CENÁRIOS DA IGREJA Há quinze anos João Batista Libânio fez previsão de três cenários possíveis para a Igreja.  Será que ele acertou algum? Leia e faça a sua avaliação.

CENÁRIOS DA IGREJA

Há quinze anos João Batista Libânio fez previsão de três cenários possíveis para a Igreja.  Será que ele acertou algum? Leia e faça a sua avaliação.

Pe. João Batista Libânio, sj. (revista Vida Pastoral nº 215 – nov/dez-2000)

A história nunca está fechada nem aberta arbitrariamente para nenhuma possibilidade. Nada acontece nela por acaso ou pura fatalidade. Todo evento, mesmo com doses aleatórias, pode ser inserido num universo de significado. Esta é a nossa tarefa humana e de cristãos. Se num juízo crítico desejamos determinado tipo de Igreja, cabe-nos colocar as condições de sua viabilidade.

No atual momento eclesiológico, vários cenários são possíveis. Antes de defender, rejeitar este ou aquele nos cabe colocar as condições que favoreçam um ou outro e julgarmos qual é o mais próximo da nossa visão de Igreja.

  • CENÁRIO DA IGREJA COMO INSTITUIÇÃO

Três centros que valorizam a presença da Igreja e sua visibilidade diante de outras denominações religiosas na sociedade. Quer marcar a sua atuação pelo seu poder.

  • Cúria Romana
  • Diocese
  • Paróquia

Teologia – a serviço do magistério. Qualquer outra teologia, diferente da oficial, sofrerá restrições.

Bíblia e Catequese – se pautará no Catecismo da Igreja Católica

Leigos – ocuparão lugar privilegiado por meio dos movimentos de espiritualidade e apostolado, influenciando o clero e a vida religiosa.

Escolha dos Bispos – obedecerá a critérios de fidelidade, obediência visível à instituição.

Formação seminarística– formar-se-á mais para as funções sagradas e institucionais, com maior reconhecimento social e com previsível aumento das vocações.

Campo da Moral – atenção especial à moral sexual, familiar, com ênfase à problemática bioética, com menor preocupação pela temática social.

Campo da Evangelização –  disputa por espaços na publicidade midiática. O clero atribuirá mais importância à exterioridade comunicativa, visual e midiática da mensagem do que a seu conteúdo.

Campo cultural – assumirá posição de resistência, crítica e combativa à modernidade, sobretudo dos que ameaçam a fé, a moral e a estabilidade familiar. Da modernidade, usará técnicas, especialmente da mídia, buscando ser uma Igreja visível por meio dos canais de TV, rádios e imprensa.

Campo social – a Igreja se preocupará com os pobres por meio de obras de assistência, mas não na perspectiva crítico social. Suprirá o Estado em suas carências assistenciais. Poderá receber apoio das classes empresariais e burguesia como forma de se evitar turbulência social.

PLAUSIBILIDADE DO CENÁRIO

Tem possibilidade de vingar e está presente no seio da Igreja. Pesa a favor de tal cenário a longa experiência da Igreja como Instituição. Porém, cada vez mais a Igreja esbarrará em uma sociedade avessa ao autoritarismo. Tanto as forças culturais pós-modernas quanto às aspirações religiosas vão à direção de estruturas mais flexíveis e adaptadas às experiências pessoais. Busca-se cada vez mais uma prática religiosa individual, subjetiva, montada no gosto das pessoas. Tal cenário não corresponda a uma Eclesiologia pautada na Pneutmatologia.

  • CENÁRIO DA IGREJA DO CARISMA

É um cenário quase oposto ao anterior. É o triunfo do carisma, da espiritualidade, da mística, das experiências pessoais e subjetivas. Quando se fala num cenário do carisma, quer-se chamar a atenção tanto para a presença mais acentuada do Espírito quanto para o lado inspirador e espiritual das próprias instituições;

Bíblia e Catequese– estará nas mãos dos fiéis que buscarão nela conselhos imediatos, palavras de estímulo e questionamentos. Será deixado de lado o aspecto científico para buscar na Bíblia consolo e receitas pessoais de felicidade a modo dos livros de auto-ajuda com reforço à autoridade de Deus.

Liturgia – se transformará na grande festa religiosa e emocional e  nela os leigos encontrarão muita liberdade celebrativa.

Formação seminarística – marcada pela espiritualidade de alguns movimentos, formará para que o clero anime e nutrirá os leigos na prática dos movimentos.

Ação Pastoral – receberá menos realce em favor da interiorização e privatização da vida cristã. A Igreja vai interessar-se mais por uma presença espiritual na mídia, que dificultará o envolvimento da Igreja com a sociedade e o mundo.

PLAUSIBILIDADE DO CENÁRIO

Tal cenário está, no momento, em alta, especialmente neste início de milênio. São previstos conflitos com a Igreja Institucional.

 

3- CENÁRIO DE UMA IGREJA DA PREGAÇÃO

Serão valorizados neste cenário os aspectos doutrinais, o ensino sob as formas de catequese, a pregação, a moral, a evangelização e o anúncio. A vida interna da Igreja se organizará em torno em torno da Palavra e cursos de Bíblia e Teologia serão instituídos para formar catequistas, leigos e agentes de pastoral.

Campo social –  A busca de uma sociedade justa e fraterna se expressará por meio de seus ensinamentos sociais. Ocupar-se-á a mídia como lugar da evangelização.

É uma Igreja que investirá muito na capacitação intelectual do clero e dos leigos.

PLAUSIBILIDADE DO CENÁRIO

Seu futuro vem da importância e necessidade crescente do saber na atual sociedade.Sua dificuldade se origina tanto na decadência dos cursos quanto no tipo de cultura vigente, mais simpático à imagem que ao conhecimento.

Teologicamente, nesse cenário valoriza mais a dimensão fundamental da fé como conhecimento.

  • CENÁRIO DE UMA IGREJA DA PRÁXIS LIBERTADORA

Neste cenário predominará a leitura popular da Bíblia com círculos bíblicos, em que se articulam fé e vida. A Teologia seguirá o método VER/JULGAR/AGIR. A Igreja se articulará em Comunidades de Base e surgirá a figura nova da Assembléia do Povo de Deus como órgão orientador da Igreja Local.

Multiplicar-se-ão celebrações sem a presença do ministro ordenado e os movimentos perderão a relevância, já que o principal ordenador da Igreja será as comunidades eclesiais de base. O leigo assumirá relevância maior na coordenação das comunidades e nos ministérios. Haverá um redimensionamento do papel do clero e, por conseguinte, sua preparação nos seminários. Haverá maior ênfase na espiritualidade do seguimento de Jesus na relação com a libertação dos sofrimentos sociais. As vocações surgirão especialmente dos ambientes populares e de grupos sintonizados com eles.

.     A presença da Igreja se tornará mais expressiva e crítica, seja por meio dos seus ensinamentos sociais, seja mediante práticas pastorais sociais. Em relação aos meios de comunicação, será dada ênfase às rádios comunitárias, programas populares e presença mais marcante nas camadas mais simples da população. Será valorizada a religiosidade popular, seja sob o aspecto da expressão da vida do povo, seja sob as suas possibilidades libertadoras.

 

PLAUSIBILIDADE DO CENÁRIO

As chances de êxito deste cenário fundam-se na tradição de Medellín e Puebla, das três últimas décadas, que conseguiu presença significativa em nosso continente por meio de uma prática pastoral libertadora e de um testemunho de vida até o martírio. As dificuldades vêm por conta da crise das esquerdas e das militâncias com a queda do Socialismo e com as sucessivas derrotas das forças populares. O clima de pós-modernidade e de neoliberalismo não favorecem este cenário.