A VIDA SUSPENSA NUMA CORDA

Era um belo pé de abacate. Lá no alto um galho grosso, perfeito para me sustentar. Subi com dificuldade no abacateiro. Meu objetivo era sentar-me no forte braço da árvore. E consegui.

Levava uma corda enrolada no meu ombro, que também sustentava o meu peso. Primeiro sentei-me no grosso galho. Cheguei mesmo a ficar em pé sobre ele e pular algumas vezes, tudo para ver aguentaria o meu corpo. Era tão firme que quase nem balançou com os meus pulos.

Feito o teste, amarrei com firmeza uma das pontas da corda no galho. Para a verificação final, desci por ela até o chão. Tudo estava perfeito para alcançar meu objetivo.

No solo, ao lado da árvore já havia deixado um pequeno pedaço de tábua com dois furos em cada lateral pelos quais havia passado um pedaço da corda. Quatro hastes da corda unidas logo acima, onde fixei aquela que descia da árvore. Fiz tudo calculando que a base da tábua ficasse na altura do meu umbigo.

Tudo pronto sentei na tábua e balancei muito. O vento batia no meu rosto. Movia o corpo para frente e para trás e cada vez ia mais alto. Como é bom balançar!

Minha vida suspensa numa corda. Coisa boa demais!

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Uma vírgula no livro de Deus

No livro Divino da vida sou apenas uma vírgula. Vírgulas são diferentes dos pontos finais. Eles encerram um pensamento.  Também elas diferem dos dois pontos. Um ponto sobre o outro abre uma nova ideia.

 Senhor Deus, que nunca na minha vida eu encerre o vosso pensamento e a vossa vontade. Peço humildemente que jamais coloque a minha vontade acima da Vossa.

No livro Divino da vida, quero ser apensas uma vírgula. Vírgulas acrescentam, somam, são sinais importantes para que a respiração aconteça dando fôlego para a compreensão do todo. No livro da vida de Deus sou está vírgula.

       Senhor Deus, desejo  ser um instrumento para que as pessoas respirem e compreendam o vosso imenso amor por nós. Fazei que eu também seja um instrumento que acrescenta, que soma.

Senhor Deus, que eu possa, no livro da vida escrito com a tinta do vosso amor, ser uma simples vírgula. Amem.

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A CADEIRA VAZIA: reflexões de uma mãe

A CADEIRA VAZIA: reflexões  de uma mãe

Padre Tarcísio Spirandio

Meu coração bateu mais forte quando as contrações começaram. Rapidamente fui levada à maternidade e o parto aconteceu. Foi linda a primeira mamada. Como o tempo corre… Ufa! Ainda me lembro dos primeiros passos. Queria segurá-lo o tempo todo para que não caísse. Sofrido foi o momento de levá-lo a primeira vez à creche. Deixá-lo lá sozinho… Quer dizer, não estando eu por perto, mesmo havendo tanta gente cuidando das crianças, parecia que eu o havia deixado só.

Outra situação difícil foi quando nos seus 15 anos apareceu  aqui em casa com a primeira namorada.  Olhei e não gostei dela. Falei isso, mas ele nem se importou. E trouxe mais duas ou três depois daquela e de todas não gostei. Não que fossem jovens más, nada disso. É que sentia como se fossem tirar meu menino de mim. Um dia isso aconteceu. Foi quando me disse com todas as letras:

– Vou me casar!

Aí o coração doeu. Ele nem tinha saído de casa e eu já sentia a sua falta. A cerimônia do casamento foi linda, emocionante. E eu? Olha só: eu chorava de felicidade e de saudade, coisa de doida. Ah! Esqueci-me de mencionar que na época do casamento já era viúva. Ele passou a ocupar o lugar do pai à mesa, acho para que me sentisse mais confortada. Era na cadeira à minha frente que sentava e se deliciava com a minha comida.

Após o casamento, acho que por quase uma semana continuei a colocar o prato dele à mesa. Era uma forma de me consolar com a ausência. Almoçava chorando ao ver a cadeira vazia.  Chorava por sentir saudade das suas piadas, do seu jeito doce e, às vezes, rude de falar. Nunca pensei que diria isso, mas até das nossas brigas tive saudade. Loucura! Isso é loucura, disse para mim mesma. Chega de chorar, dizia, mas as lágrimas vinham mesmo que eu não as quisesse mais. Meus olhos deixaram de lacrimejar quando veio o primeiro neto. Coloquei mais cadeiras em torno da mesa. Mas só ficavam cheias quando vinham em casa, uma ou duas vezes por mês.

Um dia a campainha tocou fora de hora. Eram uma dez e meia da noite. Assustada, olhei pelo cantinho da janela e sabe quem eu vi? Ele!  Sim! Meu filho!  Abri a porta e o avistei só, na minha frente com uma mala enorme ao seu lado. Ainda na entrada da casa, me fitando com os olhos lacrimejados, disse:

– Mãe! Minha esposa pediu o divórcio e voltei para morar com a senhora.

No começo foi uma mistura de tristeza e alegria. Tristeza por saber da dor da separação. Alegria por ver de novo a cadeira cheia. E na hora da refeição ouvia suas conversas e piadas. Quando questionava o motivo do divórcio, aí ficava zangado. Então me calava. De qualquer forma a cadeira estava ocupada de novo. Mas o sentimento que a cadeira cheia me despertou foi estranho. Vou explicar

No terceiro dia da sua volta senti que algo estava errado.  Desde que a cadeira ficara vazia, criei novos hábitos. Fazia a comida na hora que queria. Às vezes era só um lanche mesmo.  Havia os passeios com minhas amigas, atividades no clube da terceira idade e muitas outras coisas. Imagine, comecei ate a praticar ginástica.  Com a sua volta, tudo mudou. Outra vez tive que cozinhar na hora certa, lavar suas roupas e o pior, ficar mais tempo sem ver o neto.

Minha nossa! De repente aquele sentimento estranho foi aumentando dentro de mim. Olhando a cadeira cheia, comecei a desejá-la vazia. Quero esta cadeira vazia, dizia convicta. Esse era o meu desejo estranho. Chorei tanto por ver a cadeira vazia e agora que estava cheia não queria mais isso.  Por ter este desejo me sentia culpada.

Ser mãe é isso. Chorar pela cadeira vazia, arrumar coisas para fazer a fim de esquecer a dor da ausência. Depois ver a cadeira cheia de novo, alegrar e entristecer, tudo ao mesmo tempo.

Não importa a cadeira estar vazia ou cheia. Sou mãe e não posso realizar meus desejos no filho. Basta viver cada dia sonhando sempre que ele acerte seus caminhos e seja feliz na cadeira da mãe ou na cadeira da casa de sua família.

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Leitura rápida DOCUMENTO 105 CNBB -CRISTÃOS LEIGAS E LEIGOS NA IGREJA E NA SOCIEDADE –(Mateus 5,13-14)

CRISTÃOS LEIGAS E LEIGOS NA IGREJA E NA SOCIEDADE – Sal da Terra e Luz do Mundo (Mateus 5,13-14)

CNBB DOCUMENTO 105

O Documento 105 está dividido em três capítulos além de uma Introdução e conclusão. O primeiro capítulo é titulado “O Cristão Leigo, Sujeito na Igreja e no Mundo: esperanças e angústias” e trata da descoberta da vocação e missão do cristão leigo e leiga na Igreja e na Sociedade. O segundo capítulo é titulado: “Sujeito Eclesial: Discípulos Missionários e Cidadãos do Mundo” e trata da compreensão da identidade e da dignidade laical como sujeito eclesial e identifica a atuação dos leigos, considerando a diversidade de carismas, serviços e ministérios na Igreja.
O terceiro capítulo, o mais longo, é titulado “A Ação Transformadora na Igreja e no Mundo” e aborda a dimensão missionária da Igreja e indica aspectos, princípios e critérios de formação do laicato, e aponta ainda lugares específicos da ação dos leigos. A Conclusão apresenta nove aspectos de itens importantes encontrados no Documento da CNBB 105.

INTRODUÇÃO

3- A realidade eclesial, pastoral e social dos tempos atuais torna-se um forte apelo a uma avaliação, aprofundamento e abertura do laicato.
5-O Concílio Vaticano II propõe: “O Caráter secular caracteriza os leigos. A vocação própria dos leigos é administrar e ordenar as coisas temporais, em busca do Reino de Deus”.
6-O Beato Paulo VI lembra: Dos leigos, “a sua primeira e imediata tarefa não é a instituição e desenvolvimento da comunidade eclesial – esse é o papel específico dos pastores. A primeira e imediata tarefa dos leigos é o vasto e complicado mundo da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes..
7-Contudo, apesar do desenvolvimento da comunidade não ser a sua tarefa primeira, os leigos são chamados a participar da ação pastoral da Igreja (Documento de Aparecida n.211).
8-Portanto, o leigo não pode substituir o pastor naquilo que lhe compete por vocação, o pastor não pode igualmente substituir o leigo naquilo que lhe é próprio vocacionalmente.
11-A partir da sua vocação específica, cristãos leigos vivem o seguimento de Jesus na família, na comunidade igreja, no trabalho profissional, nas diversas participações na sociedade civil, colaborando assim na construção de uma sociedade justa e solidária.

Capítulo 1 – O CRISTÃO LEIGO, SUJEITO NA IGREJA E NO MUNDO: ESPERANÇAS E ANGÚSTIAS

Sal da Terra e luz do mundo (Mateus 5,13-14), assim Jesus definiu a missão que aos seus discípulos missionários confiou. As imagens do sal e da luz são particularmente significativas se aplicadas aos cristãos leigos . Nem o sal, nem a luz, nem a Igreja e nenhum cristão vivem para si mesmos. No caso dos cristãos, somente surtirão o efeito da Boa Nova, se estiverem ligados a Jesus Cristo (João 15,18).
O grande campo de ação dos cristãos é o mundo. Por isso o Concílio Vaticano II afirma que a Igreja está dentro do mundo, não fora. Na relação com o mundo a Igreja se vê pequena: pequeno rebanho, sal na comida, fermento na massa, semente lançada na terra.

CRISTÃOS LEIGOS NOS DOCUMENTOS DA IGREJA

Já em 1968 o documento de Medellin (n.10.2.6) destacava a importância da ação dos leigos cristãos na Igreja e na sociedade. Tal tema se repetiu no Documento de Puebla (1979- n.786) que identifica os leigos como homens e mulheres da Igreja no coração do mundo e homens e mulheres do mundo no coração da Igreja. O Documento de Santo Domingo (1992- n.98) os chamava de protagonistas da transformação da sociedade. Já o Documento de Aparecida (2007-n.213) pediu maior abertura de mentalidade para que entendam e acolham o ser e o fazer do leigo na Igreja, que por seu Batismo e Confirmação é discípulo e missionário de Jesus Cristo.
Em 1.999 o episcopado brasileiro lançou o documento 62 ”MISSÃO E MINISTÉRIOS DOS CRISTÃOS LEIGOS ” que oferece à Igreja orientação para o discernimento sobre o laicato e sua atuação na organização dos ministérios na comunidade.
Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (n.20.24) o Papa Francisco lança um vigoroso chamado para que todo o povo de Deus saia para evangelizar. Por último, o Ano da misericórdia (08/12/2015 a 20/11/2016) convida a abrir as portas do coração à prática das obras da misericórdia e ir ao encontro dos excluídos ou discriminados.

2- AVANÇOS E RECUOS

Em todo este período de destaque da vocação dos cristãos leigos , a partir do Concílio Vaticano II, houve avanços e recuos.

2.1- Avanços

1- A criação do Conselho Nacional do Laicato do Brasil.
2- Aumento do número de cristãos leigos que exercem o ministério de teólogos e pregadores da Palavra.
3- As pequenas comunidades onde acontecem a reflexão bíblica, celebrações da Palavra e escolas de teologia têm oportunizado espaços de participação e diversificação dos ministérios leigos.
4- Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos missionários estão surgindo em muitos lugares.
Com alegria e perseverança cristãos, leigos , visitam casas, hospitais, presídios e atuam em movimentos da Igreja e também sociais e políticos, colaborando na santificação das estruturas e realidade do mundo. Também dão atenção e cuidado aos migrantes, bem como a oferta de comunidades terapêuticas em atenção aos portadores de hanseníase e do vírus HIV, como também na pastoral do acolhimento e atendimento às pessoas necessitadas.
Leigos dinamizam a Pastoral do Dízimo e colaboram na transparente contabilidade das paróquias. Também mantém comunhão com seus pastores, seguindo os planos de pastoral da diocese e das paróquias que abraçam.
Há os cristãos, leigos e leigos, comprometidos com os movimentos sociais que buscam a dignidade da vida para todo e também aqueles que atuam voluntariamente no trabalho de cada dia, inclusive nas tarefas mais humildes. São eles o perfume de Cristo, a luz da Boa Nova, o fermento do Reino.
O Papa Francisco destaca que a atuação voluntária dos leigos na obra evangelizadora revela a revolução da ternura; o prazer de ser povo e a nova consciência de que a vida de cada pessoa é uma missão. Podemos afirmar, com alegria e renovada esperança, que os cristãos leigos são os grandes protagonistas desses avanços em unidade com seus pastores.

2.2- RECUOS

Lembrando que o mundo é o primeiro lugar da presença, atuação e missão dos cristãos leigos , vê-se que ainda é insuficiente e até omissa a sua ação nas estruturas e realidades do mundo, como nas universidades, nos ambientes do trabalho, da política, cultura, medicina, judiciário e outros. Isso acontece porque, apesar da insistência dos documentos da Igreja em apontar o mundo como primeiro âmbito da atuação dos leigos , há ainda uma grande parcela que tende a valorizar quase ou exclusivamente o serviço no interior da Igreja.
Outro problema que inibe o avanço da ação laical é a não participação dos leigos nos Conselhos Pastorais das Paróquias ou a proliferação de uns poucos cristãos “iluminados” que dominam o processo pastoral, excluindo uma grande maioria. Tudo isso colabora para a inibição da participação na dimensão social da fé. Então, a ação evangelizadora fica restrita à administração dos sacramentos somente às pessoas que procuram o batismo, o catecismo para a primeira Eucaristia, Crisma, Matrimônio. Ou atendendo às práticas devocionais e aos que participam das missas dos fiéis defuntos. Todas estas práticas retiram o protagonismo laical e centra a ação no sacerdote. Este tipo de prática pastoral revela a resistência quanto à opção pelos pobres, que são excluídos do processo único da sacramentalização e devocional.
Temos que considerar que tal realidade também é consequência da falta de uma séria formação de lideranças laicais. A formação que existe se dá, na maioria das vezes, de forma amadorística, gerando conflitos e submissão dos leigos ao clero ou a alguns leigos “iluminados”.

3- ROSTOS DO LAICATO

Os leigos que atuam nas nossas comunidades são casais cristãos que crescem na santidade familiar. Todas as crianças, frutos destes casais, que, participando ou não da catequese, também atuam na Infância Missionária e do serviço dos Coroinhas. Elas são germe de um laicato maduro.
As mulheres contribuem de forma indipensável na sociedade e nas responsabilidades pastorais. Todavia, a Igreja reconhece que ainda é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja. Mais uma vez reafirmamos a opção preferencial pelos jovens e os idosos que têm merecido atenção do Papa Francisco e dos recentes Sínodos da Família.
Um número significativo de cristãos leigos vive como solteiros. Ser solteiro pode ser também uma opção de vida e um sinal de que a felicidade não está só no casamento ou vocação religiosa e sacerdotal. Aos viúvos e viúvas recordamos que desde o Antigo Testamento Deus se colocou ao seu lado (1Tm 5,16).
Lembramos com alegria dos cristãos leigos que são ministros da coordenação ou articulação paroquial e líderes nas dioceses e movimentos. Liderar é um ato de amor à Igreja. Enfim, entre tantos outros, há os que atuam nas pastorais e movimentos sociais, ONGs, partidos políticos, sindicatos, Conselhos de Políticas Públicas, como homens e mulheres da Igreja no coração do mundo.

CAMPO ESPECÍFICO DE AÇÃO: O MUNDO

Queremos recordar e insistir que o primeiro campo e âmbito da missão do cristão é o mundo. A vocação específica dos leigos é estar no meio do mundo, à frente de tarefas variadas da ordem temporal. Os cristãos leigos levam o Evangelho para dentro das estruturas do mundo, onde homens e mulheres vivem, agindo em toda parte santamente e consagram a Deus o próprio mundo.

O MUNDO GLOBALIZADO

Apesar de tantos avanços da atual sociedade globalizada (tecnologias, sistema jurídico e financeiro, sistema de controle social, e outros) há deficiências gritantes em relação ao direito comum das pessoas e dos povos, bem como em relação ao que permite a cada um viver a verdadeira felicidade. Por isso é chamada de “globalização da indiferença”.
Vivendo neste mundo, o cristão que não tem consciência de ser sujeito corre o risco da alienação, da acomodação e da indiferença. Precisamos vencer a indiferença com as obras de misericórdia para conquistar a paz. Caim se mostrou indiferente ao irmão. O bom samaritano, pelo contrário, deixou-se comover, aproximou-se e cuidou do próximo. Venceu a indiferença pela misericórdia. A globalização da indiferença, infelizmente, nos tornou insensíveis.
Neste mundo globalizado a alma do mercado entra na alma humana criando um círculo vicioso que incluiu de maneira perversa as mais diferentes condições de vida coletiva e individual. Esse é o ápice do processo da globalização econômica: o consumo se torna o modo de vida comum cada vez mais universalizado.
Essa lógica individualista se caracteriza por: 1-satisfação pessoal e indiferença pelo outro; 2- supremacia do desejo em relação às necessidades; 3- predomínio da aparência em relação à realidade; 4- inclusão perversa: são incluídos somente as pessoas que podem consumir; 5- falsa satisfação promovida pelo mercado de consumo que propõe felicidade efêmera através de produtos que meses ou dias após a aquisição se tornam obsoletos.

CONTRADIÇÕES DO MUNDO GLOBALIZADO

Os grandes problemas humanos estão presentes, em nível mundial e local, e expõem por si mesmos as contradições do sistema globalizado:
1-desenvolvimento da pobreza (o desemprego, a falta de moradia, a fome e a violência são hoje fatos mundiais); 2-confiança no mercado e crises constante (O Estado defende os mercados financeiro e produtivo investindo bilhões nestes ambientes, em detrimento das múltiplas formas de exclusão que persistem, como falta de moradia, escolas e outros itens básicos para uma vida digna); 3- enriquecimento de uns e a degradação ambiental; 4- bem estar de uns e exclusão da maioria: a humanidade permanece dividida entre alguns que têm muito e muitíssimos que não tem o mínimo para subsistir; 5- busca de riqueza e tráfico: tanto o tráfico de drogas como o de pessoas, o ser humano não passa de mercadoria que esvazia a sua dignidade; 6- segregação de grupos sociais privilegiados e segregação em bolsões de pobreza e miséria: a violência é o grande flagelo que também decorre dessa segregação e atinge todos os cidadãos; 7- redes sociais virtuais e indiferença real
É preciso dizer não a tudo isso

DISCERNIMENTOS NECESSÁRIOS

A Igreja vive dentro deste mundo globalizado, interpelada a um permanente discernimento. O desafio do cristão será sempre viver no mundo sem ser do mundo (Jo 17,15-16). Discernir significa aprender a separar as coisas positivas das negativas que fazem parte do mesmo modo da vida atual.
Viver na Igreja significa aprender permanentemente, a seguir o caminho e a verdade do Evangelho dentro das condições concretas do mundo. Para viver a sua missão no mundo de hoje, a Igreja como um todo e os cristãos leigos são desafiados à aprendizagem permanente de distinguir:
1-a pluralidade que respeita as diferenças, diferente do relativismo que se pauta na indiferença aos valores e aos outros.
2-a secularidade que valoriza as conquistas humanas e a liberdade religiosa, diferente do secularismo que considera Deus como intruso ou desnecessário.
3-os benefícios da tecnologia presente nas diversas dimensões da vida, diferente da dependência de aparelhos eletrônicos.
4-o uso das redes sociais como expressão de relações humanas, diferente da comunicação virtual que dispensa a relação pessoal.
5-o consumo de bens necessários à subsistência, diferente da busca desordenada da satisfação.
6-o uso do dinheiro para justa aquisição de bens, diferente da idolatria do dinheiro como valor absoluto que tudo direciona.
7-a autonomia, a liberdade e a responsabilidade pessoal, diferente do individualismo que nega o dever para com a vida comum.
8-os valores e as instituições tradicionais, diferente do tradicionalismo que se nega a dialogar com o mundo.
9-a vivência comunitária, que possibilita a justa relação do “eu” com o outro, diferente do comunitarismo sectário que isola o grupo do mundo.

TENTAÇÕES DA MISSÃO

O mundo influencia a Igreja, oferece-lhe tentações, inspira desvios, impõe modelos de vida, a ponto de mundanizá-la. Daí a necessidade contínua de renovação e conversão. Eis algumas tentações da Igreja:
1- ideologização da mensagem evangélica. Significa interpretar o Evangelho fora da Bíblia e da Igreja para defender interesses pessoais.
2- reducionismo socializante. Consiste em reduzir a Palavra de Deus a partir da ótica puramente social.
3- ideologização psicológica. Entende o encontro com Jesus Cristo como uma dinâmica psicológica do autoconhecimento.
4- proposta gnóstica. Costuma ocorrer quando grupos de “católicos iluminados” julgam ter uma espiritualidade superior à dos outros.
5- proposta pelagiana. Busca a solução dos problemas sem contar nem recorrer à graça de Deus.
6- funcionalismo. Consiste em apostar na função e na prosperidade do plano pastoral. Os sacramentos e a evangelização se transformam em função burocrática, sem conversão. A Igreja é assim transformada numa ONG.
7- clericalismo. O padre centraliza tudo em sua pessoa e poder pessoal e clericaliza os leigos “iluminados” que dominam os outros.
8- individualismo. Os individualismos religiosos isolam pessoas e comunidades, e não buscam a inclusão ou a comunhão.
9- comunitarismo sectário. É a atitude de quem vê sua fé verdadeira perante outras falsas. Os membros do comunitarismo sectário veem-se como salvos perante os outros, que não fazem parte do grupo, condenados.
10- secularismo. É a negação da religiosidade como dimensão do ser humano
O Papa Francisco ainda aponta outras tentações que podem incidir sobre os agentes de pastorais: 1- pessimismo estéril; 2- acomodação; 3- isolamento; 4- falta de valorização dos leigos; 5- falta de valorização da mulher; 6- falta de valorização dos jovens e idosos.

A NECESSÁRIA MUDANÇA DE MENTALIDADE E DE ESTRUTURA

A Igreja não é uma ilha de perfeitos, mas uma comunidade missionária e de aprendizagem em seu modo de ser, organizar e agir como seguidora de Jesus Cristo. Viver e atuar neste mundo globalizado implica mudança de mentalidade e de estruturas.
A inserção na realidade do mundo exige da Igreja como um todo ser:
1- Comunidade de discípulos de Jesus Cristo; 2- Escola de vivência cristã; 3- Organização comunitária feita de diversidade de sujeitos investidos de dons e funções distintos; 4- Comunidade inserida no mundo como testemunha e servidora do Reino de Deus que busca inserir a Boa Nova em todos os ambientes sociais; 5- Povo de Deus que busca também os sinais do Reino no mundo; 6- Comunidade que se abre permanentemente para as urgências do mundo; 7- Comunidade que mostra a fraternidade de ajuda e serviço mútuo, com especial atenção às pessoas mais frágeis e necessitadas; 8- Igreja em saída, de portas abertas, que vai em direção aos outros para chegar às periferias humanas e acompanhar os que ficaram caídos à beira do caminho.
A Igreja direcionada e pautada pelo Reino de Deus caminha para frente, dentro da história, com lucidez e esperança, com paciência e misericórdia, com coragem e humildade. A Igreja, com estas características, incluindo dentre elas as atitudes de escuta e diálogo, se insere no mundo como quem aprende e ensina, sabe dizer sim ao que é positivo e não ao que prejudica a dignidade humana. Assim a Igreja se insere no mundo com a atitude do serviço iluminado pela postura amorosa e serviçal presente na Santa Ceia.

CAPÍTULO 2

SUJEITO ECLESIAL: discípulos missionários e cidadãos do mundo

Jesus nos ensina a sermos sujeitos de nossa vida. Além de mestre, Jesus é o modelo para todo cristão que é chamado a ser sujeito livre e responsável, capaz de opções, de decisões e de um amor condicional. No seguimento de Jesus, como seus discípulos, todos somos sujeitos de nossa vida e de nossa missão, conscientes de nossa dignidade.
Neste capítulo retomamos a teologia à luz da eclesiologia do Vaticano II da Igreja como comunhão da diversidade. Pelos sacramentos da iniciação cristã, sobretudo pelo Batismo, todos nos tornamos membros vivos do povo de Deus.

IGREJA, COMUNHÃO NA DIVERSIDADE

O povo de Deus, a Igreja, e sua unidade se realiza na diversidade de rostos, carismas, funções e ministérios. Em função do bem comum, a comunidade organiza-se no compromisso de cada membro e busca os meios de tornar mais operantes os diversos dons recebidos do Espírito.
Os modelos de organização eclesial podem mudar ao longo da história; permanece, no entanto, a regra mais fundamental: a primazia do amor (1 Cor 13), da qual advém a possibilidade de integrar organicamente a diversidade e o serviço de todos os que exercem alguma função dentro da comunidade.

IGREJA, POVO DE DEUS PEREGRINO E EVANGELIZADOR

O povo de Deus, convocado por Cristo, que institui uma nova aliança, provém dentre judeus e gentios e cresce na unidade do Espírito (1 Pedro 2,10). Este povo tem a Cristo por cabeça. Sua condição é a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus. Sua Lei é o mandamento novo de amar como Cristo amou (João 13,34).
A noção da Igreja como povo de Deus lembra que a salvação, embora pessoal, não considera as pessoas de maneira individualista, mas como inter-relacionadas e interdependentes. A inter-relação e a interdependência levam a valorizar a diversidade de rostos, de grupos, de membros, de carismas e funções deste povo.
O sujeito da evangelização é todo o povo de Deus, a Igreja. Ela não pode perder de vista o serviço à vida e à esperança, através de uma obra evangelizadora audaz e missionária.

A IGREJA, CORPO DE CRISTO NA HISTÓRIA

Os cristãos são chamados a serem os olhos, os ouvidos, as mãos, a boca, o coração de Cristo na Igreja e no mundo. Esta realidade da presença de Cristo é explicitada na imagem proposta por Paulo, a de que a Igreja é o Corpo de Cristo (1 Coríntios 12,12-30; Romanos 12,4-5). Cristo vive e age na Igreja, que é seu sacramento, sinal e instrumento.
O Apóstolo Paulo deixa claro que Cristo é a cabeça deste corpo (Efésios 1,22). A primazia do Cristo-cabeça lembra à Igreja que Ele é o centro de tudo.

A INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ.

O Concílio Vaticano II valorizou a fundamentação sacramental da Igreja, especialmente pelos sacramentos da iniciação cristã. Esses sacramentos fundam a igual dignidade de todos os membros de Cristo. O Batismo nos incorpora a Cristo, pois fomos batizados num só Espírito para formarmos um só corpo (1 Coríntios 12,13; Efésios 4,5). A Crisma nos unge com o óleo do mesmo Espírito de Cristo para sermos defensores e difusores da fé. A Eucaristia une a todos na mesma fração do pão (1 Coríntios 10,17).
A tomada de consciência desta responsabilidade laical, que nasce do Batismo e da Confirmação, não se manifesta de igual modo em toda parte; em alguns casos, porque não se formaram para assumir responsabilidades importantes, em outros por não encontrar espaço nas suas Igrejas paroquiais para poderem exprimir-se e agir por causa de um excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões. Nesse sentido, há de se acolher a decisão que nós, bispos do Brasil, tomamos de fazer com que a catequese em nosso país se transforme em processo de inspiração catecumenal.

IDENTIDADE E DIGNIDADE DA VOCAÇÃO LAICAL

108- A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante do povo de Deus contribui para a união já que os pastores e os demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do Senhor, prestam serviço uns aos outros e aos fiéis: e estes deem alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores.
Por isso, não é evangélico pensar que os clérigos – ministros ordenados – sejam mais importantes e mais dignos, sejam mais Igreja do que os leigos. Esta mentalidade errônea, em seu princípio, esquece que a dignidade não advém dos serviços e ministérios que cada um exerce, mas da própria iniciativa divina, sempre gratuita, da incorporação a Cristo pelo Batismo.

O SACERDÓCIO COMUM

Os cristãos leigos são portadores da graça batismal, participantes do sacerdócio comum, fundado no único sacerdócio de Cristo. O sacerdócio batismal concede direitos na Igreja. Dentre outros, lembramos alguns: associar-se em movimentos de espiritualidade e de apostolado, conhecer a fé, participar dos sacramentos, manifestar-se e ser ouvidos em questões de fé, cooperar na edificação do povo de Deus, educar filhos na fé cristã. Aos direitos acrescentam-se os deveres: participar do múnus profético, sacerdotal e real, colaborar com os pastores na ação evangelizadora, dar testemunho do Evangelho em todos os ambientes. Para os exercícios destes direitos e deveres, nunca deveria faltar-lhes a ajuda dos ministros ordenados. A renovação da Igreja na América Latina não será possível sem a presença dos leigos, por isso, lhes compete, em grande parte, a responsabilidade do futuro da Igreja.

O PERFIL MARIANO DA IGREJA

Para compreendermos, em toda a sua grandeza e dignidade, a natureza e missão dos cristãos leigos, podemos dirigir o nosso olhar para Maria. Nela encontramos a máxima realização da existência cristã. Por sua fé e obediência à vontade de Deus e por sua constante meditação e prática da Palavra, ela é a discípula mais perfeita do Senhor. Mulher livre, forte e discípula de Jesus, Maria foi o verdadeiro sujeito na comunidade cristã.
Perseverando junto aos apóstolos à espera do Espírito, Maria cooperou com o nascimento da Igreja missionária, imprimindo-lhe um selo mariano e maternal, que identifica profundamente a Igreja de Cristo. Maria é a figura da Igreja. Ela precede todos os caminhos rumo à santidade. Na sua pessoa a Igreja já atingiu a perfeição.
Em Maria, mulher leiga, santa, Mãe de Deus, os fiéis leigos encontram razões teológicas para a compreensão de sua identidade e dignidade no povo de Deus. Maria é membro supereminente e de todo singular da Igreja, como seu tipo e modelo excelente na fé e na caridade.

VOCAÇÃO UNIVERSAL À SANTIDADE

Os cristãos leigos, homens e mulheres, são chamados antes de tudo à santidade. A santidade de vida torna a Igreja atraente e convincente, pois os santos movem e abalam o mundo. Se nem todos são chamados ao mesmo caminho, ministérios e trabalhos, todos, no entanto, são chamados à santidade.
Os cristãos leigos se santificam de forma peculiar na sua inserção nas realidades temporais, na sua participação nas atividades terrenas. Santificam-se no cotidiano, na vida familiar, profissional e social. Os santos movem o mundo. O horizonte para que deve tender todo caminho pastoral é a santidade.

LIBERDADE, AUTONOMIA E RELACIONALIDADE

É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gálatas 5,1). O cristão leigo é verdadeiro sujeito na medida em que cresce na consciência de sua dignidade de batizado. O cristão leigo também cresce em sua consciência de sujeito quando descobre que sua liberdade, autonomia e relacionalidade não são apenas características de cada ser humano maduro, mas quando experimenta essas características como dom do Cristo crucificado e ressuscitado.
Portanto, a Igreja é a comunhão de libertos para uma vida nova, para o serviço, em harmonia e respeito. A verdadeira comunhão cristã gera autonomia, liberdade e corresponsabilidade, por sua vez, estas são necessárias para a autêntica comunhão (Gálatas 2,1-2.9-11). É na Igreja e como Igreja que o cristão leigo vivencia a liberdade, a autonomia e a relacionalidade.

A MATURIDADE DOS CRISTÃOS LEIGOS

Os cristãos leigos são embaixadores de Cristo.e participam do pleno direito na missão da Igreja e tem um lugar insubstituível no anúncio e serviço do Evangelho.
130- Para uma adequada formação de verdadeiros sujeitos maduros e corresponsáveis para a missão, é necessário que a liberdade e autonomia se desenvolvam não no fechamento ou na indiferença, mas na abertura solidária aos outros e às suas realidades.
A vivência comunitária favorece o amadurecimento cristão, que acontece numa dinâmica que exige o equilíbrio entre o eu e o outro, sem isolamento nos dons e funções individuais e sem aniquilamento da individualidade em função da comunidade

ENTRAVES À VIVÊNCIA DO CRISTÃO COMO SUJEITO NA IGREJA E NO MUNDO

O cristão encontra alguns entraves para a vivência de sua fé de modo integral e integrado. Algumas oposições estão tão enraizadas na mentalidade e na prática das comunidades e dos fiéis que podem chegar a impedir alguns cristãos leigos a se verem como verdadeiros sujeitos na Igreja e no mundo. É empobrecedor, para a fé cristã, opor e excluir realidades que deveriam estar relacionadas e articuladas. Eis algumas delas:
1-Oposição entre fé e vida – segundo esta mentalidade e prática, o mundo da fé é superior e até mesmo oposto ao mundo da vida. Nos Evangelhos, ao contrário, Jesus nos mostra como a fé em Deus se expressa em torno das dimensões da vida: pessoal (Mateus 6,21); familiar (Mateus 19,14; Lucas 15,11); comunitária (Mateus 18,21); profissional (Lucas19,8); sociopolítica (Mateus 6,24). Por isso não podemos separar a fé da vida, mas pela fé viver e realizar ações consequentes para a revelação e expansão do Reino de Deus na história.
2-Oposição entre sagrado e profano – Isso acontece quando opomos objetos, pessoas, situações, tempos e lugares que seriam profanos de pessoas, situações, tempos e lugares ou objetos que seriam sagrados. Jesus não frequentava apenas as sinagogas (espaço sagrado), mas também atuava nas barcas, nas margens dos lagos, nas casas, nas cidades, nos caminhos. Jesus não viveu isolado, mas relacionou-se com todo tipo de pessoas. Chegou mesmo a dizer que os publicanos e as prostitutas precederiam os anciãos e os sumos sacerdotes no Reino de Deus (Mateus 21,31).
3-Oposição entre Igreja e o mundo – Para muitos a Igreja é vista como refúgio, arca da salvação, lugar para o encontro com Deus, enquanto o mundo é lugar do pecado, da perdição e da maldade. Por isso é preciso fugir do mundo e refugiar-se nas sacristias, conventos, mosteiros, Igrejas, templos. A novidade maravilhosa da Encarnação nos leva a valorizar este único mundo e esta única história, onde vivemos e que nos compete transformar em unidade com o todo do gênero humano. A Igreja está comprometida com este mundo como sacramento e sinal da salvação misericordiosa de Deus e, nesta missão, peregrina até que o Reino de Deus se manifeste plenamente em novo céu e nova terra.
4-Oposição entre identidade eclesial e ecumenismo – Há quem se preocupe que a opção da Igreja pelo ecumenismo possa levar à perda da identidade católica. Por isso se fecham em suas comunidades e não conseguem ver as expressões evangélicas presentes em outras igrejas cristãs. Devemos lembrar que o diálogo ecumênico é uma postura inerente à natureza e missão da Igreja e não simplesmente uma estratégia de evangelização. Portanto, quanto mais católica, mais dialogal será a Igreja. Tal atitude colabora para que o desejo de Jess se realize: “que todos sejam um” (João 17,21).
A valorização das tarefas no interior da Igreja em detrimento dos compromissos com a inserção na realidade leva os cristãos leigas e leigos à esquizofrenia religiosa: o cristão leigo corre o risco do comodismo, da indiferença, da intolerância e da incoerência em sua vida de sujeito eclesial e cidadão do mundo.

ÂMBITOS DE COMUNHÃO ECLESIAL E ATUAÇÃO DO LEIGO COMO SUJEITO

Temos insistido que a presença e atuação dos cristãos leigas e leigos se dá na Igreja e no mundo. No âmbito da Igreja há muitos espaços nos quais os cristãos leigos exercem o seu ser e seu agir cristãos. Citamos alguns deles:

A FAMÍLIA, que é o âmbito não só da geração, mas também do acolhimento da vida que chega como um presente de Deus. É a beleza de ser amado primeiro: os filhos são amados antes de chegar. Na celebração sacramento do matrimônio os cristãos leigos exercem seu sacerdócio batismal. Eles são os ministros da celebração. Exercem seu sacerdócio, não só na celebração, mas igualmente n a consumação do sacramento, na geração e educação dos filhos. Santificam-se no cotidiano da família, Igreja doméstica.
A PARÓQUIA E AS COMUNIDADES ECLESIAIS: são espaço para a vivência da unidade na diversidade em que os cristãos leigos atuam como sujeitos e tem cidadania plena. As pequenas comunidades, onde se celebram as reflexões bíblicas e as novenas ou encontros nos tempos fortes, os grupos de terço, as pastorais são formas concretas de comunhão e participação nas quais o cristão leigo atua como sujeito eclesial.
OS CONSELHOS PASTORAIS E OS CONSELHOS DE ASSUNTO ECONÔMICO: consequência do espírito da Igreja vivida em comunhão, fundamentada na Santíssima Trindade. A ausência dos Conselhos Pastorais é reflexo da centralização da Igreja na figura do padre. Criem-se os Conselhos de Pastoral em todos os níveis: comunitário, paroquial, diocesano, regional e nacional. Reconhecemos que estamos muito atrasados nisso. Os Conselhos devem ser apoiados, acompanhados e respeitados, superando qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão. Os Conselhos de Assuntos Econômicos são determinantes para todas as pessoas jurídicas da Igreja e têm a tarefa de colaborar na administração, manutenção e planejamento financeiro das comunidades, paróquias e dioceses. A concordância entre o Conselho Econômico e o Conselho Pastoral contribui para que não aconteça o mau uso do dinheiro e a prática da corrupção na Igreja, mas transparência na prestação de contas a quem a sustenta e ao Estado.
AS ASSEMBLÉIAS E REUNIÕES PASTORAIS: Nas assembleias e reuniões pastorais aprende-se a ser Igreja. Elas precisam ser bem preparadas, com boa recepção, metodologia, oração e espiritualidade. Deve haver, com antecedência, estudo de algum trema ou reflexões provocadas por perguntas que farão parte da pauta no dia da assembleia. Nas assembleias temos oportunidade de ser Igreja comunidade, Igreja família, Igreja comunhão. Ciúmes, fofocas, manipulações, além de trazer divisões, agressões, brigas, causam fracasso pastoral.
AS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE E AS PEQUENAS COMUNIDADE: são uma forma de vivência comunitária da fé, de inserção na sociedade, de exercício do profetismo e de compromisso com a trans formação da realidade sob a luz do Evangelho. As pequenas comunidades, como lembra o Documento de Aparecida no número 308, são ambientes propícios para escutar a Palavra de Deus, para viver a fraternidade, para animar na oração, para aprofundar processos de formação na fé e para fortalecer o exigente compromisso de ser apóstolo na sociedade hoje.

CRITÉRIOS DE ECLESIALIDADE

Para preservar a unidade da Igreja, o Papa Francisco, como também São João Paulo II, lembram que as comunidades cristãs devem seguir os seguintes critérios:
1-primazia à vocação de cada cristão; 2- responsabilidade em professar a fé católica no conteúdo integral; 3- o testemunho de uma comunhão sólida com o Papa, com o Bispo, com o Pároco na estima recíproca de todas as formas de apostolado na Igreja; 4- A conformidade e a participação na finalidade apostólica da Igreja, que é a evangelização e santificação das pessoas; 5- O empenho de uma presença na sociedade a serviço da dignidade integral da pessoa humana mediante a participação e solidariedade para construir condições mais justas e fraternas.

CARISMAS, SERVIÇOS E MINISTÉRIOS NA IGREJA

Assim como Deus é um na diversidade das três pessoas, também a Igreja é unidade na diversidade. O mesmo Espírito divino que garante a comunhão na mesma fé e no mesmo amor, em um só Senhor e um só Batismo (Efésios 4,5), suscita também a diversidade de dons, carismas e serviços e ministérios no interior da Igreja. A diversidade de dons suscitada pelo Espírito possibilita respostas criativas aos desafios de cada momento histórico (1 Coríntios 12, 4-10; Romanos 12, 6-8; 1 Pedro 4, 10-11).
Por meio dos carismas, serviços e ministérios, o Espírito Santo capacita a todos na Igreja para o bem comum, a missão evangelizadora. E a transformação social, em vista do Reino de Deus. Carismas, segundo São João Paulo II, são dons e impulsos especiais que podem assumir as mais variadas formas, como expressão da liberdade absoluta do Espírito e como resposta às necessidades da Igreja; têm uma utilidade eclesial, quer sejam extraordinários ou simples.
É importante destacar que todo ministério é um carisma, por ser um dom de Deus, mas nem todo carisma é um ministério, pois o ministério assume a forma de serviço, bem determinado, envolvendo um conjunto mais amplo de funções que responda a exigências permanentes da comunidade e da missão, comporte verdadeira responsabilidade e seja colhido e reconhecido pela comunidade eclesial.
O empenho para que haja participação de todos nos destinos da comunidade supõe reconhecer a diversidade de carismas e ministérios dos leigos. Por isso não é mais possível pensar uma Igreja que não incentive a participação e a corresponsabilidade dos cristãos, leigos, na missão.

SERVIÇO CRISTÃO AO MUNDO

A atuação cristã dos leigos no social e no político não deve ser considerada ministério, mas serviço cristão ao mundo na perspectiva do Reino. Assim, a participação consciente e decisiva dos cristãos em movimentos sociais, entidades de classe (sindicatos), partidos políticos, conselhos de políticas públicas e outros, sempre à luz da Doutrina Social da Igreja, constitui-se num inestimável serviço à humanidade e é parte integrante da missão de todo o povo de Deus. Portanto, ser cristão, sujeito eclesial e ser cidadão não podem ser vistos de maneira separada.
Permanecendo Igreja, como ramo na videira (João 15,5) o cristão leigo transita no ambiente eclesial (Igreja) ao mundo civil, para, a modo de sal, luz (Mateus 5,13-14) e fermento (Mateus 13,33; Lucas 20,21), somar com todos os cidadãos de boa vontade, na construção da cidadania plena para todos. Não é preciso sair da Igreja para ir ao mundo como não é preciso sair do mundo para entrar e viver na Igreja.

CAPÍTULO III
A AÇÃO TRANSFORMADORA NA IGREJA E NO MUNDO

Antes de deixar este mundo, Jesus Cristo enviou seus discípulos em missão: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura” (Marcos 16,15). Jesus envia seus discípulos como fermento, sal e luz ao mundo. O fermento, quando misturado à massa, desaparece. No entanto, a massa já não é mais a mesma. A ação dos cristãos leigas e leigos na caminhada da Igreja é história viva, sofrida e frutuosa.

IGREJA COMUNIDADE MISSIONÁRIA

A Igreja em “chave de missão” significa estar a serviço do reino, em diálogo com o mundo, inculturada na realidade histórica, inserida na sociedade, encarnada na vida do povo. Uma Igreja em saída entra na noite do povo, é capaz de fazer-se próxima e companheira, mãe de coração aberto, para curar feridas e aquecer o coração.
A Igreja é comunhão no amor, seguidora de Cristo e servidora da humanidade. Por isso a essência da Igreja é a missão, a Igreja é toda ela missionária. Igreja é a comunidade de missionários que age na terra segundo o modelo das três pessoas divinas, que tudo fazem em vista do Reino, do amor, justiça e paz.
O Papa Francisco quer uma Igreja de portas abertas, mais forte no querigma do que no legalismo. Uma Igreja da misericórdia mais do que da severidade.
O Papa Francisco diz que não podemos ficar tranquilos no templo, nem dizer que foi sempre assim. A vida é uma missão. Os cristãos leigos , motivados pelo Para Francisco, não terão medo de se sujar com a lama da estrada. Antes, terão medo de ficar fechados nas estruturas que criamos. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus.
O Papa Francisco afirma que cada cristão, consciente do seu batismo, deve dizer: “Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou no mundo”. Quando todos os cristãos, leigos, como também os ministros ordenados tiverem esta consciência faremos a passagem de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária.
O cristão discípulo missionário enfrentará como profeta, as realidades que contradizem o Reino de Deus e insistirá em dizer: Não a uma economia da exclusão. Não à cultura do descartável. Não à globalização da indiferença. Não à especulação financeira. Não ao dinheiro que domina ao invés de servir. Não à desigualdade social que gera violência. Não à fuga dos compromissos. Não ao pessimismo. Não à guerra entre nós Ficar na pastoral de mera conservação é não ter coragem para enfrentar estas situações. Embora não desgastados por este enfrentamento, as comunidades cristãs que primam só pela conservação com certeza perderão o entusiasmo, e a alegria que brota da verdadeira missão. Não nos deixemos roubar o entusiasmo missionário. Não deixemos que nos roubem a alegria da evangelização. Não deixemos que nos roubem a esperança. Não deixemos que nos roubem a comunidade. Não deixemos que nos roubem o Evangelho. Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno. Eis o que significa ser missionário no mundo globalizado, consumista e secularizado.

IGREJA POBRE, PARA OS POBRES, COM OS POBRES

Jesus se fez pobre para todos salvar. Por isso há que se afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres, O Papa Francisco afirma que a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual.
O Documento de Aparecida descreve que são estes pobres que precisam do cuidado espiritual: pessoas que vivem e moram nas ruas, os migrantes, os enfermos, os dependentes de drogas, os detidos nas prisões.
O que nos move à missão? Quando olhamos os rostos dos que sofrem, do trabalhador desempregado, da mãe que perdeu o filho para o narcotráfico, da criança explorada, quando recordamos estes rostos e nomes, estremecem nossas entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos. Isso nos comove e faz chorar e nos impele à missão, disse o papa Francisco no II Encontro Mundial de Movimentos Populares.

A IGREJA DO SERVIÇO, DA ESCUTA, DO DIÁLOGO

A Igreja se propõe a trabalhar na construção de uma cultura do encontro. Isso implica não se fechar na própria comunidade, no grupo de amigos, na própria religião, em si mesmo. Na cultura do encontro todos contribuem e recebem. Trata-se de uma postura aberta e disponível para a qual é necessária uma humildade social que considere, por exemplo, a importância das culturas e religiões e o respeito aos direitos autênticos de cada um. Trata-se de um desafio para toda a Igreja, passar de atitudes fechadas à formação de uma nova cultura, que constrói cidadania no diálogo e que não tem medo de acolher o que o outro, o diferente, tem a oferecer. Esse é o espaço aberto para os cristãos leigos, nesta sociedade dilacerada pelo desrespeito ao diferente, pela intolerância e pelo medo do outro.

UMA ESPIRITUALIDADE ENCARNADA

Uma espiritualidade encarnada caracteriza-se pelo seguimento de Jesus, pela vida no Espírito, pela comunhão fraterna e pela inserção no mundo. Não podemos querer um Cristo sem carne e sem cruz.. A espiritualidade cristã sempre terá por fundamento os mistérios da encarnação e da redenção de Jesus Cristo. Esse enfoque deve permear a formação laical desde o processo da iniciação cristã.
A partir de Jesus Cristo, os cristãos leigos infundem uma inspiração de fé e amor nos ambientes e realidade em que vivem e trabalham. Em meio a missão, como sal, luz e fermento, leigos e leigas, nos ambientes em que vivem no mundo, testemunham sua identidade cristã, como ramos na videira, na comunidade, na fé, oração e partilha.
Para que esta atitude esteja fortalecida, a oração e a contemplação são fundamentais. É preciso cultivar um espaço interior dinamizado por um espírito contemplativo que permita um encontro significativo com o Deus revelado por Jesus Cristo, que nos permite descobrir que somos depositários de um bem que humaniza, que nos ajuda a viver uma vida nova, portanto, a buscar esta vida nova para todos.
O verdadeiro trabalhador da vinha nunca deixa de ser discípulo. A experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo sempre renovada é a única capaz de sustentar a missão. Por isso o discípulo missionário deve dedicar tempo à oração sincera, que leva a saborear a amizade e a mensagem de Jesus.
Em virtude do Batismo, que está na origem do sacerdócio comum dos fiéis, os cristãos leigos são chamados a viver e a transmitir a comunhão com a Trindade, fonte de nossa vida comunitária e do amor transbordante que devemos testemunhar.
O Apóstolo Paulo destaca o fundamento trinitário da vida em comunidade, feita de diversidades e de unidade. O Deus, uno e trino, é fonte e modelo de toda vida comunitária. Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. Há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. Há diferentes atividades, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos (1 Crríntios 12,4-6).
Um desafio para os cristãos leigos é superar as divisões (Atos 2,42-45;4,32-35) e avançar no seguimento de Cristo, aprendendo e praticando as bem-aventuranças do Reino, o estilo de vida do Mestre Jesus: sua obediência ao Pai, compaixão diante da dor humana, amor serviçal até o dom de sua vida na cruz: “ Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8,34).

ESPIRITUALIDADE DA COMUNHÃO E MISSÃO

Em sua inserção no mundo, os cristãos leigos são convidados a viver a espiritualidade de comunhão e missão. Comunidade missionária, a Igreja está voltada ao mesmo tempo para dentro e para fora. Para que este movimento seja eficaz, é necessária a espiritualidade da comunhão que gera a abertura ao diferente. O outro não é apenas alguém, mas um irmão, dom de Deus, continuação da Encarnação do Senhor. O outro é diferente de mim. E esta diferença nos distingue, mas não nos separa. Espiritualidade de comunhão e missão significa respeito mútuo, diálogo, proximidade, partilha, benevolência e beneficência.
A espiritualidade da comunhão e missão se comprova no esforço e na prática da misericórdia, do perdão da reconciliação e da fraternidade, até o amor aos inimigos. Sem a espiritualidade de comunhão e missão caímos nas “máscaras de comunhão” e damos espaço ao terrorismo da fofoca, às suspeitas, ciúmes, invejas que são sentimentos e atitudes destrutivas.

MÍSTICAS QUE NÃO SERVEM

Há certo cristianismo feito de devoções- próprio de uma vivência individual e sentimental da fé – que na realidade não corresponde a uma autêntica piedade popular. Alguns promovem estas devoções sem se preocupar com a promoção social e a formação dos fiéis, fazendo em alguns casos para obter benefícios econômicos ou algum poder sobre os outros.
O Papa Francisco alerta que a missão precisa do pulmão da oração, da mística, da espiritualidade, da vida interior. Todavia, continua o papa, “Não nos servem, para a missão, místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e ações pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração”.

ESPIRITUALIDADE POPULAR

O povo se evangeliza a si mesmo iluminado pelo Espírito Santo. A religiosidade popular é fruto do evangelho inculturado, é um lugar teológico ao qual devemos prestar atenção porque tem muito para nos ensinar.
Pensemos na fé firme das mães rezando ao pé da cama de seus filhos doentes, na carga imensa de esperança contida numa vela acesa, no olhar que se volta para o crucifixo, para o céu, para Maria e os santos. A espiritualidade popular, que também precisa ser evangelizada, revelam a fé e o amor a Deus neste ambiente de secularização e de indiferença religiosa em que vivemos. A espiritualidade popular é uma confissão de fé que evangeliza filhos, vizinhos, parentes, amigos e toda a sociedade.

O MUNDANISMO ESPIRITUAL

Uma forma de mundanismo espiritual, segundo o Papa Francisco, consiste em só confiar nas próprias forças e se sentir superior aos outros por ser fiel a certo estilo católico, próprio do passado. O mundanismo espiritual atinge tanto a liturgia como a militância social: 1- há uma pretensão de dominar o espaço da Igreja com um cuidado exibicionista da liturgia; 2- por outro lado, o mundanismo espiritual se esconde atrás do fascínio de poder mostrar conquistas sociais e políticas.

A PRESENÇA E ORGANIZAÇÃO DOS CRISTÃOS LEIGOS NO BRASIL

Durante a primeira metade do século XX constatamos a presença das confrarias e associações que em geral eram conduzidas pelo clero. Em 1935, no Brasil, foi oficializada a Ação Católica Geral e, mais tarde, a Ação Católica Especializada, que acolhia a Juventude Agrária Católica, Juventude Estudantil Católica, Juventude Operária Católica, Juventude Universitária Católica e Ação Católica Operária. Articulada em âmbito nacional, a Ação Católica teve presença significativa na realidade da Igreja e social daquele período. Nos anos que antecederam o Concílio Vaticano II, os membros da Ação Católica descobriram que sua ação decorria do batismo recebido e não de um mandato do bispo. Esta nova consciência gerava o compromisso com a ação transformadora da sociedade, buscando impregná-la dos valores evangélicos. Neste período também foi sendo delineado os traços da teologia do laicato e por conseguinte o estatuto próprio do leigo na Igreja como iria aparecer mais tarde.
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), constituídas no Brasil, desde 1960, assumem como centro a Palavra sempre numa dimensão missionária que conduz ao engajamento nas lutas de transformação da sociedade na perspectiva do Reino de Deus.
Outro espaço privilegiado de participação dos cristãos leigos, são as Pastorais Sociais. Elas significam a solicitude e o cuidado de toda a Igreja missionária diante de situações reais de marginalização, exclusão e injustiça. A sua atuação deve ser profético-transformadora, indo além do assistencialismo.
Ressaltamos a participação do cristão leigo, jovem, na Igreja e no mundo através das diversas pastorais da juventude: Juventude Estudantil, Universitária, Rural, etc. Destacamos os incontáveis cristãos leigos que atuam nas universidades, escolas, hospitais, asilos, creches, ,meios de comunicação, onde quer que seja, evangelizando pelo testemunho e contribuindo para a expansão do Reino de Deus.
A participação e presença dos cristãos leigos acontecem também na dinâmica interna das comunidades nos conselhos econômicos, pastorais, na vida litúrgica, nas diversas pastorais, na catequese. São jovens, adultos, idosos e até crianças que se colocam à serviço da dinâmica da Igreja no ambiente interno da evangelização.

O CONSELHO NACIONAL DO LAICATO DO BRASIL

Nos anos de 1970, no Brasil, fruto do Concílio Vaticano II, criou-se o então Conselho Nacional dos Leigos, hoje Conselho Nacional do Laicato do Brasil. A partir de 1964, com o golpe militar e também conflitos com a hierarquia e outros segmentos leigos, resultou na extinção da Juventude Universitária Católica e da Juventude Estudantil Católica. Em 1970, na 11ª Assembleia Geral da CNBB foi aprovada, com a participação de leigos, o Secretariado Nacional do Apostolado Leigo que, em 1975 criou o Conselho Nacional dos Leigos.
Todo este esforço para organizar a ação laical na Igreja e no mundo tem seus fundamentos. Na evangelização do mundo de hoje há questões às quais só os cristãos leigos oficialmente organizados podem dar respostas como Igreja inserida no mundo. O Documento de Aparecida, em seu número 215, destaca: “Reconhecemos o valor e a eficácia dos Conselhos paroquiais, Conselhos Diocesanos e nacionais de fieis leigos, porque incentivam a comunhão e a participação na Igreja e sua presença ativa no mundo”.
O tema do laicato retornou na Assembleia da CNBB em 1998, que gerou o Documento 62 sobre a Missão e Ministérios dos leigos. Este documento, no número 191, diz: “é desejável que em sua missão os cristãos leigos, superando eventuais divisões e preconceitos, busquem valorizar suas diversas formas de organização, em especial os Conselhos de Leigos em todos os níveis”
Em 2004 a CNBB aprovou o estatuto do Conselho Nacional dos Leigos do Brasil (CNLB). Além de ser um organismo de comunhão, o CNLB tem por objetivo criar e apoiar mecanismos de formação e capacitação que ajudem o laicato a descobrir sua identidade, vocação, espiritualidade e missão, com vistas à construção de uma sociedade justa e fraterna, sinal do Reino de Deus.

DIVERSAS FORMAS DE EXPRESSÃO LAICAL

Destacamos a presença muito viva das associações laicais nascidas a partir dos carismas das ordens e congregações religiosas, que contribuem para que muitos cristãos leigos vivam profunda espiritualidade e assumam presença junto aos mais pobres, numa perspectiva de assistência, promoção humana e no compromisso sociotransformador.
A Igreja conta hoje com uma gama variada de associações de fiéis que agregam leigos, outras que agregam leigos e clérigos e ainda aquelas que contemplam leigos consagrados. Há também as novas comunidades, que têm emergido com significativa força, centradas nos laços comunitários, que pedem de cada membro uma adesão estável visível e institucionalizada. Muitas delas configuram um espaço misto de vida leiga, religiosa e clerical.
Todas as formas de associação existem para a edificação da Igreja e para contribuir com a sua missão no mundo. Nesse sentido, são de grande atualidade as orientações dadas pelo Apóstolo Paulo à comunidade de Corinto: os dons existem para a edificação da Igreja e não podem servir como busca de poder religioso dentro da comunidade (1 Coríntios 12,28—13.14

A FORMAÇÃO DO LAICATO

Cada organização laical deve assumir a formação de seus membros como primordial, o que exige empenho de todos. Sem uma formação permanente, contínua e consistente, o cristão leigo corre o risco de estagnar-se em sua caminhada eclesial. A formação do sujeito eclesial, para ser integral precisa considerar as dimensões humana e espiritual, teológica e pastoral, teórica e prática.

A FORMAÇÃO DE SUJEITOS ECLESIAIS

A Igreja, particularmente os bispos e os presbíteros, tem a missão de formar cristãos leigos missionários, conscientes e ativos, de forma que cada qual venha a contribuir com a educação dos demais numa ação de aprendizagem mútua por todos os meios que sejam necessários.
A formação contínua dos cristãos leigos implica em amadurecimento contínuo da missão para que de fato a Igreja esteja sempre em saída, enfrentando os inúmeros desafios do século XXI.

FUNDAMENTOS DA FORMAÇÃO

A formação é uma exigência de nossa condição humana, pois convivemos com limitações. Isso exige de todo o Povo de Deus, e de cada um em particular, a busca permanente da compreensão e da vivência da nossa fé. Por essa razão, é necessário encontrar, em cada contexto, os meios mais adequados de compreensão e comunicação do Evangelho, recorrendo para tanto à teologia e as diversas ciências. As mudanças rápidas e profundas pelas quais passam a sociedade e a própria Igreja exigem cuidado especial para que uma formação adequada permita que mensagem se torne compreensível e promova o desejo de seguir o projeto de Jesus Cristo.

PRINCÍPIOS DA FORMAÇÃO DO LAICATO

A formação, entendida como educação permanente da fé, possui um aspecto espontâneo que acontece na vivência prática da própria fé. A formação possui também um aspecto sistemático e formal como atividade planejada e executada pela e na comunidade eclesial. Isso se refere a todas as modalidades de formação oferecidas em cursos regulares: formação básica oferecida a todos os sujeitos em suas respectivas comunidades, bem como formação específica relacionada a cada função e a cada grupo eclesial.
A formação deve contribuir para que os cristãos leigos vivam o seguimento de Jesus Cristo e deem resposta do que significa ser cristão hoje, no Brasil e no mundo, situando-os como cristãos no lugar e na época em que vivem. Para pensar a formação, devemos fazê-lo a partir dos sinais dos tempos, do nosso continente, marcado pela cultura cristã e pela pobreza.
A Doutrina Social da Igreja oferece critérios e valores, respostas e rumos pra as necessidades, as perguntas e questionamentos da ordem social, em vista do bem comum. Lamentavelmente esta Doutrina ainda é muito desconhecida nos diversos setores da Igreja.
Fundamentada na Palavra de Deus e nos documentos do Magistério da Igreja, a formação do laicato católico terá as seguintes características:
1- Mistagógica- relacionada com a catequese, a liturgia e a vida para favorecer a conversão pessoal e pastoral.
2- Integral- para responder aos aspectos da fé, da razão, da emoção e da espiritualidade.
3- Missionária e Inculturada- para que os cristãos, conscientes da sua vocação e missão, vão ao encontro dos demais em sua realidade.
4- Articulada – de modo a superar as separações entre fé e vida, Igreja e mundo, clero e leigo.
5- Prática- de modo que o cristão leigo e leiga se insiram na realidade da sociedade como agentes de transformação.
6- Dialogante, que destrói os muros que separam as pastorais e as comunidades, superando isolamentos e autoritarismos eclesiais e sociais.
7- Específica- de modo que atenda às necessidades de cada ação pastoral na Igreja e na Sociedade.
8- Permanente e atualizada – capaz de acompanhar e responder com prontidão aos desafios advindos da realidade global e local, levando sempre em conta as orientações da Doutrina Social da Igreja.
9- Planejada- pedagogicamente organizada a partir de projetos tecnicamente elaborados com garantia de recursos capazes de responder aos proposto nos itens anteriores.

PROJETO DIOCESANO DE FORMAÇÃO

O Documento de Aparecida, no número 281, ressalta a necessidade de que cada diocese tenha um projeto de formação do laicato. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora na Igreja do Brasil 2015-2019 enfatiza um projeto diocesano de formação para os leigos que contemple:
1-objetivos, diretrizes, prioridades e meios articulados com o plano pastoral dicoesano. 2-formação básica de todos os membros da comunidade; formação específica, conforme os campos da missão, especialmente de quem atua na sociedade e dos formadores. 3- aprimoramento bíblico-teológico dos cristãos leitos e leigas 4-presença de cristãos leigos na coordenação e execução do projeto. 5- diálogo com as diferentes formas organizativas dos cristãos leigos . 6- união entre fé, vida e liturgia para a autenticidade da vida comunitária e testemunho evangélico na transformação da sociedade.

A AÇÃO TRANSFORMADORA DO CRISTÃO LEIGO NO MUNDO

O Reino de Deus é dom e missão. Como dom deve ser acolhido e como missão deve ser buscado, testemunhado e anunciado. Para esta missão a Igreja contribui em comunhão com todos os homens e mulheres que buscam construir uma sociedade justa e fraterna.
A Igreja existe para o Reino de Deus. Dessa convicção ela se nutre e nessa direção se organiza em suas estruturas. Pela força do Espírito a ação da Igreja é direcionada para fora de si mesma como servidora do ser humano, buscando a transformação da sociedade através das graças do Reino de Deus.

MODOS DE AÇÃO TRANSFORMADORA

A ação transformadora do cristão leigo e leiga no mundo pode ter diferentes modos de realização, entre os quais destacamos:
1-O testemunho como presença que anuncia Jesus Cristo em cada lugar e situação onde se encontra, a começar pela família; 2- a ética e a competência no ambiente profissional; 3- o anúncio querigmático nos encontros pessoais, nas visitas domiciliares e no ambiente de trabalho; 4-Os serviços, pastorais e ministérios pelos quais os cristãos leigos marcam presença no mundo; 5-a inserção na vida social através das pastorais sociais; 6- os meios de organização e atuação na vida cultural e política com vistas para o mundo justo, sustentável e fraterno.
São João Paulo II lembra que: “Ao descobrir e viver a própria vocação e missão os fiéis leigos devem ser formados para aquela unidade de que está assinalada a sua própria situação de membros da Igreja e de cidadãos da sociedade humana”.

CRITÉRIOS GERAIS DA AÇÃO TRANSFORMADORA

O Papa Francisco sugere alguns critérios gerais para a ação transformadora dos cristãos leigos no mundo:
1- A ação evangelizadora inclui sempre a Igreja, a sociedade e cada pessoa individualmente. 2- A ação requer discernimento das realidades concretas. O mundo é uma realidade a ser constantemente discernida. Este discernimento deve ser iluminado pelos valores do Reino de Deus, sempre a partir da fé que ilumina as realidades do mundo. 3- Todos somos convidados a sair da própria comodidade e alcançar as periferias que precisam da luz do Evangelho. 4-A ação evangelizadora inclui a opção preferencial pelos pobres, a solidariedade, a defesa da vida humana, especialmente onde ela é negada ou agredida. 5- A ação de dialogar com o mundo social., cultural, religioso e ecumênico deve promover a cultura do encontro e a inclusão do outro na vivência da fraternidade. 6- A ação deve considerar a primazia do humano antes de qualquer outra, sob o risco de cair em idolatria.

PRINCÍPIOS PARA A AÇÃO TRANSFORMADORA

O Papa Francisco elenca explicitamente quatro princípios específicos que visam contribuir para a construção de um povo em paz, justiça e fraternidade.
1-O tempo é superior ao espaço:É necessário planejar e esperar os resultados da ação em um horizonte mais amplo, dentro do qual a paciência aguarda os frutos amadurecerem, a esperança supera todos os desânimos e a fé transcende os imediatismos da ação. 2- A Unidade prevalece sobre os conflitos: A ação se depara sempre com situações conflitantes. A convicção de que a unidade é um princípio superior que norteia a ação permite encarar de frente o conflito e buscar caminhos de superação. 3- A realidade é mais importante que as ideias: A ação transformadora ocorre a partir de um ideal transformador. Contudo, esse ideal não pode dispensar a realidade, lugar da encarnação da Palavra de Deus. 4- O todo é superior à parte: É necessário ter sempre como horizonte maior a pessoa de Jesus Cristo e seu Reino. Desse modo se evitarão todas as formas de isolamentos locais e de relativismos individualistas.

A AÇÃO DOS CRISTÃOS LEIGOS NOS AREÓPAGOS MODERNOS

O Apóstolo Paulo, depois de ter pregado em numerosos lugares, chega a Atenas e vai ao areópago, onde anuncia o Evangelho, usando uma linguagem adaptada e compreensível para aquele ambiente (Atos 17, 22-31). O areópago que representava o centro da cultura do povo ateniense é tomado como símbolo dos novos ambientes onde o Evangelho deve ser proclamado.
Os cristãos leigos são os primeiros membros da Igreja a se sentirem interpelados na missão junto aos areópagos – essas grandes áreas culturais ou mundos ou fenômenos sociais ou, mesmo, sinais dos tempos. O Papa emérito Bento XVI ofereceu-nos luzes e encorajamento para o profetismo dos leigos na missão junto a esses areópagos. Diz o Papa: “O sacramento da Eucaristia tem um caráter social. A união com Cristo é ao mesmo tempo união com todos os outros a quem ele se entrega. Eu não posso ter Cristo só para mim. É necessário explicitar a relação entre o mistério eucarístico e o compromisso em prol da justiça, à vontade de transformar também, as estruturas injustas. A Igreja não deve ficar à margem da luta pela justiça”.
A partir da Eucaristia nasce a coragem profética. Não podemos ficar insensíveis diante dos processos de globalização que faz crescer a distância entre ricos e pobres. É impossível calar diante dos grandes campos de deslocados ou refugiados, amontoados em condições precárias. Basta dizer que menos da metade das somas globalmente destinadas a armamentos poderia tirar de modo estável da indigência o exército ilimitado dos pobres. Isso interpela a nossa consciência.

A FAMÍLIA: AREÓPAGO PRIMORDIAL

A família, comunidade de vida e amor, escola de valores e Igreja doméstica, é a grande benfeitora da humanidade. Nela se aprendem as orientações básicas da vida: o afeto, a convivência, a educação para o amor, a justiça e a experiência de fé. O mundo se torna uma grande família onde os cristãos leigos são protagonistas da evangelização, que deve sempre primar pela valorização da família, que as jovens gerações também desejam constituir.
Reafirmamos e defendemos a dignidade, a inviolabilidade e os direitos do embrião humano. O aborto é uma violação do direito à vida, uma crueldade e grave injustiça contra os inocentes e indefesos. Recomendamos aos leigos que assumam com alegria e dedicação o cuidado da família e a transmissão da fé aos filhos em sintonia com o plano de Deus e os ensinamentos do Magistério da Igreja.

O MUNDO DA POLÍTICA

Deixemo-nos tocar pelo que nos ensina o Papa Francisco sobre os leigos e a política: “Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente a sanar as raízes profundas dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade é o princípio não só das microrrelações, mas também das macrorrelações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos. Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo e a vida dos pobres”.
Grande impulso foi dado pelo Papa emérito Bento XVI a respeito da ação política dos leigos: “O leigo cristão é chamado a assumir diretamente a sua responsabilidade política e social. Dirijo, pois, um apelo a todos os fiéis para que se tornem realmente obreiros da paz e da justiça”.
É urgente que as dioceses busquem:
1- estimular a participação dos cristãos leigos na política. Há necessidade de romper o preconceito de que a política é coisa suja. Ao contrário, ela é essencial para a transformação da sociedade. 2- impulsionar os cristãos leigos na participação dos mecanismos de controle social e da gestão participativa (conselhos municipais). 3- Incentivar e preparar cristãos leigos a participarem de partidos políticos e serem candidatos para o executivo e o legislativo, contribuindo para a transformação social, 4- Mostrar aos membros das nossas comunidades que há várias maneiras de tomar parte na política: nos conselhos paritários de políticas públicas, movimentos sociais, conselhos de escola, coleta de assinaturas para projetos de lei de iniciativa popular. 5- Incentivar e animar a constituição de cursos ou escolas de Fé e Política ou Fé e Cidadania. 6- Acompanhar os cristãos que estão com mandatos (executivo ou legislativo), no judiciário e no ministério público a fim de que vivam também aí a missão profética, promovendo reuniões, encontros, momentos de oração, reflexão e retiros.

O MUNDO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS

As Diretrizes Gerais para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2015-2019 sugerem aos leigos cristãos que colaborem com os movimentos populares e entidades da sociedade civil em favor da implantação e da execução de políticas públicas voltadas para a defesa e a promoção da vida e do bem comum.
Nos Conselhos de Direitos há um grande espaço para os cristãos leigos se empenharem por políticas públicas em favor da saúde e da educação, do emprego e da segurança, da mobilidade urbana e do lazer. Esses Conselhos de Direitos são um lugar privilegiado de participação de cristãos leigos na vida polític.

O MUNDO DO TRABALHO

267- As Dioceses se esforcem para:
1- Criar e fortalecer as pastorais do mundo do Trabalho urbano e rural. 2- Criar e motivar grupos de partilha e de reflexão para os diferentes profissionais e empresários, estimulando-os a serem discípulos missionários em sua atuação profissional. 3-Promover a formação para uma autêntica espiritualidade do mundo do trabalho, na efetivação do progresso terreno e no desenvolvimento do Reino de Deus. 4-Animar e manifestar nossa solidariedade aos trabalhadores na conquista e preservação de seus direitos. 5- Incentivar os cristãos leigos a participarem dos sindicatos e outras organizações e a se articularem em vista de avanços nas políticas públicas em prol do bem comum. 6- acolher os trabalhadores em nossas comunidades. 7- apoiar e participar de iniciativas de combate ao trabalho escravo.

O MUNDO DA CULTURA E DA EDUCAÇÃO
As Dioceses e Paróquias se esforcem para:
1-criar círculos de partilha e reflexão entre os diversos campos do saber e da ciência, estimulando-os a serem aí discípulos missionários. 2- Implantar a Pastoral da Cultura e divulgar a importância do “Átro dos Gentios” que é o espaço do encontro entre crentes e não crentes em torno do tema Deus. 3- Animar os comunicadores e os formadores de opinião a manifestarem os valores do Reino através dos meios de comunicação. 4-Incentivar e apoiar os cristãos leigos para que, nos diferentes campos das artes e da cultura popular, apontem para o sentido da vida e da sua transcendência para a obra evangelizadora.
É urgente que a Pastoral da Educação e a Pastoral Universitária se tornem viva expressão nas paróquias e dioceses.

PASTORAL DA COMUNICAÇÃO

Todos nós na Igreja precisamos ser conscientizados a respeito da necessidade, prioridade e urgência da comunicação em todos os seus níveis. Aquilo que não é comunicado, não é conhecido. As Boas Obras sejam comunicadas para a glória do Pai, o bem da sociedade, a divulgação do Evangelho e para o bom exemplo, incentivo e alegria de todos. Daí a necessidade das Paróquias e Dioceses implantarem a Pastoral da Comunicação.

O CUIDADO COM A NOSSA CASA COMUM

Pela nossa realidade corpórea, Deus nos uniu tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação. Por isso os cristãos leigos devem assumir com coragem a busca de uma comunhão com a criação, a defesa da água, do clima, das florestas e dos mares, como bens públicos a serviço de todas as criaturas.

INDICATIVOS E ENCAMINHAMENTOS DE AÇÕES PASTORAIS

Neste tópico queremos retomar indicativos e propor encaminhamentos para as Dioceses, Paróquias e outros organismos da Igreja:
1-Despertar os cristãos leigos para a sua vocação espiritualidade e missão que brotam do batismo; 2- convocar os cristãos leigos para as assembleias paroquiais, diocesanas e regionais e nacionais da CNBB. Incentivá-los e efetivá-los nos Conselhos de Pastoral , econômico, missionário e outros; 3- Divulgar o esforço da CNBB na realização as assembleias das Igrejas e encontros dos organismos eclesiais; 4- Reconhecer a dignidade da mulher e sua indispensável contribuição para a Igreja e a sociedade, ampliando sua presença nos conselhos eclesiais; 5- incentivar os cristãos leigos na participação social e política; 6-aprofundar a questão dos ministérios leigos, estimulando a criação de novos; 7 apoiar ou implantar a Pastoral familiar para que esteja atenta às famílias vulneráveis e fragilizadas, assim como às novas formas de convivência familiar; 8- Criar ou fortalecer as Pastorais Sociais, em espírito missionário e que lutem por políticas públicas e de inclusão social; 9-incentivar a juventude a participar nas instâncias decisórias da Igreja e da sociedade;10- cuidar para que as pessoas idosas sejam atendidas pastoralmente e tenham espaço e condições de participar das atividades da Igreja; 11-incentivar os cristãos, leigos , bem como os ministros ordenados, a que, inseridos numa sociedade pluralista do ponto de vista cultural e religioso, vivenciem e construam caminhos de diálogo ecumênico e inter-religioso, de cooperação com o diferente e com as novas culturas.

COMPROMISSOS

Antes de concluir este documento, queremos incentivar nossas comunidades a assumirem estes compromissos:
1-Envolver todos os cristãos na reflexão e aplicação deste documento. 2-Celebrar o dia dos Cristãos Leigos na solenidade de Cristo Rei, a cada ano. 3- Estimular que no decorrer do mês de novembro haja ampla discussão sobre a vocação dos leigos cristãos na Igreja e na Sociedade 4-Celebrar o dia 1º de maio – São José Operário –como valorização do trabalho e denuncia de tudo o que contradiz a dignidade do trabalhador. 5- Recuperar e divulgar os cristãos leigos mártires e daqueles que viveram o seu compromisso batismal no cotidiano da vida e se tornaram ou são referências. 6- Criar ou fortalecer os Conselhos Regionais e Diocesanos de Leigos. 7- Fortalecer e ampliar o diálogo e o trabalho junto às diferentes formas de expressão do laicato. 8- Realizar o Ano do Laicato, que terá como eixo central a presença e a atuação dos cristãos leigos como ramos, sal, luz e fermento na Igreja e na Sociedade.

CONCLUSÃO

Incentivamos os irmãos leigos a acreditarem na própria vocação, como sujeitos de uma missão específica. Reconhecemos o direito e a autonomia das diferentes formas de organização e articulação do laicato expressos nos documentos do Vaticano II. Conclamamos, de modo especial, os irmãos e irmãs religiosos e religiosas e a todos os consagrados e consagradas, que buscam viver na alergia seus votos de castidade, pobreza e obediência, a manter viva, também nos irmãos leigos e leigas, a consciência do valor das coisas que passam, sem descuidar dos bens que não passam. Pedimos aos irmãos diáconos permanentes que, em sua maioria, vivem a realidade do matrimônio e do trabalho, que se dediquem a todos os cristãos leigos e leigas e às famílias, motivados pela graça de terem recebido os sacramentos do Matrimônio e da Ordem. Incentivamos e encorajamos os irmãos presbíteros, indispensáveis colaboradores dos bispos, a serem cada vez mais amigos dos irmãos leigos e leigas. Como bispos nos propomos a acolher cada vez mais com coração fraterno a todos os cristãos leigos e leigas, valorizando sua atuação na Igreja e no mundo, ouvindo suas opiniões e sugestões, confiando-lhes responsabilidades e ministérios.
Pedimos a Maria, mãe da Igreja, cheia de fé e de graça, totalmente consagrada ao Senhor, exemplo de mulher solícita e laboriosa, que acompanhe a todos os leigos e leigas, seus filhos e filhas, em cada dia da vida. Sob sua maternal proteção ecoem em nossos corações as suas palavras: “Fazei tudo o que ele vos disser” (João 2,5).

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A vida pede solidariedade

 

vizinhança solidária 222

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texto integral DIRETRIZES GERAIS 2015 2019 CNBB texto integral

CNBB texto integral 

DIRETRIZES GERAIS 2015 2019 

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil  53ª Assembleia Geral Aparecida – SP.

15 a 24 de abril de 2015

 

OBJETIVO GERAL

EVANGELIZAR, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo,  como Igreja discípula, missionária e protica,  alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia,  à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,  para que todos tenham vida,  rumo ao Reino definitivo.

INTRODUÇÃO

  1. A CNBB, com as presentes Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE) – 2015-2019, prossegue a sua história de promoção da pastoral orgânica de conjunto no Brasil.
  2. Na sua Assembleia Ordinária de 2014, a CNBB decidiu dar continuidade às Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2011-2015, atualizando-as à luz da Exortação apostólica do Papa Francisco sobre a alegria do Evangelho. A continuidade foi motivada pela necessidade de dar prosseguimento ao processo de aplicação do Documento de Aparecida, que é a principal referência das Diretrizes 2011-2015. O renovado empenho missionário que a Conferência de Aparecida nos pede e o amplo processo de “conversão pastoral” que ela propõe, estão em pleno curso. Além disso, a revisão das DGAE à luz da Alegria do Evangelho mostrou-se igualmente necessária. O Papa Francisco apresentou a sua Exortação indicando caminhos para o percurso da a Igreja nos próximos anos e convocou toda a Igreja a “avançar no caminho da conversão pastoral e missionária”, a “não deixar as coisas como estão” e a se “constituir em estado permanente de missão”. A recepção da carta do Papa Francisco pela Igreja no Brasil reforça e aprofunda as grandes opções da Conferência de Aparecida assumidas pela CNBB, em suas diretrizes para ação evangelizadora. A celebração do Ano Santo da Misericórdia (08/12/15 a 20/11/16) nos convidam a prosseguir no caminho da renovação pastoral, no contexto de uma nova evangelização, com novo ardor missionário e criatividade pastoral.
  3. Com renovada consciência de que a evangelização continuamente parte da contemplação de Jesus Cristo presente em sua Igreja e se desenvolve em diálogo com os contextos em que se realizam, estas Diretrizes são oferecidas a todas as Igrejas particulares do Brasil e demais organismos eclesiais. Que elas possam contribuir para que a “alegria do Evangelho” renove profundamente nossas comunidades e anime continuamente nosso entusiasmo missionário.

CAPÍTULO I

PARTIR DE JESUS CRISTO

1 – A Igreja vive de Cristo

  1. Jesus Cristo é a fonte de tudo o que a Igreja é e de tudo o que ela crê. Em sua missão evangelizadora, ela não comunica a si mesma, mas o Evangelho, a palavra e a presença transformadora de Jesus Cristo, na realidade em que se encontra. Ela é a comunidade dos discípulos missionários, que respondem permanentemente à pergunta decisiva: quem é Jesus Cristo? (Mc 8,27-29). O fundamento do discipulado missionário é a contemplação de Jesus Cristo. Como afirma o Papa Francisco, “a melhor motivação para se decidir comunicar o Evangelho é contemplá-lo com amor, é deter-se nas suas páginas e lê-lo com o coração”. Na comunhão eclesial, eles experimentam o fascínio que faz arder seus corações (Lc 24,32), e os leva a tudo deixar (Lc 5,8-11) e a viver um amor incondicional a Ele (Jo 21,9-17). A paixão por Jesus Cristo os leva à verdadeira conversão pessoal e pastoral (Lc 24,47; At 2,36ss).
  2. A Igreja, fiel a Jesus Cristo, coloca-se a serviço do Reino de Deus. Os evangelhos apresentam o Reino como o centro da vida e da pregação de Jesus. “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Afirmar que o Reino de Deus está próximo é anunciar que Deus mesmo está próximo. Seu reinado significa sua atuação salvadora e sua proximidade paterna e misericordiosa para com todos, especialmente para com os pobres, marginalizados e sofredores de todo tipo. Por isso, a pregação e a conduta de Jesus suscitaram surpresa, fascínio e entusiasmo, mas despertaram também suspeitas, fechamento, escândalo e ódio. O Reino de Deus não é apenas a mensagem de Jesus. Ele mesmo é a chegada desse Reino. Sua mensagem e sua pessoa são inseparáveis. Nele, o Reino é dado gratuitamente (Mt 21,34; Lc 12,32), é deixado em herança (Mt 25,34; Lc 22,29). Cabe ao discípulo acolhe-lo por meio da conversão e da (Mc 1,15). Como afirma o Papa Francisco, “o primado é sempre de Deus”, “a verdadeira novidade é aquela que o próprio Deus misteriosamente quer produzir”, “a iniciativa pertence a Deus”.
  3. Neste sentido, a Igreja no Brasil se alegra com a proclamação do Ano Santo da Misericórdia. “Na Sagrada Escritura […] a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para conosco. Ele não se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável” em seu Filho Jesus, que é “o rosto da misericórdia do Pai”. Por isso, “a Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa”, especialmente atenta “àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais”.
  4. A experiência do encontro transformador com Jesus Cristo insere seus discípulos na comunhão com a Santíssima Trindade e lhes comunica a missão de anunciar o Reino de Deus, com palavras e sinais. A Igreja existe no mundo como obra das três Pessoas divinas, é povo de Deus (em relação ao Pai), corpo e esposa de Cristo (em relação ao Filho) e templo vivo (em relação ao Espírito Santo). Ela é “o povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Como comunhão (koinonia) divino-humana ela “constitui na terra o germe e o início do Reino”, pois Jesus a iniciou “pregando a boa nova, que é a chegada do Reino de Deus. E, desse modo, ela é no mundo sacramento de salvação, como afirmou o Concílio Vaticano II: Jesus Cristo, “ao ressuscitar dentre os mortos (Rm 6,9), comunicou seu Espírito vivificante, por meio do qual constituiu seu corpo, que é a Igreja, como sacramento universal de salvação”.

 

2 – Igreja: lugar de encontro com Jesus Cristo

  1. É na comunhão eclesial que o discípulo missionário, ao contemplar Jesus Cristo, descobre o Verbo que arma sua tenda entre nós, o Filho único do Pai, cheio de amor e fidelidade (Jo 1,14); aquele que, sendo rico, se fez pobre para a todos enriquecer (2Cor 8,9), sendo de condição divina, não se fecha em si mesmo, mas se esvazia até a morte e morte de cruz (Fl 2,5ss) e não tem sequer onde reclinar a cabeça (Mt 8,20). Ele está sempre a caminho para anunciar o Reino, a graça, a justiça e a reconciliação (Lc 4,43). Ele se preocupa com as ovelhas que não fazem parte do rebanho (Jo 10,16), mesmo que seja uma única ovelha perdida, sofrida (Lc 15,4-7), para reanimá-las diante da dor e da desesperança (Lc 24,13-35). Deus se comunica conosco por meio de sua Palavra que é Jesus Cristo, Verbo feito carne. É este mesmo Jesus que virá, um dia, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos (Mt 25,31-46).
  2. O encontro com Jesus enche a vida de alegria, convida à conversão e ao discipulado missionário. “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”. Por sua vez, este encontro é mediado pela ação da Igreja, que se concretiza em cada tempo e lugar, de acordo com o jeito de ser de cada povo, de cada cultura. A descoberta do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, dom salvífico para toda a humanidade, não acontece sem a mediação dos outros (Rm 10,14). “Aqui está a fonte da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?”. “A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, a experiência de sermos salvos por Ele, que nos impele a amá-lo cada vez mais”.
  3. “A não nasce de uma decisão pessoal, mas de um encontro com uma pessoa” (Bento XVI, Discurso inaugural de Aparecida, 315). E por ser encontro pessoal é também “decidir estar com o Senhor, para viver com Ele. E este ‘estar com Ele’ introduz na compreensão das razões pelas quais se acredita”. Devido ao respeito pelo interlocutor e pela liberdade que o ato de exige, é que este diálogo e razão é necessário. Ele se faz ainda mais urgente no contexto da nova evangelização, desafiado por “sentimentalismos efêmeros e emocionalismo insaciável”.

 

3 –Atitudes fundamentais do discípulo missionário

  1. O discípulo missionário encontra nas atitudes de alteridade e gratuidade as marcas que configuram sua vida à de Jesus Cristo, que, “sendo rico, se fez pobre para nos enriquecer com sua graça” (2Cor 8,9) e que veio “para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mt 20,28). Aí se encontram a fonte de duas atitudes fundamentais. Alteridade se fundamenta na encarnação e se refere ao outro, ao próximo, àquele que, em Jesus Cristo, é meu irmão ou minha irmã, mesmo estando do outro lado do planeta. As diferenças convidam ao respeito mútuo, ao encontro, ao diálogo, à partilha e ao intercâmbio de vida e à solidariedade. O cristão vive a gratuidade, que encontra no mistério pascal sua máxima expressão e sua fonte permanente. A vida só se ganha na entrega, na doação. “Quem quiser perder a sua vida por causa de mim a encontrará!” (Mt 10,39). Gratuidade significa amar, em Jesus Cristo, o irmão e a irmã, respondendo, através de atitudes fraternas e solidárias, a grande questão: “quem é o meu próximo?” (Lc 10,29), querendo e fazendo bem ao outro sem nada esperar em troca. Ainda mais, Jesus se declara presente nos sofredores e, o que é feito ou negado a eles, declara feito ou negado a Si mesmo, fazendo do amor-serviço o critério do julgamento (Mt 25,31-46). Com essas atitudes, corta-se a raiz mais profunda da violência, da exclusão, da exploração e de toda discórdia.
  2. Com as atitudes de gratuidade e alteridade, expressões do Amor, os discípulos missionários promovem justiça, paz, reconciliação e fraternidade. Desse modo, oferecem à sociedade atual o testemunho do perdão e da reconciliação (Lc 23,34), que devem ser incessantemente testemunhados e transmitidos (Mt 18,21-22) em um contexto de crescente violência. A radicalidade do amor de Deus atinge sua extrema manifestação no amor aos inimigos. A reconciliação supera toda divisão que nos afasta de Deus e nos separa uns dos outros. Os discípulos missionários, ao contemplar o Crucificado Ressuscitado reconhecem que a loucura e o escândalo (1Cor 1,18.21) do Reino de Deus chegam a seu ápice na reconciliação (Rm 5,6-8; Lc 23,34). Diante de graves situações que fazem os irmãos sofrerem, os discípulos se enchem de compaixão, clamam por justiça e paz e sabem que só se vence o mal com o bem (Rm 12,17-21). Motivados pela atitude de constante ida ao encontro do outro, contemplam a realidade, encarnando-se nela, discernindo os sinais do Reino de Deus e trabalhando para que ele cresça cada vez mais.

 

4 – A Igreja “em saída”

  1. Ser verdadeiro discípulo missionário exige o vínculo efetivo e afetivo com a comunidade dos que descobriram fascínio pelo mesmo Senhor. Ele sabe que exerce sua missão na Igreja, “em saída”. “Naquele ‘ide’ de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova ‘saída’ missionária”. O papa Francisco afirma: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Por isso ela sabe ir à frente, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inesgotável de oferecer misericórdia”. A saída exige “prudência e audácia”, “coragem” e “ousadia”.
  2. A Igreja, “Mãe de coração aberto”, “casa aberta do Pai”, conclama a todos para reunir-se na fraternidade, acolher a Palavra, celebrar os sacramentos e sair em missão, no testemunho, na solidariedade e no claro anúncio da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo. Na Igreja, o fiel encontra a força de uma união que ultrapassa raças, condições econômico-sociais, preconceitos, discriminações (Gl 3,28). A unidade de todos, em meio à diversidade de dons, serviços, carismas e ministérios, testemunha o amor trinitário do Pai, pelo Filho, no Espírito.
  3. Viver o encontro com Jesus Cristo implica necessariamente amor, gratuidade, alteridade, unidade, eclesialidade, fidelidade, perdão e reconciliação. Torna o o cristão firmemente enraizado e edificado em Jesus Cristo (Ef 3,17; Cl 2,7), à semelhança da casa que se constrói sobre a rocha (Mt 7,24-27). Com Jesus, somos chamados a viver uma “intimidade itinerante”, que é partilha da sua vida, da sua missão e dos seus sentimentos (Fl 2,5). A Igreja vive sua fidelidade a Cristo e ao Evangelho nos contextos em que se encontra. O povo de Deus “se encarna nos povos da Terra”. “Uma autêntica, que nunca é cômoda nem individualista, comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um melhor depois da nossa passagem por ela”.

 

CAPÍTULO II

MARCAS DE NOSSO TEMPO

  1. Como o Filho de Deus assumiu a condição humana, nascendo e vivendo como membro de um determinado povo e em uma realidade histórica (Lc 2,1-2), seus discípulos, fiéis a Ele, anunciam o Evangelho à luz da pessoa, da vida e da palavra de Jesus Cristo, Senhor e Salvador. Assim, testemunham o Evangelho acolhendo as alegrias e esperanças, tristezas e angústias do homem de hoje, especialmente dos mais pobre. Os discípulos missionários sabem que evangelizam “também procurando enfrentar os diferentes desafios que podem se apresentar”, e que, para isto, devem conhecer a realidade à sua volta, atentos aos sinais dos tempos e, em atitude de discernimento, nela mergulhar iluminados pela .
  2. “Evangelizar é, em primeiro lugar, dar testemunho”. A Igreja no Brasil tem sido testemunha do Evangelho da vida e da promoção da justiça e da paz e acompanha com atenção a realidade cultural, econômica e política da sociedade brasileira, especialmente atenta aos pobres, que, tendo de lutar para viver e muitas vezes com “pouca dignidade”, são a maioria da população e “vivem seu dia a dia precariamente”.
  3. Os elementos do contexto em que a Igreja vive e age são aqui apresentados e interpretados numa perspectiva pastoral, na linha do discernimento evangélico. Em grande parte, são condicionados pela conjuntura cultural e econômica mundial. Assumem características comuns em todo o território nacional, mas é em cada local que abrem possibilidades novas e fazem sentir o peso de seus limites e distorções. Por isso, cada comunidade é convidada a conhecer bem os desafios locais, entre os quais tem que viver e com os quais tem que interagir no cumprimento de sua missão.

 

  1. Contexto atual: mudança de época
  2. Vivemos uma época de transformações profundas. Não se trata de “época de mudanças”, mas de uma “mudança de época”. São tempos nos quais se constatam avanços e conquistas no mundo das ciências e da técnica, que proporcionam conforto e bem-estar. Constatam-se também avanços em vários âmbitos da sociedade: a promoção da mulher; a valorização das minorias étnicas; o destaque à justiça, à paz e à ecologia; a consciência da importância dos movimentos sociais e dos direitos à educação e à saúde; iniciativas para a superação da miséria e da fome.
  3. O fenômeno da globalização, embora atinja todos os recantos do planeta, não se restringe ao âmbito geográfico, mas produz transformações que atingem todos os setores da vida humana. Vive-se sob o imperativo da racionalização técnico-cientifica, voltada para a produtividade, o consumo e o lucro, que representam, muitas vezes, hipotecas pesadas para a natureza e as futuras gerações. O que até bem pouco tempo era tido como referências seguras, orientações determinantes para viver e conviver, se tornou insuficiente para responder às novas situações com seus desafios.

 

  1. Riscos e consequências de uma mudança de época
  2. Mudanças de época, de fato, afetam os critérios de compreensão, os valores mais profundos, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem ações e relações. Além disso, constata-se o aumento progressivo do relativismo, a ausência de referências sólidas, o excesso de informações, a superficialidade, o desejo a qualquer custo de conforto e facilidades, a aceleração do tempo, trazendo desafios existenciais e produzindo incertezas, precariedade, insegurança, inquietação. Surgem ou se agravam tendências desafiadoras como o individualismo, o fundamentalismo, o relativismo e diversas formas de unilateralismos. A atual crise cultural atinge, de modo particular, a família. “Difunde-se a noção de que a pessoa livre e autônoma precisa se libertar da família, da religião e da sociedade”. Fortes ideologias apresentam, por exemplo, noções confusas da sexualidade, do matrimônio e da família. Estas tendências desdobram-se em outras tantas como: o laicismo militante, com posturas fortes contra a Igreja e a Verdade do Evangelho; a negação da Cruz e de sua força redentora; a irracionalidade da chamada cultura midiática (meios de comunicação); o amoralismo generalizado; as atitudes de desrespeito diante do povo, especialmente para com os mais frágeis; uma compreensão de economia que não considera a pessoa humana e os anseios do povo.
  3. No campo social e econômico, os critérios que regem o mercado regulam também as relações humanas. Crescem as ofertas de felicidade, realização e sucesso pessoal, em detrimento do bem comum e da solidariedade, desconsiderando as atitudes altruístas, solidárias e fraternas. Os pobres são considerados supérfluos e descartáveis, ‘resíduos e sobras’. Preocupa-nos o avanço de empreendimentos imobiliários, agropecuários e de mineração sobre os territórios dos povos indígenas, quilombolas e pescadores artesanais, gerando processos de degradação ambiental, que ameaçam a sobrevivência desses povos. Ficam assim comprometidos o cuidado pela vida, o equilíbrio social, a preservação da natureza, o acesso à terra para trabalho e renda, entre outros fatores. Trata-se de uma economia caracterizada pela “negação da primazia do ser humano”, e, por isso, pela exclusão e pela desigualdade social, geradora uma cultura do bem-estar e do descartável e uma globalização da indiferença. Em termos evangélicos, o discípulo sabe que se trata de uma “nova idolatria do dinheiro” sustentada pela ideologia da autonomia absoluta dos mercados comandada pela especulação financeira. Sabe que é preciso dizer “não a um dinheiro que governa em vez de servir”.
  4. Em consequência, surgem práticas preocupantes de banalização da vida, tais como: a manipulação de embriões, práticas abortivas e tantas outras mortes absurdas; ausência de políticas públicas para uma vida digna com educação, saúde, segurança, trabalho, lazer, moradia; de efetiva proteção à vida e à família, às crianças e aos adolescentes, aos jovens e aos idosos e às pessoas com deficiência. A banalização da vida traz consigo a violência. Verdadeiro “câncer social”, a corrupção agrava a situação e gera, em muitos, atitudes de desconfiança e descrédito nas possibilidades de mudança. É preciso transformar a sociedade, repensar a função do Estado e redescobrir os valores éticos, para a superação da corrupção, da violência, do narcotráfico, bem como do tráfico de pessoas e de armamentos.
  5. Em razão da hegemonia que a economia exerce sobre a cultura atual, é preciso discernir a origem profunda da atual crise econômico-financeira. À luz da dignidade humana, ela se revela como uma crise antropológica: reduz a pessoa humana a uma de suas necessidades, o consumo. À luz da cristã, ela se caracteriza como rejeição da ética e de Deus.
  6. No âmbito religioso, constata-se um forte pluralismo, no qual se encontram, muitas vezes, práticas marcadas por fundamentalismo, emocionalismo e sentimentalismo. Isto por um lado, resulta de uma reação contra a sociedade materialista, consumista e individualista, procurando preencher o vazio deixado pelo racionalismo secularista e, por outro, se aproveita das carências da população. Tais movimentos religiosos favorecem a manipulação da mensagem do Evangelho. Exclui-se assim a salvação em Cristo, que passa a ser apresentada como sinônimo de prosperidade material, saúde física e realização afetiva. Existe também uma corrente secularista que mundialmente invade a sociedade, produzindo negação da transcendência, indiferença religiosa e generalização do relativismo. Estes fatores contribuem para a diluição do sentido de pertença eclesial e do vínculo comunitário, dificultando a iniciação à vida cristã e o compromisso com a evangelização e a transformação social.
  7. No âmbito católico, um considerável número de pessoas se afasta, por diferentes razões, da comunidade eclesial, sinal da “crise do compromisso comunitário”. Constata-se, em algumas comunidades, situações que interpelam a ação evangelizadora: a persistência de uma pastoral de manutenção em detrimento de uma pastoral decididamente missionária; a compreensão da comunidade como mera prestadora de serviços religiosos do que lugar de vivência fraterna da ; a passividade do laicato do que o engajamento nas diversas instâncias da vida social; a concentração do clero em determinadas áreas do que à efetiva solidariedade eclesial; a tendência de centralização excessiva do que ao exercício da comunhão e participação; o mundanismo sob vestes espirituais e pastorais do que a efetiva conversão; sinais de apegos a ‘vantagens e privilégios’ do que ao espírito de serviço; celebrações litúrgicas que tendem mais à exaltação da subjetividade do que a comunhão com o Mistério; a utilização de uma linguagem inadequada do que uma linguagem acessível e atual; a tendência à uniformidade do que a unidade na diversidade. Sente-se a necessidade de encontrar uma nova figura de comunidade eclesial, acolhedora e missionária.
  8. Em virtude do enfraquecimento das instituições e tradições, cresce a responsabilidade pessoal. Em outras épocas, instituições e tradições protegiam bem mais os indivíduos. Nesta mudança de época, instituições e tradições tendem a ser socioculturalmente julgadas com base na ação dos indivíduos. Em tempos de perplexidade e incertezas, os discípulos missionários necessitam de retidão ainda maior e fidelidade a Cristo ao pensar, sentir e agir. Devem verificar se estão deixando de realmente defender, promover e testemunhar a vida em todas as suas dimensões.
  9. Nesse contexto sociocultural, o discípulo missionário não desanima nem se acomoda, mas reage segundo o espírito das bem-aventuranças (Mt 5,1ss), colocando-se atento na presença do Senhor (1Sm 3,9-10). Ele crê que o Espírito é a força de Deus presente na vida das pessoas e da comunidade eclesial e confia que Ele o conduz, orienta e ilumina. Não faltam sinais de esperança. Constata-se o avanço do trabalho de leigos na Igreja e na sociedade, ministros ordenados e membros da vida consagrada se dedicam com ardor à missão, comunidades respondem aos novos desafios, setores de juventude se organizam, crescem movimentos, associações, grupos, pastorais e serviços.
  10. “Os desafios existem para serem superados. […] Não deixemos que nos roubem a força missionária”. Eles oferecem oportunidade para discernir as urgências da ação evangelizadora. Este é um tempo para responder missionariamente à mudança de época com o recomeçar a partir de Jesus Cristo, através de “novo ardor, novos métodos e nova expressão”, com “criatividade pastoral”. “O semeador, quando vê surgir o joio no meio do trigo, não tem reações lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida nova”.

 

 

CAPÍTULO III

URGÊNCIAS NA AÇÃO EVANGELIZADORA

  1. Diante da realidade que se transforma, a Igreja “em saída” é convocada a superar uma pastoral de mera conservação ou manutenção para assumir uma pastoral decididamente missionária, numa atitude que é chamada de conversão pastoral, como caminho da ação evangelizadora. Voltar às fontes e recomeçar a partir de Jesus Cristo, faz a Igreja superar a tentação de ser autorreferencial e a coloca no caminho do amor-serviço aos sofredores desta terra.
  2. Neste contexto emergem 05 urgências na evangelização que precisam estar presentes nos processos de planejamento pastoral das Igrejas particulares e instituições eclesiais. Tais urgências dizem respeito à busca de caminhos para a vivência e a transmissão da . Elas são elo entre tudo que se faz em termos de evangelização no Brasil. Põem a Igreja “em movimento de saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres”.
  3. De acordo com essas urgências, a Igreja no Brasil se empenha em ser uma Igreja em estado permanente de missão, casa da iniciação à vida cristã, fonte da animação bíblica da vida e da pastoral, comunidade de comunidades, a serviço da vida em todas as suas instâncias. Tais aspectos encontram-se unidos de tal modo, que assumir um deles implica que assumam os outros. Estão sempre presentes, pois se referem a Cristo, à Igreja, à vida comunitária, à Palavra de Deus como alimento para a , à Eucaristia como alimento para o serviço ao Reino de Deus, a caminho da vida eterna.
  4. Por seu testemunho e por suas ações pastorais, a Igreja suscita o desejo de encontrar Jesus Cristo. Este encontro se dá através do mergulho gradativo no mistério do Redentor. Daí a importância do primeiro anúncio e da iniciação à vida cristã, a qual não acontece plenamente se não se tem contato com a Sagrada Escritura. A Palavra de Deus, alimentando, iluminando e orientando toda a ação pastoral, transborda para a totalidade da existência de pessoas e grupos, tornando-se luz para o caminho (Sl 119,105). Transformados por Jesus Cristo e comprometidos com o Reino de Deus, os discípulos missionários formam comunidades que não podem fechar-se em si mesmas, como ilhas. Por suas atitudes fraternas e solidárias, trabalhando incessantemente pela vida em todas as suas instâncias, tornam-se sinais de que o Reino de Deus vai se manifestando em nosso meio (Mt 11,2-6; At 2,42), na vitória sobre o pecado e suas consequências.
  5. As cinco urgências apresentam a evangelização na perspectiva da inculturação, em vista de “fazer a proposta do Evangelho chegar à variedade dos contextos culturais e dos destinatários”. Entre esses contextos, sobressaem a cultura urbana e a Amazônia, “teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras”.

 

3.1. Igreja em estado permanente de missão

 “Ide pelo mundo inteiro  e anunciai a Boa Nova a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo!” (Mc16,15)

  1. Jesus Cristo, o grande missionário do Pai, envia, pela força do Espírito, seus discípulos em constante atitude de missão (Mc 16,15), por meio do testemunho e do anúncio explícito de sua pessoa e mensagem. A Igreja é missionária por natureza. Existe para anunciar, por gestos e palavras, a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. Fechar-se à dimensão missionária implica fechar-se ao Espírito Santo, sempre presente, atuante, impulsionador e defensor (Jo 14,16; Mt 10,19-20). Em toda a sua história, a Igreja nunca deixou de ser missionária. Em cada tempo e lugar, esta missão assume perspectivas distintas, nunca, porém, deixa de acontecer. Se hoje partilhamos a experiência cristã, é porque alguém nos transmitiu a beleza da , apresentou-nos Jesus Cristo, acolheu-nos na comunidade eclesial e nos fascinou pelo serviço ao Reino de Deus.
  2. A Conferência de Aparecida e a exortação apostólica Evangelii gaudium (Alegria do Evangelho) convocam a Igreja a ser toda missionária e em estado permanente de missão. Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém. Somos convidados a aceitar este chamado: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.
  3. A missão “é o paradigma de toda a obra da Igreja”. Ela assume um rosto próprio, com pelo menos três características: urgência, amplitude, inclusão. É urgente em decorrência da oscilação atual de critérios. Ampla e includente, porque reconhece que todas as situações, tempos e locais são seus interlocutores.
  4. É necessário, portanto, suscitar, em cada batizado e em cada forma de organização eclesial, uma forte consciência missionária que interpele o discípulo missionário a “primeirear”, isto é, a tomar iniciativa, a “sair ao encontro das pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos para lhes comunicar e compartilhar o dom do encontro com Cristo”. O discípulo missionário anuncia Jesus Cristo, em todos os lugares e situações em que se encontrar, apresentando com clareza e força testemunhal, quem é Ele e qual sua proposta para toda a humanidade, reconhecendo sempre que é precedido pelo Espírito Santo, protagonista da evangelização. O testemunho pessoal, é a base sobre a qual o anúncio explícito haverá de ser desenvolvido.
  5. O discípulo missionário é consciente que o distanciamento em relação a Jesus Cristo e ao Reino de Deus traz graves consequências para toda a humanidade. Estas consequências são sentidas principalmente nas inúmeras formas de desrespeito e destruição da vida. O cristão sabe que não lhe cabe a exclusividade na construção da nova época que está para surgir. Esta consciência, no entanto, não o exime da responsabilidade por testemunhar e anunciar, oportuna e inoportunamente (2Tm 4,2), Cristo e o Reino de Deus, que é vida, paz, justiça, concórdia e reconciliação (Gl 5,22s).
  6. Surge também a urgência de pensar estruturas pastorais que favoreçam a realização da atual consciência missionária. Esta “deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais”, a ponto de deixar para trás práticas, costumes e estruturas que, por corresponderem a outros momentos históricos, atualmente não favorecem a transmissão da . “O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade”. Continua a nos interpelar a convocação da Conferência de Aparecida à conversão pastoral, através da qual se ultrapassam os limites de uma “pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”. Neste sentido, a Igreja precisa agir com firmeza e rapidez, reforçando seu compromisso com a Missão Continental.

 

3.2. Igreja: casa da iniciação à vida cristã

 “Paulo e Silas anunciaram a Palavra do Senhor  ao carcereiro e a todos os da sua casa. E, imediatamente, foi batizado,  junto com todos os seus familiares” (At 16,32s)

  1. O estado permanente de missão implica uma efetiva iniciação à vida cristã. Cada tempo e lugar têm um modo característico para apresentar Jesus Cristo e suscitar nos corações o seguimento apaixonado à sua pessoa, que a todos convida para com Ele vincular-se intimamente. “A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor despertam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo do coração do discípulo”. A mudança de época exige que o anúncio de Jesus Cristo não seja mais pressuposto, porém explicitado continuamente.
  2. É preciso ajudar as pessoas a conhecer Jesus Cristo, fascinar-se por Ele e optar por segui-lo. “Anunciar Cristo significa mostrar que crer nele e segui-lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das provações”.
  3. A Conferência de Aparecida, ao elevar a iniciação à vida cristã à categoria de urgência, recorda que ela, não se esgota na preparação aos sacramentos do Batismo, Confirmação e Eucaristia, mas se refere, principalmente, à adesão a Jesus Cristo. Trata-se de uma Catequese de inspiração catecumenal. A adesão que tal processo de inspiração catecumenal promove deve ser feita pela 1ª vez, mas refeita, fortalecida e ratificada tantas vezes quantas o cotidiano exigir. Nossas comunidades precisam ser mistagógicas, lugar por excelência da Catequese preparadas para favorecer que o encontro com Jesus Cristo se faça e se refaça permanentemente.
  4. A Catequese de inspiração catecumenal a serviço da Iniciação à Vida Cristã fundamenta-se na centralidade do querigma ou primeiro anúncio na missão da Igreja. “Primeiro” significa que “é o principal”, que sempre se tem de voltar a anunciar e a ouvir de diversas maneiras. Este 1º anúncio desencadeia “um caminho de formação e de amadurecimento” que é o catecumenato, propriamente dito, um tempo de acompanhamento em vista da iluminação da vida a partir da cristã. “Para se chegar a um estado de maturidade, é preciso dar tempo ao tempo, com uma paciência imensa”.
  5. A Catequese de inspiração catecumenal traz consigo importantes consequências para a ação evangelizadora. Requer uma série de atitudes: acolhida, diálogo, partilha, escuta da Palavra de Deus e adesão à vida comunitária. Implica estruturas eclesiais apropriadas, nos mais diversos lugares e ambientes, sempre disponíveis a acolher, apresentar Jesus Cristo e dar as razões da nossa esperança (1Pd 3,15). Pressupõe, por fim, um perfil de catequista / evangelizador, ponte entre o coração que busca descobrir ou redescobrir Jesus Cristo e Seu seguimento na comunidade de irmãos, em atitudes coerentes e na missão de colaborar na edificação do Reino de Deus.
  6. Esta perspectiva de crescimento destaca o lugar que a liturgia, celebrada na comunidade dos fiéis, ocupa na ação missionária da Igreja e no seguimento de Jesus Cristo. Sendo intimamente unida ao conteúdo do anúncio (lex orandi, lex credendi), ela “é o ápice para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força”. Por isso, “nenhuma atividade pastoral pode se realizar sem referencia à liturgia”. Enfim, ela, fonte de verdadeira alegria (At 2,46), tem um papel fundamental na missão evangelizadora da Igreja, na consolidação da comunidade cristã, e na formação dos discípulos missionários.

 

3.3. Igreja: lugar de animação bíblica,

       da vida e da pastoral

 “Toda Escritura é inspirada por Deus  e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça” (2Tm 3,16).

  1. Iniciação à vida cristã e Palavra de Deus estão intimamente ligadas. Uma não pode acontecer sem a outra. “Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo”. Este é um tempo muito rico para que cada pessoa seja iniciada na contemplação da vida, à luz da Palavra e no empenho para que ela seja efetivamente colocada em prática (Tg 1,22-25).
  2. Deus se dá a conhecer no diálogo que estabelece conosco. “Quem conhece a Palavra divina conhece plenamente também o significado de cada criatura”. “A Palavra divina, pronunciada no tempo, deu-Se e entregou-Se à Igreja definitivamente para que o anúncio da salvação possa ser eficazmente comunicado em todos os tempos e lugares. […] Disto conclui-se como é importante que o Povo de Deus seja educado e formado claramente para se abeirar das Sagradas Escrituras na sua relação com a Tradição viva da Igreja, reconhecendo nelas a própria Palavra de Deus”.
  3. O discípulo missionário é convidado a redescobrir o contato pessoal e comunitário com a Palavra de Deus como lugar privilegiado de encontro com Jesus Cristo. “Na alvorada do terceiro milênio, não só existem muitos povos que ainda não conheceram a Boa Nova, mas há também muitos cristãos que têm necessidade que lhes seja anunciada novamente, de modo persuasivo, a Palavra de Deus, para poderem assim experimentar concretamente a força do Evangelho”. A Igreja hoje tem consciência de que “particularmente as novas gerações têm necessidade de ser introduzidas na Palavra de Deus através do encontro e do testemunho autêntico do adulto, da influência positiva dos amigos e da grande companhia que é a comunidade eclesial”.
  4. O atual excesso de informações exige formação adequada que auxilie na síntese, no discernimento e nas escolhas. O desafio para todos os que aceitam Jesus como caminho é escutar a voz de Cristo em meio a tantas outras vozes. O discípulo missionário, bombardeado a todo o momento por questões que lhe desafiam a , a ética e a esperança, precisa estar de tal modo familiarizado com a Palavra de Deus e com o Deus da Palavra que, mesmo pressionado, mas não abalado (At 2,25; 2Cor 4,8-9), continue solidamente firmado em Cristo Jesus e, por seu testemunho, interpele os corações que o questionam (At 16,16-34). Infelizmente, também podemos constatar que a Bíblia, algumas vezes, não é compreendida como luz para a vida. Ao contrário, é instrumentalizada até mesmo para engodo.
  5. A Palavra de Deus dirige-se a todos, indistintamente: crianças, jovens, adultos, idosos, e em todas as situações e contextos em que se encontrem. Ouvida e celebrada na comunhão com os irmãos, a Palavra de Deus gera solidariedade, justiça, reconciliação, paz e defesa de toda a criação. O discípulo missionário haverá de reconhecer e testemunhar que a Palavra é de Deus e como tal deve ser acolhida e praticada. Não é o discípulo missionário quem indica à Palavra o que ela deve dizer. Antes, ele mesmo é um ouvinte assíduo da Palavra (Is 50,5; Tg 1,25). O discípulo missionário a acolhe na gratuidade e na alteridade, deixando-se apaixonadamente interpelar.
  6. O discípulo missionário acolhe e vive a Palavra de Deus em comunhão com a Igreja. Ao escutar atentamente a Palavra, sabe que não o faz isoladamente, mas na comunhão com esta mesma Palavra e com todos que também a acolhem, como dom na Igreja e com toda a Igreja. Assim, a Palavra é saboreada sobretudo na eclesialidade.
  7. A Palavra de Deus é luz para a vida (Sl 119,105). Quanto bem tem feito, pelo Brasil afora, nas mais diversas realidades, a leitura da vida à luz da Palavra. Quantas comunidades se nutrem dominicalmente da Palavra de Deus, experimentando a força deste alimento salutar. Quanta riqueza evangelizadora acontece nos Círculos Bíblicos, nos Grupos de Reflexão, nos Grupos de Quadra e outros similares.
  8. A animação bíblica de toda a pastoral, indo além de uma pastoral bíblica especializada, é um caminho de conhecimento e interpretação da Palavra, um caminho de comunhão e oração com a Palavra e um caminho de evangelização e proclamação da Palavra. O contato interpretativo, orante e vivencial com a Palavra de Deus não forma, necessariamente, doutores; forma santos.

 

3.4. Igreja: comunidade de comunidades

“Sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, uma nação santa, um povo adquirido para Deus”(1Pd 2,9).

  1. O discípulo missionário de Jesus Cristo, necessariamente, vive sua em comunidade (1Pd 2,9-10)103, em “íntima união ou comunhão das pessoas entre si e delas com Deus Trindade”. Sem vida em comunidade, não há como efetivamente viver a proposta cristã. Comunidade implica convívio, vínculos profundos, afetividade, interesses comuns, estabilidade e solidariedade nos sonhos, nas alegrias e nas dores. A comunidade eclesial acolhe, forma e transforma, envia em missão, restaura, celebra, adverte e sustenta. Ao mesmo tempo em que hoje se constata uma forte tendência ao individualismo, percebe-se igualmente a busca por vida comunitária. Esta busca nos recorda como é importante a vida em fraternidade. Mostra também que o Espírito Santo acompanha a humanidade suscitando, em meio às transformações da história, a sede por união e solidariedade.
  2. As paróquias têm importante papel na vivência da . Para a maioria das pessoas a relação com a Igreja se dá através das paróquias. Em vista da conversão pastoral que a missão hoje exige, elas precisam tornar-se cada vez mais comunidades vivas e dinâmicas, capazes de propiciar a seus membros uma real experiência “de discípulos e missionários de Jesus Cristo, em comunhão”. Assim haverão de se tornar mais próximas das pessoas sendo âmbitos de viva comunhão, participação e missão.
  3. A busca sincera por Jesus Cristo faz surgir a correspondente busca por diversas formas de vida comunitária. Alimentadas pelo pão da Palavra e da Eucaristia, articuladas entre si, na partilha da e na missão, estas comunidades se unem, dando lugar a verdadeiras comunidades de comunidades. Entre elas, encontram-se as Comunidades Eclesiais de e “outras formas válidas de pequenas comunidades”, cada uma vivendo seu carisma, assumindo a missão evangelizadora de acordo com a realidade local e se articulando de modo a testemunhar a comunhão na pluralidade.
  4. Além das comunidades territorialmente estabelecidas, deparamo-nos com comunidades transterritoriais, ambientais e afetivas. Estes fatos abrem o coração do discípulo missionário a novos horizontes de concretização comunitária.
  5. Dentre os desafios dois se destacam. O 1º diz respeito aos ambientes marcados por aguda urbanização, para os quais vizinhança geográfica não significa necessariamente convívio, afinidade e solidariedade. O 2º se refere aos ambientes virtuais, onde a rapidez da comunicação e a superação das distâncias geográficas tornam-se grandes atrativos, especialmente aos jovens. É necessária a consciência de que, na ação evangelizadora, estes desafios devem ser seriamente considerados e que nada substitui o contato pessoal.
  6. Em todas estas situações, contradiz profundamente a dinâmica do Reino de Deus e de uma Igreja em estado permanente de missão, a existência de comunidades fechadas em torno de si mesmas, sem relacionamento intraeclesial, com a sociedade em geral, com as culturas, com os demais irmãos que creem em Jesus Cristo e com as outras religiões.
  7. A experiência comunitária, quando efetivamente vivida à luz da Boa-Nova do Reino de Deus, conduz ao empenho para que a fraternidade e a união sejam assumidas em todas as instâncias da vida. Para isso, no interior da comunidade eclesial, o diálogo é o caminho permanente para a boa convivência e o aprofundamento da comunhão. A variedade de vocações, carismas, espiritualidades e movimentos é uma riqueza e não motivo para competição, rejeição ou discriminação. Grande é o desafio da educação para a vivência da unidade na diversidade, fundada na consagração batismal e no princípio de que todos são irmãos e iguais em dignidade (Gl 3,27-29). Quanto maior for a comunhão, tanto mais autêntico e eficaz será o testemunho da comunidade.

 

3.5. Igreja a serviço da vida plena para todos

 “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10)

  1. A vida é dom de Deus! “O Evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus”. É missão dos discípulos o serviço à vida plena. Por isso, a Igreja no Brasil proclama com vigor que “as condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e dor, contradizem o projeto do Pai e desafiam os discípulos missionários ao maior compromisso a favor da cultura da vida”.
  2. Ao mergulhar nas profundezas da existência humana, o discípulo missionário abrindo seu coração em louvor, por todas as criaturas, angustia-se diante de todas as formas de vida ameaçada, desde o seu início, em todas as suas etapas, até a morte natural. Na medida em que nenhuma vida existe apenas para si, mas para os outros e para Deus, este é tempo mais do que propício para a articulação e a integração de todas as formas de paixão pela vida. Só assim conseguiremos, de fato, vencer a cultura de morte.
  3. Através da promoção da cultura da vida os discípulos missionários de Jesus Cristo testemunham verdadeiramente sua naquele que veio dar a vida em resgate de todos, comprometendo-se de modo especial com os pobres e, em vista da construção de uma sociedade justa e fraterna.
  4. Contemplando os diversos rostos de sofredores, especialmente os resíduos e “sobras” o discípulo missionário enxerga, em cada um, o rosto de seu Senhor: chagado, destroçado, flagelado (Is 52,13ss). Seu amor por Jesus Cristo e Cristo Crucificado (1Cor 1,23-25) leva-o a buscar o Mestre em meio às situações de morte (Mt 25,31-46). Leva-o a não aceitá-las, sejam elas quais forem, envolvendo-se na preservação da vida. O discípulo missionário não se cala diante da vida impedida de nascer, seja por decisão individual, seja pela legalização e despenalização do aborto. Não se cala igualmente diante da vida sem alimentação, casa, terra, trabalho, educação, saúde, lazer, liberdade, esperança e . Torna-se, deste modo, alguém que sonha e se compromete com um mundo onde seja, efetivamente, reconhecido o direito a nascer, crescer, constituir família, seguir a vocação, envelhecer e morrer naturalmente, crer e manifestar sua .
  5. “Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que poderia mesmo deixar para outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável de sua própria essência”. Daí “ratificar e potencializar a opção preferencial pelos pobres”, “implícita à Cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza” e que deverá “atravessar todas as suas estruturas e prioridades pastorais” manifestando-se “em opções e gestos concretos”. Devemos evitar “a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente de entrar em contato com a vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura”.
  6. Consciente de que precisa contribuir para superar a miséria e a exclusão, o discípulo missionário também sabe que não pode restringir sua solidariedade ao gesto imediato da doação caritativa. Embora importante e mesmo indispensável, a doação imediata do necessário à sobrevivência não abrange a totalidade da opção pelos pobres. Antes de tudo, esta implica convívio, convívio, relacionamento fraterno, atenção, escuta, acompanhamento nas dificuldades, buscando, a partir dos próprios pobres, a mudança de sua situação e a transformação social. Os pobres e excluídos são sujeitos da evangelização e da promoção humana integral. Eles estão no centro da vida da Igreja.
  7. Em tudo isso, a Igreja reconhece a importância da atuação no mundo da política e incentiva os leigos e leigas, especialmente os jovens, à participação ativa e efetiva nos diversos setores voltados para a construção de um mundo mais justo, fraterno e solidário. Daí, a urgência na formação e apoio aos cristãos leigos e leigas para que atuem nos movimentos sociais, conselhos de políticas públicas, associações de moradores, sindicatos, partidos políticos e outras entidades, sempre iluminados pelo Ensino Social da Igreja. Tão desacreditada em nossos dias, a política, no entanto, “é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”.
  8. Frente aos efeitos das mudanças climáticas na vida das famílias, comunidades e regiões, é preciso avançar na consciência ecológica. “Nós, os seres humanos, não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras criaturas”. “A criação não é uma propriedade, que podemos manipular a nosso bel-prazer; nem muito menos uma propriedade que pertence só a alguns, a poucos: a criação é um dom, uma dádiva maravilhosa que Deus nos concedeu, para a cuidarmos e utilizarmos em benefício de todos, sempre com grande respeito e gratidão”. “A Igreja tem uma responsabilidade a respeito da criação e deve fazer valer essa responsabilidade na esfera pública”.
  9. O serviço testemunhal à vida, de modo especial, à vida fragilizada e ameaçada, é a mais forte atitude de diálogo que o discípulo missionário pode e deve estabelecer com uma realidade que sente a negação da primazia do ser humano e o peso da cultura da morte. Na Igreja samaritana, o discípulo missionário vive o anúncio de um mundo diferente que, acima de tudo, por amar a vida, convoca à comunhão efetiva entre todos os seres vivos.

 

CAPÍTULO IV

PERSPECTIVAS DE AÇÃO

  1. Em nosso imenso Brasil, cada Igreja Particular responda às urgências na ação evangelizadora de acordo com as suas peculiaridades regionais. Além de características comuns da realidade brasileira em suas diferentes regiões, a fidelidade ao Evangelho no hoje de nosso tempo e o caráter indispensável do testemunho de unidade exigem uma ação orgânica em torno a alguns referenciais comuns.
  2. Estas perspectivas de ação querem contribuir, por um lado, com uma Igreja “comunhão e participação”, despertando a criatividade e fornecendo subsídios às diversas iniciativas da ação evangelizadora. Por outro, quer promover, nas Igrejas Particulares e entre elas, uma pastoral orgânica e de conjunto mais eficaz, pois a Igreja é “Igreja de Igrejas”. Trata-se de linhas e formas de ação, de critérios, que precisarão ser concretizadas nos processos de ação pastoral em cada Igreja Particular, segundo as condições e necessidades dos respectivos contextos.
  3. A proposta destas perspectivas de ação se situa no contexto de celebração dos 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II. Ele representa um acontecimento eclesial que marcou fortemente a caminhada da Igreja, promovendo a atualização de métodos e de linguagem, verdadeiro Pentecostes do século XX.

 

4.1. Igreja em estado permanente de missão

  1. A experiência de faz transbordar o anúncio explícito de Jesus Cristo para além da comunidade cristã, nos ambientes onde os mensageiros se fazem presentes como Jesus, cheio de graça e de verdade. A Igreja oferece a todos o Evangelho de Jesus Cristo, assumindo com renovado ardor missionário e criatividade uma nova evangelização:
  2. a) aos fiéis que frequentam regularmente a comunidade e aos que, embora não tenham frequência regular, conservam uma católica intensa e sincera. A estes, a Igreja acompanha com a pastoral ordinária, que visa o crescimento na e o consequente compromisso cristão no mundo;
  3. b) às pessoas batizadas que já não vivem as exigências do batismo, a Igreja oferece oportunidade de conversão, que os pode levar a reencontrar a alegria da , o compromisso com o Evangelho e a vivência comunitária;
  4. c) aos que não conhecem Jesus Cristo ou que o recusam, os cristãos têm o dever de lhes anunciar o Evangelho, como partilha de uma alegria que confere à vida um horizonte de significado e realização, especialmente através do testemunho de vida.
  5. Cabe a cada comunidade eclesial perguntar quais são os grupos humanos ou as categorias sociais que merecem atenção especial e lhes dar prioridade no trabalho de evangelização. Entre esses grupos estão: pessoas vivendo na periferia de nossas cidades, indígenas e afrodescendentes, intelectuais, artistas, políticos, formadores de opinião, esportistas, trabalhadores com grande mobilidade, nômades, pessoas com deficiência etc. Importa ir ao encontro deles, não apenas nas famílias e nas residências, nas periferias existenciais, mas também em todos os ambientes.
  6. A juventude merece atenção especial. Uma Igreja sem jovens é uma Igreja sem futuro. A CNBB motiva e norteia os projetos de evangelização da juventude. A crescente participação do Brasil nas Jornadas Mundiais da Juventude, e especialmente os frutos da Jornada realizada no Rio de Janeiro têm mostrado, ao lado dos outros projetos pastorais, a força evangelizadora dos jovens e sua significativa predisposição para as iniciativas missionárias e serviços voluntários. O atual projeto “300 anos de bênçãos: com a Mãe Aparecida – Juventude em Missão” vem reforçar a dimensão missionária na formação dos jovens.
  7. As missões populares, em suas diversas modalidades, respondendo ao apelo da Missão Continental, têm se mostrado um caminho eficaz de evangelização. Também as visitas sistemáticas nos locais de trabalho, nas moradias de estudantes, nas favelas e nos cortiços, nos alojamentos de trabalhadores, nas instituições de saúde, nos assentamentos, nas prisões, nos albergues e junto aos moradores de rua, entre outros, são testemunho de uma “Igreja em saída”, que se sente interpelada a buscar maior organicidade e eficácia neste serviço.
  8. Uma “Igreja em estado permanente de missão” nos leva a assumir a missão ad gentes, dando “de nossa pobreza”, em outras regiões e além fronteiras. Uma Igreja Particular não pode esperar atingir a plena maturidade eclesial para, só então, começar a se preocupar com a missão para além de seu território. Através dos Conselhos Missionários é chamada a articular e animar as iniciativas de missão em seu território, com abertura à missão além fronteiras. A maturidade eclesial é consequência e não apenas condição de abertura missionária.
  9. Na missão, o discípulo se depara com o desafio do ecumenismo, a buscar cordialmente a unidade com os irmãos e irmãs que creem em Jesus Cristo. O escândalo da divisão entre os cristãos nos desafia exigindo respostas para a sua superação. “Não bastam as manifestações de bons sentimentos. São necessários gestos concretos que penetrem nos espíritos e sacudam as consciências, impulsionando cada um à conversão interior, que é o fundamento de todo progresso no caminho do ecumenismo”. Sobretudo, Cada Igreja Particular está desafiada a dar passos mais consistentes no campo do ecumenismo.
  10. Outro desafio é o diálogo inter-religioso, o encontro fraterno e respeitoso com os seguidores de religiões não cristãs e com todas as pessoas empenhadas na busca da justiça e na construção da fraternidade universal. Especial atenção merece o diálogo com os judeus e os muçulmanos, irmãos de no Deus Uno; com as expressões religiosas afrodescendentes e indígenas, assim como com os ateus. Tal como o ecumenismo, o diálogo inter-religioso precisa integrar a vida e a ação de nossas comunidades eclesiais. 81. O diálogo e a cultura do encontro tornam-se atitudes necessárias e urgentes diante de manifestações, às vezes violentas, de intolerância em relação a outras expressões de e cultos religiosos. As nossas comunidades, a exemplo de Jesus que soube acolher e atender pessoas de outras tradições religiosas e dialogar com elas e de Paulo, chamado a evangelizar os gentios, se tornem sensíveis à diversidade religiosa do povo brasileiro e lugar de encontro para uma convivência fraterna com todos.
  11. Faz-se necessário estimular, sempre mais, com oportunas iniciativas, a partilha e a comunhão dos recursos da Igreja no Brasil, desenvolvendo e ampliando o projeto “Igrejas irmãs” nas Igrejas Particulares, nos regionais e em âmbito nacional, levando em conta a situação de grave necessidade de pessoal e de recursos financeiros nas regiões mais carentes do país. Neste sentido, merece especial apoio o projeto “Comunhão e Partilha”, em favor das Igrejas com maior carência de recursos econômicos, promovido pela CNBB. A região amazônica merece especial atenção e renovado empenho missionário.

 

4.2. Igreja: casa da iniciação à vida cristã

  1. É necessário desenvolver, em nossas comunidades, um processo de iniciação à vida cristã, que conduza ao “encontro pessoal com Jesus Cristo”, no cultivo da amizade com Ele pela oração, no apreço pela litúrgica, na experiência comunitária e no compromisso apostólico, mediante um permanente serviço ao próximo.
  2. A Catequese de inspiração catecumenal adquire grande importância. Trata-se não de uma Catequese ocasional, como preparação para receber algum sacramento, mas continuada. Isso implica melhor formação dos responsáveis e um itinerário catequético permanente, assumido pela Igreja Particular, com a ajuda da Conferência Episcopal, que não se limite a uma formação doutrinal, mas integral. A Catequese de inspiração bíblica, mistagógica e litúrgica é condição fundamental para a iniciação cristã de crianças, bem como de adolescentes, jovens e adultos que não foram suficientemente orientados na e nas obras inspiradas pela .
  3. A inspiração catecumenal implica em uma estreita relação entre bíblia e Catequese. De fato, “a Catequese há de haurir sempre o seu conteúdo na fonte viva da Palavra de Deus, transmitida na Tradição e na Escritura, porque a ‘Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito inviolável da Palavra de Deus”. Ao mesmo tempo, a Catequese fornece uma adequada formação bíblica dos cristãos.
  4. Essa mesma inspiração implica, também, uma estreita relação entre a Catequese e a liturgia. Ela assume o caráter de eco do mistério experimentado e vivenciado na liturgia e se abre para a missão: “a formação catequética ilumina e fortifica a , nutre a vida segundo o espírito de Cristo, leva a uma participação consciente e ativa no mistério litúrgico e desperta para a atividade apostólica”. Por sua vez, a celebração litúrgica, ao mesmo tempo que é atualização do mistério da salvação, requer, necessariamente, uma iniciação aos mistérios da . Neste contexto, sobressai a formação litúrgica, em todos os níveis da vida eclesial, num processo mistagógico, integrando na ação ritual o sentido teológico e litúrgico nela expresso. Nessa perspectiva, compreende-se que a melhor Catequese litúrgica é a liturgia bem celebrada.
  5. A pastoral da liturgia deve conjugar os esforços e as iniciativas necessárias para animar a vida litúrgica de uma comunidade, paróquia, diocese, levando em conta sua realidade histórica, cultural, eclesial, de modo que os cristãos possam tomar parte das celebrações de forma ativa, consciente e plena, e colher dela os frutos espirituais. Isto supõe:
  6. a) formar permanentemente a assembleia litúrgica, dedicando especial atenção aos ministros ordenados e às equipes de celebração;
  7. b) preparar as celebrações, respeitando-se as partes que compõem o rito;
  8. c) realizar com dignidade e competência as ações celebrativas; d) avaliar a preparação e a realização em busca do crescimento na qualidade das celebrações.
  9. As muitas manifestações da piedade popular católica precisam ser valorizadas e estimuladas e, onde for necessário, purificadas. Tais práticas têm grande significado para a preservação e a transmissão da e para a iniciação à vida cristã, bem como para a promoção da cultura. “As expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção particularmente na hora de pensar a nova evangelização”.
  10. O processo de iniciação à vida cristã requer grande atenção às pessoas, com atendimento personalizado. Trata-se de estabelecer um diálogo interpessoal, de reflexão sobre a experiência de vida e de seu verdadeiro sentido. É importante valorizar a experiência de vida de cada pessoa, ajudando-a a reconhecer a própria busca de Deus e a abrir-se à Sua presença e ação salvadora. É sempre necessário recordar que a pedagogia evangélica consiste na persuasão do interlocutor pelo testemunho de vida e por uma argumentação sincera e rigorosa, que estimula a busca da verdade.
  11. A comunidade eclesial é o lugar da iniciação à vida cristã e da educação na das crianças, adolescentes e jovens, como também dos adultos batizados e não suficientemente evangelizados. Junto com a comunidade eclesial, a família tem papel indispensável nesta iniciação.
  12. A formação dos discípulos missionários precisa articular e vida e integrar cinco aspectos fundamentais: o encontro com Jesus Cristo; a conversão; o discipulado; a comunhão; a missão. O processo formativo se constitui no alimento da vida cristã e precisa estar voltado para a missão, que se concretiza no anúncio explícito de Jesus Cristo, vida plena, para todos, em especial para os pobres. A formação não se reduz a cursos. Ela integra a vivência comunitária, a participação em celebrações e encontros, a interação com os meios de comunicação, a inserção nas diferentes atividades pastorais e espaços de capacitação, movimentos e associações.
  13. A formação dos leigos e leigas precisa ser uma das prioridades da Igreja Particular; é “um direito e dever para todos”. Ela se torna mais efetiva e frutuosa quando integrada em um projeto orgânico de formação, que contemple a formação básica de todos os membros da comunidade e a formação específica e especializada, sobretudo para aqueles que atuam na sociedade, onde se apresenta o desafio de dar “testemunho de Cristo e dos valores do Reino”.

 

4.3. Igreja: lugar de animação bíblica

      da vida e da pastoral

  1. A Igreja no Brasil deseja incrementar a animação bíblica da vida e da pastoral, com o envolvimento de toda a comunidade, pessoas, pastorais, movimentos, associações e serviço. A animação bíblica é indispensável para que a vida da Igreja seja, ainda mais, uma “escola de interpretação ou conhecimento da Palavra, escola de comunhão e oração com a Palavra e escola de evangelização e proclamação da Palavra”. Seus principais objetivos são: propiciar meios de aproximação das pessoas à Palavra de Deus, para conhecê-la e interpretá-la corretamente; entrar em comunhão e com a Palavra de Deus por meio da oração; evangelizar e proclamá-la como fonte de vida em abundância para todos.
  2. A Igreja, casa da Palavra, valoriza a liturgia como âmbito privilegiado onde Deus fala à comunidade. Nela Deus fala e o povo escuta e responde. Cada ação litúrgica está, por sua natureza, impregnada da Escritura Sagrada.
  3. Especial atenção merece a homilia que atualiza a mensagem da Bíblia de tal modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e a eficácia da Palavra de Deus, no momento atual de sua vida. Ela pode ser “uma experiência intensa e feliz do Espírito, um consolador encontro com a Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento”.
  4. Em todos os níveis da ação evangelizadora, sejam criadas e fortalecidas equipes de animação bíblica da pastoral. Essas equipes impulsionam a responsabilidade de todos batizados com relação à Palavra de Deus. Entre as atividades que se propõem sobressaem, em particular, aquelas que reúnem grupos de famílias, círculos bíblicos e pequenas comunidades em torno à meditação e vivência da Palavra, em estreita relação com seu contexto social, e os cursos e escolas bíblicas, voltados, sobretudo, para leigos (as).
  5. Deparamo-nos com a necessidade de possuir a Bíblia. Nesse sentido, devem ser estimuladas iniciativas que permitam colocá-la nas mãos de todos, especialmente dos mais pobres. No entanto, não basta possuí-la. É necessário ajudar a ler e interpretar corretamente a Escritura, “chegar à interpretação adequada dos textos bíblicos e empregá-los como mediação de diálogo com Jesus Cristo”. O encontro com a Palavra viva exige a experiência de . Para isso, o católico precisa ser devidamente capacitado tanto no conteúdo bíblico quanto na pedagogia para iniciar e manter contato permanente com a Escritura.
  6. Merece destaque a leitura orante, que favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo, o Verbo de Deus. Seja, portanto, incentivada e reforçada, conforme as orientações da Igreja, de modo que proporcione comunhão com o Senhor e ilumine a realidade vivida pelos participantes, animando-os e despertando-os para o compromisso evangélico a serviço do Reino de Deus. Esta perspectiva deve orientar também a formação inicial e permanente dos ministros ordenados.
  7. Considerando que a Bíblia encerra “valores antropológicos e filosóficos que influíram positivamente sobre toda a humanidade”, é importante favorecer o seu conhecimento “entre os agentes culturais, mesmo nos ambientes secularizados e entre os não crentes”, assim como nas escolas e universidades, sobretudo através da educação religiosa. Também se pode “estimular manifestações artísticas inspiradas na Sagrada Escritura, nas artes figurativas e na arquitetura, na literatura e na música”, acompanhadas de uma “sólida formação dos artistas”.
  8. Importa utilizar o espaço “dos novos meios de comunicação social, especialmente a internet com inúmeras redes sociais, que constituem um novo fórum onde fazer ressoar o Evangelho”, cuidando para que o mundo virtual jamais substitua o mundo real, pois “o encontro pessoal permanece insubstituível”.
  9. Investir na animação bíblica da vida e da pastoral, em agentes e equipes, leva à instituição e à formação continuada dos ministros e ministras da Palavra. Implica a “necessidade de cuidar, com uma adequada formação, do exercício do múnus de leitor na celebração litúrgica e de modo particular o ministério do leitorado, […] com capacitação não apenas bíblica e litúrgica, mas também técnica”.

 

4.4. Igreja: comunidade de comunidades

  1. A Igreja no Brasil se compromete em acelerar ainda mais o processo de animação e fortalecimento de comunidades, que buscam intensificar a vida cristã por meio de autêntico compromisso eclesial. Em vista disto, a CNBB publicou o documento “Comunidade de comunidades: uma nova paróquia – a conversão pastoral da paróquia” (Doc. 100). Importa muito investir na descentralização das paróquias, seja iniciando experiências significativas, seja reconhecendo, no dia a dia das comunidades, o que já existe, atentos ao que afirma o Documento de Aparecida: ninguém pode se isentar de dar estes passos.
  2. Entre as formas de renovação da paróquia está a urgência de sua setorização em unidades menores, com equipes próprias de animação e de coordenação, para favorecer a maior proximidade com as pessoas e grupos da e o nascimento de comunidades, pois valoriza os vínculos humanos e sociais. Assim, a Igreja se faz presente nas diversas realidades, vai ao encontro dos afastados, promove novas lideranças e a iniciação à vida cristã acontece no ambiente em que as pessoas vivem.
  3. As comunidades eclesiais de base, as CEBs, alimentadas pela Palavra, pela fraternidade, pela oração e pela Eucaristia, são sinal de vitalidade da Igreja. São também presença eclesial junto aos pobres, partilhando as suas alegrias e angústias e se comprometendo na construção de uma sociedade justa e solidária. Também elas se deparam com os desafios da mudança de época e se veem desafiadas a não esmorecer, mas a discernir, na comunhão da Igreja, caminhos para enfrentar os desafios oriundos de um mundo plural, globalizado, urbanizado e individualista.
  4. As diversas formas válidas de pequenas comunidades, de movimentos, de associações, de grupos de vida, de oração e de reflexão da Palavra de Deus “são uma riqueza da Igreja que o Espírito suscita para evangelizar todos os ambientes e setores”. Eles possibilitam a experiência da gratuidade dos relacionamentos e do compromisso missionário. Todos são convocados a se comprometerem com a paróquia local, a assumirem os planos pastorais de cada Igreja Particular, e, com elas, se unirem em torno das Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.
  5. A pastoral vocacional se torna prioritária neste novo momento da história da evangelização, colaborando para suscitar e acompanhar vocações para o serviço da comunidade e para a atuação protico-transformadora na sociedade. Destaca-se em seu trabalho o cuidado com as vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada e com a constante adequação da formação diaconal e presbiteral, inicial e permanente. Trata-se de suscitar e desenvolver uma verdadeira cultura vocacional nas comunidades, especialmente entre os adolescentes e jovens.
  6. Para uma Igreja comunidade de comunidades, é imprescindível o empenho por uma efetiva participação de todos nos destinos da comunidade, pela diversidade de carismas, serviços e ministérios. Para isso, faz-se necessário promover:
  7. a) a diversidade ministerial, na qual todos, trabalhando em comunhão, manifestam a única Igreja de Cristo, sejam eles leigos, leigas, ministros ordenados, consagrados e consagradas. Urge aos pastores “abrir espaços de participação aos leigos e a confiar-lhes ministérios e responsabilidades, para que todos na Igreja vivam de maneira responsável seu compromisso cristão”. Entre as vocações laicais, é preciso valorizar especialmente as que brotam do matrimônio, como a de ser esposo e esposa, mãe, pai, filho e irmão. Não perder de vista, igualmente, que a missão fundamental de leigos e leigas é a presença e o testemunho na sociedade, especialmente nos ambientes de trabalho e em associações laicais;
  8. b) a união dos presbíteros, diáconos, consagrados e leigos, sob a orientação do bispo diocesano, em torno das grandes metas evangelizadoras e dos projetos pastorais que as concretizam. Uma Igreja com diversas formas de ser comunidade deve ser igualmente uma Igreja que testemunha a comunhão de dons, serviços e ministérios;
  9. c) o carisma da vida consagrada, em suas dimensões apostólica e contemplativa, presente em fronteiras missionárias; inserida junto aos pobres; atuante no mundo da educação, da saúde, da ação social; orante em mosteiros, comprometida a evangelizar por sua vida e missão;
  10. d) a formação e a atuação de assembleias, conselhos e comissões, tanto em âmbito pastoral como em âmbito econômico-administrativo. Os leigos, corresponsáveis com o ministério ordenado, atuando nessas assembleias, conselhos e comissões, tornam-se cada vez mais envolvidos na comunidade através do planejamento, execução e na avaliação de suas atividades. Estes organismos são instrumentos que levam à valorização dos diferentes serviços pastorais e podem ser um meio para evidenciar a necessidade de todos os membros da comunidade eclesial tornaram-se sujeitos corresponsáveis na ação evangelizadora;
  11. e) a articulação das ações evangelizadoras, através da pastoral orgânica e de conjunto, para evitar o contratestemunho da divisão e a competição entre grupos. A articulação da diversidade de carismas e iniciativas de evangelização contribui para efetivar a unidade eclesial. Instrumento privilegiado de uma pastoral orgânica e de conjunto é o planejamento, com a participação de todos os membros da comunidade eclesial na projeção da ação evangelizadora, tanto no processo de discernimento, como na tomada de decisão e avaliação.
  12. A efetivação de uma Igreja comunidade de comunidades com espírito missionário, manifesta-se também na bela experiência das paróquias-irmãs, dentro e fora da diocese, análoga ao mencionado projeto Igrejas-irmãs. A exemplo das primeiras comunidades, é importante estimular a experiência da partilha, principalmente através do dízimo. A constituição de um fundo diocesano de comunhão e partilha, expressão da comunhão eclesial da Igreja particular e da solidariedade entre suas comunidades, garante que a nenhuma comunidade falte o necessário.

 

4.5. Igreja a serviço da vida plena para todos

  1. A Igreja, através de uma pastoral social estruturada, orgânica e integral, tem a vocação e missão de promover, cuidar e defender a vida em todas as suas expressões. Ao fazer isso, testemunha que “o querigma possui um conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros. O conteúdo do primeiro anúncio tem uma repercussão moral imediata, cujo centro é a caridade”.
  2. O serviço à vida começa pelo respeito à dignidade da pessoa humana, através de iniciativas como:
  3. a) defender e promover a dignidade da vida humana em todas as etapas da existência, desde a fecundação até a morte natural;
  4. b) tratar o ser humano como fim e não como meio, respeitando-o em tudo que lhe é próprio: corpo, espírito e liberdade;
  5. c) tratar todo ser humano sem preconceito nem discriminação, acolhendo, perdoando, recuperando a vida e a liberdade de cada pessoa, tendo presentes as condições materiais e o contexto histórico, social, cultural em que cada pessoa vive. Neste sentido, destaca-se a importância da Campanha da Fraternidade, que está entre as ações eclesiais de maior impacto na sociedade.
  6. Um olhar especial merece a família, patrimônio da humanidade, lugar e escola de comunhão, primeiro espaço para a iniciação à vida cristã das crianças, no seio da qual, os pais são os primeiros catequistas. Tamanha é sua importância que precisa ser considerada “um dos eixos transversais de toda a ação evangelizadora”. Portanto, é preciso uma pastoral intensa, vigorosa e frutuosa, capaz de animar a vivência da santidade no matrimônio e na família, atendendo também as diversas situações familiares e reivindicando as condições socioeconômicas necessárias ao bem estar da pessoa, da família e da sociedade.
  7. É preciso intensificar o empenho na defesa da dignidade das mulheres, das pessoas com deficiência e dos idosos. A consciência da igualdade de seus direitos e sua plena inclusão na sociedade precisam ser promovidas. Para a Igreja, o apoio a essas causas é um eloquente testemunho de sua em Jesus Cristo e de seu compromisso com o Reino de Deus, por Ele anunciado e mostrado presente entre nós.
  8. Crianças, adolescentes e jovens precisam de maior atenção por parte de nossas comunidades eclesiais, pois são os mais expostos ao abandono, às drogas, à violência, à venda de armas, ao abuso sexual, ao tráfico humano, às várias forma de exploração do trabalho, bem como à falta de oportunidades e perspectivas de futuro. Em vista disso, é importante promover e apoiar a pastoral da sobriedade, a pastoral juvenil, a pastoral do menor, a pastoral da criança. Neste contexto, é preciso acompanhar com atenção a discussão sobre a criminalização de menores e manifestar com clareza a posição da Igreja a respeito. Também as pessoas idosas, expostas ao risco da exclusão, precisam ser valorizadas em sua experiência e sabedoria, reconhecidas em sua dignidade e protegidas em seus direitos.
  9. No âmbito da Economia, é necessário compartilhar as alegrias e preocupações dos trabalhadores e das trabalhadoras, por meio da presença evangélica, nos locais de trabalho, nos sindicatos, nas associações de classe e lazer. Através das diversas pastorais e movimentos ligados ao mundo do trabalho, urge lutar contra o desemprego e o subemprego, a precarização do trabalho e perda de direitos, criando ou apoiando alternativas de geração de renda, assim como a economia solidária, a agricultura familiar, a agroecologia, a reforma agrária, o consumo solidário, a segurança alimentar, as redes de trocas, o acesso ao crédito popular, o trabalho coletivo, a busca do desenvolvimento local sustentável e solidário.
  10. Atenção especial merecem os migrantes forçados pela busca de trabalho e moradia:
  11. a) os migrantes brasileiros no exterior, vivendo no meio de outras culturas e tradições, que precisam de amparo, apoio e assistência social e religiosa;
  12. b) os migrantes sazonais, que constituem mão de obra barata e superexplorada pelo agronegócio em variadas formas;
  13. c) as vítimas do tráfico de pessoas seduzidas por propostas de trabalho que levam à exploração também sexual;
  14. d) os trabalhadores explorados pelos métodos de terceirização, vítimas de atravessadores de mão de obra;
  15. e) os novos migrantes estrangeiros em busca de sobrevivência em nossa pátria, muitos se encontrando em situação de não cidadania e discriminação. É urgente o estabelecimento de estruturas nacionais e diocesanas destinadas não apenas a acompanhar os migrantes e refugiados, como também a se empenharem junto aos organismos da sociedade civil, para que os governos tenham uma política migratória que leve em conta os direitos das pessoas em mobilidade.
  16. No âmbito da cultura, cabe promover uma sociedade que respeite as diferenças, combatendo o preconceito e a discriminação nas mais diversas esferas, efetivando a convivência pacífica das várias etnias, culturas e expressões religiosas, o respeito às legítimas diferenças. Torna-se urgente trabalhar pela criação e aplicação de mecanismos legais para o combate a qualquer forma de discriminação, mas sempre vigilantes para evitar a afirmação exasperada de direitos individuais e subjetivos, bem como a ideologia do multiculturalismo relativista. A Igreja, como mãe misericordiosa, deve ser a primeira a se interessar pela defesa dos direitos humanos. Deve estar atenta, porém, às eventuais manipulações ou distorções prejudiciais à vida plena. A ética dos direitos humanos exige que se garanta a vida plena em todas as dimensões da pessoa e para todas as pessoas da sociedade.
  17. Neste particular, cabe apoiar as iniciativas em prol da inclusão social e o reconhecimento dos direitos das minorias, como os povos originários, indígenas, comunidades tradicionais, afrodescendentes, ciganos, pescadores, ribeirinhos, extrativistas, populações de rua e outros. Como Igreja “advogada da justiça e dos pobres”, cabe-nos denunciar toda prática de discriminação e de racismo em suas diferentes expressões e apoiarmos as reivindicações pela defesa, reconhecimento e demarcação de seus territórios, na afirmação de seus direitos, sua cidadania, seus projetos e de sua cultura. 118. Tarefa de grande importância é a formação de pensadores e pessoas que estejam em níveis de decisão, evangelizando, com especial atenção e empenho, os “novos areópagos”:
  18. a) um dos primeiros areópagos é o mundo universitário. Uma consistente pastoral universitária é necessária em todas as Igrejas Particulares. Quanto mais nos empenharmos em conscientizar e capacitar os leigos, a partir de sua própria profissão, para o diálogo e razão, estaremos animando a sua vocação no mundo e, consequentemente, auxiliando na melhoria da sociedade;
  19. b) outro urgente areópago é o mundo da comunicação. Tornam-se inadiáveis mais investimentos tecnológicos e qualificação de pessoal, para o uso adequado dos meios de comunicação; uma protica e abrangente pastoral da comunicação, garantindo a presença da Igreja no diálogo com a mentalidade e a cultura contemporâneas, à luz dos valores do Evangelho;
  20. c) o terceiro areópago liga-se à presença pastoral junto aos empresários, aos políticos, aos formadores de opinião no mundo do trabalho, dirigentes sindicais e líderes comunitários, disponibilizando e formando pessoas que se dediquem a ser presença significativa nestes meios.
  21. Cabe também incentivar a Pastoral da Cultura, viva e atuante, através de centros culturais católicos e de projetos que visem atingir os núcleos de criação e difusão cultural e a diversidade das culturas de cunho popular.
  22. Num contexto cultural cada dia mais marcado pelo ceticismo diante do conhecimento da verdade em si e impregnado por sinais evidentes de irracionalidade, também midiática, a evangelização assume o desafio de aproximar a e a razão, através do diálogo atento, atualizado e corajoso com as pessoas de hoje.
  23. Ressalte-se a importância do cuidado da vida no planeta, dilapidado tanto ética quanto ecologicamente, pelo uso ganancioso e irresponsável dos recursos naturais. Nestes tempos de crescente consciência ecológica, a Igreja no Brasil alerta que, assim como os filhos e filhas de Deus sofrem desrespeito e ameaças, o planeta inteiro se depara, como nunca, com o risco de degradação talvez irreversível. exploração inescrupulosa e consequente devastação da Amazônia exige da Igreja no Brasil maior responsabilidade por esta macrorregião. Requer-se dobrado e mais organizado esforço e presença protica, valorizando as culturas locais e estimulando uma evangelização inculturada. O papa insiste em uma Igreja com “rosto amazônico” e quer “a formação de um clero autóctone”.
  24. Importante campo de ação, hoje, é educar para a preservação da natureza e o cuidado com a ecologia humana, através de atitudes que respeitem a biodiversidade e de ações que zelem pelo meio-ambiente. Entre essas ações, destaca-se a preservação da água, patrimônio da humanidade, evitando sua privatização; do solo, combatendo o problema do lixo e da utilização de agrotóxicos; e do ar, especialmente atentos à questão da emissão de gases poluentes. O esforço por maior crescimento econômico deve ser orientado para o desenvolvimento sustentável.
  25. Promova-se cada vez mais a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, por meio de formação permanente e ações concretas. Com a crise da democracia representativa, cresce a importância da colaboração da Igreja no fortalecimento da sociedade civil, na luta contra a corrupção, bem como no serviço em prol da unidade e fraternidade dos povos, em especial na América Latina e Caribe.
  26. Como cidadãos cristãos, cabe generoso empenho para que as comunidades e demais instituições e organizações católicas colaborem ou ajam em parceria com outras instituições privadas ou públicas, com os movimentos populares e entidades da sociedade civil, em favor da implantação e da execução de políticas públicas voltadas para a defesa e a promoção da vida e do bem comum, segundo a Doutrina Social da Igreja. Incentive-se, para tanto, a participação, ativa e consciente, nos Conselhos de Direitos e o empenho generoso na busca de políticas públicas que ofereçam as condições necessárias ao bem-estar de pessoas, famílias e povos.
  27. A adesão ao Evangelho incentiva “todo o batizado a ser instrumento de pacificação e testemunha credível duma vida reconciliada”. A paz, fruto da justiça e do desenvolvimento integral de todos, pressupõe a participação em campanhas que busquem efetivar, com gestos concretos, a convivência pacífica, em meio a uma sociedade marcada por violência e banalização da vida.
  28. Urge uma presença mais efetiva da Igreja, especialmente através das pastorais sociais, nas periferias existenciais, em regiões suburbanas e em situações de fratura social, tais como as favelas, os cárceres, as remoções forçadas, os moradores de rua, as crianças, adolescentes e jovens em situações de risco, a realidade da drogadicção, a mulher marginalizada, e outras situações de sofrimento humano.
  29. O empenho da comunidade de pela promoção humana e pela justiça social exige amplo e decidido esforço para educar a comunidade eclesial no conhecimento e na aplicação da Doutrina Social da Igreja, como decorrência da cristã. A ética social cristã, contribuição da Igreja para a construção de uma sociedade justa e solidária, precisa ocupar lugar de destaque em nossos processos de formação e planos de pastoral. Os documentos sociais do Magistério, o Compêndio de Doutrina Social da Igreja e outras orientações oficiais são referencial imprescindível para essa atuação.

 

ANEXO

CAPÍTULO V

INDICAÇÕES DE OPERACIONALIZAÇÃO

  1. É preciso encontrar caminhos para as urgências serem colocadas em prática. É por isso que, desde as Diretrizes anteriores, tem-se dedicado um capítulo aos passos necessários para que cada Igreja local transforme as grandes metas em realidade e, com isso, a evangelização avance cada vez mais.
  2. Nosso país apresenta uma variedade de contextos. As Diretrizes são um farol a iluminar o caminhar da Igreja em todos eles. Cabe, portanto, a cada realidade local, a começar pelos Regionais da CNBB e pelas Dioceses, transformar as Diretrizes em planos pastorais.
  3. Planos são o conjunto de atividades articuladas entre si para se chegar a um objetivo, no caso, o indicado pelas Diretrizes. Sem um plano, os sonhos não conseguem tocar o chão da realidade.
  4. As Diretrizes respondem à questão: aonde precisamos chegar? Os planos respondem a outras questões: como (passos ou etapas), quem (responsáveis), com o quê (recursos) e quando (prazos). É a partir da articulação entre estes itens que surgem os planos. Sem respostas adequadas a estes itens, os planos não saem do papel. A experiência eclesial aponta para a necessidade de alguns passos de operacionalização dos planos.
  5. O primeiro passo implica a constituição dos organismos que vão diretamente trabalhar na elaboração do plano de pastoral. Através de uma boa articulação, será necessário não apenas constituir a comissão central organizadora do plano, mas também diversos outros organismos que permitam ampliar a participação. Por isso, já nos primeiros momentos de elaboração do plano, é necessário pensar nos conselhos, nas comissões específicas e principalmente nas assembleias.
  6. O segundo passo é a resposta a uma única pergunta: compreendemos realmente o que as Diretrizes nos pedem? Esta questão é fundamental porque, se não tivermos clareza de onde necessitamos chegar, como iremos planejar o itinerário? Torna-se, portanto, indispensável gastar um tempo estudando as Diretrizes, buscando compreender cada uma das urgências e os motivos pelos quais elas foram escolhidas.
  7. O terceiro passo consiste em perceber até que ponto as Diretrizes anteriores foram realmente seguidas, até que ponto o plano pastoral ainda em vigor foi efetivamente cumprido. Realizamos o que foi planejado? Que motivos nos permitiram chegar até onde chegamos? E que motivos nos impediram de chegar até o planejado?
  8. O quarto passo consiste em identificar onde honestamente nos encontramos, tanto no âmbito eclesial quanto no social. Como planejar um caminho se não possuímos efetiva clareza do ponto em que estamos e do quanto é necessário ser percorrido para se chegar aonde devemos? É preciso discernir os desafios locais dessas urgências.
  9. O quinto passo consiste na mobilização do maior número de pessoas. Se a alguns cabe a tarefa de conduzir o processo de planejamento, a todos cabe a responsabilidade e a alegria de contribuir. É preciso ouvir os mais diretamente engajados nas atividades pastorais, os que frequentam nossas comunidades apenas aos domingos ou em ocasiões específicas, os irmãos e irmãs que seguem Jesus Cristo em outras confissões cristãs e os que buscam a Deus na sinceridade de seus corações. É preciso ouvir também os que rejeitam a Cristo, pois, em seus argumentos, profundas interpelações e intuições podem emergir.
  10. O sexto passo exige a tomada de algumas decisões que se referem ao modo como o plano vai se desenvolver. A escolha do termo urgências não foi sem motivo. Significa que, sem a concretização das mesmas, a ação evangelizadora não se dará com a intensidade desejada. Diante da urgência, decisões precisam ser tomadas, deixando de lado alguns hábitos e prioridades importantes no passado, mas que, em nossos dias, não cumprem mais sua função.
  11. O sétimo passo é amplo e desafiador, pois é nele que se constroem os programas e os projetos. É aqui que se responde às questões bem concretas de como, onde, quem, com quem, com o quê e quando. Não se trata apenas de organizar um calendário de atividades, um cronograma de ações ou uma agenda, mas de discernir quais atividades realmente ajudam a concretizar as Diretrizes e, se for o caso, quais as que nem devem mais entrar no conjunto de atividades que comporão o próximo plano. É preciso ter coragem para ousar, construir, realizar e largar.
  12. Por fim, o oitavo passo envolve o acompanhamento da execução do plano. Não há como construir um plano de pastoral e acreditar que, por si, ele seja forte o suficiente para se fazer realizar. É indispensável estabelecer, no plano, os instrumentos que acompanharão o seu cumprimento, fazendo contínua revisão e até mesmo adequação dos rumos. Entre estes instrumentos, destacam-se as equipes e as estruturas guardiãs do plano, em geral as coordenações diocesanas e locais, com especial atenção para as assembleias periódicas onde, ouvindo-se significativa representação do Povo de Deus, se verifica o cumprimento ou não do que foi estabelecido no plano.
  13. Planejar a pastoral não é um processo meramente técnico. É uma ação carregada de sentido espiritual. Por isto, todo processo precisa ser rezado, celebrado e transformado em louvor a Deus.

 

CONCLUSÃO

 

  1. As DGAE 2015-2019 são oferecidas como referencial para o processo de planejamento pastoral das Comissões Episcopais Pastorais e Regionais da CNBB, para as Dioceses e outros organismos eclesiais. Respondendo aos desafios locais a partir das urgências e perspectivas de ação, possa a Igreja no Brasil continuar dando o testemunho da comunhão na diversidade que caracteriza a Igreja.
  2. Confiamos à Mãe Aparecida o generoso esforço que será feito para a aplicação destas Diretrizes, como também os frutos que delas são esperados. Elas nos oferecem uma valiosa “chave de leitura para a missão da Igreja” no Brasil. Na fragilidade dos meios que dispomos, a presença atuante do Espírito Santo nos anima na missão evangelizadora, tornando possível a comunhão, fazendo crescer a e multiplicando os frutos de sua graça. A proximidade do terceiro centenário do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, nos convida a “não desaprender” nem esquecer a lição e a mensagem de Aparecida: “As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. E, no entanto, Deus quer se manifestar justamente através de nossos meios, meios pobres, porque é sempre Ele quem está agindo”. Nele nós confiamos! “Pela sua palavra” (Lc 5,5), lançaremos as redes!

 

 

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PAPA FRANCISCO – Oração dos cinco dedos

ORAÇÃO DOS CINCO DEDOS – Papa Francisco

Um método de oração cuja autoria é atribuída ao Papa Francisco, quando era ainda bispo de Buenos Aires, Argentina.

1.O dedo polegar é o que está mais perto de ti.

Assim, começa por orar por aqueles que estão mais próximo de ti. São os mais fáceis de recordar. Rezar por aqueles que amamos é «uma doce tarefa«.

  1. O dedo seguinte é o indicador: reza pelos que ensinam, instruem e curam. Eles precisam de apoio e sabedoria ao conduzir outros na direcção correta. Mantém-nos nas tuas orações.
  2. A seguir é o maior. Recorda-nos os nossos chefes, os governantes, os que têm autoridade. Eles necessitam de orientação divina.
  3. 4. O próximo dedo é o anelar. Surpreendentemente, este é o nosso dedo mais débil. Ele lembra-nos que devemos rezar pelos débeis, doentes ou pelos atormentados por problemas. Todos eles necessitam das nossas orações.
  4. E finalmente temos o nosso dedo pequeno, o mais pequeno de todos. Este deveria lembrar-te de rezar por ti mesmo. Quando terminares de rezar pelos primeiros quatro grupos, as tuas próprias necessidades aparecer-te-ão numa perspectiva correcta e estarás preparado para orar por ti mesmo de uma maneira mais efectiva.

Deus nos abençoe a todos. Boa oração!

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