão em condições de entender as razões teológicas e jurídicas desse novo matrimônio perante a Igreja. Muito menos os que são diretamente prejudicados pela separação”.

Acompanhamento pastoral: Um discernimento atento deve ser feito em cada caso, inclusive para se resguardar o que o Código de Direito Canônico identifica como “obrigações naturais para com outra parte ou para com filhos nascidos de união precedente”. “É preciso, pois, examinar com muita prudência, as circunstâncias que envolvem a nova união. Cada caso deve ser objeto de uma solícita atenção pastoral”. Aqui convém acrescentar que a comunidade eclesial deixará sempre clara a sua posição frente a indissolubilidade do matrimônio, promovendo, se possível, a reconciliação entre os cônjuges e mostrando aos filhos e cônjuges da união anterior sua preocupação e seu apoio espiritual para diminuir as dificuldades e sofrimentos dos que não são culpados.

 

Casados na Igreja, divorciados civilmente e novamente unidos pelo matrimônio civil

–  Situação: Em nossos dias, estes casos crescem muito, alastrando-se inclusive entre os católicos. Rompe-se o vínculo matrimonial, procurando, então, uma nova união conjugal, porém sem o rito religioso católico.

Diversidade de situações: Haja vista a grande diversidade de situações impõe-se “discernir bem as situações”48. Entre estas, podemos encontrar os que “sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimônio e foram injustamente abandonados”, o que difere substancialmente daqueles que “por sua grave culpa destruíram um matrimônio canonicamente válido”. Encontramos também aqueles casos que “contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos”, bem como aqueles que “estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimônio, irreparavelmente destruído, nunca tinha sido válido”.

Aspectos problemáticos: Reconhece-se que geralmente “quem recorreu ao divórcio tem a intenção de realizar uma nova união, mesmo não podendo contrair matrimônio conforme o rito religioso católico”. Há igualmente um reconhecimento geral de que muitos casamentos foram mal preparados ou contém matéria de nulidade. Os Tribunais Eclesiásticos nem sempre são procurados para o julgamento do grande número de situações que poderiam ser apresentadas. A atitude da Igreja de não conceder a comunhão eucarística aos divorciados que se casam outra vez, se não for bem compreendida, poderá levá-los a se sentirem discriminados, sem compreenderem as razões.

 

Acompanhamento pastoral:

  1. a) “A Igreja, que foi instituída para a salvação de todos, não pode abandonar aqueles que, unidos pelo vínculo matrimonial sacramental, contraíram no civil novas núpcias”. Esta afirmação do Diretório da Pastoral Familiar, encontra respaldo na Familiaris Consortio, de João Paulo II, quando “exorta vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, procurando, com caridade solícita, que eles não se considerem separados da Igreja”. Subentende o Papa que estes, sendo batizados, devem participar da vida da Igreja, fazendo a seguinte explanação: “Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia-a-dia, a graça de Deus”.
  2. b) “A Igreja, contudo, reafirma a sua práxis, fundada na Sagrada Escritura, de não admitir à comunhão eucarística os divorciados que contraíram nova união. Não podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e condições e vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo a Igreja, significada e realizada na Eucaristia. Há, além disso, um outro peculiar motivo pastoral: se se admitissem essas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erros e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio”. Acolhido este princípio geral, emitido por João Paulo II na Familiaris Consortio, o Diretório da Pastoral Familiar identifica que “nem todos os divorciados que constituíram uma nova união estão incluídos na mesma situação pastoral”, como já vimos acima ao descrever a diversidade de situações. Esses casos são motivo de urgente atenção pastoral, no sentido de um cuidado “que precisa adequar-se a cada um desses casos”.
  3. c) Face a estas pessoas, “é necessário encontrar canais de participação na vida da Igreja”. Ao afirmar isto, seguindo o que já havíamos citado a partir da Familiaris Consortio, o Diretório da Pastoral Familiar aponta várias possibilidades de participação, que aqui enumeramos: participação da oração comunitária, cultivo da devoção à Eucaristia mediante a “comunhão espiritual” e visita ao Santíssimo Sacramento, participação da missa dominical, escuta e mediação da Palavra de Deus, exercícios de penitência, educação cristã dos filhos, prática da caridade. Cabe facilitar-lhes o acesso aos tribunais eclesiásticos para a eventual nulidade do matrimônio anterior, o que os habilitariam a contrair o matrimônio sacramental. Organizem-se “encontros e/ou retiros específicos”, busque-se, “com a necessária prudência pastoral, incorporar nos diferentes grupos de casais os que, por diferentes motivos, chegaram a formar uma segunda união”; e evite-se “toda cerimônia, bênção ou participação sacramental que possa ser interpretada como legitimação da segunda união. Uma tal prática induz a erros e enganos sobre a indissolubilidade do matrimônio validamente contraído, como conseqüente escândalo da comunidade”.
  4. d) João Paulo II faz, na Familiaris Consortio, uma ponderação que necessita de um discernimento todo próprio e que merece ser mencionada: “A reconciliação pelo sacramento da penitência – que abriria o caminho ao sacramento eucarístico – pode ser concedida só àqueles que, arrependidos de ter violado o sinal da Aliança e da fidelidade a Cristo, estão sinceramente dispostos a uma forma de vida não mais em contradição com a indissolubilidade do matrimônio. Isto tem como conseqüência, concretamente, que, quando o homem e a mulher, por motivos sérios – quais, por exemplo, a educação dos filhos –, não se podem separar, ‘assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges’”.

 

Católicos unidos apenas no civil

– Situação: Muitos são os católicos que se unem somente pelo contrato civil. O Diretório da Pastoral Familiar enfatiza que, “no âmbito da Igreja essa união é nula, porque não foi contraída de acordo com a forma estabelecida pelo Direito Canônico, exigida como requisito da validade”.

Há aí uma falha na formação religiosa, deixando de captar a importância da graça sacramental para a realização do matrimônio.

–  Diversidade de situações: Aqui também há uma diversidade muito grande de situações, havendo na origem desde a falha na formação religiosa já aludida até aqueles casos “em que – por temor ao compromisso de uma união permanente e irreversível, por insegurança em seus sentimentos, por imaturidade ou por influência da mentalidade secularista – alguns católicos optam apenas pelo matrimônio civil”.

–  Aspectos problemáticos: Faz-se necessário avaliar bem este matrimônio civil. Não pode ser considerado sem mais como um concubinato ou como uma mera união de casal, pois se alicerça sobre uma base ética e jurídica. Não se trata de “conviventes sem nenhum vínculo”, havendo ali “ao menos um empenho relativo a um preciso e provavelmente estável estado de vida”. Reconhece-se que existe, neste caso, uma disposição a assumir as vantagens e as obrigações do vínculo com reconhecimento público por parte do Estado. Há quem se pergunte se “em muitos casos e em algumas situações eclesiais este matrimônio civil não poderia ser considerado como uma etapa prévia ao matrimônio propriamente sacramental”.

Acompanhamento pastoral: “É de fundamental importância, em tais circunstâncias, o contato dos agentes de pastoral familiar com as pessoas que vivem esta situação. Aqui, a grande tarefa é fazer as pessoas compreenderem a incoerência da sua situação com a fé que professam. É conveniente que possam se integrar a uma comunidade, pois o cristianismo é essencialmente eclesial, como observamos. Enquanto perdure seu estado – insistimos – esses casais não podem aproximar-se dos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia. Sejam, porém, tratados com muita caridade e acolhida pastoral. A situação do casal nunca pode ser motivo para se negar a seus filhos os sacramentos que solicitam”.

 

Considerações finais

 

A intervenção da Igreja em favor da família deverá empregar todas as forças para que a Pastoral Familiar se afirme e se desenvolva, segundo afirma a própria Familiaris Consortio. É importante sublinhar que “a Pastoral Familiar abarca a família na sua situação real, em todos os seus aspectos e se dirige a todos os tipos de família: as regularmente constituídas como também as que se encontram em alguma situação de irregularidade”.

Se a Pastoral Familiar é um “setor verdadeiramente prioritário”, a sua presença generosa, inteligente e prudente nos casos especiais ou difíceis faz-se não só urgente, mas expressão mesma do amor de Deus. “Devem amar particularmente a família. É o que concreta e exigentemente vos confio”, afirmava João Paulo II, ao explicar este amor com as seguintes palavras: “Amar a família significa saber estimar os seus valores e possibilidades, promovendo-os sempre. Amar a família significa descobrir os perigos e os males que a ameaçam, para poder superá-los. Amar a família significa empenhar-se em criar um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. E, por fim, forma eminente de amor à família cristã hoje, muitas vezes tentada por incomodidades e angustiada por crescentes dificuldades, é dar-lhe novamente razões de confiança em si mesma, nas riquezas próprias que lhe advém da natureza e da graça e na missão que Deus lhe confiou”.

Urge anunciar de novo o Evangelho da Vida diante das muitas ameaças que pairam hoje contra a vida, quer no seio de nossas famílias, quer na sociedade, englobando o meio ambiente. “Em profunda comunhão com cada irmão e irmã na fé e animado por sincera amizade para com todos, quero mediar e anunciar o Evangelho da vida… para enfrentar os desafios sempre novos que encontramos no nosso caminho”.

Urge promover a cultura da vida. Sua proclamação e sua defesa, desde a fecundação até a morte natural, fazem parte do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo; inclui-se a dignidade e integridade da pessoa humana em todas as sua etapas, bem como a biodiversidade do nosso planeta. “A defesa fundamental da dignidade e desses valores começa na família”.

O cuidado moral e pastoral de nossas famílias em situações “especiais” requer respeito das pessoas humanas, sem distinções; requer abraçar a vida onde quer que ela se encontre, sem comparações; requer cuidado e amparo diante da que se encontra mais frágil; exige compromisso diante de rostos esquecidos e debilitados; clama por tutela em favor daquelas vidas que se encontram em condições de vulnerabilidade; urge um grito em favor das vidas exploradas e sugadas pelos impérios que idolatram a morte. Clamam por vida as que se estendem pelo chão de nossas indiferenças, de nossos individualismos, de nossas cegueiras. Um grito profético em favor da vida urge ser dado de cima dos telhados, hoje também. Não falte neste grito a misericórdia do Bom Pastor e a mordência profética daquele que clama pela vida dos mais pobres desta terra.

 

Publicado em Não categorizado | Deixe um comentário

CORPUS CHRISTI – origem da festa

ORIGEM DA FESTA DE CORPUS CHRISTI

 

A celebração teve origem em 1243, em Liège, na Bélgica, no século XIII, quando a freira Juliana de Cornion teria tido visões de Cristo demonstrando-lhe desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque. Em 1264, o Papa Urbano IV através da Bula Papal “Trasnsiturus de hoc mundo”, estendeu a festa para toda a Igreja, pedindo a São Tomás de Aquino que preparasse as leituras e textos litúrgicos que, até hoje, são usados durante a celebração. Compôs o hino “Lauda Sion Salvatorem” (Louva, ó Sião, o Salvador), ainda hoje usado e cantado nas liturgias do dia pelos mais de 400 mil sacerdotes nos cinco continentes.

A procissão com a Hóstia consagrada conduzida em um ostensório é datada de 1274. Foi na época barroca, contudo, que ela se tornou um grande cortejo de ação de graças.

No Brasil

No Brasil, a festa passou a integrar o calendário religioso de Brasília, em 1961, quando uma pequena procissão saiu da Igreja de madeira de Santo Antônio e seguiu até a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima. A tradição de enfeitar as ruas surgiu em Ouro Preto, cidade histórica do interior de Minas Gerais.
A celebração de Corpus Christi consta de uma missa, procissão e adoração ao Santíssimo Sacramento.
A procissão lembra a caminhada do povo de Deus, que é peregrino, em busca da Terra Prometida. No Antigo Testamento esse povo foi alimentado com maná, no deserto. Hoje, ele é alimentado com o próprio Corpo de Cristo. Durante a Missa o celebrante consagra duas hóstias: uma é consumida e a outra, apresentada aos fiéis para adoração. Essa hóstia permanece no meio da comunidade, como sinal da presença de Cristo vivo no coração de sua Igreja.

 

Publicado em Não categorizado | Deixe um comentário

PAPA FRANCISCO – catequese sobre o ESPÍRITO SANTO

CATEQUESE DO  PAPA FRANCISCO SOBRE O ESPÍRITO SANTO

O tempo Pascal que, com alegria estamos vivendo, guiado pela liturgia da Igreja, é por excelência o tempo do Espírito Santo dado “sem medida” (cf. Jo 3:34) por Jesus crucificado e ressuscitado. Este tempo de graça termina com a festa de Pentecostes, quando a Igreja revive o derramamento do Espírito Santo sobre Maria e os Apóstolos reunidos em oração no Cenáculo.

Mas quem é o Espírito Santo? No Credo professamos com fé: “Creio no Espírito Santo, que é Senhor e nos dá a vida.” A primeira verdade a qual aderimos no Credo é que o Espírito Santo é Kyrios, Senhor. Isto significa que Ele é verdadeiramente Deus, como são o Pai e o Filho, objeto, de nossa parte, do mesmo ato de adoração e glorificação que elevamos ao Pai e ao Filho. O Espírito Santo, de fato, é a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, é o grande dom do Cristo ressuscitado  que abre as nossas mentes e nossos corações à fé em Jesus como Filho enviado pelo Pai, que nos leva à amizade, à comunhão com Deus.

Mas eu quero focar no fato de que o Espírito Santo é a fonte inesgotável da vida de Deus em nós. O homem de todos os tempos e todos os lugares deseja uma vida plena e bela, justa e boa, uma vida que não seja ameaçada pela morte, mas que possa amadurecer e crescer até sua plenitude. O homem é como um viajante que, atravessando os desertos da vida, tem sede de água viva, abundante e fresca, capaz de saciar seu profundo desejo de luz, de amor, de beleza e paz. Todos nós sentimos esse desejo! E Jesus nos dá essa água viva, o Espírito Santo que procede do Pai e que Jesus derrama em nossos corações. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”, Jesus nos diz (Jo 10,10).

Jesus promete à samaritana uma “água viva”, com abundância e para sempre a todos aqueles que O reconhecem como o Filho enviado pelo Pai para nos salvar (cf. Jo 4, 5-26; 3:17). Jesus veio para nos dar esta “água viva” que é o Espírito Santo, para que a nossa vida seja guiada por Deus, animada por Ele, alimentada por Ele. Quando dizemos que o cristão é um homem espiritual, queremos dizer exatamente isso: o cristão é alguém que pensa e age segundo Deus, segundo o Espírito Santo. Mas me pergunto: e nós, pensamos segundo Deus? Agimos de acordo com Deus ou nos deixamos guiar por tantas outras coisas que não Deus? Cada um de nós deve responder a isto no profundo de seu coração.

Neste ponto, podemos nos perguntar: por que esta água pode saciar plenamente a nossa sede? Sabemos que a água é essencial para a vida; sem água morremos, ela sacia, lava, torna fecunda a terra. Na carta aos Romanos encontramos esta expressão: “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (5:5). Água viva, o Espírito Santo, dom do Ressuscitado que habita em nós, nos purifica, nos ilumina, nos renova, nos transforma para que nos tornemos participantes da própria vida de Deus, que é Amor. Por isso, o apóstolo Paulo afirma que a vida do cristão é animada pelo Espírito e seus frutos, que são “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5:22-23).O Espírito Santo nos introduz à vida divina como “filhos no Filho Unigênito”.

Em outro trecho da carta aos Romanos, que já mencionamos outras vezes, São Paulo resume tudo nestas palavras: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. E vós… recebestes o Espírito que nos torna filhos adotivos, pelo qual clamamos: ‘Abba, Pai’!. O mesmo Espírito, em união com o nosso espírito, comprova que somos filhos de Deus e, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se sofremos com Ele, para que também sejamos glorificados com Ele” (8, 14-17).

Este é o dom precioso que o Espírito Santo coloca em nossos corações: a própria vida de Deus, vida de verdadeiros filhos, uma relação de confiança, liberdade, confiança no amor e na misericórdia de Deus, que tem como efeito também um novo olhar ao outro, próximo ou distante, cada vez mais visto como irmão e irmã em Jesus, a ser respeitado e amado.

O Espírito Santo nos ensina a olhar com os olhos de Cristo, a viver a vida como Ele viveu, a entender a vida como Ele entendeu. É por isso que a água viva, que é Espírito Santo, sacia a nossa vida, porque nos diz que somos amados por Deus como filhos, que podemos amar Deus como filhos e que por sua graça podemos viver como filhos de Deus, como Jesus. E nós, escutamos o Espírito Santo? O que podemos dizer em relação ao Espírito? Dizem: Deus te ama. Dizem isso a nós. Deus te ama. Nós realmente amamos Deus e os outros como Jesus?

Deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, que Ele nos fale ao coração e nos diga isto: que Deus é amor, que Deus nos espera, que Deus é Paique nos ama como um verdadeiro Pai, nos ama verdadeiramente e isso somente o Espirito Santo nos diz ao coração. Sintamos o Espírito Santo, escutamos o Espírito Santo e vamos em frente pelo caminho do amor, da misericórdia e perdão. Obrigado.

Publicado em Não categorizado | 1 comentário

MAIO mariologia

MAIO – MÊS MARIANO

Síntese de MariologiaPe. Jair Cardoso Alves Neto – Amor a …

 

Quando chegou a plenitude dos tempos, mandou o seu Filho, nascido de mulher… para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gl 4,4-5). Constantemente na história da salvação, Deus manifesta o seu amor de Pai junto a seu povo. O amor é revelado por meio de uma eleição: uma jovem é separada para que por meio dela o Filho de Deus pudesse assumir a humanidade decaída com o pecado. Assim como por meio de uma mulher (Eva), o pecado “entrou” no mundo, Deus separa uma mulher para que por meio dela chegue a Salvação: dá-se uma nova criação. Há um novo Adão e, do seu lado é tirada a mulher, a nova Eva; um novo povo é constituído.

Maria é a Mulher do sim. O sim dado ao Amor. A obediência dada por amor. A entrega dada no amor. Desta maneira, Maria tem uma grande importância na história da salvação e na vida de muitos cristãos e sua figura é tradicionalmente reconhecida na Igreja Católica.

 

MARIA NO NOVO TESTAMENTO

 

Certamente, a Virgem tem na Bíblia um lugar discreto. Ela aí é representada toda em função de Cristo e não por si mesma. Mas sua importância consiste na estreiteza de seus laços com Cristo.

Maria está presente em todos os momentos de importância fundamental na história da salvação: não somente no princípio (cf. Lc 1 – 2) e no fim (cf. Jo 19,27) da vida de Cristo, mistérios da Encarnação e da morte redentora, mas na inauguração de seu ministério (cf. Jo 2) e no nascimento da Igreja (cf. At 1,14). Presença discreta, na maior parte das vezes, silenciosa, animada pelo ideal de uma fé pura, e de um amor pronto a compreender e a servir aos desejos de Deus e dos homens (cf. Lc 1,38-39.46-56; Jo 2,3) (BOFF, 2004).

Esta presença revela seu sentido total, e com toda a Escritura se a recolocarmos nos grandes quadros e correntes da teologia bíblica onde eles se situam, Maria aparece no término da história do povo eleito como correspondente de Abraão: Ela se apossa, pela fé, da promessa que ele havia recebido na fé. Ela é o ponto culminante onde o povo eleito dá nascimento a seu Deus e se torna a Igreja. Se alagarmos a perspectiva da história de Israel à história cósmica, segundo as insinuações de João e de Lucas, se compreendermos que Cristo inaugura uma nova criação, Maria aparece no início da salvação, como restauração de Eva: Ela acolhe a promessa de vida onde a primeira mulher havia acolhido a palavra de morte e se torna perto da nova árvore da vida a mãe dos vivos (LAURENTIN, 1965).

 

Maria no Evangelho de Marcos

O Evangelho de Marcos se constitui em duas questões fundamentais: Quem é Jesus de Nazaré? Como ser discípulo de Jesus, o Cristo? Questões que Maria, mãe de Jesus, como todos de sua família e todos da comunidade cristã, inclusive Marcos buscam entender.

No Evangelho de Marcos a pessoa de Maria aparece em duas passagens: Mc 3,31-35 e Mc 6, 3-4. Nestes textos Maria é a mãe biológica de Jesus que busca entender o filho juntamente com seus familiares. A mulher maternalmente solícita pela sorte do filho. Mas, que também é convocada a ser discípula na busca de compreender Jesus e sua missão e acolher sua proposta.  Ela também podia estar entre os primeiros a nutrir preocupações ainda muito humanas pela missão e a obra de Jesus.

Marcos indica que a verdadeira família de Jesus não é a de ordem carnal e que a ela pertencem todos os filhos do Reino. Assim, Maria, Mãe de Jesus é fundamental testemunho dos verdadeiros laços que criam comunhão com Jesus. Depois de ter levado Jesus, seu filho no ventre, era preciso que ela o gerasse no coração, cumprindo a vontade de Deus (cf. Mc 3,35), que se manifestava naquilo que Jesus dizia e realizava. Neste sentido, a figura de Maria “mãe” se harmoniza e se completa com a figura da “discípula” (SERRA, 1995).

 

Maria no Evangelho de Mateus

No Evangelho de Mateus a pessoa de Maria aparece em dois momentos: nos relatos da infância (cf. Mt 1-2) e no ministério apostólico de Jesus ( cf.Mt 12,46-50; 13,54-58). O primeiro é composto por relatos próprios de Mateus; o segundo está em dependência de Marcos, mas Mateus toma diante dele tal liberdade que é capaz de transformar seu sentido e seu ensinamento (ALVAREZ, 2005).

No Evangelho da Infância em Mateus, Jesus, como todos os meninos, não chega ao mundo sem um pai e uma mãe. Mateus fala de José, esposo de Maria (cf. Mt 1,16) e de Maria esposa de José (cf. Mt 1,24). Maria, por sua vez não tem existência sem José, do qual é esposa, e sem Jesus, do qual é mãe. Maria é aquela que gera e é mãe, ao passo que José é somente o pai legal.

Mt 1,3 fala sobre a concepção de Jesus, diz que esta se realizou “para que se cumpra o oráculo do Senhor, por meio do profeta […]” e cita Is7, 14, aplicando a Jesus a realidade do “Emanuel” e a Maria a de “virgem”. (Mateus quando) Ao falar do nascimento de Jesus, Mateus recorrendo ao texto de Isaías, não somente assume a interpretação dos LXX, mas ele mesmo interpreta teologicamente esse nascimento: Jesus é o Emmanuel e nasce de Maria Virgem. Neles dois se realiza plenamente o oráculo do profeta: Jesus é o Messias, e Maria é a Mãe-Virgem e, este fato maravilhoso somente pode ser entendido como a obra do Espírito Santo (ALVAREZ, 2005).

A união de Maria com seu Filho é, então, íntima, total e permanente. Desde a concepção virginal, Maria está expressamente unida a Jesus e é inseparável dele. Por isso, os escritores eclesiásticos aprofundam nesta realidade, dizendo que não podemos entender Jesus sem Maria e entender Maria sem Jesus.

Podemos notar, finalmente, como que um contraste nas expressões de Mateus: Enquanto Jesus é o Emmanuel de Deus, Deus – conosco, Maria é a Mãe que está sempre junto do seu Filho. Ela é a resposta permanente à presença sempre atual do Senhor na história.

Quanto ao ser discípulos de Jesus significa cumprir a vontade do Pai no céu, realizar seu plano. Para Mateus, o discípulo integra, então, a escuta da Palavra e sua ação (cf. Mt 5,19;Mt7,24-25), o estar junto de Jesus e sob a sua proteção (cf. Mt 12,49-50). E Maria, com perfeita discípula e “família dele” em um nível muito mais forte e firme do que o dos laços físicos de geração (ALVAREZ, 2005).

Portanto, o Evangelho de Mateus nos fala que Maria está intimamente ligada ao seu Filho Jesus Cristo, desde antes do nascimento e, uma vez nascido para o mundo, está unida a ele nos momentos fundamentais de sua vida e de seu ministério. Assim, Maria aparece, mesmo sem palavras, como testemunha da graça abundante de Deus para seu povo, mas também como mãe que cuida e acompanha o Filho de suas entranhas (ALVAREZ, 2005).

 

Maria no Evangelho de Lucas

De todos os Evangelhos, Lucas é o que mais nos fala de Maria. Primeiramente nos relatos da infância, onde ela tem um papel mais ativo do que o que vimos em Mateus; em seguida, no marco da atividade apostólica de Jesus, com quatro textos, dois dos quais coincidem com as tradições de Marcos e de Mateus (cf. Lc 4,16-30 e 8,19-21) e outros dois que pertencem à tradição própria de Lucas (cf. Lc 3,23 e 11,27-28); por último, no começo dos Atos dos Apóstolos, quando se inicia a história da Igreja (cf. At 1,14) (ALVAREZ, 2005).

A primeira coisa que temos de afirmar, ao entrar na análise dos textos lucanos sobre Maria, dentro do chamado Evangelho da infância (Lc1-2), é que os textos são fundamentalmente cristológicos e mariológicos. Maria não tem uma identidade e uma vocação própria, mas dentro e a serviço da cristologia. Ela é tudo para Jesus e se transforma e se enriquece plenamente por e para Jesus. Para isto, temos alguns títulos que ilustram esta tão grandiosa discípula: Filha de Sião, Virgem e Mãe, Cheia de Graça, Morada de Deus, Cheia do Espírito, Serva e mulher de fé e Portadora da santa presença. Temos também textos bíblicos que falam da sua experiência como Mãe do Salvador: Lc1, 26-28 (o anúncio do Anjo); Lc1-39-45 (a visita a Isabel); Lc1, 46-55 (o cântico da libertação). Assim sendo, Maria surge em Lucas como a primeira mensageira do Evangelho de Deus: leva a Notícia da paz, da felicidade e da salvação, desde a Galiléia até a região de Judá. Mas Maria é a primeira mulher que acolhe o Evangelho e o comunica a seus irmãos, trazendo-lhes o gozo escatológico, quer dizer, a alegria e a segurança da salvação definitiva (cf. Lc 1,44) (ALVAREZ, 2005).

Em Lucas percebemos a participação e a cooperação de Maria no plano da salvação, desde a anunciação até o início da Igreja: “todos estes unânimes, perseveravam na oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos” (At 1,14) (ALVAREZ, 2005).

Portanto, no Evangelho de Lucas vimos que Maria é apresentada como a Mãe do Salvador e esta em Atos exerce a função de Mãe da comunidade, pois, ela se encontra reunida com esta comunidade nascente para receber em oração a Promessa do Espírito; com esta comunidade reunida com os seus para orar e esperar de seu Filho o presente dos tempos novos. É, finalmente, irmã na comunidade e discípula do Senhor exaltada, que permanece em Jerusalém em cumprimento da Palavra do Mestre (cf. At 1,5-8) (ALVAREZ, 2005).

 

 Maria no Evangelho de João

O quarto Evangelho oferece-nos a história de Cristo, num esforço de “memória viva” que parte da fé pascal (cf. Jo 2,17.22;12,16;13,7;20,9) e é realizada por obra do Espírito, o Paráclito, que é testemunha fiel e o hermeneuta qualificado da vida e da obra do Cristo joânico (cf. Jo 14,15-17;15,26;16,7-11.13.15). O quarto Evangelho é do final do século I e expressa a situação de duas igrejas, primeiro na Síria e depois na Ásia Menor (ALVAREZ, 2005).

A figura de Maria aparece no quarto Evangelho em duas ocasiões, no começo e no final do Evangelho. Em ambas, Maria é chamada “a Mãe de Jesus” (cf. Jo 2,1.3.5;19,26), e em ambas a palavra do Mestre vai dirigida a ela com o nome de “mulher” (cf. 2,3;19,26), mas nunca aparece o nome próprio de Maria. No Evangelho de João Maria é chamada por dois nomes: “Mãe de Jesus” e “Mulher”. Enquanto a expressão “Mãe de Jesus” é um título que contrasta com a outra afirmação, “filho de José”, o termo “mulher” é comum em Jesus para dirigir-se às mulheres (cf. Mt15, 28; Lc13, 12; Jo4, 21; 8,10; 20,13). Contudo aqui, dito à sua Mãe tem uma conotação especial: o termo “mulher” dirigido por Jesus é um termo joânico que aparece em duas ocasiões (em Caná e na cruz) e forma uma espécie de inclusão. A mulher está presente no começo e no fim da vida pública, no momento em que o Messias inicia suas obras e na hora da morte, quando consuma sua obra (ALVAREZ, 2005).

Maria aparece no Evangelho de João, sobretudo em 2,1-12 como intercessora e evangelizadora. Como intercessora Maria apresenta simplesmente a Jesus, a necessidade dos que participam da festa de bodas: “Não há mais vinho” (Jo 2,3). Já como evangelizadora, a segunda palavra de Maria que encontramos no quarto Evangelho é significativa não só pelo que diz, mas também por aqueles aos quais a diz: “Fazei o que ele disser” (Jo 2,5) (ALVAREZ, 2005).

Se em Caná, Jesus lhe disse que ainda não havia chegado sua “Hora” e iniciou seus sinais, aqui, na cruz, na Hora da Páscoa, Jesus realiza seu último e definitivo sinal da salvação, a morte por todos e a entrega do Espírito (cf. Jo 19,30). Assim, Maria é chamada novamente com dois títulos de Caná: a Mãe de Jesus e a Mulher. Maria também é a testemunha por excelência da Páscoa de Jesus diante da comunidade (cf. Jo 19,35; 21, 24). E esta comunidade, ao entender o gesto de seu Senhor, a recebe entre seus bens mais preciosos: Maria passa a ser um bem precioso com que Jesus Cristo presenteia a Comunidade, um dom da Páscoa de inapreciável valor; mas também a Mãe de todos acolhida como tal (ALVAREZ, 2005).

A visão do quarto Evangelho é nitidamente teológica contribui para realçar o papel de Maria no mistério de Jesus. Assim, o Evangelho de João articula os três elementos, Maria – Mãe de Jesus, Maria – Mulher e Maria – Mãe dos discípulos, segundo uma graduação teológica: partindo de Maria – Mãe de Jesus para chegar a Maria – Mãe dos discípulos, com uma maternidade nova.

 

 OS DOGMAS MARIANOS

Os quatro dogmas marianos: “Maternidade Divina” = “Mãe de Deus” (Theotókos), e “Maria Virgem” = Virgindade, são antigos e estão estreitamente ligados entre si e inseparáveis da fé em Jesus Cristo e a sua formulação histórico- dogmática. Os dogmas da “Imaculada Conceição” e “Assunção de Maria” são mais recentes e estão baseados na dignidade e no significado de Maria Virgem e Mãe de Deus.

 

 

 

A Maternidade Divina e Virginal

Julga-se que o título Theotókos, Mãe de Deus, aparece pela primeira vez, na literatura cristã, nos escritos de Orígenes (†250). Foi solenemente proclamado pelo Concílio de Éfeso (431) (BETTENCOURT, 2004).

Em que sentido Maria é a Mãe de Deus? Toda mãe é mãe de uma pessoa. A Pessoa que nasce de Maria é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que dela assumiu a carne humana. Maria, porém, não é mãe apenas da carne humana, mas de toda a realidade do seu Filho, o Verbo encarnado. Daí dizer-se que Maria é Mãe de Deus, mas enquanto Deus feito homem.

Deus escolheu Maria, por benevolência ou gratuidade, para ser Mãe Santa. Portanto, encheu-a de graça. Maria correspondeu fielmente ao dom de Deus, dizendo-se e fazendo-se a serva do Senhor (cf. Lc 1,38. 44). Maria foi escolhida como filha de Sião ou como membro de um povo chamado a gerar o Messias. Isto quer dizer que o Sim de Maria é o Sim de uma coletividade; é o Sim de todo o gênero humano, chamado a se prolongar na Igreja através dos séculos (BETTENCOURT, 2004).

Maria concebeu o Filho de Deus de maneira livre e generosa. Para isto, devia ter certo conhecimento do dom e da missão que lhe eram propostos (não se tratava de conhecimento pleno; (cf. Lc 2,50). Maria é privilegiada, mas ela se intitula “servidora de Deus e dos homens” (cf. Lc 2,38. 48). O próprio Jesus ensinou que “o maior deve ser como aquele que serve” (cf. Lc 22,26; Jo 12,13-15).

Desde remota época a Igreja professa que Maria é sempre virgem (no sentido físico). Esta verdade pertence ao patrimônio da fé, como declarou, em conformidade com a Tradição, o Papa Paulo V (aos 7/08/1555): “A bem-aventurada Virgem Maria foi verdadeira Mãe de Deus, e guardou sempre íntegra a virgindade, antes do parto, no parto e constantemente depois do parto” (DS 1880 [993]).

A doutrina da concepção virginal de Maria começa a ter sentido quando abordada de modo contemplativo no contexto da encarnação. As narrativas da infância de Mateus e Lucas são as únicas fontes que falam da concepção virginal de Jesus. Elas testemunham que Maria concebeu Jesus pelo poder da sombra do Espírito Santo sem intervenção masculina (cf. Lc 1,26-38; Mt 1,18-25). Os dois autores estão indicando o interesse na concepção virginal como sinal de escolha e graça divinas. A descrição extraordinária do nascimento de Jesus entra no discernimento cristológico de que Jesus é Filho de Deus, o Messias, desde o nascimento.

Assim, a doutrina da virgindade de Maria é indicativo das origens de Jesus no mistério de Deus que não se explicita apenas por ascendência humana, mas pela iniciativa criadora de Deus. Maria é virgem e mãe. Maria Virgem porque se guardou íntegra para Deus. Virgem por guardar íntegra a Palavra de Deus: “Faça-se em mim…”. Por isso é também a “sempre virgem Maria”: avançou íntegra na “penumbra da não-visão”; avançou em “peregrinação de fé” (LG 58).

 

Imaculada Conceição

O dogma da Imaculada Conceição significa que, no primeiro instante de sua conceição, a Bem-aventurada Virgem Maria foi, por graça e privilégio singulares de Deus onipotente e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, preservada de toda mancha da culpa original (DS 2803 [1641]).

Esta verdade, solenemente definida por Pio IX em 08/12/1854, foi aos poucos aflorando à consciência da Igreja. Durante muito tempo, os teólogos perguntavam como poderia Maria ter sido salva por Jesus Cristo se nunca tivesse pecado. Finalmente, João Duns Scoto, O.F.M. (†1308) propôs a fórmula decisiva: “pertence à perfeição do Redentor não somente purificar do pecado, mas preservar do pecado a mais dileta dentre as criaturas” (BETTENCOURT, 2004, p.06).

Maria, portanto, foi isenta do pecado original em previsão dos méritos de Cristo; assim, ela foi remida de maneira mais perfeita do que as outras criaturas.

Maria nunca contraiu pecado pessoal, nem a mais leve culpa. A razão pela qual o Senhor Deus quis outorgar tal privilégio a Maria, se deriva da graça da maternidade divina: não convinha que aquela mulher chamada a ser tabernáculo do Altíssimo ou Mãe de Deus feito homem estivesse, por um momento sequer, sujeita ao domínio do pecado e de Satanás. O anjo declarou Maria “cheia de graça” (Lc 1,26) – o que sugere que desde o início da sua existência ela gozou da plenitude do favor divino.

A riqueza de graças em Maria não impediu que ela vivesse de fé e de esperança, em meio a lutas e dores. A sua fé inspirou-lhe a obediência incondicional a Deus, que lhe pedia cada vez mais generosa. Maria não compreendeu desde o início a grandeza da obra que Deus nela realizaria; também se sentiu perplexa, mais de uma vez, diante do procedimento de seu Filho (cf. Lc 2,49s), mas abandonou-se a Deus sem reservas.

 

Assunção de Maria

Desde remota época (séculos IV e V), os autores cristãos julgaram que Maria teve um fim de vida terrestre singular; em seus sermões e em escritos apócrifos, professaram a glorificação corporal de Maria, logo após a sua morte na terra. Esta crença foi-se transmitindo até que o Papa Pio XII em 1950 houve por bem proclamá-la solenemente como dogma de fé (FIORES, 1995).

Com efeito, Maria, que não esteve sujeita ao império do pecado para poder ser a santa Mãe de Deus, não podia ficar sob o domínio da morte que entrou no mundo através do pecado (cf. Rm 5,12). Por isto, não conheceu a deterioração da sepultura, mas foi glorificada não somente em sua alma, mas também em seu corpo (FORTE, 1985).

A carne da mãe e a carne do filho são uma só carne. Por isto, a carne de Maria devia tocar a mesma sorte que tocou a carne de Jesus: ambas foram glorificadas no fim desta caminhada terrestre. Existe uma tendência a empalidecer o significado da glorificação corporal de Maria mediante a tese da ressurreição de todo indivíduo logo após a morte: o caso de Maria seria um entre outros pares (BETTENCOURT, 2004).

A Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos (CIC 966).

 

MARIA NOS DOCUMENTOS DO VATICANO II: LUMEN GENTIUM E MARIALIS CULTUS

A figura de Maria foi de suma importância para o Vaticano II: o Papa João XXIII abriu o Concílio na festa da Maternidade Divina de Maria (11 de outubro de 1962) e o Papa Paulo VI o concluiu na vigília da Imaculada Conceição (07 de dezembro de 1965). O Concílio, todavia, abre perspectivas de um novo tempo, nos deixando o “Capítulo VIII” da Lumem Gentium. Depois do Concílio Vaticano II, temos a exortação de Paulo VI (02 de fevereiro de 1974) (FURLANI, 2005).

 

Maria no Capítulo VIII da Lumen Gentium

O capítulo VIII da Lumem Gentium integra o mistério da Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja. Este documento dá destaque à fundamentação bíblica e tradicional da doutrina mariana, levando em conta a exegese recente, os Padres da Igreja e dos teólogos posteriores.

No seu conteúdo, representa a doutrina clássica em termos modernos: Maria, a Mãe de Deus e tipo de Igreja é vista como pessoa que se oferece livre e conscientemente à graça de Deus.

A devoção aparece como incentivo para a fé e amor de Jesus. E favorece ao diálogo ecumênico, assumido no Concílio. O Papa Paulo VI na promulgação da Constituição Lumem Gentium, terminou sua alocução proclamando Maria Mãe da Igreja, título que não aparece no documento conciliar, mas foi acrescido às “Ladainhas lauretanas” (FIORES, 1995).

 

 

 

Marialis Cultus

A Exortação Apostólica do Papa Paulo VI (02/02/ 1974), parte da renovação litúrgica, decidida pelo Concílio Vaticano II, para explicar o lugar de Maria no ciclo geral e o sentido das festas propriamente marianas (FIORES, 1995).

A Exortação segue o que orienta o Concílio: […] promovam generosamente o culto, sobretudo o litúrgico, para com a Bem-Aventurada Virgem Maria; dêem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo magistério […] (LG 67). Neste ensinamento, Paulo VI articula a questão da cultura e da inculturação do culto devido a Maria, como a Mulher que soube viver no seu contexto e inserir-se no mistério de Cristo, porque foi uma mulher que acreditou naquilo que o Senhor lhe disse.

A Exortação especifica as características e evidencia elementos teológicos e espirituais do culto e de uma devoção mariana para o nosso tempo. Portanto, no seu conteúdo doutrinal, o mistério de Maria deve ser compreendido como um mistério trinitário, cristológico, pneumatológico e eclesial; em relação à devoção mariana deverá seguir quatro orientações: “bíblica, litúrgica, ecumênica e antropológica, para tornar mais vivo e mais inteligível o vínculo que nos une a mãe de Cristo e mãe nossa na comunhão dos santos” (MC 29).

O cunho bíblico em toda forma de culto é princípio e fato reconhecido pela piedade cristã e também pela piedade mariana. O conteúdo bíblico, portanto é referencial para alimentar o amor para com Maria e o culto que a ela se presta (MC 30).

Na característica antropológica, mostra que o mundo moderno requer uma nova imagem de Maria. Os cristãos devem fazer ver em Maria o modelo de pessoa humana, da mulher responsável e co-responsável, em conformidade com a realidade bíblica e levando em conta as exigências do fenômeno da libertação da mulher e do reconhecimento dos seus direitos na sociedade moderna (MC 35).

Na questão do ecumenismo a Marialis Cultos orienta que se mantenham os sentimentos de unidade de todos os cristãos  pois: “[…] todos aqueles que confessam abertamente que o filho de Maria é o Filho de Deus e Senhor nosso, Salvador e único Mediador (cf. 11Tm 2,5), são chamados a serem uma só coisa entre si, com Ele e com o Pai, na unidade do espírito Santo” (MC 32).

O lugar de Maria na liturgia se insere na celebração da obra salvífica do Pai: o Mistério de Cristo. Neste mistério inseriu-se a memória de Maria como Mãe de Cristo, celebrando-se de forma explícita a íntima ligação que a Mãe tem com o Filho de Deus (MC 3-4). Na celebração dos eventos dos mistérios da salvação, Maria aparece associada ao Filho em primeiro lugar na Celebração Eucarística, quando se invoca a memória da “sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e Senhor Jesus Cristo” (Oração Eucarística I) e as memórias incorporadas pela liturgia da Igreja e aquelas que nascem da experiência de fé das comunidades cristãs. Da tradição perene e viva da fé da Igreja colhem-se as mais significativas expressões da piedade e devoção marianas (MC 9-15).

Publicado em Não categorizado | Deixe um comentário

PAPA FRANCISCO – a família cristã e o fermento para a nova sociedade

Papa Francisco mostra o seu conceito de família cristã, e explicou como a família pode ser fermento para toda a sociedade.

Apresentamos dez reflexões tiradas dos dois principais encontros do Papa com as famílias cristãs.

  1. O que mais pesa é a falta de amor

“Aquilo que pesa mais do que tudo isso é a falta de amor. Pesa não receber um sorriso, não ser benquisto. Pesam certos silêncios, às vezes mesmo em família, entre marido e esposa, entre pais e filhos, entre irmãos. Sem amor, a fadiga torna-se mais pesada, intolerável. Penso nos idosos sozinhos, nas famílias em dificuldade porque sem ajuda para sustentarem quem em casa precisa de especiais atenções e cuidados. ‘Vinde a Mim todos os que estais cansados e oprimidos’, diz Jesus.”

  1. Os perigos da família

“Os esposos cristãos não são ingênuos, conhecem os problemas e os perigos da vida. Mas não têm medo de assumir a própria responsabilidade, diante de Deus e da sociedade. Sem fugir nem isolar-se, sem renunciar à missão de formar uma família e trazer ao mundo filhos.”

  1. A graça do sacramento do Matrimônio 

“Os sacramentos não servem para decorar a vida – mas que lindo matrimônio, que linda cerimônia, que linda festa!… Mas aquilo não é o sacramento, aquela não é a graça do sacramento. Aquela é uma decoração! E a graça não é para decorar a vida, é para nos fazer fortes na vida, para nos fazer corajosos, para podermos seguir em frente! Sem nos isolarmos, sempre juntos.”

  1. A necessidade familiar dos cristãos

“Os cristãos casam-se sacramentalmente, porque estão cientes de precisarem do sacramento! Precisam dele para viver unidos entre si e cumprir a missão de pais. ‘Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença’. Assim dizem os esposos no sacramento.”

  1. A família é para a vida toda

“Uma longa viagem, que não é feita de pedaços, dura a vida inteira! E precisam da ajuda de Jesus, para caminharem juntos com confiança, acolherem-se um ao outro cada dia e perdoarem-se cada dia. E isto é importante! Nas famílias, saber-se perdoar, porque todos nós temos defeitos, todos! Por vezes fazemos coisas que não são boas e fazemos mal aos outros. Tenhamos a coragem de pedir desculpa, quando erramos em família.”

  1. Com licença, obrigado, desculpa

“Para levar adiante uma família, é necessário usar três palavras. Três palavras: com licença, obrigado, desculpa. Três palavras-chave!”

  1. A família que ora

“Todas as famílias, todos nós precisamos de Deus: todos, todos! Há necessidade da sua ajuda, da sua força, da sua bênção, da sua misericórdia, do seu perdão. E é preciso simplicidade: para rezar em família, é necessária simplicidade! Rezar juntos o ‘Pai Nosso’, ao redor da mesa, não é algo extraordinário: é fácil. E rezar juntos o Terço, em família, é muito belo; dá tanta força! E também rezar um pelo outro: o marido pela esposa; a esposa pelo marido; os dois pelos filhos; os filhos pelos pais, pelos avós… Rezar um pelo outro. Isto é rezar em família, e isto fortalece a família: a oração.”

  1. A família conserva a fé

“As famílias cristãs são famílias missionárias. Ontem escutamos, aqui na praça, o testemunho de famílias missionárias. Elas são missionárias também na vida quotidiana, fazendo as coisas de todos os dias, colocando em tudo o sal e o fermento da fé! Guardai a fé em família e colocai o sal e o fermento da fé nas coisas de todos os dias.”

  1. A alegria da família

“A alegria verdadeira vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos sentem no coração, e que nos faz sentir a beleza de estarmos juntos, de nos apoiarmos uns aos outros no caminho da vida.”

  1. Deus e a harmonia em meio às diferenças

“Ter paciência entre nós. Amor paciente. Só Deus sabe criar a harmonia a partir das diferenças. Se falta o amor de Deus, a família também perde a harmonia, prevalecem os individualismos, se apaga a alegria. Pelo contrário, a família que vive a alegria da fé, comunica-a espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade.”

Publicado em Não categorizado | Deixe um comentário

PAPA FRANCISCO – Oração dos cinco dedos

ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS – Papa Francisco

Um método de oração cuja autoria é atribuída ao Papa Francisco, quando era ainda bispo de Buenos Aires, Argentina.

1.O dedo polegar é o que está mais perto de ti.

Assim, começa por orar por aqueles que estão mais próximo de ti. São os mais fáceis de recordar. Rezar por aqueles que amamos é «uma doce tarefa«.

  1. O dedo seguinte é o indicador: reza pelos que ensinam, instruem e curam. Eles precisam de apoio e sabedoria ao conduzir outros na direcção correta. Mantém-nos nas tuas orações.
  2. A seguir é o maior. Recorda-nos os nossos chefes, os governantes, os que têm autoridade. Eles necessitam de orientação divina.
  3. 4. O próximo dedo é o anelar. Surpreendentemente, este é o nosso dedo mais débil. Ele lembra-nos que devemos rezar pelos débeis, doentes ou pelos atormentados por problemas. Todos eles necessitam das nossas orações.
  4. E finalmente temos o nosso dedo pequeno, o mais pequeno de todos. Este deveria lembrar-te de rezar por ti mesmo. Quando terminares de rezar pelos primeiros quatro grupos, as tuas próprias necessidades aparecer-te-ão numa perspectiva correcta e estarás preparado para orar por ti mesmo de uma maneira mais efectiva.

Deus nos abençoe a todos. Boa oração!

Publicado em Não categorizado | Deixe um comentário