O SONHO QUE VIROU PESADELO


O ROUBO DO PORTÃO

Fato verdadeiro: um rapaz roubou o portão da entrada de uma chácara. Imagine alguém com um martelo, chave de fenda e outras ferramentas retirando o portão de um domicílio sem permissão. Talvez se fosse de uma casa, o barulho alertaria o morador que cuidaria de logo espantar o meliante. Mas o fato aconteceu em um ambiente quase rural. A distância entre o portão e a casa é considerável. Pequenas batidas ouvidas ao longe não despertaria a atenção de ninguém. Depois de um tempo de esforço (afinal de contas, também para roubar o portão ou qualquer outro objeto há uma ação que redunda em cansaço), o objeto do desejo daquele jovem estava em suas mãos. Ele colocou-o nas costas e foi embora.

Mas o proprietário daquela chácara ouviu o estranho barulho e de forma discreta foi ver o que estava acontecendo. Foi tão discreto que o ladrão nem percebeu a presença da vítima, que acompanhou todo o “trabalho” do meliante à distância. Portão nas costas, passos lentos – era um portão grande e pesado – lá foi aquele que gosta de pegar coisas do alheio caminhando cambaleante, e a vítima atrás, seguindo-o. O destino foi um ferro velho. A conversa entre o surrupiador das coisas alheias e do comprador e vendedor de sucatas, imagino que deva ter sido esta:

– Trouxe um portão velho para vender.

O proprietário do ferro velho olha o objeto e faz uma avaliação da coisa e de quem a quer vender. Digamos que o pobre rapaz não tem características de quem pudesse ter um portão daqueles. Obviamente que algo está errado.

– Quem lhe deu este portão?

– NInguém me deu. Ele é meu. Não o quero mais, por isso quero vendê-lo.

Quem tivesse um portão daquele tipo provavelmente também teria uma bela casa. Era um portão trabalhado, ferro de primeiríssima qualidade. E se tivesse uma bela casa, por certo também teria uma caminhoneta ou recursos para contratar uma que o ajudasse a conduzir o portão até o local da venda. Mas ali, na frente do negociador de sucata, estava um jovem maltrapilho, descalço, suado por ter carregado um belo portão. Tudo indicava que o objeto era produto de roubo. E a resposta foi um sonoro não!

– Não me interessa o portão. Pode levá-lo embora.

À distância o dono do portão acompanhava a conversa dos dois. Enquanto olhava tudo, cuidou de usar o celular para chamar a polícia. Viu que o ladrão colocar o portão de volta às suas costas, levando-o embora. O comprador de coisas velhas não permitiu nem que o pobre rapaz ladrão o deixasse ali.

Agora o dono da chácara que ficara sem o portão tinha dentro de si uma indignação. Como é que alguém em sã consciência poderia recusar um portão tão bonito? E provavelmente o ladrão o estivesse vendendo a preço de banana. Aquele portão fora desenhado por ele mesmo. Levou muitas noites rabiscando, pensando, até que a obra estivesse pronta. Pagou o serralheiro pelo trabalho em quatro vezes – prestações, aliás, bem salgadas. Mas ele queria um portão bonito para enfeitar a entrada da sua chácara – a chácara dos seus sonhos – era o que estava escrito em uma placa logo acima do portão furtado: “Chácara dos meus sonhos”.

Sem ter conseguido vender o objeto que lhe dera tanto trabalho, o ladrão não quis carregá-lo mais. Viu um terreno baldio ali por perto e tratou de jogá-lo em meio ao matagal. Não deu muitos passos e foi abordado pelos policiais que vieram atender ao chamado da vítima.

– Mãos na cabeça! – disse o policial com armas em punho.

– O que foi que eu fiz? – perguntou o rapaz!

– Você roubou o meu portão – disse o dono da chácara.

Enquanto um policial tratava de algemar o meliante, o outro foi buscar o portão. Era pesado, por isso pediu ajuda ao dono do objeto furtado que o ajudasse. Logo todos estavam reunidos em frente ao terreno baldio: portão, vítima, ladrão, vendedor de sucatas e dois policiais. Diante das evidências o rapaz não teve como negar o crime.

– Fui eu mesmo quem roubou o portão.

– Mas por que? – perguntou o policial.

– Tava precisando de dinheiro para dar de comer aos meus filhos.

– Isso é mentira. Acho que nem casado ele é! Devia usar o dinheiro para comprar drogas – disse indignado a vítima.

Todos foram para a delegacia. As pessoas – cada qual cumprindo o seu papel (vítima, ladrão, policiais) seguiram em automóveis e o portão levado em uma velha caminhoneta pelo proprietário do ferro velho. Devido à nova lei cautelar que manda que delitos que não redundem em mais de quatro anos de reclusão seja arbitrada fiança em vez da prisão, depois de feito o registro o delegado informou ao meliante:

– Pagando um salário mínimo você responderá ao inquérito em liberdade.

– Posso ligar para alguém trazer o dinheiro?

O delegado indicou o telefone para o rapaz, que se comunicou com um colega de serviço, ou seja, um outro ladrão. Ninguém sabe de onde, mas depois de duas horas – mais ou menos – o dinheiro foi entregue para o delegado. O dono do ferro velho, depois de ter dado suas declarações, foi embora. No calor dos fatos, a vítima nem tinha se dado conta de que agora tinha um portão a ser levado embora, mas o carro que o trouxera já não estava mais ali.

– Posso ir embora? perguntou o rapaz que roubara portão.

– Sim! Disse o delegado.

O dono da chácara não compreendeu o porque estava sendo solto aquele que lhe fizera perder tanto tempo naquele dia e que também tinha danificado a entrada da chácara.

– É a nova lei cautelar – respondeu o delegado, mesmo antes de ser questionado pela vítima. A lei manda arbitrar a fiança e temos que fazer.

– E como é que eu levo o meu portão de volta agora?

– Isso é por sua conta. Nós o trouxemos aqui para fotografar e constar nos autos a imagem do produto do furto. Levá-lo embora e recolocá-lo no lugar é por sua conta.

Depois de algumas ligações, o proprietário da chácara conseguiu alugar uma caminhoneta para transportar o portão. Somados o aluguel do veículo e os pedreiros que colocaram o portão de volta ao seu lugar, a vítima teve que desembolsar quase quatrocentos reais.Mas seu prejuízo não ficou só nisso. Teve que colocar um equipamento de segurança com câmara de vigilância na entrada da chácara. Mesmo assim, depois de um mês, teve uma nova experiência da violência urbana. Desta vez os bandidos pularam o portão e entraram na casa da chácara. Mediante grave ameaça sob a mira de revolver, reviraram todo o imóvel e levaram vários objetos de valor, inclusive o dinheiro que seria usado para pagar a prestação do equipamento de segurança instalado à entrada da chácara.

Na semana seguinte o chacareiro colocou um anúncio no jornal: “Vende-se Chácara”.

Infelizmente a chácara dos sonhos se tornara a chácara do pesadelo.

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