A DOR DA MORTE VENCIDA PELO AMOR


A DOR DA MORTE VENCIDA PELO AMOR

 

A dor provocada pela morte de alguém que amamos é horrível e só sabe o tamanho dela quem já a sentiu. Por 03 vezes fui vítima desta sensação dolorosa, que parece como um nó que do coração se alastra e vai apertando todo o corpo. A primeira vez, ela doeu com a morte de papai. A segunda foi com o falecimento de mamãe e a terceira foi a morte de José Eugênio, meu irmão. Vou narrar-lhes os fatos da morte de minha mãe.

Junto ao túmulo, vi o caixão de Jurema ser empurrado para a gaveta mortuária lentamente. Depois o coveiro foi colocando alternadamente cimento e tijolo, até que não se pôde ver mais nada a não ser uma parede. Uma vida partilhada na dor e na alegria, agora era separada por uma simples fileira de tijolos. Deu vontade de derrubar tudo, tirar mamãe de dentro daquela escuridão e voltarmos para casa, como se aquilo tivesse sido uma grande brincadeira. Não era brincadeira! Ela morreu.

As pessoas foram saindo uma a uma e meus irmãos e eu ficamos ali, perto daquela pequena parede, olhando-a em silêncio, apenas escutando os soluços um do outro.

Aquela dor intensa teve início quando ainda residia na Paraíba. Mônica, minha irmã, informou por telefone que mamãe estava com câncer de mama. Adiantei, então, minhas férias em dois meses para estar com ela no momento em que fizesse a primeira quimioterapia. Queria estar junto para fortificá-la. Não precisou! Ela subiu os degraus da clínica de oncologia muito confiante. E dizia para os filhos:

– Vou vencer essa doença! Basta que vocês me ajudem a chegar na hora e no local da luta. A batalha acontecia na sala de quimioterapia. Durante a primeira aplicação, que durou quase três horas e meia, pude ficar pertinho dela.

Foram quatro longos anos que me fiz presente somente através dos telefonemas diários, nos quais ela me falava sobre a batalha. Durante a luta contra a doença, viajava uma vez por ano para ficarmos juntos durante um mês. Depois, voltava para a missão, distante quase 2.600 quilômetros.

A cada retorno para casa, encontrava-a diferente. Um pouco mais magra, às vezes triste, outras, alegre e, no ano em que faleceu, sem os cabelos. Carinhosamente passei a chamá-la de minha Carequinha. E ela, sorrindo, respondia: Careca, mas viva! Graças a Deus!

Numa das férias em que estivemos juntos, mostrei-lhe uma música que estava compondo. Queria falar da saudade que sentia dos tempos de criança, do aconchego nos braços dela e do meu pai e de como isso tudo me ajudava a amar a vida.

Lembramo-nos de um fato que marcou a nós dois. Lá pelos meus dez ou onze anos, disse qualquer coisa que a fez chorar. E ela impôs-me o seguinte castigo: ficar sentado perto do tanque de lavar roupas durante quatro tardes, lendo a Bíblia. E não poderia ver televisão ou brincar.  Numa das tardes que cumpria a minha pena, resolvi escrever uma carta pedindo perdão. Depois de escrita, guardei-a entre as folhas das Sagradas Escrituras.

Na manhã seguinte, voltando da escola perto da hora do almoço, estendi a folha para ela. Enquanto lia, vi lágrimas escorrendo pela face maternal. Minha Carequinha, então, abriu os braços e encostou meu rosto em seu ventre. Senti o cheiro de alho e cebola que estavam sendo refogados para o arroz e o cheiro de mãe, parecendo que um temperava o outro. E naquele abraço gostoso e cheiroso, recebi um beijo e ouvi estas doces palavras:

– Eu perdoo você, meu filho.

Aquele perdão ecoa em minha alma como se fosse um carinho maternal que não tem fim.

O túmulo foi fechado, mas o amor que Jurema dedicou aos filhos nunca será enterrado.

 

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