Várias faces da dor materna a partir das reflexões de uma mãe


Várias faces da dor materna a partir das reflexões de uma mãe

Padre Tarcísio Spirandio

Meu coração bateu mais forte quando as contrações começaram. Rapidamente fui levada à maternidade e o parto aconteceu. Foi linda a primeira mamada. Como o tempo corre… Ufa! Ainda me lembro dos primeiros passos. Queria segurá-lo o tempo todo para que não caísse. Sofrido foi o momento de levá-lo a primeira vez à creche. Deixá-lo lá sozinho… Quer dizer, não estando eu por perto, mesmo havendo tanta gente cuidando das crianças, parecia que eu o havia deixado só.

Outra situação difícil foi quando nos seus 15 anos apareceu  aqui em casa com a primeira namorada.  Olhei e não gostei dela. Falei isso, mas ele nem se importou. E trouxe mais duas ou três depois daquela e de todas não gostei. Não que fossem jovens más, nada disso. É que sentia como se fossem tirar meu menino de mim. Um dia isso aconteceu. Foi quando me disse com todas as letras:

– Vou me casar!

Aí o coração doeu. Ele nem tinha saído de casa e eu já sentia a sua falta. A cerimônia do casamento foi linda, emocionante. E eu? Olha só: eu chorava de felicidade e de saudade, coisa de doida. Ah! Esqueci-me de mencionar que na época do casamento já era viúva. Ele passou a ocupar o lugar do pai à mesa, acho para que me sentisse mais confortada. Era na cadeira à minha frente que sentava e se deliciava com a minha comida.

Após o casamento, acho que por quase uma semana continuei a colocar o prato dele à mesa. Era uma forma de me consolar com a ausência. Almoçava chorando ao ver a cadeira vazia.  Chorava por sentir saudade das suas piadas, do seu jeito doce e, às vezes, rude de falar. Nunca pensei que diria isso, mas até das nossas brigas tive saudade. Loucura! Isso é loucura, disse para mim mesma. Chega de chorar, dizia, mas as lágrimas vinham mesmo que eu não as quisesse mais. Meus olhos deixaram de lacrimejar quando veio o primeiro neto. Coloquei mais cadeiras em torno da mesa. Mas só ficavam cheias quando vinham em casa, uma ou duas vezes por mês.

Um dia a campainha tocou fora de hora. Eram uma dez e meia da noite. Assustada, olhei pelo cantinho da janela e sabe quem eu vi? Ele!  Sim! Meu filho!  Abri a porta e o avistei só, na minha frente com uma mala enorme ao seu lado. Ainda na entrada da casa, me fitando com os olhos lacrimejados, disse:

– Mãe! Minha esposa pediu o divórcio e voltei para morar com a senhora.

No começo foi uma mistura de tristeza e alegria. Tristeza por saber da dor da separação. Alegria por ver de novo a cadeira cheia. E na hora da refeição ouvia suas conversas e piadas. Quando questionava o motivo do divórcio, aí ficava zangado. Então me calava. De qualquer forma a cadeira estava ocupada de novo. Mas o sentimento que a cadeira cheia me despertou foi estranho. Vou explicar

No terceiro dia da sua volta senti que algo estava errado.  Desde que a cadeira ficara vazia, criei novos hábitos. Fazia a comida na hora que queria. Às vezes era só um lanche mesmo.  Havia os passeios com minhas amigas, atividades no clube da terceira idade e muitas outras coisas. Imagine, comecei ate a praticar ginástica.  Com a sua volta, tudo mudou. Outra vez tive que cozinhar na hora certa, lavar suas roupas e o pior, ficar mais tempo sem ver o neto.

Minha nossa! De repente aquele sentimento estranho foi aumentando dentro de mim. Olhando a cadeira cheia, comecei a desejá-la vazia. Quero esta cadeira vazia, dizia convicta. Esse era o meu desejo estranho. Chorei tanto por ver a cadeira vazia e agora que estava cheia não queria mais isso.  Por ter este desejo me sentia culpada.

Ser mãe é isso. Chorar pela cadeira vazia, arrumar coisas para fazer a fim de esquecer a dor da ausência. Depois ver a cadeira cheia de novo, alegrar e entristecer, tudo ao mesmo tempo.

Não importa a cadeira estar vazia ou cheia. Sou mãe e não posso realizar meus desejos no filho. Basta viver cada dia sonhando sempre que ele acerte seus caminhos e seja feliz na cadeira da mãe ou na cadeira da casa de sua família.

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