NO CAMINHO DE JESUS Uma leitura do evangelho de Marcos Maria Antônia Marques* Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

NO CAMINHO DE JESUS

Uma leitura do evangelho de Marcos

Maria Antônia Marques*

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

“Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). O relato do evangelho de Marcos inicia com uma proposta de felicidade. É um novo começo marcado por um anúncio alegre e esperançoso. A Boa-nova é de Jesus Cristo, Filho de Deus. Ele proclama a proximidade do Reino: “Cumpriu-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

Jesus, com sua vida e sua prática, realizou o Reino de Deus abrindo espaços de vida para os pobres e marginalizados, porém, não compreendido pelos poderosos do seu tempo, foi perseguido e morto. A morte de Jesus foi um choque para os que esperavam que ele fosse um Messias poderoso, e isso provocou a fuga de seus seguidores e seguidoras.

Mas, aos poucos, as pessoas que tinham experimentado uma vida nova com Jesus começaram a se reunir em pequenos núcleos que recordavam sua prática e seus ensinamentos à luz do Antigo Testamento. Assim, as primeiras comunidades cristãs compreenderam que Jesus era o servo sofredor: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar” (Mc 8,31; cf. Is 42,1-9; 52,13-53,12). No meio da febre messiânica por um rei poderoso, que viria para destruir os dominadores e implantar o Reino de Deus, a comunidade cristã teve dificuldades de manter e pregar Jesus como o Messias-servo.

No século I, a dominação romana com seus impostos abusivos e o sistema religioso de Jerusalém tornaram-se insustentáveis. A realidade ia de mal a pior. Na Palestina, a repressão das autoridades contra as revoltas populares era violenta, um verdadeiro massacre, muitos grupos de judeus foram dizimados. A população foi deixada à sua sorte. Nesse contexto, renasceu o nacionalismo judaico: a espera de um messias rei. Para orientar a comunidade cristã, que também estava assumindo essa mentalidade, a liderança que escreveu o evangelho de Marcos sentiu a necessidade de apresentar Jesus como o Messias servo, que foi crucificado por ter assumido a causa da justiça até o fim, mas Deus o ressuscitou (cf. Mc 9,30-32; 10,32-34).

O evangelho de Marcos foi escrito entre os anos 65 e 70 d.C. A mão de ferro do Império foi ainda mais pesada para os judeus e os cristãos. Em Roma, a comunidade cristã sofreu a perseguição de Nero (66 d.C.). Em vários pontos do Império surgiram levantes dos judeus, sendo o principal na Palestina, conhecido como a Guerra Judaica, entre os anos 66-73 d.C. O medo era constante. Guerras, massacres, fome e aflições faziam parte do dia a dia das pessoas.

* Mestre e doutora em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, graduada em Filosofia e Teologia e especialista em Comunicação Social. Atualmente, é professora em diversas faculdades de Teologia e assessora do Centro Bíblico Verbo. Email: ma antonia@uol.com.br.

  1. Situando o evangelho de Marcos

O evangelho de Marcos é uma obra anônima, não existe apresentação do sujeito que fala nem sequer dos objetivos desse escrito, que somente serão descobertos na própria leitura. O que importa é a mensagem a ser comunicada: o Evangelho. Marcos é um nome de origem romana; porém, essa assinatura é secundária, conhecida desde Irineu, no fim do século II.

Em relação à origem do evangelho de Marcos, alguns afirmam que foi em Roma, logo após o martírio de Pedro, em 64 ou 67, outros o situam na Síria. Atualmente, os estudiosos acreditam que esse escrito tenha surgido na Galileia. Afirmação que se apoia no fato de essa região ser o principal local da atividade missionária de Jesus. Há algumas informações que fortalecem essa teoria, por exemplo:

  1. A atividade de Jesus: no evangelho de Marcos, na maior parte de sua missão, Jesus atua na Galileia e nos seus arredores;
  2. O autor conhece as tensões existentes na Palestina e entre os diversos grupos e regiões. Para ele, os adversários de Jesus na Galileia vêm de Jerusalém (Mc 3,22; 7,1). Ele sabe que a Palestina e as regiões limítrofes não estão habitadas somente por judeus (Mc 7,24-25);
  3. Destinatário: embora haja judeus na comunidade de Marcos, os principais destinatários são gentios, pois o autor explica certos costumes e práticas judaicas, por exemplo, a lei do puro e do impuro (Mc 7,1-23); como também o uso de termos aramaicos e sua tradução em momentos-chaves da narrativa, como: Talitha kum, “menina, levanta-te” (Mc 5,41); Effatha, “abre-te” (Mc 7,34); Abba, “pai” (Mc 14,36); e Eloi, Eloi, lemá sabachtáni, “meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes” (Mc 15,34).

A partir dessas informações, acreditamos que o evangelho de Marcos foi escrito na região da Galileia, destinado às comunidades localizadas na região da Síria, de Tiro e da Decápolis.

  1. Pisando o chão da comunidade de Marcos

Desde 63 a.C., os romanos dominaram a Palestina. As províncias da Galileia, da Pereia, da Idumeia e da Judeia passaram a pagar tributos para o Império. O povo passou a ser violentamente explorado por meio da cobrança abusiva de impostos e do monopólio do comércio. Essa situação gerou muitas revoltas, principalmente na Galileia. Qualquer revolta dentro do Império era terminantemente sufocada por meio de um forte aparato repressor.

A região de Israel representava apenas 1% do território romano e havia 8% das tropas do exército romano acampadas na região.

Várias cidades da Galileia foram incendiadas e destruídas, e suas populações foram vendidas como escravas ou mortas. Em torno do ano 40 a.C., por sua fidelidade às políticas de paz de Augusto, Herodes Magno foi reconhecido como rei dos judeus, exercendo o governo de forma tirânica e opressora. Seguindo o exemplo do Imperador Augusto, Herodes reconstruiu várias cidades; por exemplo, fundou, no lugar de Samaria, a antiga capital do Norte, Sebaste – tradução grega de Augusto –, onde havia um grande teatro e um templo dedicado ao Imperador.

No seu reinado, várias cidades helenísticas foram reconstruídas ou revitalizadas, entre elas, Cesareia, em homenagem a César Augusto.

A fronteira oriental do seu reino, inclusive a fortaleza de Massada, foi reforçada. Herodes gastou enormes quantias de dinheiro com as construções da cidade de Jerusalém, principalmente com o Templo, que foi totalmente reconstruído, reforma que terminou pouco tempo antes da Guerra Judaica (66-73 a.C.). Devia ser uma construção suntuosa, pois a beleza e o esplendor desse Templo permaneciam no imaginário das primeiras comunidades cristãs (cf. Mc 13,1-2; Mt 24,1; Lc 21,5-7).

O sistema de fiscalização de impostos, implantado por Herodes e seus partidários, era muito rígido. O povo tinha que pagar para os romanos o imposto sobre 25% das colheitas, o pedágio para a circulação de pessoas e mercadorias e dedicar um tempo de trabalho forçado para as tropas. Além do sistema de cobrança dos romanos, existiam os impostos do Templo: o imposto pessoal, estipulado em um denário – o equivalente à diária de um trabalhador; os vários dízimos, como, por exemplo, das colheitas, a parte destinada aos pobres; e, a cada sete anos, o produto referente a um ano de trabalho.

Nesse caldeirão de opressão surgiram muitos focos de revolta. Porém, o controle de Herodes Magno era muito rígido, e os protestos eram sufocados. Após a morte de Herodes Magno, a Palestina foi dividida em três regiões ou províncias. Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.) ficou como tetrarca da Galileia e da Pereia ou Transjordânia do Sul, Filipe assumiu a Transjordânia do Norte, e Arquelau ficou com a Judeia e a Samaria.

Na tentativa de agradar o povo judeu e o Império Romano, Herodes Antipas empreendeu grandes construções, conforme os padrões helenísticos, como a reconstrução de Séforis e a fundação da cidade de Tiberíades, em 19 d.C., transformando-a em capital de sua província.

A maioria da população de Tiberíades era constituída de gentios de diversas regiões, aí se falava o grego, o aramaico e o latim. Na cidade havia teatros, banhos públicos e estádios.

A cidade estava situada entre o mar da Galileia e Cesareia, no Mediterrâneo. Herodes Antipas chegava a receber em torno de 200 talentos por ano, o equivalente a 1.200.000 denários referentes ao imposto da pesca. A moeda era necessária para o pagamento dos impostos e a compra de produtos e serviços (Mc 12,15-17). Cresceu o número de pessoas endividadas e escravizadas. Uma pequena minoria, cerca de 5%, esbanjava luxo, mas a maioria experimentava pobreza e miséria. O cenário era de doença e escravidão.

Muitas pessoas empobrecidas perambulavam pelas praças e mercados, sem terra e sem emprego (cf. Mt 20,1-9). A situação dos pobres se complicou ainda mais por causa da cultura e religião da época. De acordo com a mentalidade grega, os pobres eram considerados vagabundos ou pessoas que não foram agraciadas pelas divindades.

Os romanos, seguindo a mesma mentalidade grega, acreditavam que o trabalho era próprio dos escravos. Para impedir que houvesse qualquer tipo de revolta, havia o sistema do clientelismo, também conhecido como patronato.

O clientelismo era baseado nas relações de troca. Alguém do estrato superior beneficiava a uma pessoa do estrato inferior, que se tornava cliente de seu benfeitor. O prestígio e a honra de um cidadão eram medidos a partir do número de clientes que ele possuía. Por sua vez, o cliente tinha várias obrigações com o seu patrono, como, por exemplo, estar presente nos banquetes patronais, acompanhar seu patrono nas aparições públicas e aplaudir os discursos do patrão. No Império Romano, a ingratidão de um cliente ao seu patrono era considerada pior do que roubo e homicídio.

Hoje, em uma linguagem popular, diríamos que é o bajulador ou o puxa-saco, com a diferença de que essa relação estava presente em todos os setores da sociedade. Esse sistema não favorecia os pobres, mas reforçava a situação de injustiça e perpetuava a submissão. Na cultura judaica, a partir da consolidação da teologia da retribuição no exílio e no pós-exílio, a pobreza constantemente era associada com castigo de Deus. De acordo com essa teologia, Deus recompensava uma pessoa justa com vida longa, riqueza e descendência.

O caminho da sabedoria era seguir a Lei, assim afirma o livro dos Provérbios: “Em sua direita: longos anos; em sua esquerda: riqueza e honra! Seus caminhos são caminhos deliciosos, e os seus trilhos são prosperidade” (Pr 3,16-17).

No século I havia muitas pessoas pobres e doentes. Uma pessoa com lepra era considerada morta. Qualquer doença de pele, contagiosa ou não, era classificada como lepra.

Havia muitas pessoas aleijadas, epiléticas ou hidrópicas. Doenças mentais e psíquicas eram associadas com o demônio, como, por exemplo, os casos de mudez, surdez, epilepsia, esquizofrenias e até mesmo a depressão ou falta de motivação.

No tempo de Jesus e das primeiras comunidades, as leis referentes à pureza marginalizavam os doentes leprosos (Lv 13 e 14).

Todos os líquidos que saíam do corpo humano relacionados com a reprodução provocavam impureza. A pessoa impura estava excluída da participação social. Havia muitas pessoas à margem da sociedade e, para piorar a situação de sofrimento, sentiam-se abandonadas por

Deus: “Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados” (Mc 1,32)

Ser pobre significava não ter existência social. A situação de opressão e escravidão deu origem a vários movimentos proféticos e messiânicos, especialmente na Galileia, região que fornecia trigo, vinho, óleo, carne e peixe, e que, por isso mesmo, foi o território mais explorado e devastado. Entre os vários movimentos, podemos situar o de Jesus. A sua proposta de Reino de Deus atraiu homens e mulheres que perderam suas terras e se encontravam sem reino. Por isso, Jesus proclama:

“Felizes vós, os pobres” (Lc 6,20; Mt 5,3).

  1. Conhecendo a proposta do evangelho de Marcos

No norte da Galileia, por volta do ano 70 d.C., a comunidade de Marcos estava tentando seguir o projeto de Jesus de Nazaré. Além dos conflitos externos como violência, fome e tentação de entrar nos movimentos nacionalistas com o messianismo do rei, internamente a comunidade enfrentava conflitos étnicos e culturais. O modo de vida romano e a busca desenfreada de bens, poder e privilégios foram assimilados por muitas pessoas: “Concede-nos, na tua glória, sentarmo-nos, um à tua direita, outro à tua esquerda” (Mc 10,37).

Mas, não obstante as dificuldades, a comunidade de Marcos procurava resgatar e seguir o projeto de Jesus de Nazaré, apresentando Jesus como o Messias-servo e as condições para segui-lo. Entrar nesse discipulado exige “deixar as redes” e ter disposição para aprender de Jesus estratégias para a concretização do Reino de Deus. É preciso sair e ultrapassar fronteiras. Só é possível construir o Reino a partir de relações tecidas na fraternidade e no serviço: “Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos” (Mc 10,43-44).

O evangelho de Marcos nasce da necessidade da comunidade de colocar por escrito suas memórias sobre quem é Jesus, reforçando que ele não é o messias do poder e da glória, mas seu messianismo passa pelo sofrimento e pela cruz. Eis alguns pontos principais deste texto:

 

3.1. Quem é Jesus de Nazaré: O evangelho apresenta Jesus como o Filho do Homem na figura do servo sofredor, que veio conviver e libertar as pessoas empobrecidas, exploradas e excluídas pelo Império e seus colaboradores/as. Proclamou o Reino de Deus para todas as pessoas, independentemente da etnia, da classe social, do gênero e da religião.

A sua fidelidade ao projeto do reino da justiça e da fraternidade o levou a um confronto com os poderosos do seu tempo e, consequentemente, à cruz, mas Deus o ressuscitou: “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).

 

3.2. O seguimento de Jesus: Esse evangelho apresenta mulheres e homens que seguem Jesus desde a Galileia até Jerusalém, convivendo e aprendendo com ele.

Dentro de suas limitações, esse grupo assumiu a causa do Reino de Deus, que se fundamenta na justiça e na solidariedade, no meio das pessoas que estão à margem da sociedade, como mulheres, pobres, estrangeiros, crianças e doentes (Mc 1,31; 6,33; 7,28; 8,1; 10,13.46).

Seguir Jesus implica assumir o mesmo caminho de Jesus como servo sofredor:

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar sua vida a perderá; mas o que perder sua vida por causa de mim e do Evangelho, a salvará. Com efeito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e arruinar sua própria vida?” (Mc 8,34-36).

  1. Uma estrutura possível para o evangelho de Marcos

Há diversas propostas de estruturas para o evangelho de Marcos. Para uma visão de conjunto, optamos pela divisão em três partes, seguindo o ministério de Jesus na Galileia e nos seus arredores, em seguida a caminhada para Jerusalém e os últimos acontecimentos em Jerusalém.

Eis um breve esquema:

1) Primeira parte (1,1—8,26): a atividade de Jesus na Galileia e nas regiões vizinhas.

Nesta etapa, temos a formação da comunidade que se encontra com Jesus sempre em uma casa. A comunidade enfrenta vários problemas externos e internos, a saber: fome, doenças, individualismo, preconceito e, especialmente, a tentação de seguir o messias como rei poderoso (Mc 1,34.44; 3,12; 5,43; 6,30-44; 7,36).

Essa parte termina com a cura do cego de Betsaida (Mc 8,22-26), indicando que a comunidade precisa abrir os olhos para  compreender que Jesus é o Messias-servo.

 

2) Segunda parte (8,27—10,52): a viagem para Jerusalém a partir da Galileia. É um caminho para compreender e aprofundar Jesus como o servo sofredor com os três anúncios da Paixão (Mc 8,31-33; 9,33- 37; 10,32-34). É uma catequese sobre o seguimento de Jesus na vida cotidiana da comunidade. Ao anunciar o “caminho da cruz”, Jesus combate e corrige os discípulos que aspiram a poder e privilégio, que transparecem na figura do messias poderoso como Davi. Os versículos finais apresentam a cura do cego Bartimeu, que joga o manto, gesto que significa abandonar a visão messiânica de rei e seguir Jesus no caminho da cruz (Mc 10,46-52).

 

3) Terceira parte (11,1-16,8): o ministério de Jesus em Jerusalém com a sua paixão, morte e ressurreição. A prática libertadora de Jesus está em conflito com os poderes do mundo, por isso ele é condenado e morto como subversivo. Mas

Deus não abandona o justo (Sb 2,18) e o ressuscita (Sl 22). Essa parte termina com a ordem de voltar para a Galileia, o local onde Jesus começou e exerceu a maior parte de sua prática libertadora.

 

4) Acréscimo posterior (16,9-20): Como terminar um evangelho com o medo e o silêncio? Os versículos finais foram acrescentados depois e constituem uma síntese dos relatos das aparições de Jesus ressuscitado. Na origem, o evangelho era uma obra sem conclusão. Ela está em aberto e depende da pessoa que lê dar a sua resposta… É preciso ter coragem para voltar à Galileia.

O evangelho de Marcos termina com uma ordem e o medo como resposta: “‘Não vos espanteis! Procurais Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ressuscitou, não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos tinha dito’. Elas saíram e fugiram do túmulo, pois um temor e um estupor se apossaram delas. E nada contaram a ninguém, pois tinham medo…” (Mc 16, 6-7).

As mulheres recebem a ordem de comunicar aos seus que ele voltaria para a Galileia. Elas ficaram com medo, fugiram e nada disseram. É preciso afastar-se de Jerusalém, lugar de centro do poder, e voltar à Galileia, o lugar onde tudo começou. Segundo o evangelho de Marcos, foi na Galileia que Jesus realizou grande parte de sua atividade missionária.

Voltar à Galileia é assumir o projeto de Jesus, e isso causa medo. Acreditar que Deus ressuscitou Jesus é reafirmar a fé em Deus como o Senhor da vida. Apesar do medo, há uma grande esperança para os que seguem Jesus.

A nossa missão é anunciar que Cristo Ressuscitou e nos precede na nossa Galileia: lugar onde a vida está ameaçada. Assumir o projeto de Jesus dá medo e, muitas vezes, é melhor fugir. É preciso viver a experiência de que há uma esperança: a força da vida é maior do que a morte. É preciso acreditar que “a pedra já fora removida!”.

No tempo de Jesus, havia muitas leis que separavam as pessoas. As leis da pureza determinavam quem estava mais próximo de Deus e quem estava mais distante. Uma pessoa impura era eliminada do convívio social e novamente admitida mediante os rituais de purificação. Havia impurezas transitórias e permanentes, como, por exemplo, o estrangeiro, que era impuro por sua própria condição.

Embora não faça parte da nossa cultura o sistema do puro e do impuro, ainda há muitas barreiras e preconceitos que separam e dividem as pessoas nos diversos ambientes sociais.

Relembramos aqui um fato corriqueiro, que acontece com frequência: Certa vez, José Antônio, um homem negro e muito simples, foi visitar a sua irmã, que trabalhava num edifício de luxo. Enquanto ele esperava pela chegada do elevador, uma moradora se aproximou dele e lhe disse: “Este elevador é o social, o do senhor fica do outro lado”. Nesse momento, José Antônio sentiu-se humilhado, com um nó na garganta, e nada conseguiu responder. Depois que a raiva passou, ele ficou indignado e sentiu, na própria pele, a dor do preconceito.

E ele conclui: “Esse fato reforçou em mim a constante atenção para não discriminar nem tratar mal a ninguém”.

Um dos desafios existentes na comunidade de Marcos era a necessidade de superar as divisões existentes entre judeus e estrangeiros. Em diversos relatos, vemos Jesus superando esses obstáculos: ele convive com pessoas excluídas e marginalizadas (Mc 1,29-31; 5,21-43), é criticado por comer com publicanos e pecadores (Mc 1,15-17).

Este artigo nos ajudará a caminhar com Jesus. Com ele, queremos ultrapassar as fronteiras da Galileia para a região de Tiro e de Sidônia. Para isso precisamos ter uma atitude de diálogo e escuta. É importante se deixar questionar pela palavra de sabedoria que nasce da experiência. Que esta reflexão nos leve a identificar os demônios que precisamos exorcizar hoje em nossa vida e na vida das pessoas com as quais convivemos.

  1. Da Galileia para Tiro

“Saindo dali, foi para o território de Tiro” (Mc 7,24). Jesus sai da alta Galileia, região acidentada e montanhosa, uma paisagem muito diferente da baixa Galileia e da região do Vale, marcada por suaves colinas e planícies.

Por causa das altas montanhas, o acesso às diferentes localidades é mais difícil, dificultando a comunicação entre as aldeias e os povoados da alta Galileia. Nessa região, o processo de urbanização durante o período romano foi menor.

Era uma população tradicional e fechada às diferentes culturas e etnias. Acompanhando os passos de Jesus, vemos que ele se desloca da alta Galileia para a região de Tiro. Causa espanto o fato de um judeu galileu sair para a terra dos gentios.

Segundo o relato de Marcos, essa viagem de Jesus acontece depois de uma longa discussão com os fariseus e alguns escribas vindos de

Jerusalém, ou seja, com os representantes do poder oficial. Entre os judeus galileus e os habitantes de Tiro, chamados simplesmente de “siro-fenícios”, havia divisões religiosas, políticas, sociais e econômicas. Entre esses dois grupos, havia uma hostilidade recíproca.

Na memória do povo judeu há algumas lembranças ruins de Tiro. Dessa região, temos a rainha Jezabel (fenícia). Essa mulher oficializou o culto a Baal em Israel, no século IX a.C. (cf. 1Rs 16,31-32). Os profetas denunciaram o luxo e a opressão provocados por Tiro (Ez 26,15-21; Zc 9,3). Durante a revolta dos Macabeus, Tiro, Ptolemaida e Sidônia lutaram contra os judeus defendendo os imperadores selêucidas (cf. 1Mc 5,15). No tempo da dominação romana, Sidônia, a cidade da Fenícia, era o principal porto da região na viagem a Roma, trazendo o produto comercial, o exército e a cultura helenizada de Roma, opressora dos judeus, para a Palestina.

Os fenícios sempre exploraram os galileus no mundo do comércio. A Galileia era uma terra fértil e a produção de grãos, vinho, óleo e carne era abundante. Além da riqueza agrícola e da pescaria, também existia na região um centro de produção de cerâmica em Kfar Hananiah e Shikin, situadas entre a alta e a baixa Galileia. A região de Jericó oferecia extraordinárias tamareiras, plantas de precioso bálsamo, e também era conhecida como a cidade das palmeiras (cf. Dt 34,3; Jz 1,16).

Uma parte dessas riquezas era levada para Tiro e Sidônia, cidades portuárias da Fenícia, passando pela alta Galileia. Na transação comercial, os fenícios sempre levaram vantagem, aumentando o conflito com os judeus galileus.

No campo religioso, as cidades helenizadas da Fenícia, a província da Síria, representavam, para os judeus, a expressão máxima do culto a outras divindades no tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs.

Na comunidade de Marcos, situada na alta Galileia ou no sul da Síria, havia a presença mista de judeus e de gentios, que constituía um dos conflitos da comunidade. O conflito se agravou com a chegada dos judeus refugiados de Jerusalém à alta Galileia por causa da Guerra Judaica. Eles, incluindo os escribas, consideravam os gentios como impuros e condenados por Deus.

A MISERICÓRDIA DE DEUS É SEM FRONTEIRAS

O encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30)

Diante desse conflito, a comunidade de Marcos descreve o encontro de Jesus com a mulher siro-fenícia e sua filha possuída por demônio, simbolizando o encontro dos judeus galileus com os endemoninhados. Essa história é uma catequese da comunidade para superar as dificuldades na convivência entre as pessoas de diferentes culturas, etnias e gênero.

  1. Todos têm direito de participar da mesa do Reino! (Mc 7,24-30)

A visita de Jesus à região de Tiro e o seu encontro com uma mulher siro-fenícia causaram espanto e entraram em contradição com a concepção messiânica da época, segundo a qual a salvação seria somente do povo de Israel. Mas esse encontro ampliou o conceito de Messias em vários sentidos: geográfico, étnico, religioso e de gênero. De acordo com a narrativa de Marcos, é possível entender que Jesus se retirou da Galileia para escapar do tormento dos fariseus ou para fugir de Herodes, que governava a Galileia e a Pereia e que há pouco havia tirado a vida de João Batista (cf. Mc 6,16).

Em território estrangeiro, Jesus entrou numa casa e quis permanecer oculto. Que casa seria essa? Podia ser uma casa de judeus que habitavam na região de Tiro. A intenção de Jesus era refazer suas energias, mas isso não foi possível, pois uma mulher ficou sabendo e invadiu a casa, atirando-se a seus pés. Esse gesto era típico de quem prestava uma homenagem ou pedia um favor. Em sua necessidade, a mulher buscou uma solução para o seu problema e não teve medo de romper barreiras.

Como mãe, a mulher suplicou a Jesus a cura de sua filha, que tinha “um espírito impuro”. Ela estava disposta a tudo para atingir sua meta. O relato apresenta a doença da filha de duas maneiras diferentes: Mc 7,25 afirma que ela tem um espírito impuro, e Mc 7,26.29.30, um demônio. A primeira expressão é comum no mundo judaico, e a segunda é usada em outras culturas. Isso pode indicar que as pessoas a quem o evangelho de Marcos se dirige são judeus e estrangeiros. De um lado, temos a insistência da mulher, de outro, a indiferença de Jesus, cuja resposta à mulher nos deixa intrigados: “Deixa que primeiro os filhos se saciem, porque não é bom tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos” (Mc 7,27).

Diante do pedido da mulher, a resposta de Jesus reflete a mentalidade judaica do seu tempo. Ele acredita que os filhos de Israel têm prioridade sobre os gentios. O termo “filhos” era aplicado ao povo de Israel, e o termo “cachorro”, mesmo usado no diminutivo, era um insulto contra os gentios, pois os cães eram associados com a impureza (cf. Ex 22,30; 1Rs 21,23; 22,38; 2Rs 9,36). Esse termo também era usado para designar um povo sem valor e desprezível (cf. 1Sm 24,15; 2Sm 16,9; Is 56,10).

Jesus se refere a Israel com o termo teknon, crianças ou descendentes no sentido biológico, ao passo que a mulher emprega paidion, cujo sentido pode ser filho ou servo em uma casa. É um termo mais abrangente. A mudança de termo pode significar que, para a mulher, a misericórdia de Deus vai além de Israel. É sem fronteiras.

De maneira sábia e audaciosa, a mulher se utiliza da mesma comparação de Jesus, apresentando o seu argumento: “É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem, debaixo da mesa, as migalhas dos filhos!” (Mc 7,28). A mulher devia conhecer a fama de Jesus, pois ela se dirige a ele usando o título salvífico “Senhor”. Ela representa um grupo da população que reconhece Jesus como o Senhor.

A mulher compreende e aceita a primazia de Israel melhor do que os judeus. A sua determinação e a sua coragem dão testemunho de sua esperança. Ela reivindica os direitos dos gentios. Jesus percebe que a mulher está certa, o argumento dela o faz ampliar seus horizontes:

“Pelo que disseste, vai!” (Mc 7,29a). É a palavra dela que cura!

Diante dos argumentos da mulher, Jesus revê a sua maneira de pensar, e a filha é restaurada:

“O demônio saiu da tua filha” (Mc 7,29b). Ele é capaz de ultrapassar as barreiras étnica, geográfica e política, e ver a realidade das pessoas que sofrem. Em Jesus, a salvação não é apenas para os que observam a Lei e a tradição, mas está aberta a todas as pessoas que nele acreditam. Ao colocar Jesus aceitando a palavra da mulher, o evangelho nos ensina que é preciso superar qualquer barreira ou conflito quando se trata da defesa da vida ameaçada.

O encontro entre Jesus e a mulher siro-fenícia retrata o encontro entre judeus e estrangeiros, entre puros e impuros, também chamados de endemoninhados. Não foi fácil eliminar os preconceitos existentes de ambas as partes. Esse encontro ainda hoje questiona nossos preconceitos e nos convoca a uma abertura maior para o relacionamento com o outro.

  1. Uma palavra a mais sobre os endemoninhados

“Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios” (Mc 1,32-34). Havia muitos endemoninhados no tempo de Jesus? Ele expulsou muitos demônios? Como entender os vários nomes utilizados para nomear o mal na Bíblia? Se o demônio existe, onde ele atua hoje?

A lista de perguntas levantadas em encontros e cursos bíblicos é longa. Há muitas dúvidas e curiosidades. É surpreendente o fato de que a realidade do tempo de Jesus, de dois mil anos atrás, não seja levada em consideração para compreender esse mundo habitado por espíritos. Naquele tempo, os recursos da ciência e da medicina eram muito precários. De modo geral, a causa dos males como a doença era atribuída a espíritos. A presença de curandeiros e exorcistas era comum e difundida na época. Hoje a psicologia e a psiquiatria, por exemplo, conseguem ajudar a resolver problemas de muitas “pessoas possuídas por espírito mal”. Isso mesmo: o mundo de Jesus, curandeiro e milagreiro, era um mundo diferente.

 

3.1. Um mundo habitado por espíritos

No evangelho de Marcos, há vários textos referentes à presença de espíritos impuros e a exorcismos:

  • “Os espíritos impuros, assim que o viam, caíam a seus pés” (Mc 3,11).
  • “E constituiu Doze, para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar, e terem autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14).
  • “Ele está possuído por um espírito impuro” (Mc 3,30).
  • “Chamou a si os Doze e começou a enviá-los dois a dois. E deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros” (Mc 6,7).
  • “Uma mulher cuja filha tinha um espírito impuro” (Mc 7,25).
  • “Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo” (Mc 9,17).
  • “Mestre, vimos alguém que não nos segue expulsando demônios em teu nome” (Mc 9,38).

Nos evangelhos, a menção sobre os espíritos responsáveis pelos males é vasta e frequente. Era difusa, no tempo de Jesus, a certeza de que os seres humanos viviam cercados por espíritos: anjos e demônios. E a causa de doenças, desgraças e provações na vida humana era atribuída aos demônios.

Por isso, havia muitos doentes e endemoninhados na época. A exigência de pagamento dos impostos aos romanos e dos impostos religiosos provocou um acelerado empobrecimento dos camponeses na Galileia. Pobreza e miséria vinham acompanhadas com doença. A cegueira era comum, podendo ter causa hereditária ou ser consequência da falta de higiene ou má alimentação. A lepra era o fantasma que assustava a população. Qualquer doença de pele, contagiosa ou não, era classificada como lepra.

Havia muitas pessoas aleijadas, epilépticas ou hidrópicas. Todos esses males mentais e físicos estavam associados ao demônio. A necessidade de expulsar os demônios era grande e comum na vida cotidiana das aldeias: “Eles expulsavam muitos demônios, e curavam muitos enfermos, ungindo-os com óleo” (Mc 6,12). Por ser possuído por demônios, o doente era também condenado e excluído pela religião oficial da época.

 

3.2. Os endemoninhados eram afastados do convívio social

A religião judaica oficial considerava a pobreza, a doença e a deficiência física e mental como consequências da presença de maus espíritos que tinham tomado posse da pessoa (Mc 9,14-29). Uma pessoa doente era vista como pecadora. A doença era considerada castigo de Deus. O doente era alguém que estava pagando por algum mal cometido, como, por exemplo, a desobediência às leis do puro e do impuro. Leis estabelecidas por sacerdotes e escribas desde o século V a.C. A interpretação da comunidade de Marcos sobre o conflito de Jesus com os doutores da Lei evidencia essa teologia oficial:

“Jesus, vendo sua fé, disse ao paralítico: ‘Filho, teus pecados estão perdoados’. Ora, alguns dos escribas que lá estavam sentados refletiam em seu coração: ‘Por que está falando assim? Ele blasfema! Quem pode perdoar pecados a não ser Deus?’. Jesus imediatamente percebeu em seu espírito o que pensavam em seu íntimo, e disse: ‘Por que pensais assim em vossos corações? Que é mais fácil dizer ao paralítico: Os teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda?’” (Mc 2,5-9). O doente, como endemoninhado e pecador, era afastado do convívio com outras pessoas para evitar a contaminação de toda a comunidade (cf. Mc 5,25-34). A única forma de poder ser puro e voltar a participar da vida social e do Templo eram os ritos de purificação, que consistiam em sacrifícios de expiação pelo pecado. O código de pureza apresentava vários rituais de purificação, que exigiam a entrega de ofertas e a realização do sacrifício no Templo (cf. Lv 15,1-33). O objetivo das autoridades religiosas era arrecadar mais produtos para favorecer seus interesses.

O código da pureza era sustentado pela teologia oficial da retribuição. Nessa visão, a pessoa justa era quem observava a lei do puro e do impuro. Essa teologia afirmava que Deus abençoava a pessoa justa com riqueza, saúde, vida longa e descendência, mas castigava a pessoa injusta com pobreza, doença e sofrimento.

Na teologia da retribuição, aqueles que tinham condições de observar as leis, pagando os dízimos exigidos e oferecendo sacrifícios, eram abençoados por Deus, enquanto os pobres eram amaldiçoados. Os pobres doentes  sofriam duplamente.

 

3.3. Jesus e as comunidades cristãs combatem os espíritos destruidores

Por um lado, os escribas acusam Jesus de estar possuído por um “espírito impuro”: “Está possuído por Beelzebu”; ou: “É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios” (Mc 3,22), acusando Jesus de ser destruidor da religião oficial baseada na lei do puro e do impuro. Por outro lado, Jesus e seus seguidores e seguidoras também acusam os escribas, suas sinagogas, o Templo e o Império Romano de estarem possuídos por espíritos destruidores.

  1. a) A religião oficial da sinagoga

“Na ocasião, estava na sinagoga deles um homem possuído por um espírito impuro, que gritava, dizendo: ‘Que queres de nós, Jesus Nazareno? Viestes para arruinar-nos? Sei quem tu és: o Santo de Deus’. Jesus, porém, o conjurou severamente: ‘Cale-te e sai dele’. Então o espírito impuro, sacudindo-o violentamente e soltando grande grito,

deixou-o” (Mc 1,23-26).

A sinagoga, que existia quase em cada cidade na Palestina, era o local de encontro para o culto e o estudo da lei. Era o local essencial para a instrução em vista da unidade judaica na fé, no culto, na tradição e na ordem sociorreligiosa. Havia o chefe da sinagoga, o archisynagôgos, encarregado do funcionamento do culto, com a função de coordenar a leitura das Escrituras, instruções e orações. Segundo Mc 1,23, a expressão “a sinagoga deles” indica o local organizado pelos escribas. Eles instruíam o povo no código de pureza e na teologia da retribuição: as leis do puro e do impuro com a imagem de Deus poderoso e castigador. Pobres e doentes estavam excluídos do convívio social.

A comunidade de Marcos descreve, em seu relato sobre o ensinamento de Jesus, as pessoas amarradas pelas leis ensinadas na sinagoga como “um homem possuído por um espírito impuro” (Mc 1,23). Esse espírito entra em conflito com Jesus, e é expulso por seu ensinamento: “Todos então se admiraram, perguntando uns aos outros: ‘Que é isto? Um novo ensinamento com autoridade! Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens, e eles lhe obedecem!’” (Mc 1,27).

O ensinamento de Jesus nasce de sua prática libertadora: ele continuamente acolhe e convive com o povo sofrido e machucado.

Jesus está em contato com os endemoninhados e excluídos da sociedade: pobres, doentes, cegos, coxos, crianças, mulheres.

Experimenta, na sua pele, a dureza da vida cotidiana do seu povo: “uma grande multidão e ficou tomado de compaixão por eles” (Mc 6,34).

Então, Jesus, com sua prática acolhedora, transgride e rejeita a lei da pureza para devolver a vida às pessoas impuras: “Aproximando-se, Jesus tomou pela mão a sogra de Pedro que estava de cama com febre e a fez levantar-se” (Mc 1,30-31; cf. 2,15; 7,2.33; 8,23). Jesus se coloca claramente em oposição aos escribas e sua lei da pureza, por esta excluir e oprimir as “pessoas impuras”. Para ele, os escribas e seus ensinamentos são o verdadeiro “espírito impuro”, entendido como demônio, por ameaçar e destruir a vida do povo.

  1. b) O Império Romano

“Chegaram do outro lado do mar à região dos gerasenos. Logo que Jesus desceu do barco, caminhou ao seu encontro, vindo dos túmulos, um homem possuído por um espírito impuro (…) E, sem descanso, noite e dia, perambulava pelas tumbas e pelas montanhas, dando gritos e ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante dele, clamando em alta voz: ‘Que queres de mim, Jesus, filho do Deus altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!’. Com efeito, Jesus lhe disse: ‘Sai deste homem, espírito impuro!’. E perguntou-lhe: ‘Qual é o teu nome?’. Respondeu: ‘Legião é meu nome, porque somos muitos’” (Mc 5,1-9).

O exército romano era uma verdadeira máquina de dominação que servia para aumentar os territórios nas guerras, adquirir escravos, expandir tributos e o comércio, sugando a riqueza das terras conquistadas.

No livro do Apocalipse lemos o efeito devastador do exército romano: “Vi aparecer um cavalo esverdeado. Seu montador chamava- se ‘morte’, e o Hades o acompanhava. Foi-lhe dado poder sobre a quarta parte da terra, para que exterminasse pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra” (Ap 6,8).

No tempo de Jesus, o Império, que contava 350 mil soldados, deslocou 8% do seu exército para a Palestina, que representava apenas 1% do seu território. Especialmente na Galileia, terra de exploração e de muitas revoltas, havia uma legião, a maior divisão do exército romano, que abrangia de 6 a 10 mil homens.

A legião era a força esmagadora do Império Romano que dominava a Palestina. O evangelho de Marcos descreveu essa força do exército romano como espírito impuro: “o homem possuído pelo espírito impuro habitava no meio das tumbas e ninguém podia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes já o haviam prendido com grilhões e algemas, mas ele arrebentava os grilhões e estraçalhava as correntes, e ninguém conseguia subjugá-lo” (Mc 5,3-4).

O espírito impuro, descrito como monstro violento, possuía e investia contra a vida humana. Pela prática de Jesus, a legião foi expulsa para os porcos que se lançaram e se afogaram no mar, como foram afundados os carros e os cavaleiros do Faraó, na saída do Egito (Ex 14,28). O homem foi libertado, “sentado, vestido e em são juízo” (Mc 5,15). Jesus liberta, restaura e desaliena as pessoas possuídas pelo “espírito impuro”.

Para continuar a reflexão

É preciso rever quais as barreiras que precisamos superar para reproduzir em nossa vida a prática cristã. Não podemos nos calar diante de atitudes e comportamentos que excluem outras pessoas do convívio social, nem podemos permitir gestos ou expressões que humilhem o outro simplesmente por sua condição socioeconômica, etnia, gênero ou outras características pessoais.

Como discípulas e discípulos de Jesus, nossa missão é aprender a reler a nossa teologia a partir da vida concreta das pessoas com a certeza de que a misericórdia de Deus não tem fronteiras.

Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe e, no caminho, perguntou a seus discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?”. Eles responderam:

“João Batista; outros, Elias; outros, ainda, um dos profetas”. “E vós, perguntou ele, quem dizeis que eu sou?”. Pedro respondeu: “Tu és o Cristo”. Então proibiu-os severamente de falar a alguém a seu respeito” (Mc 8,27-30).

Quem é Jesus? Questão central e decisiva na comunidade de Marcos diante do surgimento de várias lideranças populares por volta do ano 70. Para a comunidade, que professava Jesus morto e ressuscitado como “Cristo”, a compreensão da identidade e da missão de Jesus era, ao mesmo tempo, a compreensão da missão dos cristãos: quem eram os verdadeiros discípulos e as discípulas de Jesus de Nazaré?

A pergunta “Quem dizem os homens que eu sou?” atravessa milênios e continua em discussão, oferecendo várias imagens de Jesus: milagreiro, rei triunfante, sacerdote, psicólogo, monge, economista, revolucionário etc.

Cada imagem revela uma faceta da vivência de um indivíduo cristão. Pois a essência da pessoa humana de Jesus com sua proposta de vida é fundamental para viver a fé cristã.

Ainda hoje a pergunta de Jesus continua nos interpelando: “Quem dizem os homens que eu sou?”. Para responder melhor essa pergunta é preciso, primeiramente, situá-la no contexto histórico em que Jesus e a comunidade de Marcos viveram.

  1. Situando na história

O pano de fundo histórico da febre messiânica, que contagiava e movimentava o povo de Israel, no primeiro século d.C., é consequência do fracasso do movimento dos macabeus (166- 63 a.C.) e da ascensão e dominação do poder romano (63 a.C. -135 d.C.). Depois de grande sofrimento e opressão sob as três dominações estrangeiras (babilônica, persa e grega), o povo depositou uma grande esperança nas mãos dos macabeus. Esperava que eles fossem os líderes verdadeiros que iriam libertar o povo do jugo dos opressores. Mas fracassaram! O movimento dos macabeus desembocou na formação de uma monarquia tão opressora quanto a dos gregos. Eles se preocupavam apenas com o interesse e a segurança de sua dinastia, “a dos asmoneus”. A velha história se repete!

A frustração aumentou com a chegada dos romanos e do seu tremendo poderio militar. O povo se submeteu impotente às ordens humilhantes de mais uma potência estrangeira que chegou para devastar sua pátria. A devastação acontecia não somente no campo de tributos e comércio (moedas), mas também no campo cultural e religioso. Os imperadores, por exemplo, se apresentavam como filho de Deus, filho do cometa e sumo sacerdote. A história relata dois exemplos de imposição cultural e religiosa dos imperadores que provocaram a indignação e a revolta dos judeus, e poderiam quase ter provocado um banho de sangue: os estandartes militares de Pilatos com a imagem do imperador César marchando para Jerusalém (26-27 d.C.), e a tentativa de erguer a estátua do imperador Caio Calígula no Templo de Jerusalém (40-41 d.C.).

E, para piorar a situação do povo, os romanos nomearam os idumeus, inimigos dos judeus, para reger a Palestina: Herodes Magno e seus filhos (Arquelau, Antipas e Filipe), cujos reinados foram marcados pela brutalidade e tirania, espalhando ódio e desespero no meio do povo. Arquelau, por exemplo, sufocou a revolta dos judeus de Jerusalém, massacrando 3 mil pessoas na praça do Templo na Páscoa.

Os reis herodianos promoveram a ostentação do luxo segundo o estilo romano, construindo palácios em cidades como Cesareia, Jerusalém, Séforis, Tiberíades, Jodefá etc. Aumentaram os tributos, assim como intensificaram a exploração, a opressão e a violência contra os camponeses, que constituíam 90% ou mais da população da Palestina. Era comum presenciar famílias inteiras sendo vendidas como escravos por causa de dívidas.

Infelizmente, os líderes religiosos de Jerusalém praticamente não fizeram nada diante da situação do povo, ao contrário, o desempenho deles visava seus próprios interesses e privilégios, obtendo lucro inclusive por meio da colaboração com o Império. Um dos relatos da época registra o abuso cometido pelo sumo sacerdote Ismael (59-61 d.C.):

Naquela época, o rei Agripa conferiu o sumo sacerdócio a Ismael, filho de Fiabi. Surgiu então mútua inimizade e luta de classe entre os sumos sacerdotes, de um lado, e os sacerdotes e líderes do populacho de Jerusalém, do outro […]. Era tamanha a falta de vergonha e a afronta da parte dos sumos sacerdotes, que descaradamente enviavam escravos à entrada de suas casas para receber os dízimos devidos aos sacerdotes, resultando daí que, sem nada ter, os pobres religiosos morriam de fome (Flávio Josefo apud Crossan e Reed, 2007, p. 235).1

Os governantes religiosos estavam envolvidos com extorsão e ladroeiras, transformando o Templo num “covil de ladrões” (Mc 11,17).

O povo vivia em completo abandono. Nesse caldeirão de tensões sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas, renascem e crescem os movimentos de resistência com visões escatológicas e apocalípticas do Reino de Deus: Deus intervém e transforma o mundo do mal, da injustiça e da violência num mundo de justiça e de paz. Os movimentos resultaram em duas grandes revoltas nos primeiros cem anos do domínio romano: no ano 4 a.C., com cerca de dois mil rebeldes que foram crucificados em Jerusalém, e em 66-73 d.C, na Guerra Judaica, com a destruição do Templo e da cidade de Jerusalém.

No primeiro século havia vários movimentos de resistência ao domínio romano.

Vejamos os que são conhecidos:

1) Banditismo judaico: os camponeses endividados e expulsos de suas terras se refugiavam nas montanhas e se juntavam aos salteadores. Atacavam as caravanas romanas e faziam incursões nas áreas fronteiriças. Pela informação de Flávio Josefo, historiador e colaborador de Roma, sobre o banditismo judaico da década de 30 d.C., “Salteadores que viviam em cavernas estavam devastando grande parte da zona rural e infligindo aos habitantes calamidades não menores que as de uma guerra” (G.J.1.304 – HORSLEY; HANSON, 1995, p. 76). Porém, os bandidos, na verdade, mantinham contato com os camponeses das aldeias, compartilhavam os mesmos valores culturais e religiosos e muitas vezes faziam justiça em favor dos habitantes locais. Geralmente, os habitantes, por sua vez, os apoiavam e arriscavam até sua vida para protegê-los. Na Galileia, esse movimento do banditismo era suficientemente forte para ameaçar e levantar-se em rebelião contra seus dominadores, judeus e romanos, e, com um líder bem-sucedido, o movimento tornava-se uma esperança escatológica para o povo explorado e empobrecido.

2) Movimentos messiânicos com reis populares: os camponeses em dificuldade juntavam-se a algum movimento messiânico com a liderança de um rei carismático. Eles sonhavam com um líder como o rei Davi e o “filho do homem” (Dn 7), que poderia estabelecer o reinado definitivo de Israel, derrotando os romanos e expulsando os governantes corruptos. Na época de Jesus, o povo seguia a vários “reis messiânicos”, como Judá, filho de Ezequias; Sião, ex-escravo de Herodes;

Atronges, um pastor etc.

3) Movimentos proféticos: no primeiro século, constata-se o renascimento de profetas com as características transmitidas na tradição bíblica (Elias, Amós, Oseias, Miqueias, Jeremias etc.). Eles, como João Batista, denunciavam as injustiças e anunciavam o julgamento iminente de Deus. Alguns deles inspiravam e lideravam até um movimento de revolta contra as autoridades, como no caso dos profetas samaritanos, por volta de 30 d.C.

Nesse contexto histórico de constante onda de revoltas populares, Jesus de Nazaré aparece diante do povo com a fama de ser um profeta.

  1. Jesus de Nazaré

Nem sempre é fácil descrever o Jesus históricoe sua vida. Nos evangelhos, misturam-se as atividades de Jesus e as interpretações feitas, posteriormente, pelas comunidades cristãs. Mas é inegável que Jesus é originário da aldeia de Nazaré e passou a maior parte da sua vida pregando, atuando e andando de uma aldeia para outra na Galileia. Seus atos, ensino, ditos e parábolas eram enraizados nas experiências da vida camponesa da sua terra.

Eis algumas práticas de Jesus que se diferenciavam da imagem oficial do messias daquele tempo (NAKANOSE, 2004, p. 115):

1) Jesus anuncia a Boa-nova, primeiramente, aos pobres da Galileia. Essa região não é, para a elite judaica, o lugar apropriado para a aparição do messias: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46).

2) Jesus critica a lei da pureza: Jesus vive no meio dos marginalizados, toca o leproso (Mc 1,41), come com os pecadores (Mc 2,15) e acolhe a mulher impura (Mc 5,25-34). O que ele está propondo é reincorporar os marginalizados na vida social, em vez de excluí-los pela Lei discriminatória.

Devolve-lhes a alegria de viver como gente! Essa atitude de Jesus desafia a imagem do Messias como mestre e guardião da Lei oficial, por quem os fariseus e os essênios esperavam (Mc

7,1-7).

3) Jesus não manda nas pessoas nem as domina, mas veio para servi-las (Mc 10,45). Essa prática não segue a regra do messias rei vitorioso que implanta o reinado de Deus mediante a violência e a dominação. A prática da libertação não se baseia no poder, mas no serviço.

Quem usa o poder para libertar o povo corre o risco de subjugá-lo com o mesmo poder (Mc 9,33-37; 10,42-45).

4) Jesus é descrito como o profeta Jeremias, desafiando as autoridades judaicas estabelecidas no Templo: “Não está escrito:

Minha casa será chamada casa de oração para todos os povos? Vós, porém, fizestes dela um covil de ladrões!” (Mc 11,17; Jr 7,11). Essa é a causa principal da ira das autoridades do Templo, considerado por muitos como o local onde o Messias se apresenta e começa a sua conquista e seu domínio triunfante (Lc 4,9).

A imagem do Messias que nasce da prática de Jesus se contrapôs à figura messiânica davídica poderosa esperada pelo povo judeu. Ele é o “servo sofredor” (Is 42,1-9), que prega e pratica um relacionamento social e religioso baseado no amor, na compaixão e na justiça, o que o leva a um confronto com as autoridades e, consequentemente, à cruz. O sofrimento e a morte de Jesus não são castigos nem projeto de Deus, mas consequência de sua prática da justiça e da solidariedade.

Os primeiros seguidores e seguidoras, que conseguiram compreender esse messianismo do servo após a morte de seu mestre e a experiência pascal, colocaram-se ao lado dos crucificados da sociedade para construir o Reino de Deus, do amor e da solidariedade.

Porém, foi difícil seguir o projeto do Jesus servo sofredor na sociedade greco-romana, controlada pelo Império que prega e busca poder, riqueza, posição social, honra, fama etc. É também muito grande a tentação de idealizar e pregar Jesus como rei triunfante e profeta poderoso nas dificuldades, como no momento da perseguição. A comunidade de Marcos não foi exceção. Ela enfrentou a crise de identidade: quem é Jesus e qual a sua missão nos movimentos de resistência existentes na Galileia contra o Império?

  1. A figura messiânica e a comunidade de Marcos

Após a morte de Herodes Agripa I (44 d.C.), a Judeia volta a ser província romana.

Com a perda da autonomia política da Judeia e a terrível fome no fim dessa década, a Palestina presenciou o aumento sucessivo dos movimentos violentos de resistência, atingindo seu ápice na Guerra Judaica de 66-73:

1) O banditismo aumentou em “proporções epidêmicas”. Os principais líderes carismáticos foram: Eleazar ben Dinai; Tolomau; Jesus, filho de Safias etc.

2) Os reis e os profetas messiânicos prometiam a libertação do jugo dos romanos e reuniam um enorme movimento popular: o rei messiânico Manaém, filho de Judas, o Galileu; o profeta “Egípcio” etc.

3) Os sicários, que apareceram na década de cinquenta d.C., sequestraram, assassinaram os aristocratas colaboradores dos romanos, provocaram agitações pela liberação judaica e, finalmente, aderiram aos grupos rebeldes na luta contra o Império de 66-70.

No fim da década de sessenta, toda a Palestina estava infestada de movimentos de revolta, agitando a comunidade de Marcos. A comunidade se juntaria à revolta armada com a bandeira do rei Jesus messiânico? A dúvida e indecisão da comunidade estão manifestadas em seu texto:

“Pois naqueles dias haverá uma tribulação tal, como não houve desde o princípio do mundo que Deus criou até agora, e não haverá jamais. E se o Senhor não abreviasse esses dias, nenhuma vida se salvaria; mas, por causa dos eleitos que escolheu, ele abreviou os dias. Então, se alguém vos disser: ‘Eis o Messias aqui’ ou ‘ei-lo ali’, não creiais. Hão de surgir falsos messias e falsos profetas, os quais apresentarão sinais e prodígios para enganar, se possível, os eleitos. Quanto a vós, porém, ficai atentos. Eu vos preveni a respeito de tudo” (Mc 13,19-23).

Quem é Jesus? A comunidade de Marcos trata do assunto do messianismo de Jesus de modo particular. Olhando, sobretudo, a

primeira parte do evangelho de Marcos (Mc 1,1—8,26), o leitor logo percebe as constantes ordens de silêncio, após a prática poderosa e libertadora de Jesus e à menção de seus títulos.

Eis a lista dessas ordens:

1) “Na ocasião, estava na sinagoga deles um homem possuído por um espírito impuro, que gritava, dizendo: ‘Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sei quem tu és: o Santo de Deus’. Jesus, porém, o conjurou severamente: ‘Cale-te e sai dele’. Então o espírito impuro, sacudindo-o violentamente e soltando grande grito, deixou-o” (Mc 1,23-25).

2) “Ao entardecer, quando o sol se pôs, trouxeram-lhe todos os que estavam enfermos e endemoninhados. E a cidade inteira aglomerou-se à porta. E ele curou muitos doentes de diversas enfermidades e expulsou muitos demônios. Não consentia, porém, que os demônios falassem,

pois eles sabiam quem era ele” (Mc 1, 32-34).

3) “Um leproso foi até ele, implorando-lhe de joelhos: ‘Se queres, tens o poder de purificar-me’. Irado, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: ‘Eu quero, sê purificado’.

E logo a lepra o deixou. E ficou purificado. Advertindo-o severamente, despediu-o logo, dizendo-lhe: ‘Não digas nada a ninguém; mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece por tua purificação o que Moisés prescreveu, para que lhes sirva de prova’” (1,40-44).

4) “Pois havia curado muita gente. E todos os que sofriam de alguma enfermidade lançavam-se sobre ele para tocá-lo. E os espíritos impuros, assim que o viam, caíam a seus pés e gritavam: ‘Tu és o Filho de Deus!’. E ele os conjurava severamente para que não o tornassem

manifesto’” (3,10-12).

5) “Tomando a mão da criança, disse-lhe: ‘Talítha Kum’ – o que significa: ‘Menina, eu te digo, levanta-te’. No mesmo instante, a menina se levantou, e andava, pois já tinha doze anos. E ficaram extremamente espantados. Recomendou-lhes então expressamente que ninguém soubesse o que tinham visto. E mandou que dessem de comer à menina” (5,41-43).

Lançando um olhar sobre essa lista e outros textos, podemos ter uma resposta parcial à pergunta que fizemos à comunidade de Marcos a respeito do messianismo: por que Jesus impõe o silêncio e não permite que as pessoas mencionem seus títulos? Antes de tudo, Jesus desfaz um equívoco: a pretensão do povo em transformá-lo num Messias poderoso e triunfante. Foi exatamente essa pretensão que penetrou e dominou a comunidade de Marcos.

Eles olhavam o céu, esperando e pedindo que Jesus interviesse logo no mundo para estabelecer seu reino glorioso e definitivo. Entretanto, ele adverte e se contrapõe à figura messiânica davídica triunfalista. Dessa maneira, a comunidade começa a orientar seus membros para o verdadeiro messianismo de Jesus e seu destino na segunda parte do seu evangelho,

que se inicia em Mc 8,27-38.

  1. “Tu és Cristo”

Jesus com os seus discípulos estão em viagem para Jerusalém, próximo a Cesareia de Filipe, cidade situada no extremo norte da Palestina, junto às fontes do rio Jordão. O nome anterior dessa cidade era Panion, pois

nela havia um local sagrado dedicado ao deus Pã (FREYNE, 2008, p. 53-54). Aí também havia um templo em honra de Augusto, construído por Herodes Magno. Herodes Filipe atribuiu à cidade o nome de Cesareia de Filipe, distinguindo-a de outras Cesareias.

No caminho, o evangelho de Marcos coloca a pergunta sobre a identidade de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc

8,27b). O caminho é o local do discipulado. A questão proposta não tem uma única resposta, até hoje as pessoas continuam tentando responder quem é Jesus. As diferentes respostas representam as várias tendências que havia na comunidade de Marcos acerca de Jesus.

Alguns acreditavam que Jesus era João Batista que tinha voltado. De acordo com a narrativa de Marcos, o próprio Herodes pensava dessa forma (Mc 6,16). Para outros, era Elias, uma figura do Antigo Testamento muito popular entre os judeus. Ele era considerado o iniciador do movimento profético.

A tradição afirmava que esse profeta tinha sido arrebatado aos céus e, segundo a crença, voltaria (2Rs 2,11). Ainda havia uma parcela da comunidade que acreditava que Jesus era um dos profetas.

A questão sobre a identidade de Jesus se desdobra em outra pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Pedro, representando um grupo que segue Jesus, responde: “Tu és o Cristo!” (Mc 8,29). Desde o início, o evangelho de Marcos apresenta a verdadeira identidade de Jesus. Na voz do narrador ouvimos a proclamação de “Jesus Cristo, Filho de Deus”

(Mc 1,1), em seguida pelo próprio Deus (Mc 1,11) e pelos demônios (Mc 1,25; 3,11; 5,7), somente agora pelos discípulos.

Embora a resposta de Pedro esteja certa, segue-se a ordem de silêncio. De fato, Jesus é o Messias, mas parece que a comunidade ainda não entendeu o seu messianismo, pois espera um messias glorioso e poderoso. O evangelho de Marcos apresenta que tipo de Messias é Jesus: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar” (Mc 8,31). Esse ensinamento será repetido em outras duas passagens: 9,31 e 10,32-34.

O texto evidencia que o seguimento de Jesus implica sofrimento e rejeição. O título “Filho do homem” ocorre muitas vezes no Antigo Testamento. Enquanto o título em Dn 7,13 é usado para designar “alguém como o rei Davi” que vem nas nuvens com poder e glória, o título como no livro de Ezequiel é, de modo geral, aplicado ao ser humano com suas fraquezas e limitações humanas. Nos sinóticos (Mc, Mt e Lc), o título “Filho do homem” é usado somente por Jesus. Quando o título é usado nos textos que mencionam a paixão e morte de Jesus, ele é aplicado para expressar a condição humana de fragilidade,

contrapondo-se à figura apocalítico-escatológica do messias davídico poderoso.

Anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas foram os representantes das autoridades de Jerusalém que tramaram a morte de Jesus:

“Enquanto ainda falava, chegou Judas, um dos doze, com uma multidão trazendo espadas e paus, da parte dos chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos” (Mc 14,43; cf. Mc 10,33; 11,18.28; 14,1; 15,1.31). A visão de um messias poderoso e triunfalista é substituída pela compreensão de um messianismo que passa pelo sofrimento e pela cruz. Um messias solidário com os crucificados da história.

O messianismo de Jesus está relacionado com rejeição, sofrimento e morte, conteúdo essencial de sua identidade messiânica. Havia em Israel a imagem do Servo de Javé (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13—53,12), porém, ainda não estava relacionada com o messias. O essencial desses cânticos é que o servo é chamado para o serviço da justiça, toma consciência do seu chamado e assume a missão. Por causa de sua fidelidade à justiça, é perseguido, resiste até o fim e por isso é morto, mas Deus aceita a sua oferta. As primeiras comunidades cristãs releram os cânticos de Isaías e viram em Jesus o Servo de Javé. Elas entenderam que o sofrimento do Filho do Homem não vinha das mãos de Deus, mas “dos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas”.

Pedro representa o grupo que não aceita essa visão e censura Jesus. Para muitos, a morte de Jesus na cruz era inaceitável. Nesse momento, a reação é violenta: “Arreda-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens” (8,33). Havia uma forte contestação contra Jesus na comunidade de Marcos. Em 3,22, ele é acusado de estar possuído por Beelzebu. A provocação de Pedro a Jesus lembra também a tentação de Jesus no deserto (Mc 1,12-13). Pedro não age como discípulo de Jesus, ao contrário, ele se torna porta-voz de Satanás. A palavra satã vem do hebraico e significa “adversário”.

A narrativa de Marcos 8,27-33 tinha os discípulos como destinatários. No v. 34, há uma mudança: o discurso agora é dirigido para a multidão juntamente com os discípulos. O convite para seguir Jesus apresenta três exigências: “negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34). Negar-se a si mesmo supõe superar o egoísmo e arriscar a vida por causa de Jesus e do Evangelho (Mc 8,35-37). A morte na cruz era extrema humilhação. A cruz era um instrumento de crueldade e desumanização e representava a opressão romana. No tempo dos romanos, era um castigo aplicado aos escravos e aos rebeldes. Um condenado à cruz tinha de carregar a própria até o lugar da crucifixão.

No caminho do discipulado, Pedro e os demais discípulos seguem Jesus e prometem fidelidade: “‘Mesmo que tivesse de morrer contigo, não te negarei’. E todos diziam o mesmo” (Mc 14,31). Porém, diante do perigo, Pedro nega conhecer Jesus para salvar a sua própria vida (Mc 14,67-72). O mesmo aconteceu com o homem possuidor de muitos bens e incapaz de atender o chamado de Jesus (Mc 10,21-22).

Negar Jesus e seu Evangelho pode ser um caminho de preservação da própria vida, mas a vida perde o seu sentido. De que adiantam riquezas e seguranças se a pessoa se fecha à solidariedade humana distanciando-se da fonte da vida? “Envergonhar-se de mim e de minhas palavras” significa distanciar-se de Jesus e do seu Evangelho e assumir a ideologia do Império. O questionamento de Jesus a seus discípulos e à multidão continua exigindo uma resposta: até que ponto nós assumimos o seguimento de Jesus hoje?

  1. Catecismo sobre o seguimento de Jesus

“Tome a sua cruz e siga-me”. O seguimento de Jesus é o caminho da cruz, que está na contramão da sociedade dominada pelo Império Romano e seus colaboradores. É uma sociedade organizada pelas relações humanas baseadas no levar vantagens, no poder e em privilégios. A comunidade cristã de Marcos, que professa Jesus de Nazaré como “Cristo”, não deve reproduzir as relações de poder na vida cotidiana, mas estabelecer relações de serviço e de comunhão.

Após o primeiro anúncio da paixão, a comunidade de Marcos descreve, em seu evangelho, as instruções sobre as relações internas da comunidade, introduzidas pelo segundo (Mc 9,30-32) e terceiro anúncios (Mc 10,32-34):

1) “E chegaram a Cafarnaum. Em casa, ele lhes perguntou: ‘Sobre que discutíeis no caminho?’. Ficaram em silêncio, porque pelo caminho vinham discutindo sobre qual era o maior. Então ele sentou, chamou

os Doze e disse: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos’” (Mc 9,33-35). Quem é o maior? Os discípulos ainda idealizam uma sociedade de poder, de riqueza e de privilégio que produz a segregação social. O caminho da cruz deve ser reproduzido nas relações humanas dacomunidade, baseada na vida de serviço sem interesse.

2) “Disse-lhe João: ‘Mestre, vimos alguém que não nos segue expulsando demônios em teu nome, e o impedimos porque não nos seguia’. Jesus, porém, disse: ‘Não o impeçais, pois não há ninguém

que faça milagre em meu nome e logo depois possa falar mal de mim. Porque quem não é contra nós é por nós’” (Mc 9,38-40). Mais uma vez, deparamo-nos com a concepção dos discípulos de uma sociedade segregacionista de poder. Eles não estão dispostos a partilhar o poder e o privilégio. Querem o monopólio e exclusividade no mistério da salvação.

Hoje se compreende que a prática missionária não é condenatória nem marcada por sectarismo. O cerne da missão é a promoção da justiça, liberdade e vida em todos os povos.

3) “Traziam-lhe crianças para que as tocasse, mas os discípulos as repreendiam. Vendo isso, Jesus ficou indignado e disse: ‘Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus. Em verdade vos digo: aquele que não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele’. Então, abraçando-as, abençoou-as, impondo as mãos sobre elas” (Mc 10,13-16).

No mundo greco-romano de produção e de ganho, a criança e o ancião são considerados inúteis (cf. Sb 2,5-11) e representam o grupo marginalizado. Mas o Reino, do ponto de vista de Jesus de Nazaré, é gratuidade de Deus, e nele as pessoas marginalizadas, que não são

consideradas, são acolhidas.

4) “Então Jesus, olhando em torno, disse a seus discípulos: ‘Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!’. Os discípulos ficaram admirados com essas palavras. Jesus, porém, continuou a dizer: ‘Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!’”

(Mc 10,23-25). A riqueza no Império Romano é fruto da acumulação de bens por meio da injustiça: fraudação, espoliação e violência (Ap 13; 18). Ao entrar no Reino de Deus, a comunhão com o Deus da vida, é preciso sair e combater essa sociedade de ambição e injustiça, que explora o próximo e a natureza. É necessário entrar no caminho da cruz de servir e de partilhar a vida.

5) “Tiago e João, filhos de Zebedeu, foram até ele e disseram-lhe: ‘Mestre, queremos que nos faças o que te pedimos’. Ele perguntou: ‘Que quereis que vos faça?’. Disseram: ‘Concede-nos, na tua glória, sentarmo-nos, um à tua direita, outro à tua esquerda’ […]. Ouvindo isso, os dez começaram a indignar-se contra Tiago e João. Chamando-os, Jesus lhes disse: ‘Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim: ao contrário, aquele que dentre vós quiser ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos’” (Mc 10,35-44). O projeto de Jesus não é ser servido, mas servir ao próximo. Assim, é rejeitada, definitivamente, a aspiração dos discípulos ao reino messiânico davídico no qual Jesus seria ungido como rei e assumiria o poder em Jerusalém.

Essa rejeição é também da comunidade de Marcos por volta do ano 70 d.C. Ela rejeita juntar-se às revoltas armadas dos vários líderes messiânicos e suas lutas por poder e privilégios.

O evangelho de Marcos registra três anúncios da paixão com o catecismo sobre o seguimento de Jesus na vida cotidiana da comunidade. Ao anunciar o catecismo do “caminho da cruz”, Jesus combate e corrige os discípulos que aspiram a poder e privilégio. É corrigida a aspiração messiânico-davídica ao poder de alguns membros da comunidade de Marcos. No caminho do seguimento de Jesus, ela deve empenhar-se em examinar sempre a natureza de sua missão no mundo.

A comunidade, como o cego Bartimeu (Mc 10,46-52), deve abrir os olhos, deixar o manto do “Filho de Davi”, messias como rei poderoso, e seguir o caminho da cruz do Jesus servo sofredor. Deve despojar-se de tudo o que o mundo de ambição ao poder, riqueza e fama, prega e busca: “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).

  1. Uma palavra final

Ontem e hoje persiste a pergunta: “Quem dizem os homens que eu sou?”. As respostas são várias e na comunidade de Marcos havia a imagem de uma figura messiânica davídica gloriosa já esperada pelo povo judeu. Quem é Jesus? Onde ele está? Como podemos segui-lo?

Uma das respostas para os nossos dias está na nossa realidade, em fatos como este do relato abaixo, feito por uma jornalista:

Minha filha caçula, orientadora pedagógica e psicóloga de crianças e adolescentes, chorou emocionada ao ouvir pelo rádio a entrevista que o estudante Vítor Soares Cunha deu ao sair do hospital, depois de ser agredido covardemente por jovens como ele. Vítor, 21, aluno de Desenho Industrial, passeava com um colega na Ilha do Governador, no Rio, quando viu cinco rapazes bem alimentados espancando um mendigo.

Filho de um assistente social, não pensou duas vezes ao tentar impedi-los. A violência irracional voltou-se contra ele. Foram socos e pontapés violentos e ininterruptos, atingindo, sobretudo, a cabeça e o rosto de Vítor, mesmo quando ele já estava caído no chão, totalmente indefeso. Depois de horas de cirurgias, placas de titânio na testa e no céu da boca, 63 pinos para recompor os ossos da face e ainda com o risco de perder os movimentos do olho esquerdo, Vítor saiu com sua mãe do hospital e disse, com uma simplicidade atordoante, que não se sentia heroico e que faria tudo novamente. Quem confessa Jesus de Nazaré como um dos caminhos para construir o Reino de Deus é chamado a segui-lo nas atividades cotidianas: ser solidário com os mais desprezados e rejeitados pelos poderes do mundo, seduzidos pela ambição das riquezas e honras que promovem a morte. Pois o Reino de Deus se constrói nos movimentos de solidariedade entre as pessoas no dia a dia da vida: conscientizar e promover a dignidade humana; defender a vida e a natureza.

A jornalista termina seu relato com esta reflexão:

“A comparação entre Vítor e seus agressores nos faz refletir. O Brasil e o mundo serão muito melhores quando pais e escolas educarem as crianças não para se arvorarem fortes e machos ao trucidar um ser humano – ou um animal – jogado na rua, no abandono e na dor”.

JESUS DE NAZARÉ,

crucificado E RESSUSCITADO

Uma leitura de Marcos (Mc 16,1-8)

Maria Antônia Marques*

Shigeyuki Nakanose, svd**

Luiz José Dietrich**

*ma-antonia@uol.com.br

**cbiblicoverbo@uol.com.br

***luzdietrich@ig.com.br

26

perseguido e morto pelos seus opositores.

Olhando de perto o tecido do texto da paixão

e morte de Jesus, redigido pela comunidade de

Marcos, por volta do ano 70 d.C., descobre-se

que ele foi morto como contestador e subversivo

pelas autoridades de seu tempo:

1) Os membros do Sinédrio prenderam

Jesus, interrogaram-no e entregaram

seu caso a Pilatos (Mc 14,43—15,1):

não há dúvida de que eles estão na lista

dos culpados pela morte de Jesus. Por

trás das acusações levantadas contra

Jesus aparecem suas palavras sobre a

estrutura religiosa vigente: a lei do puro

e do impuro, o Templo e o messianismo

davídico triunfalista que regulavam a

vida do povo judeu. Jesus projetou uma

nova sociedade, na qual o legalismo seria

substituído pela justiça e misericórdia, e

o Templo, pela casa de oração e partilha.

Por isso, foi visto como uma ameaça ao

poder religioso.

2) Os discípulos abandonaram Jesus, e

Pedro negou seu Mestre (Mc 14,50;

14,66-72): se esses atos não fossem de

fato históricos, dificilmente as primeiras

comunidades os atribuiriam a Pedro e

aos discípulos. O fato de os discípulos

fugirem transparece que eles não compreenderam

Jesus como o Messias Servo

no tempo pré-pascal. Os discípulos esperavam

Jesus como um messias poderoso,

um novo Davi, conforme era ensinado

e esperado por muitas das autoridades

religiosas da época.

3) Pilatos condenou Jesus à morte de cruz

como “rei dos judeus” (Mc 15,1-15):

é importante acentuar, antes de tudo,

que Jesus foi condenado a uma pena

que só um tribunal romano podia dar.

Isso é fundamental, porque nos leva a

confirmar a responsabilidade de Pilatos

e dos romanos pela morte de Jesus. O

título “rei dos judeus”, que foi fixado no

alto da cruz como a causa da sentença,

é mencionado em todos os evangelhos,

reforça a responsabilidade dos romanos.

Pilatos condenou Jesus à morte como

pretendente ao trono judeu e, portanto,

como rebelde contra a ordem e a tranquilidade

da pax romana.

4) Jesus é açoitado depois de condenado à

morte (Mc 15,15): os historiadores atestam

a frequência da flagelação como pena

acessória ao condenado à morte. Essa

pena, que parece ter sido reservada aos

não cidadãos entre os romanos, servia de

exemplo para demonstrar seu domínio e

poder sobre os súditos nas províncias. E

é certo que a flagelação e o sofrimento no

caminho para o Calvário enfraqueceram

Jesus e apressaram a sua morte.

5) Jesus morreu na cruz (Mc 15,37): na

literatura romana, a crucifixão tem

sua origem na Pérsia e era aplicada aos

oficiais, no período greco-romano é que

passou a ser usada para os escravos. Ela

é descrita como “crudelíssimo e horribilíssimo

suplício, e é uma penalidade

infligida aos escravos e aos habitantes

das províncias por faltas maiores, como

furto grave e rebelião”. Por sua crueldade,

o suplício da cruz foi visto, pelos

judeus, como “escândalo” e “maldição

de Deus”: “Se um homem, culpado de

um crime que merece a pena de morte,

é morto e suspenso em uma árvore, seu

cadáver não poderá permanecer na árvore

à noite; tu o sepultarás no mesmo dia,

pois o que for suspenso é um maldito de

Deus” (Dt 21,22-23).

Os textos bíblicos da Paixão e morte de

Jesus nos informam que ele morreu como

criminoso e subversivo. Sua morte foi consequência

de uma vida a serviço da justiça

levada ao seu extremo: “Jesus dizia: ‘Abba

[Pai]! Tudo é possível para ti: afasta de mim

este cálice; porém, não o que eu quero, mas o

que tu queres’” (Mc 14,36). A cruz de Jesus é

o resultado da sua fidelidade à missão do Pai

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 27

e compromisso com seus irmãos até o fim. É o

resultado do que ele pregou e do que ele fez.

E é exatamente por Jesus ter sido fiel ao

amor de Deus, e por ter testemunhado esse

amor até o fim, até a cruz, que a comunidade

de seus seguidores e seguidoras verá na cruz a

exaltação de Jesus como servo de Javé:

Ele, estando na forma de Deus,

não usou de seu direito de ser tratado

como um deus,

mas se despojou,

tomando a forma de escravo.

Tornando-se semelhante aos homens

e reconhecido em seu aspecto

como um homem,

abaixou-se,

tornando-se obediente até a morte,

a morte sobre uma cruz.

Por isso Deus soberanamente o elevou

e lhe conferiu o nome que está acima

de todo nome (Fl 2,6-9).

Um hino cristão antigo, citado por Paulo,

repete o mesmo esquema “humilhação/

exaltação” conhecido na tradição judaica,

por exemplo: “Deus ergue o fraco da poeira

e tira o indigente do lixo” (Sl 113,7-8; Sl

22). O indigente, condenado como impuro, é

salvo pelo amor e pela gratuidade de Deus. A

salvação não está no cumprimento da lei do

puro e do impuro, mas na prática da solidariedade,

por meio da qual o Deus da vida se

manifesta. Por isso, para os cristãos, Deus Pai

nunca abandona Jesus de Nazaré, que serve ao

povo com amor. Ele exalta Jesus crucificado,

um impuro, cujo nome é Jesus Cristo, Filho

de Deus (Mc 1,1).

Com essa convicção pós-pascal, a comunidade

de Marcos descreve a manifestação

gloriosa do Filho do Homem:

Naqueles dias, porém, depois daquela tribulação,

o sol escurecerá, a lua não dará

sua claridade, as estrelas estarão caindo do

céu, e os poderes que estão nos céus serão

abalados. E verão o Filho do Homem vindo

28 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

entre nuvens com grande poder e glória.

Então ele enviará os anjos e reunirá seus

eleitos, dos quatro ventos, da extremidade

da terra à extremidade do céu” (Mc

13,24-27).

Com a tradição apocalíptica judaica (Dn

7,9-27), a comunidade de Marcos manifesta

a sua fé na ressurreição de Jesus Cristo e na

chegada de um mundo novo por Ele prometido.

Porém, a mesma comunidade adverte que

essa espera pela manifestação plena do Reino

de Deus não deve ser passiva, mas ativa (Mc

13,28-36). Os seguidores e as seguidoras de

Jesus Cristo não podem se descuidar de suas

responsabilidades no seguimento de Jesus

no dia a dia: “O que vos digo, digo a todos:

vigiai!” (Mc 13,37).

“Cumpriu-se o tempo, e o Reino de Deus

está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho”,

escreve a comunidade de Marcos (Mc

1,15). O Reino de Deus pregado e semeado

por Jesus deve continuar sendo construído pela

prática da solidariedade e da comunhão com

os mais sofridos e explorados por uma realidade

excludente, que vive a busca desenfreada

do lucro, poder e privilégio. Os seguidores e

seguidoras de Jesus Cristo devem continuar a

missão do seu mestre, que exerceu seu ministério

a partir da periferia, da Galileia. Somente

assim, Jesus ressuscitado estará presente no

meio deles. Um jovem vestido com uma túnica

branca anuncia para as mulheres diante do

túmulo vazio: “Ide dizer aos seus discípulos e

a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá o

vereis, como vos tinha dito” (Mc 16,7).

  1. Jesus de Nazaré ressuscitado vos

precede na Galileia

Os evangelhos são unânimes em afirmar o

testemunho de mulheres que vão ao túmulo

de Jesus. Marcos cita Maria de Magdala e

Maria, mãe de Tiago, e Salomé (16,1). Mateus

menciona apenas duas mulheres: Maria

Madalena e a outra Maria (Mt 28,1). Na

lista de Lucas vemos Maria Madalena, Joana

e Maria, mãe de Tiago, e outras mulheres (Lc

24,10). Em João, apenas Maria Madalena

(Jo 20,1). Madalena é citada em todos, o que

indica que ela era uma referência importante

para as primeiras comunidades cristãs, principalmente

para a teologia da ressurreição e

para a continuidade do movimento de Jesus.

E mais: a morte de Jesus foi assunto de muita

conversa e reflexão na Igreja dos primórdios.

No evangelho de Marcos, a lista com nomes

de mulheres é citada pela terceira vez. Em

15,40, no momento da crucifixão, “estavam

ali algumas mulheres, olhando de longe. Entre

elas, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago,

o menor, e de Joset, e Salomé”. Em seguida, a

narrativa afirma: “Maria de Magdala e Maria,

mãe de Joset, observavam onde ele fora

posto” (Mc 15,47). O que pode indicar essa

lista, uma vez que o testemunho de mulheres

nem sempre era bem-visto? Os discípulos fugiram,

mas algumas mulheres permaneceram

até o momento da cruz e morte (cf. 15,40). É

possível que esse evangelho quisesse reforçar

que os excluídos é que seguem Jesus até o fim.

Após a prisão e a execução de Jesus na

cruz, as mulheres não o abandonaram, mas

continuaram a segui-lo. Segundo o evangelho

de Marcos, desde o início da narrativa,

elas também serviam (diakonein) a Jesus (Mc

1,31), e até após a sua morte. Ainda que o

seguimento dos homens (como Pedro, Tiago

e João) a Jesus desaparecesse, as mulheres

continuam sendo “diaconisas”, prestando

solidariedade e estando em comunhão com os

mais necessitados. Elas, como o cego Bartimeu

(Mc 10,46-52), são o símbolo do ser fraco e

desprezado, sem poder. São as pessoas marginalizadas,

que estão dependentes e vazias de

si mesmas, prontas para seguir o caminho de

Jesus, o servo sofredor, que se esvaziou para

servir aos outros até a cruz.

A descrição do evangelho de Marcos permite

concluir que o sepultamento de Jesus

foi apressado, pois já era tarde e véspera do

sábado, sem o tempo suficiente para os rituais

fúnebres. Por isso, algumas mulheres, após o

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 29

sábado, ou seja, após o pôr do sol, vão ao lugar

onde sepultaram Jesus para ungir o corpo

dele (Mc 16,1). Era costume dos judeus ungir

o corpo com uma mistura de mirra e aloés (cf.

Jo 19,39). A unção deveria ser feita antes do

sepultamento. Na realidade, não seria possível

abrir o túmulo depois de um dia e meio de

sepultamento.

Mal amanheceu o primeiro dia e as mulheres

foram ao túmulo. No coração, angústia e

preocupação: “Quem rolará a pedra da entrada

do túmulo para nós?” (Mc 16,3a). No

entanto, “viram que a pedra já fora removida”

(Mc 16,3b). De acordo com a mentalidade

bíblica, túmulo é símbolo da morte. Mas a

entrada está aberta. Há uma esperança.

As mulheres “viram um jovem sentado

à direita, vestido com uma túnica branca,

e ficaram cheias de espanto” (Mc 16,5). A

palavra grega ekthambeo só é utilizada nesse

evangelho e pode ser traduzida por pavor ou

espanto. Ela também é utilizada no contexto

da oração de Jesus no Gestsêmani para descrever

o seu estado de ânimo: ele “começou a

apavorar-se” (Mc 14,33).

No túmulo, o jovem encontra-se à direita:

a tradição acreditava que essa era a posição

do próprio Cristo: “vereis o Filho do Homem

sentado à direita do Poderoso e vindo com as

nuvens do céu” (Mc 14,62; cf. Mc 12,36). A

descrição do encontro entre o jovem e as mulheres

tem características de relato de anúncio:

o jovem é identificado com um anjo (cf. 2Mc

3,26), as vestes brancas indicam o mundo divino,

sua posição simboliza dignidade, palavras

de encorajamento às mulheres diante do medo

e a promessa.

As palavras do anjo contêm a afirmação de

fé das primeiras comunidades cristãs: “Procurais

a Jesus de Nazaré, o Crucificado. Ele ressuscitou,

não está aqui” (16,6; cf. At 2,23-24;

3,15; 4,10; 5,30; 10,40; 13,28-30). No grego,

está na voz passiva: “ele foi levantado (egerthê,

traduzido por ressuscitado). O mesmo verbo é

utilizado nos relatos de milagre nos quais Jesus

levanta os marginalizados, libertando-os para

participarem da vida social (Mc 1,31; 2,9 etc).

A ressurreição é a vida.

O túmulo vazio é um sinal da ação de Deus.

Um mistério que permanece até hoje. Não é

o túmulo vazio que prova a ressurreição de

Jesus, mas, sim, um encontro pessoal com o

ressuscitado. As palavras finais do Anjo são de

encorajamento: “Ide dizer aos seus discípulos

e a Pedro que ele vos precede na Galileia” (Mc

16,7). A ordem é ir para a Galileia. Voltar ao

começo, refazer o caminho.

A palavra do anjo inclui os discípulos e

Pedro. Na hora do aperto, os discípulos fugiram

e Pedro negou Jesus. Apesar das falhas, a

comunidade está aberta para todas as pessoas

que estão dispostas a seguir Jesus. É preciso

sempre voltar à Galileia, que, no evangelho

de Marcos, tem um destaque especial. É em

Cafarnaum que Jesus escolheu seus primeiros

discípulos e aí estabeleceu o local de sua

residência. Ele atuou no norte da Galileia e

na Decápolis. A Galileia é o espaço familiar

de Jesus, ao passo que Jerusalém é o lugar do

sagrado vinculado à Lei, à hierarquia, ao puro

e impuro, é o lugar da exclusão, de tudo o que

significa a rejeição ao projeto de Jesus. É preciso

distanciar-se de Jerusalém e reencontrar

Jesus na Galileia, no meio dos gentios.

Provavelmente, é a mesma razão que levou

o evangelho de Marcos a ser o único que utiliza

o título “Jesus de Nazaré” no relato da

ressurreição (Mc 16,6). A comunidade, que

se situava na Galileia e estava enfrentando

conflitos, por volta do ano 70 d.C., deu ênfase

ao local do ministério de Jesus. Ele era um

nazareno, viveu, testemunhou e implantou

seu projeto de amor e de solidariedade na sua

terra. Chamar “Jesus de Nazaré” e voltar à

“Galileia” são apelos fortes para retomar a

missão de Jesus, o servo sofredor.

Qual foi a resposta das mulheres? “Saíram

e fugiram do túmulo (…) E nada contaram a

ninguém, pois tinham medo” (Mc 16,8). Assim

terminava o evangelho de Marcos. Uma

30 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

história cujo fim fica para a imaginação de

quem está lendo o evangelho. Diante das curas

e milagres, a ordem é silenciar, e as pessoas

falam (Mc 1,44); agora, acontece o contrário:

a ordem é falar, e as mulheres silenciam.

A história se repete… Como os discípulos,

as mulheres também fugiram (14,50). Porém,

o silêncio delas, o medo e a fuga são diferentes.

São sentimentos e reações diante do seguimento

de Jesus: “Voltar para a Galileia – à prática

de Jesus”. Seguir Jesus de Nazaré implica

assumir o seu projeto, que provoca conflitos,

perseguições e até a morte. Isso significa deixar

as seguranças! Mas a esperança está aí na

ressurreição. Jesus ressuscitado continua presente

entre aqueles e aquelas que prosseguem

o seu caminho: ‘Ide dizer aos seus discípulos

e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá

o vereis, como vos tinha dito’” (Mc 16,7).

  1. Ressuscitar – Levantar no dia a dia

Não vos espanteis! Procurais Jesus de Nazaré.

O Crucificado. Ressuscitou [levantou-

-se], não está aqui. Vede o lugar onde o

puseram. Mas ide dizer aos seus discípulos

e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá

o vereis, como vos tinha dito (Mc 16,6-7).

O verbo traduzido para o português

como “ressuscitou”, no grego é egerthê, que

significa “foi levantado”. A comunidade das

seguidoras e seguidores de Jesus usa o mesmo

verbo tanto para falar da ressurreição de

Jesus, de como ele foi levantado de entre os

mortos, quanto para falar da ação de Jesus

entre as pessoas que com ele conviviam.

Principalmente entre aquelas que estavam

recaídas nas camas, paralíticas, atrofiadas,

sem vontade de viver, atormentadas por espíritos

impuros e cegas, daqueles e daquelas

que estavam como que “mortos” para a vida.

A ação de Jesus junto a essas pessoas foi de

levantá-las, ou de fazer com que se levantassem

para a vida de novo, que novamente

participassem da vida, que recomeçassem a

viver. Eis aqui alguns exemplos:

1) “E logo ao sair da sinagoga, foi à casa

de Simão e de André, com Tiago e João.

A sogra de Simão estava de cama com

febre, e eles imediatamente o mencionaram

a Jesus. Aproximando-se, ele a

tomou pela mão e a fez levantar-se. A

febre a deixou e ela se pôs a servi-los”

(Mc 1,29-31).

2) “Jesus, vendo sua fé, disse ao paralítico:

‘Filho, teus pecados estão perdoados’.

Ora, alguns dos escribas que lá estavam

sentados refletiam em seu coração: ‘Por

que está falando assim? Ele blasfema!

Quem pode perdoar pecados a não ser

Deus?’. Jesus imediatamente percebeu

em seu espírito o que pensavam em seu

íntimo, e disse: ‘Por que pensais assim

em vossos corações? Que é mais fácil

dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados

estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-

-te, toma o teu leito e anda?’ Pois bem,

para que saibais que o Filho do Homem

tem poder de perdoar pecados na terra,

eu te ordeno – disse ele ao paralítico –:

levanta-te, toma o teu leito e vai para tua

casa’” (Mc 2,5-11).

3) “E entrou de novo na sinagoga, e estava

ali um homem com uma das mãos

atrofiada. E o observavam para ver se

o curaria no sábado, para o acusarem.

Ele disse ao homem da mão atrofiada:

‘Levanta-te e vem aqui para o meio’”

(Mc 3,1-3).

4) “Chegaram à casa do chefe da sinagoga,

e ele viu um alvoroço. Muita gente

chorando e clamando em voz alta. Entrando

disse: ‘Por que esse alvoroço e

esse pranto? A criança não morreu; está

dormindo’. E caçoavam dele. Ele, porém,

ordenou que saíssem todos, exceto o pai

e a mãe da criança e os que o acompanhavam,

e com eles entrou onde estava

a criança. Tomando a mão da criança,

disse-lhe: Thalita kum, o que significa:

‘Menina, eu te digo, levanta-te’. No

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 31

mesmo instante, a menina se levantou,

e andava, pois já tinha doze anos. E ficaram

extremamente espantados” (Mc

5,38-42).

5) “Vendo Jesus que a multidão afluía,

conjurou severamente o espírito imundo,

dizendo-lhe: ‘Espírito mudo e surdo, eu

te ordeno: deixa-o e nunca mais entres

nele!’. E gritando e agitando-o violentamente,

saiu. E o menino ficou como

se estivesse morto, de modo que muitos

disseram que ele morrera. Jesus, porém,

tomando-o pela mão, ergueu-o, e ele se

levantou” (Mc 9,25-28).

6) “E muitos o repreendiam, para que se

calasse. Ele, porém, gritava mais ainda:

‘Filho de Davi, tem compaixão de mim!’.

Detendo-se, Jesus disse: ‘Chamai-o!’.

Chamaram o cego, dizendo-lhe: ‘Coragem!

Ele te chama. Levanta-te’. Deixando

o manto, deu um pulo e foi até Jesus.

Então, Jesus lhe disse: ‘Que queres que eu

te faça?’. O cego respondeu: ‘Rabbuni!

Que eu possa ver novamente!’. Jesus lhe

disse: ‘Vai, tua fé te salvou!’. No mesmo

instante, ele recuperou a vista e o seguia

no caminho” (Mc 10,48-52).

Segundo os evangelhos, havia muitas pessoas

a serem levantadas para a vida. Por que

isso acontecia? Aqui devemos ter presente

o contexto em que Jesus e as primeiras comunidades

viveram e atuaram. O elemento

principal desse contexto é a dominação pelo

Império Romano. Isso implicava uma pesada

carga de tributos e impostos sobre todas as

pessoas. Grande parte da produção e dos frutos

dos trabalhos do povo dominado ia parar

nas mãos das autoridades romanas e de seus

aliados judeus. À carga representada pelo domínio

imperial romano somava-se a carga dos

impostos, tributos, sacrifícios e oferendas que

os judeus deviam fazer ao Templo de Jerusalém

e às autoridades da religião oficial da Judeia.

Juntos, esses tributos retiravam mais de 60%

dos produtos do trabalho do povo da Judeia

e da Galileia. Assim, a maioria da população

vivia em estado de pobreza e muitos, sem

acesso à terra, endividados e sem trabalho

fixo, viviam na miséria.

A situação social de exploração e de pobreza

generalizada era agravada pela teologia

oficial dominante, que acrescentava aos sofrimentos

dos pobres a culpa por sua pobreza. A

teologia da retribuição dizia que a pobreza e

a riqueza eram dadas por Deus. Segundo essa

teologia, a riqueza era vista como uma bênção

que Deus dava para os justos, como recompensa

por sua justiça; e a pobreza, a doença, os

sofrimentos eram vistos como uma maldição

de Deus, destinada aos pecadores e impuros.

Isso sobrecarregava as pessoas pobres, doentes

e excluídas, pois, além das dores advindas de

sua situação social, ainda sofriam com o peso

da vergonha e da culpa por serem vistas como

pecadoras.

Uma das consequências fortes dessa compreensão

de Deus é que causa e estimula a

insensibilidade diante das pessoas pobres,

injustiçadas e sofredoras: elas são vistas como

causadoras dos seus próprios sofrimentos,

como quem está pagando por seus próprios

pecados e erros. O Deus da lei do puro e impuro,

do Templo e da teologia da retribuição,

em vez de incentivar a solidariedade, estimula

a culpabilização e a exclusão. É um Deus

insensível aos gritos das pessoas pobres, das

pessoas que sofrem injustiças e violências:

“O órfão é arrancado do seio materno, e a

criança do pobre é penhorada. Da cidade

sobem os gemidos dos moribundos, e suspirando

os feridos pedem socorro, e Deus não

ouve a sua súplica” (Jó 24,9-12). O Deus da

teologia da retribuição não ouve, não vê, não

conhece, e nada faz para diminuir as dores

dos oprimidos.

É nesse contexto que devemos compreender

a prática de Jesus e também das comunidades

de Marcos, de Paulo e dos outros evangelhos.

Inclusive em muitos casos, quando os evangelhos

descrevem Jesus realizando determinados

atos e atitudes, na verdade se estão legitiman32

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

do práticas realizadas pelas comunidades em

nome de Jesus.

Mas as práticas das comunidades certamente

enraízam-se na prática e nas atitudes

de Jesus. No contexto dominado pela teologia

da retribuição, Jesus certamente mostra outro

rosto de Deus: “Assim que ele desembarcou,

viu uma grande multidão e ficou tomado

de compaixão por eles, pois estavam como

ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Jesus vê com

os olhos do Deus do Êxodo, que vê, ouve,

conhece e desce para libertar (Ex 3,7).

Jesus e a comunidade de seus seguidores e

seguidoras não enxergam as pessoas com os

óculos da teologia da retribuição. Esses óculos

impedem de vê-las como pessoas, mas, sim,

como pecadoras e culpadas por seus próprios

sofrimentos, por isso elas não devem ser acolhidas

e sim penalizadas e excluídas. De acordo

com essa mentalidade, as pessoas consideradas

pecadoras são as causadoras de suas próprias

desgraças, que podem recair sobre quem delas

se aproximar: “Por que ele come com os pecadores

e publicanos?” (Mc 2,16). Essas pessoas

estão como mortas para Deus… Precisam ser

ajudadas a se levantar novamente, precisam

ser levantadas para a dignidade, para a vida…

E era isso o que Jesus fazia. Ao fazer isso,

também resgatava e revelava o verdadeiro

rosto de Deus.

No ambiente agitado dos anos próximos

da Guerra Judaica, em que visões triunfalistas

do messias davídico talvez tenham feito alguns

discípulos que esqueceram da solidariedade

com os empobrecidos e começaram a adorar

Jesus como um rei poderoso, o que está implícito

na forma como o evangelho descreve

suas reações frente aos anúncios da paixão

(cf. Mc 8,31-33; 9,30-34; 10,32-37). Havia

grupos que estavam olhando mais para Jesus

todo-poderoso do que para as pessoas ao seu

redor. Os pequeninos estavam sendo esquecidos

e ignorados.

Mas as comunidades que estão por trás

do evangelho de Marcos, ao apontar para

Jesus como o servo de Javé, e ao mostrar Jesus

recriminando essas atitudes (Mc 8,34-35;

9,35-37; 10,41-45), também nos recriminam

severamente. Jesus não quer ser adorado como

um rei ou um Deus poderoso. Ao fixarmos demasiadamente

nossos olhos e nossos corações

nessa imagem de Jesus e de Deus, corremos

o risco de não ver nem ouvir os gemidos e

as dores dos pobres e injustiçados ao nosso

lado… E com isso Jesus ressuscitado não mais

se manifesta entre nós. Olhando para essas

partes do evangelho de Marcos, podemos

nos dar conta de que estamos preocupados

em demasia em cultuar a Jesus no altar ou no

trono, esquecendo-nos de que o testemunho

de sua ressurreição não está no culto, mas no

serviço, no serviço que liberta, que resgata a

dignidade das pessoas, que transmite vida, que

levanta as pessoas injustiçadas e oprimidas.

  1. Uma palavra final: A ressurreição

de Jesus está entre nós

Jesus ressuscitado é a presença que continua

entre aqueles que dão seguimento ao seu

caminho. Jesus ressuscitado está presente nas

pessoas, comunidades e movimentos que promovem

a solidariedade e a comunhão com os

mais explorados e empobrecidos pelos poderes

do mundo seduzidos pela ambição do poder,

riqueza e privilégio.

O testemunho de Jesus ressuscitado e sua

ressurreição chegam até nós hoje e, principalmente,

às pessoas que sofrem por causa

das injustiças e das desigualdades sociais, da

violência sexual, do machismo, das discriminações

étnicas e religiosas, quando assumimos

a prática de Jesus. Damos esse testemunho

quando fazemos crescer o Reino de Deus entre

nós, por meio da solidariedade, da luta contra

as injustiças e no cuidado da vida. A ressurreição

se manifesta quando o seguimento a

Jesus nos faz sermos mais humanos, solidários,

sensíveis às injustiças e às desigualdades,

dispostos à partilha e a uma atitude política

mais generosa, que promova igualdade de

oportunidades.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 33

Todos nós somos chamados e chamadas a

abrir os olhos, ouvidos e o coração, e a movimentar

nossas pernas e mãos para reforçar

a luta contra as desigualdades e injustiças

sociais, as violências e discriminações… E a fazer

isso de modo concreto, engajando-nos em

grupos que já estão nesse projeto, ou reunindo-

-nos para assumir a luta por melhorias nos

hospitais, postos de saúde e escolas públicas,

por remunerações mais dignas e por melhores

condições de trabalho para todas as pessoas

e procurando estabelecer relações cuidadosas

e responsáveis frente a todas as formas de

vida e à diversidade dos ecossistemas, sem

os quais a vida não existe. Jesus ressuscitado

está presente entre nós e experimentamos e

testemunhamos a sua ressurreição à medida

que construímos uma sociedade de vida, e de

vida em abundância para todos e todas.

Ao fazermos isso, estaremos sendo discípulos

e discípulas de Jesus, o crucificado,

mas que está vivo. E é para isso que ele nos

chama: “Coragem! Ele te chama. Levanta-te!”

(Mc 10,49).

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL. Seguir Jesus:

Os evangelhos. São Paulo: CRB/Loyola, 1994.

DOMINIC CROSSAN, J.; REED, J. L. Em busca de Jesus. São

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Greek Text. Grand Rapids, Michigan/Cambridge: Wm B.

Eerdmans Publishing CO, 2002.

FREYNE, S. Jesus, um judeu da Galileia. São Paulo: Paulus,

2008.

GAMELEIRA SOARES, S. A.; CORREIA JÚNIOR, J. L. Evangelho

de Marcos. V.I:1-8: refazer a casa. Petrópolis/RJ:

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HORSLEY, R. A.; HANSON, J. S. Bandidos, profetas e messias:

Movimentos populares no tempo de Jesus. São Paulo:

Paulus, 1995.

KOESTER, H. Introdução ao Novo Testamento. Vol. 2. História

e literatura do cristianismo primitivo. São Paulo: Paulus,

2005.

MYERS, C. O evangelho de São Marcos. São Paulo: Paulus,

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In: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. N.

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se revela?. In: CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO

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SCHIAVO, L.; DA SILVA, V. Jesus, milagreiro e exorcista. São

Paulo: Paulinas, 2002.

34 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

SUGESTÕES PARA A LITURGIA

Ir. Veronice Fernandes, pddm*

2 DE SETEMBRO – 22º DOMINGO

DO TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Por vários domingos escutamos o evangelho

segundo João, que fala da multiplicação

dos pães. Hoje, retomamos o evangelho de

Marcos, que nos revela pouco a pouco quem

é Jesus.

Nesta celebração, o Mestre ensina a valorizarmos

o essencial. Tudo o que serve para o

crescimento é aceitável. As normas, as leis são

úteis enquanto estão no plano de Deus, que é

de vida e salvação.

Será preciso mudar as atitudes a partir de

dentro, pois é o que sai do interior da pessoa

que a contamina. Que possamos mudar de

atitudes formalistas para a religião do coração,

como Jesus praticou e ensinou.

  1. Sugestões para a celebração:
  • O ato penitencial pode ser um momento

bem apropriado para avaliar nossa

prática cotidiana.

  • Neste mês da Bíblia, é importante valorizar

a escuta da Palavra.

  • Praticar a leitura orante diariamente,

seguindo os seus passos: leitura, meditação,

oração e contemplação. Essa

prática, como afirma o papa Bento XVI:

“(…) é verdadeiramente capaz não só de

desvendar ao fiel o tesouro da Palavra

de Deus, mas também de criar o encontro

com Cristo, Palavra divina viva…”

(Verbum Domini, n. 87).

  • Preparar bem os/as leitores/as para

proclamar e a assembleia para ter ouvido

de discípula; valorizar os livros

litúrgicos que contêm a Palavra de Deus

(o lecionário e o evangeliário), como

afirma o Elenco das leituras da missa:

“Os livros de onde se tiram as leituras

da Palavra de Deus, assim como os ministros,

as atitudes, os lugares e demais

coisas lembram aos fiéis a presença de

Deus que fala a seu povo. Portanto, é

preciso cuidar que os próprios livros,

que são sinais e símbolos das realidades

do alto na ação litúrgica, sejam verdadeiramente

dignos, decorosos e belos”

(nº 35).

  • Valorizar o ambão (mesa da Palavra) de

onde “são proferidas somente as leituras,

o salmo responsorial e o precônio

pascal; também se podem proferir a

homilia e as intenções da oração universal

ou oração dos fiéis” (Introdução

ao Lecionário, n. 309).

* Provincial das irmãs Pias discípulas

do Divino Mestre no Brasil, mestra em Teologia,

com especialização em Liturgia. É membro do Centro

de Liturgia, da Equipe de Reflexão da Pastoral Litúrgica

da CNBB e trabalha como assessora nos cursos

de formação litúrgica.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 35

  • Iniciando, hoje, a semana da pátria, levar

na procissão de entrada a bandeira

brasileira; na prece dos fiéis, rezar pelo

povo brasileiro, lembrando as diversas

realidades e desafios existentes.

9 DE SETEMBRO – 23º DOMINGO DO

TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Hoje celebramos a Páscoa de Cristo que se

manifesta na vida do surdo-gago. Jesus, vendo-

-o, se compadece de sua situação e abre-lhe

os ouvidos e a boca. Jesus é o cumprimento

da promessa, o Verbo encarnado, Palavra da

Salvação. Abre os olhos dos cegos, os ouvidos

dos surdos, faz erguer o caído, ama os pobres

e faz justiça aos oprimidos.

No contexto do evangelho de Marcos, os

discípulos de Jesus têm dificuldade de compreender

a proposta do Mestre.

Como discípulos atentos, escutemos a Palavra

de vida e salvação. Que ela nos abra os

ouvidos e a boca para acolhermos a revelação

no coração e na vida.

  1. Sugestões para a celebração:
  • Valorizar o livro das leituras, levando-o

ladeado com velas durante a procissão

de abertura.

  • Antes da proclamação das leituras, pode

ser cantado um refrão para proporcionar

a escuta, como, por exemplo: “Desça

como a chuva, a tua palavra, que se espalhe

como orvalho, como chuvisco na relva,

como aguaceiro na grama. Amém”.1

  • Após a homilia, se for conveniente,

convidar as pessoas a tocarem quem está

próximo, dizendo: “Abre-te e anuncia a

Palavra do Senhor”.

  • Como fruto da escuta e prática da Palavra

de Deus, na coleta fraterna, levar

produtos não perecíveis para partilhar

com as pessoas necessitadas.

  • No final da celebração, dar uma bênção

especial às pessoas que vão partilhar os

mantimentos com os necessitados.

  • Lembrar que no dia 14 é a festa da Exaltação

da Santa Cruz e dia 15 é memória

de N.S. das Dores.

16 DE SETEMBRO – 24º DOMINGO DO

TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Neste domingo, Jesus se revela como o

Servo-Filho, aquele que vai sofrer muito, ser

rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes

e doutores da Lei; ser morto, e ressuscitar

em três dias. Chegamos, com ele, a um ponto

decisivo: vai passar pelo sofrimento e a morte

para realizar seu desígnio de salvação, não tem

outra saída, mesmo que isso seja motivo de

escândalo para os seus seguidores.

Para o discípulo de Jesus, há uma única escolha:

aceitar a cruz e segui-lo. A fé é traduzida

em obras, ou então ela é morta.

Com o coração renovado e nutrido nas

mesas da fraternidade, da Palavra e da Eucaristia,

nos propomos vencer a tentação do

sucesso e do triunfo e aprender a viver de um

jeito mais pascal.

  1. Sugestões para a celebração:
  • Destacar a cruz que será levada na procissão

de abertura.

  • No início da celebração, “tocamos o

nosso corpo em forma de cruz. Esse

‘toque’ tem um sentido simbólico e espiritual

profundo. Por ele, no fundo, testemunhamos

que, pelo mistério pascal

(cruz e ressurreição) fomos (e somos!)

‘tocados’ pelo amor da Trindade”. É importante

fazer esse gesto de uma forma

bem consciente e numa atitude espiritual

condizente com o significado do rito.

  • Toda a comunidade pode renovar sua

adesão a Cristo, fazendo sua profissão

de fé à semelhança da Vigília Pascal,

dialogada, com a renovação das promessas

batismais e o rito da aspersão

acompanhado do canto: “Banhados

em Cristo, somos uma nova criatura.

As coisas antigas já se passaram, somos

nascidos de novo”.

36 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

  • Na bênção final e na despedida, enfatizar

a missão de renunciar a si mesmo, tomar

a cruz e seguir a Jesus, o Messias-Servo.

  • Dia 21 de setembro é festa de São Mateus,

apóstolo.

23 DE SETEMBRO – 25º DOMINGO

DO TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

No evangelho de hoje, lemos o texto do

segundo anúncio que Jesus faz de sua paixão

e morte.

Os discípulos ainda se encontram “cegos”,

pois, não obstante o anúncio da cruz, eles continuam

a raciocinar de acordo com a lógica humana.

Jesus, porém, não desiste de ensiná-los,

de exortá-los. O caminho para compreendê-lo

e segui-lo: o serviço, a humildade, o acolhimento

aos pequenos, ou seja, aos pobres. É o

mistério da Kenosis (esvaziamento).

Há ainda muito a aprender. O caminho se

fez caminhando. Estejamos atentos para ouvir

e praticar a Palavra de Jesus. Que saibamos

vencer a prepotência e ambição que impedem

a adesão ao projeto de Jesus.

  1. Sugestões para a celebração:
  • As pessoas que exercem diferentes serviços

na comunidade podem fazer parte

da procissão de abertura.

  • Pode ser feita a bênção aos pequeninos2

antes de dar a bênção para toda a assembleia:

O(a) presidente chama todas

as crianças e convida a comunidade a

estender as mãos sobre elas e a rezar em

silêncio. Depois conclui:

Deus de bondade, teu filho Jesus mandou-

-nos acolher o menor.

Seguindo sua palavra, nós te pedimos:

abençoa nossos irmãos e irmãs menores.

Sê para eles compaixão e força. E dá a todos

nós a graça de construir comunidades e sociedades

que sempre respeitem as crianças

e valorizem o seu papel.

Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Segue-se um canto, enquanto os(as) ministros(

  1. as) fazem o sinal da cruz nas crianças.

Lembrar que no dia 26 é memória dos

mártires Cosme e Damião; dia 29 é festa dos

arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael.

30 DE SETEMBRO – 26º DOMINGO

DO TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Hoje, prosseguindo a leitura do evangelho

de Marcos, Jesus continua ensinando seus

discípulos e indicando-lhes as exigências para

quem quer caminhar com ele até o calvário.

Exige-se dos discípulos o máximo de abertura

para os que estão fora da comunidade (cf. vv.

38-40) e um acolhimento para com os pequenos

e excluídos por serem de Cristo, sem ser

motivo de escândalo para eles (9,41-50).

A Palavra de Deus é verdade, orienta, dá

vigor e nos santifica. Seus ensinamentos de

sabedoria nos convidam a abrir o coração e a

mente para a universalidade da salvação. Não

podemos prender Deus. O Reino de Deus é

maior que nós. O Espírito do Senhor não tem

fronteiras nem limites.

  1. Sugestões para a celebração:
  • Convidar para a celebração, se possível,

irmãos e irmãs de outras igrejas ou denominações.

  • Hoje é dia da Bíblia para os católicos.

Preparar bem a mesa da Palavra.

  • Fazer procissão com o livro no início

da celebração. Se a comunidade tiver

o evangeliário, é bom usá-lo: “O leitor,

que pode conduzir um pouco elevado o

evangeliário (…)” (IGMR 120).

  • Cantar um refrão meditativo antes da

escuta. Pode ser: “Tua Palavra é lâmpada

para os meus pés, Senhor. Lâmpada

para os meus pés e luz. Luz para o meu

caminho…”.

  • Dar especial atenção a toda a Liturgia

da Palavra.

  • A Eucaristia como sacramento da unidade

e da comunhão eclesial nos leva a um

empenho ecumênico e inter-religioso.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 37

  • Pode ser rezada a oração eucarística

para Diversas Circunstâncias I – A unidade

da Igreja.

  • As palavras do rito de envio podem

estar em consonância com o mistério

celebrado. Tenham um coração aberto

e solidário. Lutem contra a fome, a

miséria e a injustiça. Vivei em contínua

conversão. Ide em paz e que o Senhor

vos acompanhe.

  • Dia 1º de outubro, fazemos memória

de Santa Terezinha e dia das Pessoas da

Terceira Idade. Dia 2, fazemos memória

dos Santos Anjos da Guarda e lembramos

o massacre na casa de detenção no

Carandiru, em São Paulo, onde morreram

111 pessoas.

No dia 2 de outubro, é aniversário de nascimento

de Gandhi e dia Internacional da Não-

-Violência (declarado pelas Nações Unidas).

No dia 3 de outubro, lembramos o martírio de

André de Soveral, Ambrósio Francisco Forro e

28 companheiros, mártires do Rio Grande do

Norte. Dia 5, fazemos memória de São Benedito.

7 DE OUTUBRO – 27º DOMINGO

DO TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Continuando a instruir os seus discípulos,

Jesus, fiel à aliança com Deus Pai, assumindo

todas as consequências desse pacto até o fim,

convida-os a enxergar que a relação amorosa

entre o homem e a mulher é o mais forte sinal

da sua aliança com a humanidade.

Na celebração do mistério pascal de Cristo,

nós, Igreja-esposa, renovamos nossa aliança com

Jesus Cristo, o Esposo fiel. Em seu corpo e sangue

entregues, sinais eloquentes da nova e eterna

aliança, nós somos fortalecidos na capacidade

de doação e fidelidade nas relações fraternas,

em todos os âmbitos e espaços, com o coração

simples, acolhedor e puro de uma criança.

Anunciando e proclamando esse grande

mistério, na celebração e na vida, renovamos

a nossa relação profunda com Deus, Uno e

Trino, com as pessoas, com toda a criação

e, de maneira particular, com os pequenos e

pobres, como nos ensina Jesus no evangelho.

  1. Sugestões para a celebração:
  • Alguns casais e algumas crianças podem

entrar na procissão de abertura. A

cruz processional é carregada por um

casal.

No final, dar uma bênção aos casais: O(a)

coordenador(a) convida os casais a se aproximarem

do altar e a se darem as mãos. Convida

toda a assembleia a um momento de oração

e depois reza:

Deus, criaste homem e mulher

à tua imagem e semelhança e lhes entregaste

o universo inteiro para que cuidassem dele

com sabedoria.

Abençoa os casais de nossa comunidade,

fortalece a sua união,

ajuda-os a superar os conflitos.

Para que em tudo teu nome seja glorificado.

Por Cristo, nosso Senhor. Amém.3

  • Sugerimos a oração eucarística IV.
  • Dia 12 é festa de N. Sra. Aparecida,

padroeira do Brasil, e Dia das Crianças.

14 DE OUTUBRO – 28º DOMINGO

DO TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Neste domingo, a Palavra de Deus exige de

nós uma opção. Há, diante de nós: o caminho

de Deus, da Palavra que é viva, eficaz, cortante;

o caminho de Jesus, que é da renúncia,

do desprendimento das riquezas, dos bens…

Há também outros caminhos que não são o

da vida.

O jovem que Jesus encontra deseja fazer

alguma coisa para ganhar a vida eterna. As

exigências são mais fortes do que ele imagina:

é preciso se desfazer dos bens e dar o dinheiro

aos pobres. O jovem não é capaz de fazer a

opção de seguir Jesus.

Proclamando e recordando essa palavra

de vida e salvação, somos chamados a rever o

nosso relacionamento com os bens materiais.

38 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

É-nos pedido o máximo de abnegação: “Uma

só coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e

dá aos pobres” (10,17-27).

  1. Sugestões para a celebração:
  • Após a homilia, a comunidade toda pode

assumir um compromisso bem concreto.

Dia 16 é Dia Mundial da Alimentação.

A comunidade poderia assumir um compromisso

concreto, colaborando para a

erradicação da fome.

  • Valorizar o gesto da fração do pão, “(…)

que por si só designava a Eucaristia nos

tempos apostólicos, manifestará mais

claramente o valor e a importância do

sinal da unidade de todos, num só pão,

e da caridade fraterna, pelo fato de um

único pão ser repartido entre os irmãos”

(IGMR 321).

  • Pode ser dada uma bênção especial aos

professores presentes na celebração,

lembrando que no próximo dia 15 faremos

memória de Santa Tereza de Ávila

e é Dia do Professor.

  • As palavras do rito de envio podem estar

em consonância com o mistério celebrado:

Vai, vende tudo o que tens e dá aos

pobres. Ide em paz e que o Senhor vos

acompanhe.

  • Dia 17 fazemos memória de Santo Inácio

de Antioquia e dia 19 de outubro

recordamos madre Teresa de Calcutá,

servidora dos pobres.

21 DE OUTUBRO – 29º DOMINGO

DO TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Hoje, o Mestre faz o terceiro anúncio de

sua paixão e se depara, mais uma vez, com a

incompreensão de seus discípulos. O caminho

da cruz é inevitável, exige renúncias das

riquezas, como vimos no domingo passado.

Egoísmo e ganância não são condizentes com

o jeito de ser do Servo de Deus.

No caminho de iniciação ao seguimento de

Jesus, o discípulo vai assimilando, aos poucos,

o jeito de ser messiânico de Jesus. O Senhor

propõe radicalidade no seguimento: tomar a

cruz a cada dia, beber o mesmo cálice que ele

vai beber e ser servo de todos.

Como afirma a carta aos Hebreus: “Aproximemo-

nos, então, com toda confiança, do

trono da graça, para conseguirmos misericórdia

e alcançarmos a graça de um auxílio

oportuno” (4,16). Que o Senhor, Servo e Justo,

venha em auxílio de nossas fraquezas e nos

capacite a sermos servos e darmos a vida em

favor dos irmãos e irmãs.

Nossa comunhão e prece com todos os

missionários e as missionárias, que, a exemplo

de Jesus, são servidores do Reino.

  1. Sugestões para a celebração:
  • Hoje, Dia das Missões e da Mística do

Serviço, é importante valorizar os diversos

ministérios presentes na comunidade.

Que a celebração seja expressão de uma

Igreja missionária e servidora com seus

diversos serviços e ministérios. Cada um,

segundo o que lhe compete, coloca seus

dons e carismas em comum, assumindo

a mística do serviço. Somos muitos, há

diversidade de dons, mas o espírito é o

mesmo. Todos, unidos e reunidos, formamos

o corpo de Cristo.

  • Na procissão de entrada, valorizar a

cruz, sinal da entrega de Jesus.

  • Após a homilia, todos os batizados e

principalmente os ministros, servidores,

missionários podem renovar seu compromisso

de servir.

  • Antes da bênção final a toda a comunidade,

dar uma bênção especial para

os missionários e ministros da comunidade.

28 DE OUTUBRO – 30º DOMINGO

DO TEMPO COMUM.

  1. O mistério que celebramos:

Depois de ensinar aos discípulos a mística

do serviço, Jesus continua seu caminho rumo

a Jerusalém. Hoje, o ensinamento se dá mais

uma vez por meio da cura de um cego. O filho

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 39

de Timeu, Bartimeu, cego, mendigo, mesmo

perante a repreensão de muitos que queriam

calá-lo, grita por Jesus e vai ao seu encontro.

Curado por Jesus, o que não enxergava, segue-o

pelo caminho.

Sem a cruz, é impossível entender quem

é Jesus e o que significa segui-lo. É preciso

fazer a “entrega de si” (8,35), aceitar “ser o

último” (9,35), “beber o cálice e carregar sua

cruz” (10,38), não repetir os esquemas de reis

e poderosos, e ser “servidor de todos” (10,43-

44). Quem for capaz de aceitar as exigências

do seguimento, conseguirá enxergar e seguirá

Jesus no caminho, como o cego Bartimeu. Só na

fé é possível ver claramente e seguir a Jesus no

caminho que leva a salvar a vida, perdendo-a.

Hoje, somos convidados a deixar as seguranças

e os medos e ir ao encontro do Mestre

Jesus, seguindo-o até a morte e morte de cruz.

  1. Sugestões para a celebração:
  • Com confiança renovamos nossa fé no

Senhor, que nos tira da escuridão, nos liberta

do medo e nos traz de volta à vida.

Após a homilia, toda a comunidade, se

for oportuno, antes da profissão de fé,

Notas:

  1. S uplemento do Ofício Divino das Comunidades; refrãos

meditativos. São Paulo, Apostolado Litúrgico. Também

gravado em CD.

  1. P. CARPANEDO e M. GUIMARÃES. Dia do Senhor:

Guia para as celebrações das comunidades. Tempo

comum, Ano B. São Paulo: Paulinas/Apostolado Litúrgico,

  1. 174.
  2. P. CARPANEDO e M. GUIMARÃES. Dia do Senhor:

Guia para as celebrações das comunidades. Tempo

comum, Ano B. São Paulo: Paulinas/Apostolado Litúrgico,

  1. 186.

pode receber a luz: Acendem-se as velas

dos fiéis, e quem preside, tomando ou

tocando o círio pascal, reza: Deus vos

tornou luz em Cristo. Caminhai sempre

como filhos e filhas da luz, para que,

perseverando na fé, possais seguir o

Senhor (cf. RICA).

  • Em comunidades menores, a oração

dos fiéis pode ser espontânea, de modo

que o povo exerça o seu sacerdócio

batismal, e a comunidade possa rezar

a própria realidade.

  • No dia 30, lembramos Santo Dias, operário

e ministro da comunhão, defensor

da causa operária. Dia 2 é a comemoração

de todos os fiéis falecidos.

centro bíblico verbo

Um centro de estudos que há mais de vinte anos está a serviço do povo de Deus, desenvolvendo uma leitura

exegética, comunitária, ecumênica e popular da Bíblia. O Centro Bíblico Verbo oferece cursos regulares de

formação bíblica, em diferentes modalidades.

Cursos intensivos

Especialização em Bíblia – Primeiro e Segundo Testamento

Mestrado

Estudos de temas específicos

Línguas do mundo bíblico (hebraico e grego)

Retiro bíblico

Cursos extensivos

Introdução ao Primeiro e Segundo Testamento (um sábado por mês)

Hebraico e Grego (semanal)

Especialização e Aperfeiçoamento (semanal)

Cursos nas paróquias e outras entidades

Além dos cursos realizados na sede do Centro Bíblico Verbo, a equipe presta assessoria às dioceses, paróquias,

comunidades, grupos de reflexão, colégios, congregações religiosas e outras entidades, no Brasil e

em outros países.

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Tel.: (11) 5181.7450

E-mail: contato@cbiblicoverbo.com.br ou cbiblicoverbo@uol.com.br

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40 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

22º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(2 de setembro).

A PALAVRA DE DEUS: VIDA PARA TODOS

  1. INTRODUÇÃO GERAL

A Palavra de Deus tem o objetivo de promover

a vida para todas as pessoas. É o tema

central das leituras desse domingo, o primeiro

do mês dedicado à Bíblia. Somos herdeiros de

uma tradição de fé na qual Deus revelou seu

plano de amor e salvação para toda a humanidade.

O povo de Israel, desde a sua origem,

faz a experiência desse amor de Deus, sente

sua presença libertadora e procura acolher o

seu projeto. Através das palavras colocadas

na boca de Moisés (I leitura), Deus adverte

para a importância da prática de normas e

estatutos para garantir as condições de vida

e dignidade na terra prometida. Mais tarde,

essas normas e estatutos foram interpretados

segundo os interesses do sistema sacerdotal

de pureza. Virou legalismo excludente contra

o qual Jesus se posiciona. Seu ensinamento e

sua prática seguem por outro caminho: é do

coração de cada um de nós que vem o discernimento

para o bem ou para o mal (Evangelho).

A Palavra de Deus é caminho, verdade e vida.

A carta de Tiago insiste sobre a necessidade

de ouvi-la com atenção e colocá-la em prática,

renunciando a toda “imundície e malícia” (II

leitura). Quem segue com docilidade a Palavra

de Deus possui a vida em si mesmo, livra-se

da corrupção do mundo e solidariza-se com as

pessoas que passam por dificuldades.

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Dt 4,1-2.6-8): Normas

e estatutos que garantem a vida

O acontecimento do Êxodo com a organização

do povo de Israel em tribos, na terra

prometida, sempre foi recordado pelas sucessivas

gerações. Em cada época histórica, a

memória do passado funciona como uma luz

a iluminar o sentido do presente e projetar

um futuro melhor. Esse é também o objetivo

da I leitura da liturgia de hoje. O discurso colocado

na boca de Moisés antes de entrar na

terra prometida visa aprofundar a importância

das normas e estatutos que garantem a vida

de liberdade e de paz para o povo.

Sabemos que o povo de Israel se formou

no processo de caminhada de libertação da

escravidão do Egito. Diversos grupos de

marginalizados uniram-se ao redor do mesmo

sonho. Fizeram a experiência de fé em Deus

vivo e libertador. Identificaram-se como “povo

de Deus”. Na terra de Canaã, organizaram-

-se em tribos e nela puderam viver orientados

por leis estabelecidas a partir das descobertas

feitas na convivência durante o Êxodo e no

processo de organização na nova terra. São

normas e estatutos que orientam desde as relações

familiares até as tribos como um todo.

Abrangem princípios econômicos (= a terra é

de Deus e seus frutos devem ser partilhados

ROTEIROS HOMILÉTICOS

(Também na internet: http://www.paulus.com.br)

Celso Loraschi*

* Mestre em Teologia Dogmática com Concentração

em Estudos Bíblicos pela Faculdade de Teologia

Nossa Senhora da Assunção, São Paulo. Especialização

em Teologia Bíblica. Professor de Evangelhos Sinóticos

e Atos dos Apóstolos no Instituto Teológico

de Santa Catarina. Assessor do CEBI/SC.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 41

segundo a necessidade de cada família), princípios

políticos (= descentralização do poder e

corresponsabilidade nas decisões) e princípios

ideológico-religiosos, com fidelidade ao projeto

libertador de Deus, cujo centro é a defesa e

a promoção da vida.

Sabemos também que o regime tribalista

em Israel, que durou mais ou menos 200 anos

(de 1250 a.C. a 1050 a.C.), foi sucedido pela

monarquia. As normas e os estatutos foram

modificados segundo os interesses dos reis.

Nesse sentido, o texto de Deuteronômio pode

ser visto como uma denúncia a essas modificações

que fortalecem um sistema político que

oprime o povo. O ensinamento oficial não é

o mesmo de Moisés, isto é, não corresponde

mais ao ideal de uma sociedade justa. Deuteronômio,

então, resgata a autoridade do

maior representante da Lei, que é Moisés, e

atualiza a memória de suas palavras: “Nada

acrescentareis ao que eu vos ordeno, e nada

tirareis também: observareis os mandamentos

do Senhor vosso Deus tais como vo-los prescrevo”.

Uma grande nação não se faz com

poder centralizado, nem com um forte exército,

nem com uma economia que privilegia

um pequeno grupo. Uma grande nação se faz

pela promoção da justiça social, onde todas

as pessoas têm condições de viver bem. As leis

que defendem esse ideal devem ser respeitadas.

  1. Evangelho (Mc 7,1-8.14.15.21-23):

A lei inscrita no coração

Jesus sabe onde pisa. Conhece o sistema

que rege a vida dos seus conterrâneos. Sabe

quem são e como se comportam os agentes

desse sistema. Desde o início de seu ministério

público, deixou claro o seu posicionamento:

veio para resgatar a vida roubada pelas imposições

absurdas do poder político e religioso

que imperava na Palestina. O Evangelho deste

domingo relata uma das controvérsias entre

Jesus e o grupo dos ideólogos do sistema de

pureza: fariseus e escribas.

Através dessa controvérsia, deduz-se como

o ensinamento oficial exercia pressão permanente

sobre o cotidiano da vida das pessoas

comuns. A lei deveria ser um caminho que

garante o bem-estar de todas as pessoas e

proporciona uma convivência respeitosa.

Para os escribas e fariseus, porém, tornou-se

o meio de controle de todas as ações de cada

pessoa. Como o texto de Marcos nos mostra,

os casuísmos chegavam ao extremo de obrigar

as observâncias nos mínimos detalhes, como

os de lavar as mãos até o cotovelo antes de

comer o pão “e muitos outros costumes…”.

Ensinavam que essa era uma “tradição dos

antigos” e, portanto, revestia-se de um caráter

sagrado. Não podia ser violada.

A tradição dos antigos, porém, assim como

era apresentada no tempo de Jesus, não correspondia

ao sentido original da lei de Moisés.

Originalmente, a lei em Israel visava a manutenção

de uma sociedade baseada na justiça,

na liberdade e na paz, como foi no tempo do

tribalismo. A tradição dos antigos havia sido

modificada pelos rabinos judeus a partir da

organização do sistema sacerdotal de pureza.

Ao redor do grande símbolo religioso que é o

Templo de Jerusalém, os rabinos fizeram sua

própria interpretação da lei mosaica e acrescentaram

uma grande quantidade de outras

normas, impondo um peso insustentável sobre

o povo. Não se podia viver normalmente

sem infringir alguma dessas normas. Era uma

maneira coercitiva de manter o povo na dependência

dos interesses do grupo que controlava

o sistema do templo.

O texto mostra que qualquer infração era

cobrada. Em todo lugar havia “espiões”. Podemos

imaginar o que sentia uma pessoa do

povo diante das exigências religiosas oficiais e

de sua impossibilidade de cumpri-las. Leve-se

em conta que esses ensinamentos eram incutidos

desde a infância. Eram “mandamentos

humanos” que não honravam a Deus.

A infração dos discípulos de não lavar as

mãos antes da refeição e a cobrança dos fariseus

e escribas transformaram-se em ocasião

propícia para Jesus oferecer um outro ensinamento

e indicar um outro modo de viver

o cotidiano. A pessoa, para honrar a Deus e

prestar-lhe um culto digno, não precisa estar

atrelada a um sistema de leis que oprime e

exclui. Deve, sim, prestar atenção à lei inscrita

por Deus em seu coração. É do interior

de cada um de nós que saem as boas ou más

intenções, as que nos tornam puros ou impuros.

Deus mora em nós e do mais profundo

de cada pessoa ele indica o caminho a seguir.

Podemos rejeitar as suas indicações e manter-

-nos fechados em nosso egoísmo. A conduta

de cada um de nós revela se seguimos a Deus

ou as “intenções malignas: roubos, assassínios,

42 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

prostituição, adultério, ambições desmedidas,

arrogância…”.

  1. II leitura (Tg 1,17-18.21b-22.27):

Docilidade à Palavra

A carta de Tiago revela um dos principais

empenhos existentes nas comunidades cristãs

primitivas: ouvir e praticar a Palavra. Jesus

se tornou o caminho da salvação. O ensinamento

e a prática de Jesus agora são a nova

lei a ser seguida. Jesus é a Palavra da Verdade

que liberta e salva. Não basta, porém, sermos

ouvintes que logo esquecem. É necessário sermos

praticantes.

Percebe-se que Tiago está atento ao comportamento

que algumas pessoas da comunidade

estão demonstrando: há sinais de

“imundície” e de “malícia”. Isso significa que

o jeito de viver que deveria caracterizar os seguidores

de Jesus não está sendo levado a sério

por alguns. “Imundície” é próprio de quem

adota atitudes sujas: injustiça, exploração,

mentira, falsidade, corrupção e tantas outras

coisas próprias de pessoas egoístas. Também

o termo “malícia” denota o comportamento

de uma pessoa que se deixa conduzir pelo mal.

No texto, encontra-se a advertência: “Deixem

de lado qualquer imundície e sinal de malícia”.

Eis o que Tiago propõe aos cristãos do seu

tempo e a nós, hoje: “Recebam com docilidade

a Palavra que lhes foi plantada no coração e

que pode salvá-los”. Aqui, percebemos uma

íntima ligação com o Evangelho de hoje: é de

dentro do coração de cada um que provêm

tanto as coisas boas como as más. É necessário

prestar atenção ao que Deus fala dentro

de nós. A Palavra é Jesus e seu Evangelho.

Recebê-la com docilidade significa renunciar

a toda espécie de imundície e de malícia e

optar em fazer o bem uns aos outros como

Jesus nos ensinou.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A Palavra de Deus visa garantir a vida de

todas as pessoas. O povo de Israel tinha consciência

de que a sociedade deve ser organizada

de acordo com o plano de Deus. A terra foi-lhe

dada por Deus a fim de que nela todas as tribos

pudessem conviver como uma só família. Por

isso, estabeleceram “normas e estatutos” para

viver na liberdade e promover a dignidade e a

paz social. Terra prometida + mandamentos

de Deus = vida sem exclusão. Pode-se refletir

sobre os princípios irrenunciáveis para uma

vida feliz tanto na família como na sociedade…

A Palavra de Deus no coração de cada

pessoa. Jesus ensinou a prestar atenção ao que

Deus revela no coração de cada um de nós.

Aí está inscrita a sua vontade. Tiago exorta:

“Recebam com docilidade a Palavra que lhes

foi plantada no coração e que pode salvá-

-los”. É preciso aprender a discernir o que é

bom e ser fiel ao plano de Deus, evitando toda

“imundície e malícia” do mundo moderno…

Pode-se refletir sobre a importância da Bíblia

como Palavra de Deus, fundamental para a

formação de uma boa consciência em vista de

uma sociedade justa e fraterna.

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(9 de setembro).

FÉ EM DEUS: AMOR AOS POBRES

  1. INTRODUÇÃO GERAL

A fé em Deus implica em amar prioritariamente

as pessoas empobrecidas. É o tema

central das leituras da liturgia deste segundo

domingo do mês dedicado à Bíblia. Deus se

revelou ao povo de Israel como libertador de

todos os males que afligem a vida humana.

O profeta Isaías, inserido numa realidade de

marginalização e sofrimento do povo, torna-se

o anunciador da esperança militante, capaz de

transformar a tristeza em alegria, a fraqueza em

força, o medo em confiança (I leitura). Afinal,

Deus jamais abandona o povo que sofre. Jesus,

o Filho de Deus, solidariza-se com a dor das

pessoas doentes e excluídas e oferece-lhe a cura

e a libertação (Evangelho). Deixando-nos tocar

pela sua graça, recuperamos a integridade do

nosso ser. A carta de Tiago lembra que numa

comunidade cristã não pode haver acepção de

pessoas. Pelo contrário, deve-se acolher com

todo carinho as que são pobres e sem fama

(II leitura). Assim como Deus Pai revelou-se

sempre próximo e atencioso com as pessoas

sofredoras, e assim como Jesus assumiu a dores

da humanidade, também nós, como filhos de

Deus e irmãos de Jesus, somos instados a ser

coerentes: a fé em Deus implica no amor prioritário

às pessoas em situação de necessidade.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 43

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Is 35,4-7a): “Sede fortes,

não temais!”

O movimento profético de Isaías I (cap.

1-39) situa-se pelo final do século VIII a.C.

Internamente, o regime monárquico produziu

frutos amargos para o povo de Israel. Onde

deveria ser promovido o direito, o que apareceu

foi a injustiça; onde deveria ser garantido

o bem-estar do povo, o que se ouviu foram

gritos de desespero (Is 5,7). Além da opressão

interna, o exército assírio, pelo ano 722 a.C.,

invadiu e destruiu o Reino do Norte com sua

capital, a Samaria, deportando muita gente

(cf. 2Rs 17) e, em 701, tomou Jerusalém e as

cidades da região sul, impondo altos impostos

e mais opressão sobre o povo (cf. 2Rs 18).

Isaías é testemunha desses acontecimentos e

profetiza a partir do lugar social das vítimas

do poder tanto interno como externo.

A profecia exerce uma função muito importante

no meio das pessoas que sofrem a

opressão política e econômica. Através das

palavras proféticas, Deus manifesta seu amor e

sua solidariedade com o povo. É um Deus sensível,

um pastor cheio de ternura, o protetor

das pessoas indefesas. Deus é o padrinho dos

pobres, o redentor dos oprimidos, o resgatador

da dignidade humana.

O texto é um anúncio de uma boa notícia

que revigora os fracos e encoraja os desanimados.

Deus fala aos corações conturbados

dizendo para serem fortes e não temerem. Os

poderosos deste mundo podem oprimir, mas

não podem impedir a intervenção amorosa de

Deus em favor dos oprimidos. “Ele vem para

salvar!”. Os cegos e os surdos recobrarão a

capacidade de ver e ouvir, libertos da ideologia

dominante. Os coxos poderão andar, e

os mudos poderão falar com a liberdade de

filhos de Deus. A terra seca será regada com a

água da justiça que produz frutos de vida em

abundância para todos. Enfim, a Palavra de

Deus provoca a esperança militante e incute

um novo ânimo para a construção de um

mundo de paz e de fraternidade. É importante

nos deixar invadir pela palavra profética,

libertando-nos de todas as amarras que nos

impedem de abraçar com consciência e liberdade

nossa missão no mundo.

  1. Evangelho (Mc 7,31-37): “Ele fez tudo bem!”

Esse texto do evangelho de Marcos mostra

uma das ações de Jesus em terra estrangeira. Ele

vem trazer a salvação a todos os povos. Os seus

discípulos estão com Jesus, porém manifestam

uma grande dificuldade de entender os seus

ensinamentos e o seu modo de agir. Alimentam

a expectativa de que Jesus manifeste em algum

momento todo o poder de um messias triunfalista,

dominando os inimigos e restabelecendo

o reino de Israel. Eles não entendem por que

Jesus vai pregar o seu evangelho e realizar ações

de libertação no meio dos estrangeiros, pessoas

consideradas impuras conforme o ensinamento

dos fariseus; não entendem o significado da

multiplicação dos pães, têm o coração endurecido,

têm olhos e não veem, têm ouvidos e

não ouvem. Na verdade, os discípulos estão

totalmente contaminados pelo “fermento dos

fariseus e de Herodes”, isto é, pela ideologia do

poder religioso e político (cf. Mc 8,14-21).

Podemos perceber, então, qual é a intenção

de Marcos ao relatar a cura do surdo-gago.

Os verdadeiros surdos são os discípulos de

Jesus, que, apesar de estarem na companhia

do Mestre, ouvirem os seus ensinamentos e

verem a sua prática, ainda não entendem que

tipo de Messias é Jesus. São surdos e cegos. E

ainda são gagos: porque não entendem quem

é Jesus, também não conseguem anunciar o

seu Evangelho com lucidez.

A cura do surdo-gago se dá na Decápole (região

de dez cidades), situada além do rio Jordão,

fora do país da Palestina. Nesse episódio, essa

região representa todos os países estrangeiros

para os quais os discípulos serão enviados para

anunciar o Evangelho de Jesus e continuar a sua

obra. Para isso, precisam ser libertados do seu

nacionalismo exclusivista. Devem abrir os ouvidos

para acolher a nova proposta de Jesus, diferente

daquela dos escribas e fariseus. Portanto,

a narrativa da cura do surdo-gago é mensagem

diretamente dirigida aos discípulos de Jesus no

tempo em que Marcos escreve seu evangelho (ao

redor do ano 70), e também é mensagem dirigida

a todos nós, hoje, pois também podemos nos

deixar influenciar pela ideologia dominante, que

nos torna surdos aos apelos de Deus e gagos por

falta de convicção e coragem de seguir e anunciar

o seu Evangelho.

É importante perceber a maneira como Jesus

cura o surdo-gago. Primeiro, ele o leva para

44 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

longe da multidão, depois coloca os dedos nas

suas orelhas, em seguida toca-lhe a língua com

sua saliva e, por fim, levanta os olhos para o

céu, geme ou suspira profundamente, e pronuncia

a palavra que liberta: “Abre-te”. Esse

processo revela que, para ser discípulo de Jesus,

é necessário afastar-se da ideologia dominante

que massifica a consciência; é necessário deixar-

-se conduzir pela mão do Mestre, permitir que

ele o toque com sua graça e que a vida divina

(simbolizada pela saliva de Jesus) penetre a

vida humana. Assim, a pessoa torna-se capaz

de entender Jesus, de viver o seu Evangelho e

de anunciá-lo com toda convicção.

Ao ver a prática de Jesus, as pessoas exclamavam:

“Ele fez tudo bem!”. Assumindo

a missão que lhe foi confiada, Jesus alimenta

sua íntima amizade com o Pai (com os olhos

voltados para o céu) e permanece solidário

com as dores do próximo (geme e suspira profundamente),

indicando-lhe o caminho da vida

em plenitude. Assim, ele fazia todas as coisas

bem-feitas. A amizade com Deus e a solidariedade

com o próximo são o que caracteriza o

jeito de ser do discípulo missionário de Jesus.

  1. II leitura (Tg 2,1-5): Não fazer acepção

de pessoas

A carta de Tiago foi escrita no final do século

I e dirigida às “doze tribos da Dispersão”,

isto é, ao novo povo de Deus formado pelas

comunidades cristãs primitivas espalhadas pelo

Império Romano. Percebe-se que, no meio

dessas comunidades, existem condutas que não

condizem com o Evangelho de Jesus. Uma delas

diz respeito à relação com os pobres, conforme

indicação do texto deste domingo. Até quando

se reúnem para as celebrações litúrgicas constatam-

se atitudes de discriminação intoleráveis

para um cristão. Há líderes ou recepcionistas

que acolhem as pessoas ricamente vestidas

dando-lhes atenção privilegiada e oferecendo-

-lhes lugares confortáveis. Com os pobres, no

entanto, o tratamento é outro…

Tiago é um animador cristão que conhece

a maneira como Deus se revelou na tradição

de fé judaica: acolhendo e libertando os oprimidos.

Conhece também o ensinamento de

Jesus e sua proposta do Reino aos simples

e pequeninos: “Atentai para isso, amados

irmãos: Não escolheu Deus os pobres em

bens deste mundo para serem ricos na fé e

herdeiros do Reino que prometeu aos que o

amam?”. Como seguidor de Jesus, Tiago não

usa de meias palavras ao advertir os membros

da comunidade a respeito dessa conduta que

contradiz a fé. Ele se revela como um discípulo

que não é cego, nem surdo e nem gago. Tem

clareza e convicção de sua missão. Uma Igreja

fiel ao Evangelho de Jesus não poderá jamais

abdicar da opção preferencial pelos pobres.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A fé em Deus manifesta-se no amor às

pessoas que sofrem. Por isso, uma das dimensões

que caracterizam a missão da Igreja

no mundo é a dimensão profética. Deve

renunciar ao espírito de poder-dominação

para solidarizar-se com as pessoas oprimidas

e promover a justiça. Deve deixar-se conduzir

pelo espírito de Deus e anunciar a esperança

militante aos sofredores e abatidos, a fim

de que se tornem protagonistas de um novo

mundo. Como a dimensão profética está sendo

vivida em nossas comunidades eclesiais? Que

tipo de “acomodações” devem ser rompidas

para manter a fidelidade ao projeto de Deus?…

Mudar de mentalidade para seguir a Jesus.

Os discípulos tiveram muita dificuldade de entender

e seguir a Jesus com liberdade e convicção.

Jesus dedicou-se para curá-los de sua situação

de surdos-gagos. Ajudou-os a se libertarem

da ideologia dominante e ofereceu-lhes um novo

modo de pensar e de agir. É muito importante

que nós tenhamos consciência de nossa condição

de seguidores de Jesus: nós o conhecemos de

fato? Ou o transformamos à imagem de nossas

conveniências? Nós o seguimos e o anunciamos

com convicção pelo testemunho de vida, pelas

palavras honestas e pelas ações em favor do

próximo necessitado? Em que tipos de discriminações

incorremos hoje em dia? O que nos diz

a Palavra de Deus a esse respeito?

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(16 de setembro).

FÉ E SEGUIMENTO

  1. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras deste terceiro domingo do mês

dedicado à Bíblia sugerem uma reflexão sobre

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 45

a fé em Deus e a fidelidade ao seu plano de

amor. Na primeira leitura, o profeta Isaías

Segundo apresenta-se como o porta-voz do

povo que sofre no Exílio da Babilônia e faz a

experiência do amor terno e eterno de Deus.

Conserva o ouvido aberto aos apelos divinos

e o coração dócil às suas palavras. Mesmo

perseguido, caluniado e desprezado, guarda

a certeza do socorro que vem de Deus. Por

isso, permanece de pé diante das dificuldades

e resiste com coragem às investidas dos

seus opositores. Essa firmeza se alicerça na

convicção de fé no Deus que se manifestou

na história de Israel como libertador de toda

a opressão. O Evangelho de hoje indica em

que consiste a fé em Jesus: não basta a confissão

explícita de que ele é o Cristo. É preciso

renunciar a si mesmo, renunciar a toda mentalidade

triunfalista e segui-lo no caminho

da cruz. Na segunda leitura, Tiago, em tom

definitivo, esclarece: “A fé, se não tiver obras,

está totalmente morta”. São palavras de Deus

que iluminam os nossos passos e fortalecem o

nosso ânimo no seguimento de Jesus dentro

dos desafios da atualidade.

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Is 50,5-9a): O socorro vem

do Senhor

Esse texto de Dêutero Isaías faz parte do

terceiro cântico do servo sofredor. O servo é

o povo exilado que, dentro de sua situação de

dor e de abandono numa terra estranha, sente-

-se amado e protegido por Deus. Não é só isso.

Descobre que Deus lhe confia uma missão de

ser a “luz para os povos”. Essa descoberta se

dá porque o povo sofredor aguça os ouvidos

ao plano de Deus, que é contrário ao plano

dos opressores. É Deus quem abre os ouvidos

para que sua palavra de esperança e de alegria

seja acolhida por aqueles que se tornam seus

discípulos. E os discípulos não se fecham, nem

se tornam rebeldes e nem recuam diante do

que Deus lhes revela. Mesmo quando perseguidos,

permanecem firmes; quando ameaçados

de serem batidos, oferecem as costas; quando

lhes arrancam os fios da barba ou são cuspidos

e injuriados, não desviam o rosto.

Essa resistência só é possível para quem põe

sua plena confiança em Deus. Identificam-se

como seus “servos sofredores”, que não usam

46 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

da mesma arma dos violentos e vingativos.

A fé em Deus e a confiança incondicional no

seu amor dão aos seus servos a capacidade de

resistir até à morte se preciso for, sem jamais

abdicar da atitude da não violência e do perdão.

Não é passividade, nem covardia! É a

verdadeira coragem de quem tem uma lúcida

consciência do que significa ser fiel à vontade

divina. Por isso, esses servos de Deus, conforme

Isaías expressa nesse cântico, não se sentem

humilhados por agirem desse modo. Eles

têm a certeza de que não serão confundidos

porque vivem e agem pela mesma causa que

é defendida por Deus.

Os projetos de Deus se realizam na história

humana através das pessoas fracas que nele

colocam toda a confiança. Somente quem

experimentou a fraqueza e o sofrimento sabe

o quanto necessita da ajuda divina. E Deus

não decepciona. Ele se compraz com os pequeninos,

anda no meio deles, mora neles e

manifesta-se ao mundo através deles. Por meio

de pessoas limitadas, Deus revela ao mundo o

seu amor sem limites.

  1. Evangelho (Mc 8,27-35): O caminho

da cruz

O Evangelho deste domingo sinaliza o

momento em que Jesus inicia uma “virada”

no seu ministério público. Até aqui, Jesus realizou

muitos sinais de libertação, normalmente

seguido por uma multidão de pessoas. Os

discípulos, porém, apesar de acompanharem

Jesus de perto, de ouvirem seus ensinamentos

e de testemunharem sua prática, não conseguem

entender verdadeiramente quem é

Jesus. Permanecem na cegueira, contaminados

pelo “fermento dos fariseus e de Herodes”,

arrastados pela ideologia do poder. Por isso,

a partir de agora Jesus vai mudar de estratégia

para ocupar-se, de maneira especial, da

tarefa de educar seus discípulos e revelar-lhes

sua verdadeira identidade e sua missão neste

mundo. O evangelho de Marcos traduz essa

estratégia de Jesus em forma de uma viagem

pedagógica, rumo a Jerusalém, conforme poderemos

perceber com mais clareza nos textos

dos próximos domingos.

Há uma variedade de opiniões no meio

do povo a respeito de quem é Jesus. Porém,

é especialmente dos seus discípulos que Jesus

deseja saber: “E vós, quem dizeis que eu sou?”.

Pedro responde corretamente: “Tu és o Cristo”.

Logo a seguir, no entanto, Pedro torna-se

“satanás”, tentando impedir que Jesus cumpra

sua missão por um caminho nada convencional.

Ao invés de vencer os inimigos, Jesus

“será vencido” por eles. Pedro não consegue

admitir que seu messias-líder esteja assim tão

à mercê dos que já se posicionaram contra o

seu projeto, o caluniaram e o ameaçaram de

morte: os anciãos, os chefes dos sacerdotes e

os escribas. Sente-se, então, na obrigação de

dissuadir a Jesus dessa decisão absurda de ir a

Jerusalém para ser perseguido e morto.

Pedro é o representante dos discípulos.

Eles seguem a Jesus com a ideia de que seja

um messias que venha finalmente realizar as

expectativas de vingança contra seus inimigos e

manifestar toda a sua força e glória. Que honra

enorme devia sentir Pedro e os demais por seguirem

um líder capaz de triunfar e estabelecer

um reino poderoso. No entanto, a opção de

Jesus de seguir o caminho da cruz como servo

sofredor derruba as aspirações triunfalistas dos

seus discípulos. Ele evita se apresentar como

“messias”, preferindo a expressão “filho do

homem”, pela qual manifesta o realismo de sua

encarnação: assumiu plenamente a condição

humana com todas as consequências de quem

cumpre fielmente a vontade de Deus. Essa fidelidade

vai custar-lhe a morte.

Jesus aproveita a atitude satânica de Pedro

para instruir a todos os discípulos e também

a multidão. A Pedro ele ordena: “Vai para

trás de mim”. Isto é, Pedro deve ser seguidor

de Jesus, e não é Jesus que deve satisfazer as

expectativas de Pedro. Assim é para todos os

discípulos: “Se alguém quer vir após mim,

renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-

-me”! Jesus não ilude. Segui-lo é estar disposto

a “perder a vida” no serviço abnegado pela

justiça, pela verdade e pela fraternidade.

  1. II leitura (Tg 2,14-18): A fé sem obras

é morta

Esse texto da carta de Tiago é bem conhecido

e frequentemente lembrado em nossas

comunidades cristãs. Certamente foi escrito

para combater uma concepção equivocada

que alguns cristãos defendiam: não importam

as ações, é unicamente a fé que salva. Pode

ser fruto de uma interpretação da justificação

pela fé, que Paulo defende na carta aos

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 47

Romanos e que está sintetizada na expressão

“o justo vive da fé” (Rm 1,17). Paulo, no

entanto, está se opondo à ideia de que a salvação

seria resultado dos méritos adquiridos

pelas pessoas cumpridoras da lei, conforme

pregava a doutrina oficial judaica. Com isso,

Paulo não está desvinculando a fé das obras.

O seu próprio testemunho de vida revela que

sua fé em Jesus o levou a doar-se totalmente

pela causa do Evangelho. Quando escreve aos

Gálatas, ele diz: “A fé age pela caridade” (Gl

5,6). Portanto, Tiago e Paulo se completam.

“A fé, se não tiver obras, está completamente

morta”. O exemplo que encontramos

na carta de Tiago ilustra o que significa ligar a

fé com a prática. É amar, de maneira especial, o

irmão e a irmã necessitados, garantindo-lhes as

condições para que possam viver dignamente.

A insistência dos autores da carta de Tiago a

respeito da prática da caridade para com as

pessoas empobrecidas é muito grande. É sinal

de que essa realidade constituía-se num forte

clamor às comunidades cristãs.

Portanto, ser cristão é relacionar-se com o

próximo de modo fraterno, acolhê-lo como

membro da família e garantir-lhes as condições

necessárias para a sua vida. Ser cristão não é

meramente manifestação de bons sentimentos

ou de boas intenções. Nesse sentido, percebe-

-se a íntima ligação com o texto do evangelho

de Marcos comentado acima: não basta confessar

a fé em Jesus Cristo sem o compromisso

de segui-lo na prática do amor ao próximo.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A fé em Deus consiste na fidelidade ao

seu plano de amor. É o que sugerem as leituras

deste domingo. Iluminados pela Palavra

transmitida pelo Segundo Isaías, podemos

renovar a confiança em Deus, nosso criador

e nosso libertador. Ele jamais nos abandona

na caminhada desta vida. Chama-nos a ser

testemunhas do seu amor apesar de nossos

limites e fraquezas. No meio deste mundo

conturbado em que vivemos, é importante

manter os “ouvidos de discípulos”, abertos à

Palavra de Deus que ilumina os nossos passos.

Muitas vezes enfrentamos adversidades e

sofrimentos, incompreensões e perseguições.

Essas situações podem servir de meios para o

amadurecimento na fé e para o discernimento

da missão que Deus nos dá. Muitas pessoas

tornaram-se santas a partir da experiência de

fraqueza. Deus conta conosco para que seu

plano de amor aconteça no mundo…

A fé em Jesus Cristo e a fidelidade ao

seu plano de amor implicam em segui-lo no

caminho da cruz. Não basta uma bela confissão

de fé, como fez Pedro representando os

discípulos. É preciso renunciar a toda ambição

de poder e às manifestações triunfalistas. Jesus

fez-se “servo sofredor” na fidelidade ao plano

de amor do Pai. Assumiu todas as consequências:

foi incompreendido, rejeitado, perseguido

e morto. Hoje também podemos ter a mesma

mentalidade dos discípulos: uma religião de

poder, brilhantes celebrações, acomodação ao

sistema que exclui e mata, fuga do compromisso

pela justiça… O apelo de Jesus continua

atual: “Quem quiser me seguir…”. A carta de

Tiago completa: “A fé sem as obras é morta”.

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(23 de setembro)

A VIDA DOS ÍMPIOS E A VIDA DOS JUSTOS

  1. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras deste quarto domingo do mês

dedicado à Bíblia refletem sobre duas diferentes

lógicas pelas quais o ser humano pode

conduzir a sua vida: a do ímpio e a do justo. O

livro da Sabedoria informa que a lógica do ímpio

desconsidera a vontade de Deus para usufruir

o tempo presente e dos bens deste mundo,

buscando satisfazer seus desejos egoísticos.

Não se importa com o próximo necessitado

e contrapõe-se ao modo de pensar e de agir

da pessoa justa, caluniando-a, perseguindo-a

e matando-a. Diferente é a lógica do justo:

ele leva em máxima conta o conhecimento

de Deus, segue sua vontade e se gloria de ter

Deus por pai (I leitura). O Evangelho chama

a atenção: a lógica do ímpio pode contaminar

os próprios discípulos de Jesus. Ela se manifesta

na atitude de disputa de poder entre eles,

contrariando os ensinamentos e a prática de

Jesus: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o

último de todos e o servo de todos”. A carta de

Tiago (II leitura) adverte que “onde há inveja

e preocupação egoística, aí estão as desordens

e toda sorte de más ações”. E orienta para o

modo verdadeiro de conduzir a vida: conforme

a sabedoria que vem de Deus.

48 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Sb 2,12.17-20): O justo

perseguido

O livro da Sabedoria é resultado da reflexão

dos judeus da diáspora. Foi escrito em grego,

na cidade de Alexandria, no Egito, pelo ano 50

a.C. O texto reflete a situação do povo judeu,

fora de sua pátria, incompreendido e hostilizado

por causa da fidelidade às suas leis. Os

autores concebem que há dois tipos de pessoas:

os justos que conhecem a Deus e os injustos

ou ímpios que, além de não o conhecerem,

zombam de quem lhes é fiel.

Para além da relação conflituosa entre os

judeus e os estrangeiros, o texto nos inspira

a refletir sobre os efeitos que a prática da

justiça pode causar. O modo de pensar e de

se comportar das pessoas justas incomoda os

injustos. Ao ler todo o capítulo 2 do livro da

Sabedoria, percebemos que os justos estão

convencidos de que Deus recompensará a

quem segue o caminho de santidade. Sentem-

-se protegidos por Deus e gloriam-se de tê-lo

por pai. Os ímpios, ao contrário, concebem a

vida – já que é passageira – como uma oportunidade

de satisfazer os instintos egoísticos.

Oprimem o pobre e agem com prepotência,

a ponto de colocar à prova a fidelidade dos

justos, através de calúnias, perseguições e

até de condenação à morte. Nesse sentido, o

texto chega a ser uma prefiguração de Jesus

Cristo.

  1. Evangelho (Mc 9,30-37): Jesus: o justo

incompreendido

Jesus encontra-se em caminho para Jerusalém,

onde será condenado à morte. Os

discípulos ainda não compreendem que tipo

de Messias é Jesus. Para eles, está sendo muito

difícil mudar de mentalidade. O evangelho de

Marcos mostra que esse caminho para Jerusalém

indica o processo de formação pelo qual

os discípulos devem passar. O próprio Jesus é

o formador. Com paciência e dedicação, procura

abrir os olhos dos discípulos para que o

reconheçam como o servo de Deus e não como

um rei poderoso.

Por três vezes Jesus anuncia que vai a Jerusalém,

onde deverá sofrer e morrer. O texto

deste domingo refere-se ao segundo anúncio.

O primeiro anúncio foi refletido no domingo

passado. Em cada um dos anúncios há uma

reação dos discípulos demonstrando que não

estão entendendo o ensinamento de Jesus. E

estão com medo de perguntar. Talvez estejam

lembrando da forte repreensão que Jesus deu

a Pedro quando o chamou de “satanás” por

tentar impedi-lo de cumprir sua missão até o

fim. Eles têm medo das exigências de Jesus.

Persistem na sua ambição de poder. Seguem a

Jesus discutindo quem seria o maior entre eles.

Essa aspiração à grandeza e ao prestígio popular

era bem evidente entre os líderes religiosos e

entre os políticos. Vestiam-se e comportavam-se

em sociedade para chamar a atenção sobre si;

buscavam sempre os primeiros lugares… Jesus

já havia chamado a atenção dos discípulos:

“Cuidado! Guardai-vos do fermento dos fariseus

e do fermento de Herodes” (Mc 8,15). Mas

parece que não adiantou. Ao invés de seguir o

exemplo de Jesus, eles seguem a ideologia dos

poderosos. Ao invés de serem servos uns dos

outros, preferem disputar entre si.

O momento é propício para uma instrução

especial. Ao passar por Cafarnaum, Jesus entra

na casa e, após perguntar aos discípulos sobre

o que estavam discutindo pelo caminho, ele se

senta. É a posição de mestre. Essa casa de Jesus

representa as comunidades cristãs no tempo

em que Marcos está escrevendo. Também

essas comunidades são identificadas como “o

caminho”. Ao ressuscitar, Jesus permanece no

meio delas, caminhando junto e ensinando-as

através do seu Evangelho.

Jesus está na casa. Chama os doze para

junto de si. Não é porque eles estão distantes

fisicamente, mas porque estão resistindo de

seguir verdadeiramente a Jesus. Por isso, o

ensinamento que ele vai ministrar-lhes agora é

de muita importância: “Se alguém quiser ser o

primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”.

E para que não esquecessem jamais dessa

lição, Jesus ilustra seu ensinamento tomando

uma criança e colocando-a no meio. Mais

uma vez, ele revela a sua relação de carinho e

de solidariedade para com os pequeninos, os

desprezados e os marginalizados. A criança

representa aqui todas as pessoas necessitadas

que devem ser amadas, acolhidas, cuidadas e

protegidas pelas comunidades cristãs em nome

de Jesus. Para agir desse modo, é necessário

que cada cristão abandone as aspirações

de “ser o maior” e torne-se “servidor” dos

pequeninos. Na criança, tudo é gratuidade.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 49

Assim, quem ama os pequeninos está amando

o próprio Jesus e também o Pai que o enviou.

  1. II leitura (Tg 3,16 – 4,3): A sabedoria

que vem do alto

Nas comunidades cristãs primitivas, como

também as de nossos dias, existem atitudes

contrárias ao ensinamento de Jesus. Não

foram somente os doze apóstolos que demonstraram

muita dificuldade de entender e

de seguir a Jesus. Através desse texto da carta

de Tiago, percebemos que também no meio

dos cristãos do final do primeiro século havia

“inveja e preocupação egoística”. As consequências

disso, conforme escreve Tiago, são

as “desordens e toda espécie de más ações”:

lutas, guerras, cobiça, avidez…

Tiago tem consciência de que isso não pode

acontecer com quem se declara seguidor de Jesus.

Percebe que essas atitudes são próprias de

gente insensata que atrapalha a missão da Igreja

neste mundo, que é anunciar o Evangelho não só

através de palavras, mas de testemunho de amor

mútuo. Como podemos sonhar com um mundo

fraterno se, entre os próprios cristãos, existem

divisões, invejas e busca de prestígio pessoal até

sob a capa de piedade?

Diante dessas coisas, Tiago alerta aos cristãos

para que orientem sua vida conforme a

“sabedoria que vem do alto”. E esclarece como

ela se manifesta: é pura, isto é, não contaminada

com a ideologia do poder; é pacífica:

alimenta-se da paz que vem de Deus e não

promove divisões; é indulgente: relaciona-se

com educação e respeito para com o próximo;

é conciliadora: não age com orgulho ou

com imposição, mas promove a união entre

as pessoas; é cheia de misericórdia: acolhe e

ama o outro buscando o seu bem com toda

a sinceridade; é imparcial: não toma partido

visando seu próprio interesse; é sem hipocrisia,

isto é, age com transparência e honestidade,

sem esconder-se sob a máscara da mentira ou

das aparências enganosas… Sem dúvida, essa

“sabedoria que vem do alto” é o caminho que

Jesus trilhou nesta terra visando construir o

Reino de Deus. É também o caminho para os

cristãos de todas as épocas.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Há duas lógicas pelas quais podemos nos

orientar: a do ímpio ou a do justo. O nosso

modo de viver cotidiano demonstra qual delas

nós seguimos. A vida do ímpio se caracteriza

pela busca de satisfação de seus desejos, mesmo

que para isso tenha que destruir a vida de

outros. A pessoa justa tem a consciência de

que é filha de Deus e age de acordo com essa

condição. Sabe que Deus a ama e a protege.

Esforça-se para ser fiel à vontade divina,

mantendo-se livre da corrupção dos injustos

e, por isso, pode ser perseguida e até morta.

O que significa ser uma pessoa justa nesta

sociedade em que vivemos, com tantos sinais

de corrupção, de injustiça e de morte?

Quem é Jesus para nós? Os discípulos

manifestaram muita dificuldade para entender

quem é Jesus porque se deixavam conduzir pela

lógica dos ímpios e cada um queria ser maior

do que os outros. Jesus os ajudou a mudar

de mentalidade. Ele também nos ajuda para

que sejamos servos uns dos outros. A casa em

que Jesus se senta para ensinar os discípulos

representa a comunidade cristã. Essa “casa”

é o lugar onde aprendemos a ouvir e a praticar

a Palavra de Deus a partir da família. Aí

aprendemos a nos relacionar como irmãos, a

nos respeitar mutuamente, a acolher e ajudar

a quem mais precisa, a participar dos diversos

serviços familiares e comunitários… Especialmente

neste mês da Bíblia, podemos valorizar

a importância da Palavra de Deus na igreja

doméstica, nos grupos de reflexão, nas CEBs…

É triste constatar que, muitas vezes,

seguimos a lógica dos ímpios: em nossas comunidades

cristãs, existem divisões, invejas

e preocupações egoísticas. Precisamos nos

converter! Tiago nos orienta para seguirmos o

caminho da “sabedoria que vem do alto”. Em

outras palavras, é o próprio Espírito de Deus

que nos é derramado, para que sejamos puros,

pacíficos, conciliadores, indulgentes, cheios

de misericórdia, imparciais, sem hipocrisia…

26º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(30 de setembro)

OS DONS DE DEUS NÃO PODEM SER

PRIVATIZADOS

  1. INTRODUÇÃO GERAL

Neste último domingo de setembro, celebramos

o dia da Bíblia. Através da Bíblia te50

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

mos a oportunidade de conhecer a Deus e o seu

plano de amor. Ele se revela na história humana.

Concede seus dons com liberalidade para

o bem de todos. Os dons de Deus não podem

ser privatizados ou restringidos a determinadas

pessoas ou instituições. A primeira leitura

relata um episódio de efusão do Espírito de

Deus não somente sobre Moisés, o grande líder

do Êxodo, mas sobre muitas outras pessoas,

as quais começaram a profetizar. Diante disso,

teve gente que tentou impedi-las. O evangelho

de Marcos conta como os discípulos tiveram

a mesma reação ao constatarem que outras

pessoas faziam o bem em nome de Jesus sem

pertencerem ao grupo deles. Essas reações revelam

a descabida pretensão de privatizar os

dons de Deus. Também os bens materiais são

dons de Deus que devem ser administrados de

forma a proporcionar vida digna para todos.

A segunda leitura denuncia veementemente a

atitude dos ricos que privatizam esses bens e

exploram os trabalhadores. Deus não deixará

de ouvir o grito das pessoas injustiçadas e

pedirá contas de quem retém os recursos que

ele destinou para todos.

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Nm 11,25-29): A efusão

do Espírito de Deus

O povo de Israel encontra-se em caminhada

pelo deserto, libertando-se da escravidão

do Egito. Moisés foi chamado por Deus para

liderar esse processo de conquista de uma

terra de liberdade e vida. Esse chamado não

significa a prática de um poder centralizado.

Acima de tudo, é necessário garantir o projeto

de Deus. Moisés é um dos protagonistas, mas

não o único. A sociedade nova é construída com

a participação do povo. Os setenta anciãos

representam as lideranças necessárias para

animar a organização social conforme a inspiração

divina. Por isso, Deus lhes concede o

seu Espírito a fim de que cumpram sua missão

com fidelidade. Eles exercem a profecia, isto

é, falam e orientam o povo em nome de Deus.

Os setenta anciãos estão na mesma tenda

com Moisés. Pertencem, portanto, ao grupo

íntimo do principal líder. A tenda de Moisés

é o espaço oficial das decisões a serem

tomadas para todo o povo. Os anciãos são

oficialmente delegados para exercer a função

de instruir, orientar e julgar o povo. Mas eis

que duas pessoas que não se encontravam na

tenda de Moisés também recebem o mesmo

dom do Espírito e começam a profetizar no

meio do acampamento. O texto conservou o

nome dos dois: “Eldade” que significa “Deus

é amigo”, e “Medad”, “Deus é amor”. Um

jovem correu para informar a Moisés, certamente

preocupado com a autonomia dos

dois novos profetas que cumprem sua missão

sem uma delegação oficial. Josué, que será o

substituto de Moisés na condução do povo,

sugere-lhe que os proíba. Moisés, no entanto,

percebe que a tentativa de proibição da parte

de Josué é motivada por ciúmes. Por isso,

Moisés o corrige. Ele não teme ser ofuscado

em sua autoridade. O que importa é que os

dons de Deus, distribuídos conforme sua vontade,

sejam acolhidos e administrados para o

bem de todos. Os dons divinos não obedecem

aos interesses de instituições oficiais. Deus é

soberano em suas decisões, e sua liberalidade

é extraordinária. Oxalá todo o povo se deixe

conduzir pelo Espírito de Deus!

  1. Evangelho (Mc 9,38-43.45.47-48):

Praticar o bem: alguém pode impedir?

No domingo passado, refletimos sobre o

texto do evangelho de Marcos onde os discípulos,

após discutirem, pelo caminho, sobre

quem deles seria o maior, recebem em casa

uma instrução especial de Jesus. Tomando

uma criança e colocando-a no meio deles,

Jesus mostra qual é a atitude verdadeira que

seus discípulos devem ter na vida: “Ocupar

o último lugar e tornar-se servos uns dos

outros”. O texto de hoje é a continuação daquele

episódio. No caminho, eles não apenas

haviam discutido quem seria o maior, mas

também tentaram impedir que alguém que não

pertencia ao seu grupo realizasse boas ações

em nome de Jesus. É João que, dessa vez, representa

a todos: “Mestre, vimos alguém que

não nos segue, expulsando demônios em teu

nome, e o impedimos porque não nos seguia”.

Essa é mais uma atitude que revela o grau

de imaturidade em que se encontram os discípulos

de Jesus. Eles também já haviam sido

enviados por Jesus para pregar o Evangelho

e “expulsaram muitos demônios e curaram

muitos enfermos” (Mc 6,12). Foi muito bonita

essa experiência missionária quando numeroVida

Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 51

sas pessoas foram beneficiadas. Certamente

sentiram-se privilegiados por serem escolhidos

por Jesus e enviados por ele para tão grande

missão. O que eles não esperavam é que outras

pessoas, além deles, pudessem realizar as

mesmas obras. Ficaram aborrecidos e enciumados,

como aconteceu com Josué, conforme

ouvimos na primeira leitura. Moisés, cheio

de sabedoria e de grande coração, corrigiu a

atitude de Josué. Assim também Jesus, que

veio ao mundo para salvar a todos, procura

instruir os discípulos para que mudem de

mentalidade e de atitude: “Não o impeçais…

Quem não é contra nós, está a nosso favor”.

Com isso, Jesus está alertando que pode haver

pessoas que pertencem ao círculo íntimo dos

discípulos, mas são contra ele; ele está colocando

o projeto de vida para todos acima das

pretensões pessoais.

Não se pode fazer uso do nome de Deus ou

da religião para satisfazer interesses pessoais

ou para disputas de poder. Essa atitude seria

escândalo para os pequeninos que olham para

seus líderes esperando verdadeiro testemunho

de fé e de amor. O escândalo existe quando

alguém na comunidade pretende ser maior

que os outros; ao invés de servir, quer ser servido.

Jesus é enfático: melhor seria que essa

pessoa se afogasse definitivamente no fundo

do mar. E diz mais: é preciso cortar a mão

que escandaliza, isto é, o mau agir; cortar o

, que significa corrigir a direção ou a conduta

errada na vida; arrancar o olho, ou seja,

o modo de ver as coisas com cobiça, ciúme,

inveja, ambição… Portanto, há necessidade

de vigiar sobre o modo como vivemos e como

exercemos as funções comunitárias. É preciso

extirpar tudo o que contradiz o Evangelho e

causa dano aos que querem entender e praticar

verdadeiramente o que Jesus pede. A missão

de promover a vida digna de todos constitui-

-se em serviço abnegado e humilde e não em

uma forma de projeção social, de exploração

do sentimento religioso dos pequeninos ou de

outras intenções egoísticas.

  1. II leitura (Tg 5,1-6): O grito dos

injustiçados

A realidade contemplada pelos autores

da carta de Tiago, conforme se deduz desse

texto, é de terrível injustiça social. Não sabemos

se esses ricos exploradores fazem parte

das comunidades cristãs. Provavelmente não,

pois seria uma explícita contradição da fé que

professam. Ou seriam aqueles cristãos cuja fé

é morta, como já foi alertado anteriormente

nessa mesma carta? Dizem que têm fé, mas

não têm obras (2,14-17).

O fato é que Tiago, com palavras duras e

contundentes, denuncia a situação social em

que os pobres estão sendo oprimidos. Percebe-

-se que os ricos são grandes proprietários de

terra que se aproveitam da mão de obra dos

pobres trabalhadores pagando um salário irrisório

(ou retendo) e reduzindo-os à condição

de escravos. A riqueza acumulada nas mãos

desses senhores, fruto do suor e do sangue dos

oprimidos, se tornará motivo de sua própria

condenação. Todo o ouro e a prata, apesar de

serem metais naturalmente consistentes, estão

corroídos pela ferrugem. Os bens acumulados

à custa de injustiça carregam a “ferrugem” da

maldade. Eles serão usados como testemunhas

contra os seus donos, pois o grito dos injustiçados

sempre é acolhido por Deus, que é justo

e verdadeiro.

Ao longo da Bíblia encontramos frequentemente

alusão ao uso dos bens materiais. Desde

o episódio do maná no deserto, pelo qual Deus

alimentou o seu povo, nos é dada a orientação

de que não se pode acumular, pois o acúmulo

apodrece (Ex 16,19). Os profetas condenaram

a injustiça social como uma enorme ofensa

a Deus a ponto de rejeitar qualquer tipo de

manifestação religiosa enquanto não houvesse

conversão (Am 5,21-24; Is 58, 6-9). Nos

evangelhos, encontramos vários textos que se

referem ao perigo da riqueza e da insensibilidade

social: um exemplo é o do homem rico e do

pobre Lázaro (Lc 16,19-31). Chama a atenção

o fato de que a salvação ou a condenação está

ligada ao modo como cada um administra os

bens. Não podemos reter ou privatizar o que

Deus concedeu para a vida de todos.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A Bíblia nos revela a bondade e a generosidade

de Deus. Ele concede os dons e carismas

com liberalidade. Cada pessoa que os recebe

deve colocá-los a serviço da vida. Não podem

ser considerados como bens privativos, pois

eles são de Deus. Não podem ser usados como

motivo de vanglória pessoal, e sim como expressão

da bondade divina. Todas as pessoas

52 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

recebem dons para alegria e felicidade de

todos, independentemente da instituição ou

da tradição religiosa a que pertence. Portanto,

não tem sentido o ciúme ou a competição.

O que importa é que todos os dons sejam

aplicados verdadeiramente para o projeto de

“vida em abundância” para todas as pessoas.

Assim, cada pessoa e cada religião, a política

e a economia, a arte, a ciência e a tecnologia

devem visar o bem social. Pode-se refletir sobre

os efeitos sociais de uma vida ou atividade

(mão, pé e olho) orientadas pela ética e pelo

amor e das que seguem objetivos egoísticos…

Os bens materiais são dons de Deus

para a vida de todos os seus filhos e filhas.

Ofendemos a Deus quando os administramos

de forma egoísta. A privatização da riqueza

nas mãos de poucos denuncia o sistema social

injusto em que vivemos. “Perdemos a capacidade

de sentir. Essa é uma das causas de nossa

miséria” (Herbert de Souza – o Betinho). Jesus

preveniu: “Não ajunteis para vós tesouros na

terra, onde a traça e o caruncho os corroem…

Ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a

traça, nem o caruncho correm…” (Mt 6,19-

21). Podem-se levantar os desafios sociais que

existem na paróquia e no município e incentivar

o compromisso de cristãos na construção

de um mundo justo, fraterno e solidário…

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(07 de outubro)

DEUS NOS FEZ FAMÍLIA

  1. INTRODUÇÃO GERAL

Outubro é o mês das Missões. Somos todos

discípulos missionários do Senhor a partir da

família. Deus criou o homem e a mulher de

modo que se reconhecessem extensão um do

outro e vivessem na igualdade e mútua complementaridade.

O casamento é uma bênção

divina. O marido e a esposa assumem o compromisso

de se doarem um ao outro, conscientes

de que já não são dois, mas uma só carne

(I leitura). Jesus, em seu Evangelho, orienta os

casais a viverem o amor em profundidade e

não se deixarem conduzir por ideologias que

permitem e facilitam a separação por qualquer

motivo. O amor exige sacrifícios (= fazer o que

é sagrado), do mesmo modo como Jesus amou

doando sua vida em favor de todos. Ele abraça

e abençoa cada criança defendendo seus

direitos e sua dignidade. Faz-se solidário com

cada mulher e cada homem levando-os à perfeição

(II leitura); pais e filhos são chamados

a expressar cotidianamente o amor trinitário,

vivendo e promovendo os valores do diálogo,

do respeito mútuo, da igualdade e da paz.

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Gn 2,18-24): Homem e mulher:

uma só carne

O texto faz parte do segundo relato da

criação (Gn 2,4b-25). Reflete sobre a missão

que o ser humano recebeu de ser o colaborador

de Deus no cultivo do “jardim” ou no cuidado

com a natureza a fim de que ela produza os

alimentos necessários para a vida. O humano

e a natureza estão intimamente unidos. É do

húmus da terra que o humano é modelado.

Ele recebe o poder de dar nomes aos outros

seres, os animais. Tem a função de cuidar da

criação de Deus.

A narrativa aponta para o caminho da realização

do ser humano. Não é bom que esteja

só. Deus não nos criou para a solidão. Entre

todas as criaturas, o homem não encontrou

uma “auxiliar” que lhe correspondesse. Enquanto

sozinho se sente inferior aos animais.

Os autores procuram explicar como foram

criados o homem e a mulher, interpretando a

realidade que perpassa a existência humana.

A linguagem revela que estão inseridos num

contexto patriarcal. A palavra “auxiliar” não

deve ser interpretada como ajudante submissa.

Há igualdade na diferença. É do lado do coração

do homem que nasce a mulher. Tornam-

-se companheiros e extensão um do outro.

Revelam-se um ao outro na transparência.

Necessitam-se, admiram-se e atraem-se mutuamente,

unem-se e formam uma só carne.

São duas pessoas livres e conscientes que vivem

em comunhão e se realizam mutuamente sem

anular-se em sua individualidade. O “sono

profundo” no qual Deus faz cair o homem

“é um sinal do mistério que cerca a relação

homem-mulher. Um foi criado para o outro e,

quando se unem na relação matrimonial, estão

obedecendo ao projeto de Deus, que emerge

do mais fundo de cada um, a fim de formar

uma nova unidade para os dois, para os próVida

Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 53

prios filhos e para a sociedade” (Como ler o

Livro de Gênesis, de Ivo Storniolo e Euclides

Balancin, p. 17).

Conforme podemos perceber no conjunto

desse segundo relato da criação, estabelece-se

uma íntima ligação não só entre o homem e

a mulher, mas também com todas as demais

criaturas. A relação de companheirismo e de

comunhão entre ambos se estende para a relação

com toda a natureza. Os seres humanos,

a terra, a água, as árvores, os animais e todas

as demais criaturas vieram da mesma fonte e

necessitam-se mutuamente. O artífice divino

tudo fez com muita arte e criatividade. E tudo

entregou ao nosso cuidado.

  1. Evangelho (Mc 10,2-16): A família

como expressão do amor

Os fariseus se aproximam de Jesus para

pô-lo à prova. Eles pertencem ao grupo de

intérpretes da Sagrada Escritura, participantes

de escolas rabínicas onde se debatia a respeito

dos motivos que justificavam o divórcio, uma

vez que era permitido pela lei judaica. De fato,

no livro do Deuteronômio (24,1) lê-se: “Quando

um homem tiver tomado uma mulher e

consumado o matrimônio, mas esta, logo

depois, não encontra mais graça a seus olhos,

porque viu nela algo de inconveniente, ele lhe

escreverá uma ata de divórcio e a entregará,

deixando-a sair de sua casa em liberdade”.

Com base nessa orientação, podia-se encontrar

motivos para o divórcio com muita facilidade.

Bastava o marido desejar a separação.

É somente ele quem pode tomar a iniciativa,

pois, segundo a mentalidade dominante, ele

exerce o domínio sobre a mulher considerada

como sua propriedade. Deduz-se daí que tanto

no ambiente doméstico como em outros níveis

sociais a opressão masculina era exercida com

normalidade, legitimada pela interpretação

oficial da lei judaica elaborada e interpretada

somente por alguns homens.

Os ensinamentos e a prática de Jesus revelam

que a lei deve estar a serviço da vida do

ser humano e não o contrário. Para os fariseus,

porém, a lei mosaica devia ser cumprida como

condição para o homem ser justo diante de

Deus. Jesus não nega a lei judaica, mas a coloca

em seu devido lugar. “Foi por causa da dureza

dos vossos corações que Moisés escreveu

esse mandamento.” O texto da Sagrada Escri54

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

tura não pode ser retirado de seu contexto.

Também não pode ser interpretado de forma

fundamentalista. O critério para a verdadeira

interpretação é a vida digna sem exclusão e

não os interesses pessoais ou corporativos.

Esse grupo de fariseus propositalmente não

levava em conta outros textos que permitiam

orientações diferentes para a questão do casamento

e do divórcio. Jesus, porém, argumenta

a partir de um outro ponto de vista. Ele resgata

o plano inicial do Criador: “Desde o princípio

da criação, Deus os fez homem e mulher… E

os dois serão uma só carne”.

O casamento, portanto, deve basear-se no

plano criador de Deus. Ele estabelece a igualdade

fundamental entre o homem e a mulher.

Nenhuma lei pode contradizer esse desígnio

divino. Jesus condena a atitude de dominação

do homem sobre a mulher e restabelece o direito

igual para ambos de tomar decisões. Os dois

se tornam uma só carne e, portanto, “o que

Deus uniu o homem não separe”. Em outras

palavras: se Deus criou a mulher e o homem

com a mesma dignidade e a mesma liberdade,

o homem não pode quebrar essa relação que

fundamenta o amor verdadeiro entre ambos.

Assim, a separação não se dará por qualquer

motivo. E se houver motivos sérios para isso,

o discernimento e a decisão não podem ser

tomados de forma unilateral.

A sequência da leitura mostra que a casa/

comunidade onde se encontram os discípulos

de Jesus é o espaço do diálogo e do discernimento.

É também o lugar da acolhida, do abraço

e da bênção, com prioridade às crianças,

que são as mais afetadas pelas atitudes egoístas

ou insensatas dos adultos representados

pelos discípulos que repreendem as crianças.

Essa atitude agressiva dos adultos contradiz

o modo terno e acolhedor de Jesus, cuja vida

é pautada pela não violência, pelo respeito ao

outro, pelo perdão… Enfim, Jesus promove o

projeto de inclusão familiar e social, de modo

que todos usufruam das condições materiais e

afetivas para uma vida feliz.

  1. II leitura (Hb 2,9-11): Jesus se fez nosso

irmão

Esse texto da carta aos Hebreus trata da

opção solidária de Jesus para com toda a humanidade,

assumindo o sofrimento e a morte.

Paradoxalmente, a honra e a glória de Jesus

manifestam-se em sua morte em favor de toda

a humanidade. A cruz, então, tornou-se para

todos os que creem em Jesus o caminho da

vitória sobre toda a maldade que procura impedir

o plano de amor e de salvação de Deus.

Ao assumir a condição humana com seus

limites e dores, nos torna também participantes

de sua morte redentora. Ao identificar-se

plenamente com o ser humano, possibilitou

que o ser humano se identificasse com a sua

divindade. Por isso, Jesus não se envergonha

de nos chamar de irmãos.

A grandiosidade de Jesus manifesta-se em

sua radical humildade e obediência ao plano

de Deus. É nosso modelo e caminho. Foi assumindo

os sofrimentos e a morte, na fidelidade

à sua missão, que Jesus nos redimiu e nos

levou à perfeição. Como humanos, fazemos a

experiência cotidiana dos limites e sofrimentos.

Tornando-se um de nós, Jesus conhece perfeitamente

todos os problemas que enfrentamos.

Não fomos criados para o sofrimento, e sim

para a perfeição e a glória. No seguimento de

Jesus, assumimos a realidade de nossa condição

humana com a missão a que fomos chamados,

deixando-nos conduzir pela graça de Deus, na

certeza de seu amor sem limites. Aprendemos

a reconhecer a sua vontade e nos esforçamos

para sermos fiéis. A fidelidade a Deus exige

rompimento com as facilidades enganosas que

nos desviam do caminho da perfeição. A plena

realização somente se dá na obediência a Deus

que acontece no amor solidário. Na cruz de

Jesus, morremos para o egoísmo e passamos a

viver na condição divina. Aí reside nossa honra

e glória de irmãos de Jesus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Deus não criou o ser humano para a solidão.

Homens e mulheres foram criados para

viverem lado a lado, com a mesma dignidade

e igualdade de direitos. Necessitam um do

outro. Em nossos dias, a questão de gênero

está em debate. O plano original de Deus

no que diz respeito à relação entre mulheres

e homens ainda não se concretizou. A visão

dominante manifesta ainda preconceitos e

discriminações ligados à condição feminina.

Prova-se inclusive que a relação histórica de

dominação do homem sobre a mulher reflete-

-se na sua atitude de exploração da natureza e

destruição do meio ambiente. Podem-se levanVida

Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 55

tar fatos, atitudes e linguagens que revelam a

visão a esse respeito que ainda predomina em

nossos dias…

Somos discípulos missionários do Senhor

a partir da família. O casamento é uma instituição

divina. Exige séria preparação a fim de

que seja assumido com consciência e liberdade.

Homem e mulher tornam-se uma só carne:

concretiza-se a unidade na diferença. O amor

entre marido e mulher é caminho de mútua

santificação. Estende-se para os filhos. Jesus

corrige a mentalidade farisaica que permitia

a separação por qualquer motivo. Ele resgata

o plano original de Deus e restabelece a igualdade

de direitos da mulher. É oportuno refletir

sobre a importância da família para a vida

de cada um de nós e sobre as consequências

doloridas e até desastrosas de um ambiente

familiar onde reina o machismo, a violência,

o desrespeito…

Jesus fez-se plenamente solidário com

o ser humano, assumindo os sofrimentos e a

morte. Ele é o nosso irmão maior. Conhece

perfeitamente os limites e problemas que

enfrentamos em nosso dia a dia. Seguindo a

Jesus, não desanimamos no caminho da perfeição.

Todas as situações, mesmo as difíceis

(crises no casamento, separações, doenças,

mortes) podem ser assumidas como momentos

propícios para acolher a graça de Deus, rico

em misericórdia…

28º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(14 de outubro)

VIVER COM SABEDORIA

  1. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras deste segundo domingo do

mês das Missões nos levam a refletir sobre

os verdadeiros valores que devem orientar

a nossa vida. A primeira leitura apresenta o

testemunho de uma pessoa (é atribuído a Salomão)

que suplicou ao Senhor pelo dom da

sabedoria, considerada o maior de todos os

tesouros e a mãe de todos os bens. O evangelho

de Marcos apresenta um homem rico que

não consegue ser sábio. Ele procura Jesus para

perguntar-lhe a respeito do que deve fazer para

herdar a vida eterna. A orientação que Jesus

lhe dá o deixa entristecido, pois implicaria na

renúncia ao acúmulo dos bens para partilhar

com os pobres. O homem sai pesaroso, e Jesus,

olhando ao seu redor, radicaliza: “É mais fácil

um camelo entrar pelo fundo da agulha do

que um rico entrar no Reino de Deus”. Essa

afirmação causou espanto até mesmo aos discípulos

e questiona profundamente também os

cristãos de hoje. É um exemplo que evidencia o

que a carta aos Hebreus proclama: “A Palavra

de Deus é mais penetrante do que uma espada

de dois gumes (…)”.

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Sb 7,7-11): O dom da

sabedoria

O livro da Sabedoria é resultado da reflexão

dos judeus que se encontram em Alexandria,

no Egito, ao redor do ano 50 antes de Cristo.

O tema da sabedoria faz contraponto à

ideologia dos governantes do Egito com suas

atitudes de dominação e de perseguição aos

judeus. O caminho da sabedoria não segue a

proposta idolátrica dos ímpios que concebem

a vida como oportunidade para toda espécie

de prazer, desfrutando gananciosamente dos

bens presentes e perseguindo os justos. Em

sua autossuficiência, descartam por completo

a existência de Deus e não acreditam na vida

após a morte. Os justos, porém, têm a Deus por

pai e confessam que ele criou o ser humano para

a imortalidade (cap. 2). A vida, portanto, não

se resume no gozo do momento presente. Seu

sentido verdadeiro somente as pessoas sábias

conhecem.

Para dar maior importância e credibilidade

à proposta da sabedoria, o escrito é atribuído

a Salomão, que, na tradição judaica, é considerado

o rei sábio por excelência (mesmo que

historicamente ele não tenha sido tão sábio e

tão justo como se apregoava). Esse Salomão

idealizado pelos autores do livro tem consciência

de ser uma pessoa comum como todas

as demais, que nasceu e cresceu como todos

os humanos e sabe que sua vida na terra é

transitória. Sua grande preocupação é viver e

governar segundo a justiça. Isso será possível

pela aquisição da sabedoria que vem de Deus.

Por isso, ele a invoca com persistência e Deus

a concede generosamente.

A sabedoria é contemplada como o maior

bem que uma pessoa possa adquirir, acima

56 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

de todo poder e de toda riqueza, “pois todo

o ouro, ao lado dela, é como um punhado de

areia”. Deve ser amada “mais que a saúde e

a beleza”. Essas coisas passageiras somente

adquirem seu valor verdadeiro quando iluminadas

pelo brilho da luz sem ocaso, que é o da

sabedoria, “a mãe de todas as coisas”. Por ela

distingue-se o verdadeiro absoluto em quem

devemos colocar toda a confiança.

Quando o livro foi escrito, o povo de Israel

tinha conhecimento de que a sabedoria fazia

parte dos dons do Espírito de Deus, conforme

anunciara o profeta Isaías referindo-se à

descendência de Davi: “Sobre ele repousará o

espírito do Senhor, espírito de sabedoria e de

inteligência, espírito de conselho e de fortaleza,

espírito de conhecimento e de temor do

Senhor” (Is 11,2). A sabedoria, junto com os

demais dons do Espírito Santo, nos possibilita

orientar a nossa vida segundo os desígnios

de Deus. É dom de Deus e, por isso, deve-se

pedir com confiança. Jesus constatou que a

sabedoria divina é revelada de modo especial

entre os pobres e pequeninos e é ocultada aos

grandes e “inteligentes” deste mundo (Mt

11,25-26).

  1. Evangelho (Mc 10,17-30): Qual o jeito

sábio de viver?

Jesus, com seus discípulos, encontra-se em

caminhada para Jerusalém. Essa viagem tem,

sobretudo, uma finalidade pedagógica. O episódio

do homem rico vem proporcionar uma

oportunidade especial para Jesus esclarecer

qual a relação que seus seguidores devem ter

com os bens materiais. O homem rico é representativo

de todos os que se consideravam

justos por cumprir a lei de Deus, conforme

as orientações do sistema religioso oficial. A

mentalidade dominante via na riqueza o sinal

concreto de bênção divina (teologia da retribuição).

Aquele homem estava convencido

disso e dirige-se a Jesus cheio de confiança em

seus próprios méritos. Ele corre e ajoelha-se

diante de Jesus. Demonstra que estava ansioso

por encontrar-se com o “bom Mestre” para

ser confirmado em sua mentalidade e em suas

atitudes. Jesus, porém, o desarma já de início

(talvez por perceber uma intenção de bajulação):

“Ninguém é bom a não ser Deus”.

O homem manifesta preocupação com a

conquista da vida eterna. Considera-se uma

pessoa justa, um judeu perfeito e, portanto,

em seu íntimo espera que Jesus lhe diga que

está no rumo certo. De fato, no primeiro

momento, Jesus o interpela sobre o caminho

indicado pelos mandamentos. Porém, cita

somente aqueles que se referem à relação com

o próximo, acrescentando “não defraudes

ninguém”. É uma indicação de que os muitos

bens que o homem possuía eram resultado

da defraudação dos bens devidos aos outros.

Cai por terra a concepção teológica de que o

acúmulo seria sinal de bênção divina. Estaria

o homem disposto a entrar na dinâmica da

teologia do Reino de Deus?

Jesus lhe demonstra muito amor mostrando-

lhe como poderia ser verdadeiramente

livre, sábio e justo: “Vai, vende o que tens, dá

aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois,

vem e segue-me”. Como se vê, enquanto o

homem está preocupado com a vida eterna

para si mesmo, Jesus preocupa-se com os seres

humanos que neste mundo não possuem

o necessário para viver. A vida eterna está

garantida para quem segue a Jesus na prática

do amor com as pessoas necessitadas. É no

serviço abnegado ao próximo que encontramos

a plena realização já neste mundo. Assim

contribuímos na construção de uma sociedade

nova – o Reino de Deus –, que se fundamenta

nas relações de justiça e de fraternidade. Para

isso, precisamos vencer o grande empecilho

que é o apego aos bens materiais. Aquele

homem rico não conseguiu dar o passo de

aceitar o convite de Jesus, tornar-se seu discípulo

e ter um tesouro no céu. Decepcionado

com o desfecho do diálogo com Jesus, foi-se

embora entristecido, “pois era possuidor de

muitos bens”. Apesar de ser cumpridor das

leis religiosas oficiais, demonstrou que seu

deus era o dinheiro.

Jesus continua a aprofundar a reflexão com

seus discípulos: “Como é difícil a quem tem riquezas

entrar no Reino de Deus… É mais fácil

um camelo entrar pelo fundo da agulha…”. O

contraste evidente entre o camelo e o buraco

de uma agulha mostra a impossibilidade de um

rico de renunciar às seguranças e ao poder que

a riqueza lhe dá para promover a justiça social.

O espanto dos discípulos revela que também

eles ainda estão imersos na mesma lógica do

homem rico: “Então, quem pode ser salvo?”.

A resposta que Jesus lhes dá ressalta que a

graça de Deus pode proporcionar a conversão

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 57

também para os ricos, “pois para Deus tudo

é possível”.

Aos discípulos que deixam tudo para

segui-lo, Jesus lhes garante que usufruirão

dos benefícios do Reino de Deus, isto é, da

sociedade justa e fraterna. Nela não haverá

discriminação nem miséria e, sim, acolhida,

afeto, partilha e vida em abundância para

todos e, “no mundo futuro, a vida eterna”. É

uma proposta construída pelos que se fazem

últimos e servos de todos e contradiz (por isso

atrai perseguição) a dos primeiros (ricos e poderosos).

Todos estão convidados por Jesus a

desvencilhar-se da escravidão do dinheiro para

tornarem-se agentes de um novo mundo. Esse

é o jeito sábio de viver.

  1. II leitura (Hb 4,12-13): A eficácia

da Palavra de Deus

Após a morte, ressurreição e ascensão de

Jesus, as comunidades cristãs alimentam sua

vida de fé e de amor especialmente através da

Palavra de Deus. O breve texto da carta aos

Hebreus faz parte de um contexto maior (3,1-

13), onde os autores aprofundam o tema da

fé como condição para entrar no repouso de

Deus. Constata-se que as comunidades a quem

a carta é dirigida encontram-se em situação

de sofrimento, de dúvidas e de instabilidade

quanto à perseverança na fé em Jesus Cristo.

O acontecimento do Êxodo é evocado como

luz e força para a caminhada dos cristãos, na

certeza de que alcançarão o repouso prometido

por Deus. Para isso, deverão permanecer

vigilantes para não cair nas mesmas tentações

em que caiu o povo de Israel na caminhada

pelo deserto quando endureceu o coração e

não ouviu a voz do Senhor.

As comunidades cristãs formam o novo

povo de Deus em caminhada para a terra

prometida. Como no antigo Êxodo, o caminho

guarda perigos de toda espécie. Conquistarão

o repouso prometido os que perseverarem

na fé em Jesus, o verdadeiro líder que guia

o povo à terra da liberdade e da paz. Deus

falou de muitos modos antigamente através

dos profetas e, agora, através de seu Filho

Jesus (Hb 1,1).

A prática da Palavra de Deus se dá no seguimento

de Jesus. Ele é Palavra viva porque produz

vida em abundância. Ele afirmou que suas

palavras são “espírito e vida” (Jo 6,63); não é

letra morta; Jesus, a Palavra que se fez carne,

trouxe vida ao mundo. Ela é eficaz porque

Deus realiza o que diz, cumpre o que promete;

é eficaz também porque quem a pratica produz

muitos e bons frutos, da mesma maneira como

fez Jesus. Ela é cortante como uma espada de

dois gumes, isto é, não há realidade que ela

não possa penetrar, não há segredos que não

possam ser descobertos, não há transgressão

que não possa ser denunciada, não há escuridão

que não possa ser iluminada, enfim, não

há situação que não possa ser transformada.

Ela julga as disposições e as intenções do coração

colocando tudo a descoberto. Baseadas

na Palavra de Deus, as comunidades cristãs

podiam confiar plenamente nas promessas

divinas e caminhar com coragem e perseverança

na fidelidade ao seu plano de amor e de

salvação que se realizou plenamente em Jesus

Cristo. Nós podemos também!

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O discípulo missionário do Senhor vive

com sabedoria que vem de Deus. Por ela

sabemos discernir e praticar os verdadeiros

valores. Sabemos responder com generosidade

à vocação que Deus nos dá. Por ela exercemos

a profissão com honestidade. A pessoa sábia

resiste a toda espécie de maldade e se torna

portadora da graça de Deus no mundo. A

pessoa sábia é a que se esforça para fazer o

bem sempre e em todo lugar…

A sabedoria se adquire e se cultiva pela

oração e pela meditação da Palavra de Deus.

Esta se constitui como o fundamento para a

vida de fé e de perseverança no caminho do

bem. A Palavra de Deus é viva, eficaz, cortante

como espada de dois gumes, torna-nos

verdadeiros…

Somos peregrinos neste mundo, em

caminhada para a terra prometida. Sem a

Palavra de Deus nos desorientamos levados

por tantas outras “palavras” que o mundo

nos oferece, como o apelo ao acúmulo de bens

materiais, ao consumismo, à preocupação com

o prestígio social, à busca ansiosa do prazer.

Precisamos aprender com Jesus a não entrar na

mentalidade dominante e a desvencilhar-nos

de todas as amarras que tornam nossos passos

pesados. Seguir a Jesus é aprender a caminhar

na liberdade e leveza que se dá pela atitude de

partilha e serviço mútuo.

58 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(21 de outubro)

A OFERTA DA VIDA COMO AÇÃO

SAGRADA

  1. INTRODUÇÃO GERAL

Os textos bíblicos da liturgia deste domingo

apresentam o “servo de Deus” que entrega

livremente a sua vida como sacrifício expiatório.

A etimologia da palavra “sacrifício” indica

uma “ação sagrada”, portanto, relacionada

com a realização da vontade divina. O “servo

de Deus” para o profeta Isaías Segundo é o

povo de Israel exilado na Babilônia. No meio

do sofrimento, esse “servo” descobre a missão

divina de levar sobre si as dores e transgressões

de muitos e não somente de suas próprias

faltas. Por meio do seu povo sofredor, Deus

realiza seu desígnio de salvação para muitos

outros povos (I leitura). As comunidades cristãs

veem nesses textos a prefiguração de Jesus,

o “servo sofredor” que veio ao mundo “não

para ser servido, mas para servir e dar a sua

vida em resgate por muitos”, como exprime

o evangelho de Marcos. Os discípulos devem

tomar consciência de que seguem um Messias

antitriunfalista e, por isso, devem renunciar

a toda ambição de poder e tornar-se servos

uns dos outros (Evangelho). Pela entrega de

sua vida como sacrifício expiatório, Jesus

tornou-se o único e eterno sacerdote, capaz

de compadecer-se de nossas fraquezas, pois

se fez solidário conosco em tudo, menos no

pecado (II leitura). Podemos nos aproximar

dele com toda a confiança, pois é fonte de

eterna misericórdia e de abundantes graças.

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Is 53,10-11): O sofrimento

solidário

Esse pequeno texto de Isaías Segundo

faz parte do 4º cântico do servo de Deus

(52,13-53,12). Os autores elaboram uma

nova teologia a partir da realidade dos exilados

na Babilônia. Revelam o significado do

sofrimento pelo qual passam os oprimidos.

Deus os assumiu como o seu servo amado e

deu-lhes uma missão muito especial. Todos

vão testemunhar a incrível transformação pela

qual Deus faz passar o seu “servo sofredor”.

Até os opressores são obrigados a reconhecer.

Eles diziam a respeito do servo: “Não tinha

beleza nem esplendor que pudesse atrair o

nosso olhar, nem formosura capaz de nos

deleitar. Era desprezado e abandonado (…),

familiarizado com o sofrimento, como pessoa

de quem todos escondem o rosto (…); não

fazíamos caso nenhum dele. Nós o tínhamos

como vítima do castigo, ferido por Deus e

humilhado (…)”. Porém, esses mesmos vão

exclamar admirados: “No entanto, eram nossos

sofrimentos que ele levava sobre si, eram

nossas dores que ele carregava” (53,2-4).

A palavra profética ilumina o sentido

que está por trás dos acontecimentos. Deus

se revela de modo surpreendente em cada

contexto histórico. Quem poderia imaginar

que um punhado de gente desprezada e

abandonada se transformaria em sujeitos de

redenção para muitos, até mesmo para seus

opressores que se convertem? É da vontade

divina que os pequeninos se tornem veículos

de sua graça para o mundo. Essa consciência

que vai crescendo no meio dos exilados, com

a animação da profecia, os enche de coragem e

esperança. O sofrimento passa a ser concebido

não mais como castigo divino, mas como desdobramento

da atitude de fidelidade à vontade

divina. A pessoa justa sofre porque segue os

desígnios de Deus e, por isso, contrapõe-se aos

planos dos dominantes. Ao invés de fazer o

jogo dos vingativos e violentos, assume sobre

si as transgressões e dores do povo. Livre e

conscientemente oferece sua vida em resgate

da justiça para todos.

A atitude de fidelidade a Deus com todas

as consequências faz do “servo sofredor” um

vitorioso sobre a maldade do mundo. Não só

isso. Porque ele oferece a sua vida como sacrifício

expiatório garantirá o triunfo do plano

de Deus, que é a vida em plenitude para todos.

2 Evangelho (Mc 10,35-45): Jesus, o servo

sofredor

As comunidades cristãs primitivas enfrentaram,

como acontece nas comunidades de hoje,

diversos conflitos internos. Um deles referia-se

à disputa de poder entre as lideranças. Competições,

ciúmes e invejas se manifestam também

entre os cristãos. São manifestações que contradizem

o ensinamento e a prática de Jesus. Por

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 59

isso, um dos objetivos do evangelho de Marcos

é “voltar às fontes” originais da fé em Jesus

Cristo. Os seus autores procuram recuperar a

memória de Jesus de Nazaré a fim de que os

cristãos permaneçam fiéis ao seu projeto e não

se deixem contaminar pela ideologia de poder.

Já se passaram aproximadamente quarenta

anos após a morte e ressurreição de Jesus. A

maioria das testemunhas oculares de Jesus

histórico já morreu. A segunda geração de

cristãos, diante de novos desafios, necessita de

orientações sólidas. Para isso, nada melhor do

que ver e ouvir de novo o que Jesus fez e disse.

O evangelho de Marcos concebe a viagem

de Jesus com seus discípulos – da Galileia até

Jerusalém (8,22-10,52) – como um caminho

pedagógico. Nessa viagem, Jesus se preocupa,

de maneira especial, em abrir os olhos dos

discípulos para que compreendam que tipo

de Messias ele é. Não basta confessar publicamente

que Jesus é o Cristo, como fez Pedro em

nome de todos (8,29). É necessário superar a

ideia de que o Messias seria um líder poderoso

prestes a manifestar domínio e glória. De fato, o

episódio imediatamente anterior ao texto deste

domingo revela que os discípulos carregam a

pretensão de tirar proveito do poder que Jesus

conquistaria ao entrar na capital. Tiago e João

lhe pedem encarecidamente que sejam distinguidos

dos demais e possam sentar um à direita

e outro à esquerda de Jesus em sua glória. Os

demais discípulos ficam indignados contra os

dois numa demonstração de divisão interna

pela disputa de poder. Jesus os chama e, com

paciência e misericórdia, mostra-lhes as atitudes

que devem ser renunciadas e as que devem ser

praticadas pelos seus verdadeiros seguidores.

Há um jeito de ser que caracteriza os cristãos,

totalmente diferente do que é adotado

pelos grandes e importantes deste mundo: enquanto

estes dominam as nações, os discípulos

devem fazer o contrário: “Aquele que quiser

ser grande, seja o vosso servidor, e aquele que

quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo

de todos”. Os critérios de Jesus subvertem

os valores apregoados pela ideologia oficial.

Os seus critérios são os do Reino de Deus.

Somente pelo serviço abnegado de uns aos

outros é que se estabelecem as relações sociais

de justiça, paz e fraternidade.

60 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

Os discípulos ainda não conseguem captar o

sentido das palavras de Jesus. Não conseguem

imaginar um Messias sem honra e sem privilégios.

Como poderiam seguir um sujeito que

escolhe ser servo quando poderia ser rei? Jesus

não desiste: nessa caminhada pedagógica, ele

anuncia por três vezes que o Messias deverá

sofrer e ser morto; ele alerta que para segui-lo

é necessário carregar a cruz. Seus ensinamentos

são autenticados pelo testemunho concreto de

sua vida: “O Filho do Homem não veio para

ser servido, mas para servir e dar a sua vida em

resgate por muitos”. Constata-se aqui uma íntima

relação com o “servo sofredor” do profeta

Isaías Segundo, conforme a primeira leitura

da liturgia deste domingo. Jesus assume sua

missão de fidelidade ao plano de salvação de

Deus, entregando livremente sua vida. Abandonado

e desprezado até pelos seus discípulos,

doa-se por inteiro como vítima expiatória. Ele

nos resgatou da morte para a vida.

As comunidades de Marcos e as comunidades

de hoje são convidadas a analisar suas relações

internas à luz do ensinamento e do testemunho

de Jesus. Não há argumentos que possam justificar

atitudes de superioridade de uns sobre os

outros. As funções ou cargos necessários para

dinamizar a evangelização não podem ser usados

para benefícios e privilégios pessoais. No seguimento

de Jesus, não há lugar para “grandes” e

sim para “servidores”; não há lugar para “primeiros”

e sim para “servos de todos”.

  1. II leitura (Hb 4,14-16): Jesus solidário

com nossas fraquezas

O texto de Hebreus aprofunda o tema do

sacerdócio de Jesus Cristo. Os interlocutores

certamente conhecem o sistema sacerdotal do

judaísmo em que o sumo sacerdote exercia a

função de mediador entre Deus e a comunidade,

entrando uma vez por ano no Santo dos Santos

(o lugar mais sagrado do templo de Jerusalém)

para realizar o rito de purificação dos pecados

em nome de todo o povo. Agora é Jesus o único

mediador entre Deus e a humanidade. Não há

mais necessidade de ofertas e sacrifícios nem no

templo nem em qualquer outro lugar. Jesus mesmo

se ofereceu em sacrifício, uma vez por todas,

como expiação por todos os nossos pecados.

Ele veio inaugurar a nova e definitiva Aliança.

Com sua ascensão, Jesus atravessou os céus

e encontra-se junto de Deus Pai, onde exerce

o seu sacerdócio eterno em favor de toda a

humanidade. Tendo ele assumido a condição

humana, experimentou em seu próprio corpo

os limites e as fraquezas próprios de cada

pessoa. Em tudo se fez igual a nós, menos

no pecado. Fez-se solidário com os nossos

sofrimentos até à morte. Foi incompreendido,

perseguido, maltratado, abandonado e condenado

como um marginal desprezível. Como

“servo sofredor”, carregou sobre si as dores

da humanidade, garantindo a redenção para

todos, também para os que o crucificaram.

Ora, se Jesus foi tão radicalmente solidário

com os seres humanos, cada um de nós pode

aproximar-se dele sem nenhum receio, com

total confiança. Ele nos compreende perfeitamente

e sabe compadecer-se de nossas

fraquezas. Ele é a fonte de graças e pleno de

misericórdia. Seu sacerdócio é permanente e

eficaz.

Os autores da carta aos Hebreus transmitem

às comunidades cristãs, formadas principalmente

por judeus convertidos, a convicção

de que estão vivendo um novo tempo. Por

isso, mesmo em situação de sofrimento, devem

permanecer firmes na profissão de fé e aproximar-

se de Jesus com toda a confiança para

receber a ajuda oportuna. Os cristãos podem

caminhar na certeza do amor sem limites de

Deus, revelado no sacrifício (= ação sagrada)

expiatório de Jesus.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Somos servos e servas de Deus. O povo

de Israel, no exílio da Babilônica, animado

pela ação profética, descobre sua vocação de

ser “servo de Deus”. O sofrimento em que

se encontra não é mais motivo de desânimo

ou tristeza. Assumido livremente numa nova

dimensão de fé, torna-se o meio pelo qual o

povo percebe a presença amorosa de Deus que

lhe oferece uma missão especial: carregar as

dores e as transgressões do mundo. Através

do seu “servo sofredor”, Deus irradia sua

misericórdia e manifesta sua salvação a toda a

humanidade. A partir dessa “teologia do servo

sofredor”, podemos refletir sobre como Deus

se revela hoje através das pessoas excluídas.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 61

Seguir a Jesus com sinceridade. O Evangelho

de hoje chama a atenção para as influências

que as ideologias de poder podem exercer

sobre nós. Seguir a Jesus é renunciar à busca de

fama e de prestígio e tornar-se servidor. Rompendo

com toda forma de poder e assumindo

a condição de servo, Jesus nos resgatou para

a vida e abriu o caminho para uma sociedade

justa e fraterna. Nossa prática cotidiana corresponde

ao testemunho de Jesus?

Jesus fez-se solidário conosco. Ele conhece

nossas fraquezas. Podemos contar sempre

com sua misericórdia. Ele é o único e eterno

sacerdote que se oferece para que tenhamos

vida em plenitude. A carta aos Hebreus nos

alerta: “Permaneçamos firmes na profissão de

fé”. Podemos caminhar com segurança nos

passos de Jesus, oferecendo a nossa vida, com

liberdade e consciência, na prática do amor e

da justiça.

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM

(28 de outubro)

DEUS VEM EM NOSSO SOCORRO

E NOS LIBERTA

  1. INTRODUÇÃO GERAL

As leituras bíblicas deste domingo nos introduzem

no mistério do amor de Deus que se

solidariza com as pessoas que sofrem e oferece-

-lhes a libertação de todos os males. É o Deus

sempre fiel à Aliança que estabeleceu com o

seu povo. Em qualquer situação histórica ele

se encontra muito próximo, ouve as súplicas,

acolhe as dores e indica-lhes os caminhos de

vida e de liberdade. O profeta Jeremias proclama

uma palavra de coragem e de esperança aos

aflitos e desanimados no exílio da Babilônia:

“O Senhor salva o seu povo!”. E Deus confirma

que haverá de reunir o povo disperso,

“entre eles há cego e aleijado, a mulher grávida

e que dá à luz, todos juntos”, porque ele é Pai

de todos (I leitura). Seu amor se manifestou

de modo pleno em seu filho Jesus Cristo que

veio para libertar o ser humano, sendo uma

boa notícia aos excluídos como aquele cego,

à beira do caminho, chamado Bartimeu,

conforme narra o evangelho de Marcos. Sua

cegueira reflete a dos discípulos que não con62

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

seguem entender que tipo de Messias é Jesus.

Será compreendido somente após sua morte e

ressurreição. É o Messias, Filho de Deus, que

se entregou livremente para a vida do mundo.

Ele é o sumo e eterno sacerdote, “capaz de

ter compreensão por aqueles que o ignoram

e erram” (II leitura). Em Jesus e com Jesus

também nós assumimos o papel sacerdotal

oferecendo a nossa vida como dom para Deus

e para os irmãos.

  1. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
  2. I leitura (Jr 31,7-9): O Senhor salva

o seu povo

Jeremias foi um profeta ativamente engajado

na política de seu tempo. Sua atuação se dá

em várias etapas entre os anos de 630 a 580

a.C. O Reino do Norte (ou Efraim) fora invadido

e destruído em 722 a.C. pelos assírios.

Há muitos exilados na Assíria. Internamente,

o povo sofre com a política centralizadora do

rei Josias (cf. 2Rs 22-23). Além disso, Jeremias

participou dos fatos que culminaram com a

invasão do exército babilônico, a destruição

do templo e da cidade de Jerusalém. Uma parte

da população de Israel é deportada (cf. 2Rs

24-25). Devido à sua ação profética, Jeremias

foi perseguido, preso e teve de fugir para o

Egito, onde morreu.

O texto da liturgia deste domingo faz parte

do chamado “livro da consolação” (Jr 30-31),

onde, por ordem de Deus, Jeremias anuncia

aos exilados um futuro de paz, de liberdade e

de alegria na terra de Israel. Todos os exilados

serão reunidos dos confins da terra e voltarão

à sua pátria. Isso acontecerá por obra gratuita

de Deus. É boa notícia que culminará com a

celebração de uma nova Aliança: “Então serei

seu Deus e eles serão o meu povo… Todos me

conhecerão, dos menores aos maiores, porque

perdoarei sua culpa e não me lembrarei

mais do seu pecado – oráculo do Senhor” (Jr

31,31-34).

A sociedade que Jeremias sonha com a

volta dos exilados não é a restauração da

monarquia, mas a fidelidade à Aliança com

Deus. Ele liberta o seu povo da opressão

do mais forte. Deus apresenta-se como “pai

para Israel”, que reúne os filhos dispersos e

reconstitui sua família. Ninguém deverá ficar

de fora. Os cegos, os aleijados e as mulheres

grávidas são especialmente lembrados. Todas

as pessoas fracas e indefesas recebem o

cuidado prioritário. As mulheres grávidas e

que dão à luz prenunciam o futuro de vida e

alegria para o povo.

A profecia cumpre a missão de animar a

esperança militante no meio das pessoas vítimas

da opressão e da violência dos grandes.

Deus toma posição e vem salvar os seus filhos

e filhas cuja vida está ameaçada. Uma terra de

liberdade e vida para todos é vontade de Deus

e tarefa nossa.

  1. Evangelho (Mc 10,46-52): Jesus liberta

da cegueira

A cura do cego Bartimeu se dá na última

parada de Jesus com seus discípulos antes da

chegada em Jerusalém. Como já constatamos

nos domingos anteriores, essa viagem, desde

a Galileia, constitui-se num caminho pedagógico

no qual Jesus se ocupa, de maneira

especial, com a formação dos seus discípulos.

Percebe-se que, no esquema do evangelho

de Marcos, esse caminho está emoldurado

entre duas narrativas de curas de cegos: a de

Betsaida (8,22-26) e essa do cego à saída de

Jericó. O primeiro cego recupera a vista após

um processo gradual: Jesus o retira para fora

da cidade, cospe-lhe nos olhos e por duas

vezes impõe-lhe as mãos. Esse cego de Jericó,

para recuperar a vista, Jesus não precisa nem

mesmo tocá-lo. O cego de Betsaida é conduzido

a Jesus por outras pessoas e não lhe é

dado nome próprio; o da saída de Jericó tem

iniciativa própria, grita a Jesus de Nazaré sem

se deixar intimidar pelos que procuram calá-lo

e possui um nome próprio. Podem-se perceber

outros detalhes que revelam as diferenças e

semelhanças entre os dois relatos.

Ambos os cegos são representativos dos discípulos

frente ao conhecimento que possuem

a respeito de Jesus. De fato, logo após a cura

do cego de Betsaida, constatamos a confissão

pública de Pedro que fala em nome dos demais

discípulos. Teoricamente, ele sabe que Jesus é

o Messias, mas não admite que seja vulnerável

ao sofrimento e à morte impingida pelas

autoridades religiosas e políticas de Jerusalém.

Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286 63

Nos discípulos permanece a concepção de um

messianismo de poder e glória. Seguir a Jesus,

para eles, é a oportunidade para realizar as

suas ambições de fama e de domínio, o que

provoca discussões internas a respeito de quem

seria o maior. Eles estão em situação de cegueira.

Compreenderão, pouco a pouco, quem é

realmente Jesus e qual sua missão no mundo,

conforme o texto de domingo passado: “O

Filho do homem não veio para ser servido,

mas para servir e dar a sua vida em resgate

por muitos” (10,45).

O cego Bartimeu representa o estágio

conclusivo do processo de abertura dos

olhos pelo qual os discípulos estão passando.

Não é fácil desvencilhar-se das ideologias

dominantes, representadas, nesses episódios,

pelas cidades. O primeiro cego, Jesus

o retirou de dentro de Betsaida para poder

curá-lo. Bartimeu já está fora de Jericó e

encontra-se à beira do caminho. Essa situação

lembra o ensinamento de Jesus através

da parábola da semente: “Os que estão à

beira do caminho onde a Palavra foi semeada

são aqueles que ouvem, mas logo vem

Satanás e arrebata a Palavra que neles foi

semeada” (Mc 4,15). De fato, inicialmente

Bartimeu se dirige a Jesus e, por duas vezes,

o chama de “Filho de Davi”. Em sua concepção,

Jesus seria o Messias à moda de um rei

triunfalista. Satanás (que se manifesta nas

ideologias dos grandes e poderosos) ainda

domina a consciência de Bartimeu, como

aconteceu com Pedro quando tentou impedir

que Jesus fosse a Jerusalém e seguisse o

caminho de um servo sofredor. Jesus reagiu

dizendo: “Afasta-te de mim, Satanás, porque

não pensas as coisas de Deus, mas as dos

homens!” (8,33).

Jesus vence Satanás, que cega as pessoas.

É necessária, porém, a disposição de deixar-se

curar e mudar de mentalidade. É o que fez Bartimeu.

Para isso teve de vencer os impedimentos

daqueles que mandavam calar-se. Jesus ouviu

o seu grito, parou e mandou chamá-lo. Deus

ouve o clamor dos oprimidos! Perguntou Jesus:

“Que queres que eu te faça?”. O cego já havia

se desvencilhado de seu manto, que simboliza

suas seguranças pessoais, sua dependência da

mendicância, seu passado de atrelamento e

de submissão a um sistema excludente. Está

64 Vida Pastoral – setembro-outubro 2012 – ano 53 – n. 286

pronto para acolher a verdade que liberta, que

é Jesus e sua proposta. Agora não se dirige mais

a Jesus com o apelativo de “Filho de Davi” e

sim com a expressão reverente: “Rabbuni”,

que significa “meu mestre”. E manifesta seu

profundo desejo, fruto de uma longa busca:

“Que eu possa ver novamente”. É sinal que ele

um dia enxergava. O veneno de “Satanás”, ou

seja, os ideais que não são de Deus, o cegaram.

Bartimeu são os discípulos que abrem os olhos

com a graça de Jesus e o seguem no caminho

da cruz. Bartimeu é cada um de nós: Jesus nos

ajuda a abandonar o “manto” do egoísmo

e da submissão às ideologias

dominantes e

tornar-nos conscientes da missão que temos de

construir um mundo como casa de vida digna

sem exclusão.

  1. II leitura (Hb 5,1-6): O sacerdócio

de Jesus

A carta aos Hebreus apresenta Jesus como

sumo e eterno sacerdote. Para que os ouvintes

e leitores pudessem entender essa mensagem,

os autores tomam como exemplo a função

sacerdotal exercida na tradição judaica. O

sumo sacerdote era investido da mais alta

dignidade como mediador entre Deus e o

povo. Sua função é oferecer dons e sacrifícios

pelos pecados do povo e também pelos seus.

Essa imensa honra só podia ser concedida

para quem era chamado por Deus, que, por

tradição de fé e legitimação legal, correspondia

a alguém da descendência de Aarão. A

descrição do sumo sacerdote aqui é idealizada,

pois sabemos que essa função no templo

de Jerusalém foi, muitas vezes, conquistada

por pessoas interesseiras que faziam o jogo

da política imperial. Também dificilmente um

sumo sacerdote agia tendo consciência de suas

próprias fraquezas com a compreensão das

fraquezas dos outros.

Portanto, a idealização da função sacerdotal

visa a contemplar e acolher na fé o novo e definitivo

sacerdócio de Jesus Cristo, totalmente superior

ao do antigo. Entregando-se como vítima

expiatória pelos pecados de toda a humanidade,

tornou-se o eterno sumo sacerdote. Ele não entrou

na linhagem sacerdotal que oficialmente se

concebia no sistema religioso judaico. Não é por

descendência de Aarão, e sim “segundo a ordem

de Melquisedec”. Essa personagem é de origem

misteriosa. Ela aparece a Abraão (Gn 14,18-20)

como “Rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo”,

concedendo a bênção ao pai do povo de

Israel. Revela ser superior a Abraão. Com isso,

relaciona-se com a superioridade do sacerdócio

de Cristo sobre o sacerdócio de Aarão. O nome

de Melquisedec significa “em primeiro lugar ‘Rei

da Justiça’; e, depois, ‘Rei de Salém’, o que quer

dizer ‘Rei da Paz’” (Hb 7,2). É a figura da missão

sacerdotal de Jesus Cristo recebida diretamente

de Deus Pai. Ele assumiu a condição humana

e é capaz de compreender as fraquezas do ser

humano. Com plena humildade e obediência

a Deus, ofereceu-se uma vez por todas para a

justiça, a paz e a salvação do mundo.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

O Senhor, nosso Deus, vem para nos

salvar. Ele é nosso Pai misericordioso. O profeta

Jeremias percebe a presença consoladora

de Deus no meio do povo exilado. Anuncia a

palavra de esperança e alegria, que é a reunião

de todos os dispersos na terra onde reina a

liberdade e a paz. Ninguém fica de fora: os

cegos, os aleijados e as mulheres grávidas que

representam as pessoas frágeis e indefesas recebem

proteção e carinho especiais… É oportuno

relacionar com o mês das Missões…

Jesus é Deus que se fez carne. Caminha

com seu povo e ajuda os discípulos a reconhecê-

lo como o Messias servidor, curando-

-os da cegueira das ideologias dominantes.

Bartimeu representa todos os que buscam a

Jesus com sinceridade. Vence as barreiras dos

que desejam impedi-lo. Jesus ouviu o grito de

Bartimeu, parou, deu-lhe atenção e a visão foi

recuperada. O que nos impede de conhecer e

seguir verdadeiramente a Jesus Cristo? Em

que “cegueiras” podemos cair hoje? Como

podemos nos libertar delas? Pode-se enfatizar

a importância de participar do processo de iniciação

à vida cristã, dos cursos de formação…

Jesus é nosso mediador junto a Deus

Pai. Ele nos conhece integralmente, pois se

fez nosso irmão. Deu o exemplo de entrega

da vida pela paz e justiça no mundo. Envia e

abençoa os seus discípulos missionários para

que continuem a sua obra…

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