Estudo sobre a vida de São Paulo, suas cartas: REFLEXÕES PARA A MISSÃO NO SÉCULO XXI

Estudo sobre a vida de São Paulo, suas cartas, seu estilo missionário e as pistas que ele aponta para a missão hoje!

QUEM ERA PAULO:  Paulo nasceu na cidade de Tarso (Atos 21,39 e 22,3)  em uma família de  tradição judaica que pertencia à Tribo de Benjamim (Filipenses 3,5). Seus pais tinham uma situação financeira razoável, pois possuíam a cidadania romana, privilégio de poucos judeus. Foi justamente a cidadania romana que livrou Paulo de alguns momentos de tensão com os poderosos, que se sentiram afrontados por conta da sua ação evangelizadora (Atos 16,37ç 22, 25.29ç 23,27). Muito jovem, mudou-se para Jerusalém e, sob a orientação do mestre Gamaliel, doutor da Lei muito estimado por todos (Atos 5,34),  aprofundou os conhecimentos do farisaísmo.

O QUE É O FARISAÍSMO: Farisaísmo era uma corrente leiga que pretendia formar uma comunidade de puros entre o povo de Israel, Fariseu, em hebraico (parush) significa separado. Os fariseus tinham uma leitura fundamentalista da Torá (Lei). Seguiam piamente todos os detalhes da Lei e exigiam que todos os outros, mesmo os não fariseus, também a seguissem. Qualquer movimento que desviasse a Lei do sentido que os fariseus a concebiam, era  prontamente atacado por eles.

PAULO UM ÓTIMO FARISEU É neste espírito de busca da perfeição através do cumprimento da Lei que Paulo presencia o assassinato de Estevão – primeira mártir cristão (Atos 7,58). O zelo por sua religião o fez agir com absoluta presteza no cumprimento dos seus deveres de fariseu (Filipenses 3,6). Veja o que diz Paulo sobre isso: “… fui educado nesta cidade, formado na escola de Gamaliel, seguindo a linha mais escrupulosa dos nossos antepassados, cheio de zelo por Deus, como também vocês o são agora. Persegui mortalmente este caminho, prendendo e lançando à prisão homens e mulheres, como o sumo sacerdote e todos os anciãos podem testemunhar” (Atos 22,2-5). “Sabem que eu perseguia com violência a Igreja de Deus e fazia de tudo para arrasá-la. Eu superava no judaísmo a maior parte dos compatriotas da minha idade e procurava seguir com todo zelo as tradições dos meus antepassados” (Gálatas 1, 13-14). A CONVERSÃO DE PAULO: A conversão de Paulo é descrita em três textos do livro dos Atos dos Apóstolos: Atos 9, 3-18; Atos 22, 6-16; Atos 26, 4-18. Nesta três passagens, Paulo reafirma o propósito da perseguição aos seguidores de Jesus, o Nazareu: “Achei que devia empregar todos os meios para combater o nome de Jesus, o Nazareu. (…) também, por minha crueldades, queria forçá-los a blasfemar e, no excesso do furor contra eles, perseguia-os até nas cidades estrangeiras. (…) encarcerei um grande número de santos, tendo recebido autorização dos chefes dos sacerdotes e consentia ao serem eles mortos” (Atos 26, 9-11).Contudo, no caminho da sua missão assassina, Paulo é detido por uma grande luz vinda do céu. Cai por terra e escuta a voz do Senhor: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9,4; 22,7; 26,14). A grande luz vinda do céu mostra a Paulo sua cegueira espiritual. Tendo-lhe aberto os olhos do espírito, Deus transforma o perseguidor em um pastor do rebanho de Cristo: “ Eis porque eu te apareci: para constituir-te servo e testemunha da visão em que acabas de me ver e daquelas das quais ainda te aparecerei. Eu te livrarei das mãos deste povo e também dos pagãos, aos quais eu te envio para que lhes abras os olhos e para que se convertam das trevas para a luz, da autoridade de Satanás para Deus. Assim eles receberão o perdão dos pecados e participarão da herança com os santificados, pela fé em mim.” (Atos 26,16-18).Convertido, Paulo assume a missão de pastor, comparando-se a uma mãe que acaricia e alimenta os filhinhos “(…) apresentamo-nos  no meio de vocês cheio de bondade, como uma mãe que acaricia os seus filhinhos” (1 Tessalonicenses 2,7b). Esta comparação não é gratuita, pois Paulo vê as pessoas das comunidades por onde passou como filhos e filhas gerados por ele: “(…) fui eu quem pelo Evangelho vos gerou em Jesus Cristo” (1 Coríntios 4,15). Este sentimento de gestação das pessoas em Jesus Cristo, gera em Paulo uma profunda co-responsabilidade e afeto para com todas as comunidades por onde passou. Por isso ele nunca deixa de dar graças quando as percebe crescendo na fé e na prática da fraternidade: “(…) não cesso de dar graças a Deus a vosso respeito e de fazer menção de vós nas minhas orações” (Efésios 1,16 è veja também Filipenses 1,3; 2 Tessalonicenses 1,3;  1 Timóteo 2,1; 2 Timóteo 1,3).

PAULO, O MISSIONÁRIO QUE AGE COMO MÃE- Tal como uma mãe, Paulo está sempre atento à alimentação espiritual que deve dar para as comunidades. A umas ele dá leite e, a outras, alimento sólido, pois deseja que as comunidades cresçam e tenham a mesma graça da conversão que ele próprio experimentou (1 Coríntios 3,2). Nesta sua ação, Paulo não se preocupa em agradar os seres humanos, mas, na liberdade do amor, colocar-se inteiramente ao serviço de Deus (Gálatas 1,10). É esta liberdade que motiva Paulo a, se preciso for, entregar a própria vida pela causa do anúncio da Boa Nova (1 Tessalonicenses 2,8). A todos, fortes e fracos na fé, Paulo incentiva a caminhar no amor que superabundou na cruz de Jesus Cristo (2 Coríntios 2, 13-14). Anunciando o Evangelho com espírito maternal, Paulo tem a preocupação de primeiro ele vivenciar todas as verdades que anuncia: “Vós sois testemnunhas e Deus também o é, de quão puro, justo e irrepreensível tem sido o nosso modo de proceder para convosco, os fiéis (1 Tessalonicenses 2,1-12). Mesmo sofrendo perseguições dos judeus e, apesar das dificuldades encontradas nas comunidades cristãs, Paulo prega o Evangelho na alegria de quem ama e sabe o que faz (1 Tessalonicenses 2, 1-12).

DIFICULDADES DE PAULO NA OBRA EVANGELIZADORA– Uma das maiores dificuldades de Paulo foi evitar a tendência dos judeus convertidos de trazer os traços judaicos para as comunidades cristãs. Como judeu fariseu, Paulo conhecia bem o pensamento deles. Os judeus pensavam que somente pelo cumprimento da Lei a salvação já estaria garantida e queriam que todos os cristãos seguissem aquelas leis judaicas, principalmente a abstenção no consumo da carne de porco, sangue e a aceitação da  circuncisão. O apóstolo-mãe  mostra que nenhuma lei, mesmo a mosaica, pode, por si só, conduzir à salvação.  O Deus de Jesus Cristo, através da obra redentora de seu Filho, acolhe todos os seres humanos, independente de serem circuncidados ou não (Romanos 3, 21-23). Não é mais pelo mero cumprimento da Lei que a salvação se dá, pois “o homem não se justifica pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo (Gálatas 2,16 e Efésios 2, 8-10).  Por isso Paulo afirma com autoridade que “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gálatas 3,28). Para convencer ainda mais os judeus convertidos, Paulo afirma: “Nós judeus, somos por acaso superiores? De jeito nenhum! (…) todos estão debaixo do império do pecado, tanto judeu como grego. Como diz as Escrituras: ´não há homem justo, não há um sequer. Todos se desviaram e se corromperam” (Romanos 3, 9-11ª.12ª).

Todos os seres humanos, independente da nação à qual pertencem ou religião professada, por conta do pecado vivenciam uma ambiguidade interior: “Não consigo entender nem, mesmo o que faço: pois faço o que não quero (…) Não faço o bem que quero e sim o mal que não quero. Ora, se faço aquilo que não quero, não sou eu que faço, mas é o pecado que mora em mim” (Romanos 7, 14-20). Para romper esta ambiguidade, só há um caminho: a unidade dos cristãos em torno da Boa Nova de Jesus Cristo: “Exorto-vos pois, eu, o prisioneiro no Senhor, a andares de modo digno da vocação com que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros com amor, procurando conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz (…) até chegarmos, todos juntos, à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura do Cristo em sua plenitude. Então, não seremos mais como crianças, entregues ao sabor das ondas e levados por todo vento de doutrina, ludibriados pelos outros e por eles, com astúcia, induzidos ao erro” (Efésios 4, 1-3. 13-14).

MOTIVAÇÕES DE PAULO PARA ESCREVER SUAS CARTAS

CARTA AOS ROMANOS:  Provavelmente influenciada por judeus convertidos, Paulo tenta mostrar a esta comunidade que nenhuma lei, mesmo a mosaica, pode salvar. A salvação depende da adesão à pessoa de Jesus através do seguimento dos seus passos que nos levam à construção de uma sociedade justa e fraterna que, através das ações alicerçadas na Boa Nova, antecipam na terra as graças que teremos um dia no céu.

PRIMEIRA CARTA AOS CORÍNTIOS: Paulo escreve para uma comunidade dividida pelas brigas de grupos que valorizavam a autoridade deste ou daquele pregador do Evangelho. Muitos desejavam obter o sucesso humano e se esqueciam de abraçar a cruz provinda da ação evangelizadora. Por isso Paulo vai falar sobre a loucura que é a cruz para os pagãos e, inclusive, os judeus (1,23) O Dom da Graça não procede da sabedoria humana, mas brota da gratuidade do serviço à causa do Reino. SEGUNDA CARTA AOS CORÍNTIOS: esta carta nos revela o sofrimento do missionário Paulo diante do desafios da Evangelização. Percebe o individualismo entre as comunidades e propõe que todos os cristãos se esforcem na mútua ajuda. CARTA AOS GÁLATAS:  Era uma comunidade que negava a autoridade de Paulo como apóstolo. Influenciada pelos judeus convertidos, que exigiam a circuncisão de todos os convertidos, e por outras práticas pagãs, os  cristãos de Gálatas estavam sob um sério risco de perderem a liberdade proposta por Jesus Cristo. Por isso o tema principal desta carta será a liberdade que nos foi dada através da obra redentora de Jesus, que nos deu a graça de sermos considerados filhos de Deus. CARTA AOS EFÉSIOS:  Paulo escreve esta carta na prisão e lembra aos cristãos sobre a verdadeira missão da Igreja que deve colocar Jesus Cristo como centro dela. Porém, a Igreja deve vislumbrar não somente o Cristo glorioso, mas o verbo de Deus encarnado na história humana que, através da cruz, leva a família humana de volta à casa do Pai. CARTA AOS FILIPENSES: É uma comunidade solidária à ação missionária de Paulo, que o auxilia em orações e em recursos materiais. Nesta carta, que também foi escrita na prisão, novamente Paulo adverte a comunidade sobre o perigo da influência das idéias judaizantes, assim como dos frutos do egoísmo e da competição.  CARTA AOS COLOSSENCES: os cristãos de Colossas estavam dando demasiada importância à práticas ocultas baseada nas forças da natureza (2,8), culto aos anjos (2,18) e leis alimentares (2,16.21) como forma da busca da felicidade, colocando em segundo plano a doutrina da fé cristã. Por isso Paulo vai lembrá-los da importância da fé vivenciada primeiramente em casa, na família para que, a partir desta, a Boa Nova atinja a sociedade como um todo. PRIMEIRA CARTA AOS TESSALONICENSES: A comunidade de Tessalônica pensava que a volta de Jesus se realizaria logo e se perguntavam se os que já haviam falecido iriam participar desta glória. Paulo mostra que no fim da história, tanto os mortos como os vivos estarão reunidos para viverem para sempre com o Cristo ressuscitado. SEGUNDA CARTA AOS TESSALONICENSES:  Esperando para logo a volta do Cristo, muitos desta comunidade relaxaram no trabalho missionário. Paulo alerta a comunidade para que não cruzem os braços, mas que assumam com coragem a missão evangelizadora. PRIMEIRA CARTA A TIMÓTEO: Ao contrário das outras cartas, dirigidas para comunidades, esta é endereçada a uma pessoa. Timóteo, a quem Paulo escreve, tornou-se um colaborador de Paulo ainda muito novo (1 Timóteo 4,12) e fala dele com muito carinho em outras cartas (1 Tessalonicenses 3,2; 2 Coríntios 1,19). Paulo orienta Timóteo a evitar transformar a prática religiosa em um negócio e a organizar a comunidade nos vários ministérios (3, 1- 14). Também salienta sobre o comportamento do evangelizador, sobre a prática da caridade na comunidade. Novamente o espírito maternal de Paulo o leva a preocupar-se  com a saúde de Timóteo (5,23) SEGUNDA CARTA A TIMÓTEO: Paulo alerta Timóteo sobre a necessidade de manter-se atento às Escrituras. É nesta carta que Paulo avalia a sua longa trajetória como apóstolo do evangelho e diz que “Combati um bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé” (2 Timóteo 4,7).. CARTA A TITO: Paulo trata sobre a verdadeira doutrina que é a salvação proposta à humanidade toda. CARTA A FILEMON: Embora breve, esta é uma carta que Paulo trata sobre a sua visão da relação entre os cristãos e da salvação em Jesus cristo. Embora não querendo modificar o sistema escravista de então, Paulo esvazia o estatuto da escravidão ao afirmar que todos os seres humanos são irmãos em Jesus cristo. CARTA AOS HEBREUS: Tudo indica que esta carta não foi escrita por Paulo. De autoria desconhecida, a carta tem por objetivo despertar a comunidade para a importância da paixão de Jesus Cristo. Dando muita ênfase à tradição judaica, esta comunidade tinha dificuldade para aceitar a forma humilhante e dolorosa da paixão. Por isso Paulo esclarece sobre Jesus como verdadeiro sacerdote que rompeu definitivamente o véu do santuário possibilitando que todos adentrem no recinto sagrado. O novo santuário não foi construído por mãos humanas, mas pelo próprio Deus. A carta aos hebreus, de maneira especial, nos ensina a ler o Antigo Testamento na perspectiva cristã.

COMO LER AS CARTAS DE PAULO:

A ordem que as traduções Bíblicas utilizam para a sequência das cartas de Paulo é o tamanho, da maior para a menor. Porém, para que se possa Ter uma visão mais clara do pensamento paulino, é interessante não lê-las nesta sequência, mas sim na ordem cronológica que seria esta: Primeira e Segunda Carta aos Tessalonicenses, Filipenses, Primeira e Segunda carta aos Coríntios, Gálatas, Romanos, Efésios, Colossences, Filemon, Primeira Segunda Carta a Timóteo e Tito.

Ao final da leitura nesta sequência, pode-se ler a carta aos Hebreus, inclusive para perceber a diferença do estilo da escrita, que dá base para afirmar que esta carta não foi escrita por São Paulo.

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