Dia das Mães: oportunidade para refletir sobre as loucuras da maternidade

Certa vez, na hora do atendimento paroquial, uma mãe fez-me uma pergunta. Disse ela assim: Tenho uma dúvida padre, e desejo a sua opinião: quero saber se estou louca. Como? – perguntei-lhe. Então ela disse: O senhor está disposto a escutar a minha história?  Pois, não, respondi.  E ela fez um resumo da sua vida para que, ao final, eu desse a minha opinião. Obviamente que pouparei o leitor de detalhes desnecessários. Ao final do relato, você poderá ou não concordar com o meu veredicto sobre a loucura ou não daquela mãe. Eis que ela contou:

Meu coração bateu mais forte quando as contrações começaram. Rapidamente fui levada à maternidade e o parto aconteceu. Foi linda a primeira mamada. Como o tempo corre… Ufa! Ainda me lembro dos primeiros passos. Queria segurá-lo o tempo todo para que não caísse. Sofrido foi o momento de levá-lo a primeira vez à creche. Deixá-lo lá sozinho, quer dizer, não estando eu por perto, mesmo com tanta gente cuidando das crianças, parecia que estava só.

Outra situação difícil foi quando, aos15 anos, apareceu em casa com a primeira namorada.  Olhei e não gostei dela. Falei isso, mas ele nem se importou. E trouxe, depois de terminar o namoro com aquela, mais duas ou três, e de todas não gostei. Não que fossem jovens más, nada disso. É que sentia como se fossem tirar meu menino de mim. Um dia isso aconteceu. Foi quando me disse com todas as letras: Vou me casar. Aí o coração doeu. Ele nem tinha saído de casa e eu já sentia a sua falta.

A cerimônia do casamento foi linda, emocionante. E eu? Olha só: chorava de felicidade e de saudade, coisa de doida. Ah! Esqueci padre, de mencionar, que na época do casamento do meu filho, já era viúva. Dias depois do falecimento do pai, ele passou a ocupar o lugar dele à mesa, acho que para me sentisse mais confortada.

Após o casamento, por quase uma semana continuei a colocar o prato dele à mesa. Era uma forma de me consolar com a sua ausência. Almoçava chorando ao ver a cadeira vazia.  Chorava por sentir saudade das suas piadas, do seu jeito doce e, às vezes, rude de falar. Nunca pensei que diria isso, mas até das nossas brigas tive saudade. Loucura! Isso é loucura, disse para mim mesma. Chega de chorar, dizia, mas as lágrimas vinham mesmo que eu não as quisesse. Meus olhos deixaram de lacrimejar quando veio o primeiro neto. Coloquei mais cadeiras em torno da mesa. Mas só ficavam cheias quando vinham em casa.

Um dia a campainha tocou fora de hora. Eram uma dez e meia da noite. Assustada, olhei pelo cantinho da janela e sabe padre, quem eu vi? Ele!  Sim! Meu filho!  Abri a porta e o avistei só, na minha frente com uma mala enorme ao seu lado. Ainda na entrada da casa, me fitando com os olhos lacrimejados, disse: Minha esposa pediu o divórcio e voltei para a casa da senhora.

No começo foi uma mistura de tristeza e alegria. Tristeza por saber da dor da separação. Alegria por ver de novo a cadeira cheia. E na hora da refeição ouvia suas conversas e piadas. Quando questionava o motivo do divórcio, aí ele ficava zangado. Então me calava. De qualquer forma a cadeira estava ocupada de novo. Mas o sentimento que a cadeira cheia me despertou foi estranho. E aí está a minha dúvida de estar louca ou não. Vou explicar padre.

No terceiro dia da sua volta senti que algo estava errado.  Desde que a cadeira ficara vazia, criara novos hábitos. Fazia a comida na hora que queria. Às vezes era só um lanche mesmo.  Havia os passeios com minhas amigas, atividades no clube da terceira idade e muitas outras coisas. Imagine, comecei ate a praticar ginástica.  Com a sua volta, tudo mudou. Outra vez tive que cozinhar na hora certa, lavar suas roupas e o pior, ficar mais tempo sem ver o neto.

Minha nossa! De repente aquele sentimento estranho foi aumentando dentro de mim. Olhando a cadeira cheia, comecei a desejá-la vazia. Quero esta cadeira vazia, dizia convicta. Esse era o meu desejo estranho, padre. Chorei tanto por ver a cadeira vazia e agora que estava cheia não queria mais isso.  Por ter este desejo me sentia culpada. É esta a minha dúvida padre. Quero a cadeira do meu filho vazia. Quero ele fora de casa. Isso é loucura? Isso é pecado?

Após o relato, respirei fundo, olhei nos olhos da mãe aflita e disse: Minha senhora, seus sentimentos são profundamente normais. Ser mãe é ensinar os filhos a viver a vida e a assumirem novas responsabilidades.  Mas, quando eles precisam, a mãe é capaz de abrir os braços e acolhê-los sempre. Ser mãe é amar sem esperar nada em troca, mesmo com sofrimento.  O mundo precisa aprender a viver a grande loucura do amor materno. Viva os loucos que amam e se comprometem com seus amados. Deus nos ama assim. Não importa o que nós façamos, Deus sempre nos amará!  Espero que todas as mães sejam loucas de amor por seus filhos.

FELIZ DIA DAS MÃES!     Padre Tarcísio Spirandio

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A MAIOR DOR QUE CASTIGA OS PAIS

A MAIOR DOR QUE CASTIGA OS PAIS

                                               Tentei entrar nos pensamentos dos pais que são feridos     pela morte de um filho. E assim surgiu este texto que, penso, poderá ajudar muitos pais que tem esta dor no coração

Os dias eram como tijolos sobrepostos com a amarra do cimento da esperança. A cada 24 horas a sensação de estar mais perto de ver a filha tornar realidade os próprios sonhos. Os primeiros passos inseguros, seguidos das primeiras palavras e das primeiras letras escritas. Um coração desenhado num papel com a mensagem: “Te amo papai e mamãe”.  Pedacinho de papel insignificante para outros, mas, para mim, um tesouro guardado com amor e carinho.

Momentos divinos quando os degraus do estudo foram sendo subidos. Conclusão do ensino fundamental e do médio. Depois, a alegria de ver o nome inscrito entre os aprovados no vestibular. A dor primeira foi a despedida para ir morar na cidade onde cumpriria o papel de universitária.  Agora era ela que faria dos seus dias tijolos amarrados com o cimento da esperança. No papel não mais corações desenhados com traços infantis, mas ideias e ideais escritos com letra redonda e segura de uma jovem que sabia onde deveria chegar.

E houve um dia onde pessoas estranhas cruzaram com seus sonhos. Um motorista acionou a chave no contato do seu caminhão. Em outro lugar um motoqueiro fez o mesmo. Os dois seguiram seus caminhos. Ela saiu dos seus aposentos, colocou o material escolar na bolsa e seguiu caminhando para a universidade.  De repente estavam a poucos metros um do outro: caminhão, moto e universitária.

O caminhão bateu na moto lançando veículo e motociclista para o alto.  Os dois caíram, a moto no meio da estrada e o condutor sobre ela, a estudante, que caminhava no acostamento. Socorrida, foi levada para a UTI mais próxima.  Os dias na Unidade de Tratamento Intensivo agora eram tijolos amarrados com a esperança de vê-la de novo com saúde, buscando realizar seus sonhos.

Os dias passaram e a realidade da morte se aproximava.  E aconteceu o momento que a ceifadora da vida fez seu trabalho e os aparelhos foram desligados. Foi nesta hora que o terremoto destruiu toda a construção feita desde o seu nascimento.  A esperança, que amarrava os tijolos – cada dia – para a realização dos sonhos tinha a mistura da fé e confiança em Deus. Vendo tudo desmoronado, veio junto com os efeitos do terremoto a dúvida sobre a eficácia das orações e até mesmo da ação divina na vida das pessoas.

Muitas frases sem efeito foram ditas para consolar o coração ferido dos pais que sonharam dias longínquos, de ver a filha formada e realizada na profissão escolhida. A frase mais sem sentido foi dita assim: “Temos que aceitar a vontade de Deus”. Pura idiotice. Como se Deus tivesse feito caminhão, moto e universitária se encontrarem para aquele momento trágico. Outra frase desprovida de lógica foi: “Deus precisava dela no céu”.  São visões de um deus (isso mesmo, escrito dom o “d” minúsculo) que não acredito.

Não posso acreditar na manipulação da vida de um “deus” que faz as coisas sem um nexo com o amor que se apregoa ao verdadeiro Deus que acredito. Por isso briguei com Deus e o questionei. Por quê? Qual a razão? Ainda busco respostas e não as encontro. A única certeza que tenho é que a dor sufocante, produzida pela ausência definitiva, está dentro de mim. É esta dor que hoje tenho que olhar de frente e aprender a viver com ela. Nunca, ninguém, nada pode tirar esta dor. Preciso continuar a viver, pois outros ainda dependem de mim.

Caso queira também produzir um terremoto na minha vida, os seus efeitos acontecerão na vida de outras pessoas que passarão também a brigar com Deus e a buscar respostas impossíveis de encontrar. Foi só uma pessoa que pôde trazer-me alguma luz para olhar minha dor de um jeito diferente. Padre Zezinho, com sua música “Brigar com Deus”, traduziu um pouco daquilo que sinto. Eis a letra que pode ajudar muitos pais que viram seus sonhos destruídos pelo terremoto da morte dos filhos:

 

BRIGAR COM DEUS – Padre Zezinho

para ouvir acesse: https://www.youtube.com/watch?v=CPRonKhtmn0

Esta canção é para os pais que já perderam um filho
E por isso, brigaram com Deus
Eu não tenho respostas prontas para essa dor!
Há feridas que não se curam com pomadas
Mas com o tempo
Para eles, que continuam zangados com Deus, fiz Esta canção!

Admito que eu já duvidei
Depois daquela morte repentina num farol
Depois que dos meus olhos Deus levou a luz do sol
Depois daquela perda sem aviso e sem sentido
Admito que eu já duvidei

Admito que eu briguei com Deus porque não respondeu

Quando eu Lhe perguntei porquê
Ele, que tudo sabe, tudo pode, tudo vê
Parece que não viu, nem me escutou lá no hospital
Admito que eu fiquei de mal!

Doeu demais e, quando dói do jeito que doeu
A gente chora, grita e urra e põe pra fora aquela dor
E desafia o Criador e quem se mete a defendê-lo
Comigo não foi diferente do que foi com tanta gente
Que perdeu algum amor

Briguei com Deus, briguei com Deus
E se eu briguei foi por saber que Deus ouvia

Admito que eu me revoltei
Onde é que estava Deus com Seu imenso amor?
Se Deus é amoroso, então por que deixou?
Por que tinha que ser do jeito que foi?
Admito que eu O desafiei

Admito que eu O desafiei
Por não achar sentido no que Deus me fez
E nem me perguntei porque será que o fez
Briguei com quem levara alguém que eu tanto amei!
Admito que eu já blasfemei

Doeu demais e, quando dói do jeito que doeu
A gente chora e grita e urra, e põe pra fora aquela dor
E desafia o Criador e quem se mete a defendê-lo
Comigo não foi diferente do que foi com tanta gente
Que perdeu algum amor
Briguei com Deus, briguei com Deus
Briguei com Deus, mas acabei no colo Dele

Admito que voltei pra Deus
E até nem sei dizer porque foi que voltei
Eu acho que voltei porque não me calei
Voltei porque, talvez, não sei viver sem crer
Admito que voltei pra Deus

Admito que ainda creio em Deus
Mas tenho mil perguntas a doer em mim
Eu tenho mil perguntas para Lhe fazer
Espero que Ele um dia queira responder!

Ele sabe o que é que eu penso dele

 

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CRISTO RESSUSCITOU! E daí?!

CRISTO RESSUSCITOU! E daí?!

Esta pergunta com jeito de exclamação “E daí?!” soa ao mesmo tempo como espanto e indiferença. Falava da ressurreição de Jesus Cristo para uma mãe cujo filho fora brutalmente assassinado. Depois da exposição da dor que sentia pela tragédia, disse-lhe: Cristo Ressuscitou! Prontamente ela respondeu: E daí?! Em outras palavras, a mãe poderia ter dito: Qual a relação dessa ressurreição com a minha dor?
Falar da ressurreição de Jesus para pessoas que estão mais ou menos tranquilas – somente com os problemas corriqueiros -, é relativamente fácil. Um pouco mais difícil talvez seja falar da vitória sobre a morte do Filho de Deus para pessoas que estejam sofrendo com doenças, perdas financeiras ou vícios. Estas situações, com algum esforço, podem ser reversíveis.
O difícil mesmo é falar da ressurreição do Cristo para pessoas que vivem situações de dor irreversíveis, como foi o caso da mãe do filho assassinado. Ele não voltará mais. Mesmo que sua mãe faça promessas infinitas, que leia toda a Bíblia ou se lance em jejuns severos, ele continuará morto. E faço a pergunta para mim mesmo: E daí pregador?! Novamente interrogação e exclamação afirmando que a situação não tem saída na perspectiva humana. Não é uma simples pergunta ou uma frase exclamativa. É mais que isso. É uma dúvida que só o amor divino pode responder.
Vivemos, hoje, situações difíceis que exigem dos proclamadores da Boa Nova de Jesus um esforço redobrado nem sempre eficaz. Talvez por isso mesmo a Páscoa, a maior festa do cristianismo, tenha sido reduzida para muitos aos ovos de chocolate. Comer as delícias feitas do cacau traz prazer quase igual a um beijo caloroso, dizem os cientistas. É certo que é um prazer momentâneo, mas é prazeroso. Para aqueles que vivem dores irreversíveis, os efeitos do chocolate são tão iguais como para os que vivem os problemas corriqueiros.
O que fazer então? Pregar a ressurreição somente para os que estão ainda imunes às catástrofes irreversíveis? Não! A ressurreição de Jesus não pode ser reduzida a um chocolate gostoso e cremoso. Temos que lembrar que a morte de Jesus foi a consequência das opções  que o Filho de Deus fez para cumprir a vontade do Pai, que o enviou ao mundo para nos salvar. Jesus nos salva dando um novo sentido à vida, colocando ordem no caos que o pecado humano provoca nas relações.
É disto que trata a ressurreição de Jesus: nova vida para meros mortais, que são chamados a viver com Deus na eternidade. O que é impossível – irreversível – para o humano, é possível – reversível – para Deus. A primeira mudança que o anúncio da ressurreição provoca no coração da mãe do filho assassinado é que ela terá que conviver com a dor pelo resto dos seus dias. Lembremos que quando apareceu aos discípulos, de forma especial para Tomé, que duvidara da ressurreição, Jesus lhe mostra as feridas provocadas pelos pregos e pela lança. Ou seja, mesmo em Jesus, as marcas da dor permanecem.
Crer na ressurreição de Jesus não é apagar as dores da memória. Dores profundas nunca são esquecidas. Mas, ao aceitar Jesus como Salvador, nossa vida, consequentemente as dores, ganham novos significados. Elas continuarão a provocar lágrimas, mas estas não mais sufocarão a esperança. Serão lágrimas que irrigam o coração para que cresça a fé numa realidade maior que esta precária, finita e contraditória vida humana. A dor da mãe que perdeu o filho por conta da violência continuará no seu coração. Aliás, apagar a dor seria o mesmo que deletar o filho das suas memórias. Nesta perspectiva a dor se torna necessária para que a presença afetiva do seu rebento continue ecoando em sua vida.
Ao crer em Jesus ressuscitado abrimos a nossa vida para a graça divina, que nos convida a sermos anunciadores do Reino de Deus. Aos que creem em Jesus como Salvador será entregue igualmente a ressurreição. Aos ressuscitados será ofertado, no reinado divino, o reencontro com todos os que amaram neste mundo no banquete eterno preparado pelo próprio Cristo para todos os seus seguidores.
A ressurreição de Jesus toca o coração da mãe do filho assassinado e a faz, junto com os outros seguidores de Jesus, na comunidade cristã, instrumento da construção de uma sociedade pautada na cultura da paz. Esta é a proposta da Campanha da Fraternidade 2018 cujo tema foi “Fraternidade e superação da violência”. Na luz do Cristo ressuscitado, aqueles que sofreram algum tipo de violência se tornam, apesar da dor, instrumentos da construção da paz.
Que todos nós tenhamos muito prazer na fé em Cristo Ressuscitado. Um prazer tão delicioso como um delicioso chocolate pode nos trazer. Feliz Páscoa.

Padre Tarcísio Spirandio

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CF 2018 artigo para jornal- fonte arial 12 1 lauda

QUARESMA E CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2018

“Fraternidade e superação da violência” – “Vós sois todos irmãos” (Mateus 23,8)

Padre Tarcísio Spirandio

A Campanha da Fraternidade (CF), desenvolvida na quaresma, é uma atividade da Igreja Católica no Brasil, para incentivar o compromisso de transformação da sociedade a partir de um problema específico que exige a participação de todos independente de serem católicos ou não. Cada CF destaca um “Tema” e um “Lema”. O Tema desperta a problemática social que precisa da intervenção de toda a sociedade para que a vida seja, de fato, digna para todos. O Lema aponta os caminhos para a solução da problemática refletida. Celebrada na quaresma, a CF destaca que o verdadeiro jejum e penitência que agradam a Deus é repartir o pão com quem tem fome, dar de vestir ao maltrapilho, libertar os oprimidos, promover a todos.

A CF 2018 traz como tema: “Fraternidade e superação da violência”. O tema reflete que a violência também passa pela indiferença e isolamento até na convivência familiar. Por isso há a grande tendência de terceirizar a segurança para o governo, a polícia ou na construção de novos presídios com disciplina mais rigorosa. Também existem os que advogam a redução da maioridade penal e a pena de morte como meios do controle da violência. A Igreja coloca um novo foco nesta discussão: a Fraternidade deve ser um meio essencial para a luta contra a violência. O lema – Vós sois todos irmãos” (Mateus 23,8) – quer motivar a discussão da hipocrisia da sociedade que esconde os males da discriminação debaixo das mentiras de que a “lei é igual para todos” ou que os governos municipais, estaduais e federal agem de forma igualitária. É preciso que todo cidadão brasileiro assuma o compromisso de destruir estas mentiras e realmente transformar esta realidade para que todos tenham a mesma dignidade.

Hoje, no Brasil, o CPF é determinante para mais ou menos segurança em tal bairro ou mais acesso à boa educação ou saúde.  O CPF, como todos sabem, é o cadastro das pessoas físicas junto à Receita Federal, que indica o potencial financeiro de cada cidadão brasileiro. A violência não começa com o revólver na mão de um assaltante. O início de tudo está ainda no útero da mãe que poderá ter ou não recursos para uma boa alimentação, acompanhamento pré-natal e, após o parto, a possibilidade de oferecer aleitamento, ambiente de carinho para o bom desenvolvimento físico e emocional da criança e posterior ambiente escolar seguro e competente.

A verdade é que ninguém nasce violento, mas pode vir a ser violento. Tanto a falta de recursos como o excesso deles pode levar as pessoas a um demasiado desejo materialista que lhes fará querer sempre mais ter para si deixando em segundo lugar a construção de um mundo plural onde o sentido maior do eu encontra sua base no outro, ainda que diferente. É este o significado do amor ao próximo, que pode ser traduzido por respeito ao próximo. Ao descobrir que todos somos irmãos, inicia-se o processo da superação da violência. Não somos adversários, mas irmãos.  E se nos sentimos irmãos, devemos desenvolver cada vez mais a fraternidade, a ternura e a compaixão.  Um importante ensinamento de Jesus Cristo deve orientar a todos, até mesmo àqueles que não creem no Filho de Deus: Nunca pagar o mal com o mal, renunciando a todo forma de violência, vivendo a solidariedade e a misericórdia nas ações.

Para transformar a sociedade é preciso que as políticas públicas deem especial atenção às famílias. Além de moradias e salários dignos, uma boa contrapartida para aqueles que recebem os recursos sociais (bolsas família, maternidade, etc.) seria a participação em cursos que aprimorem as relações humanas, especialmente o modo como os pais podem transmitir a educação para os filhos. Isso seria uma boa forma de desenvolver a capacidade do diálogo diante dos conflitos. De maneira especial, tais projetos ajudariam também na superação da violência doméstica e familiar.

A maior violência, no entanto, a ser superada é produzida pelo sistema capitalista discriminatório, que busca o lucro econômico e não o desenvolvimento do ser humano. A pobreza e a fome são as piores formas de violência.  Infelizmente é o mercado que determina de quem é a vez de passar fome ou não, de pagar suas contas ou não. Por conta deste sistema que visa o lucro na produção de bens materiais e incentivo ao consumismo, e não a evolução do ser humano, é que hoje as famílias assim como as escolas estão mais preocupadas em preparar crianças e jovens para o mercado de trabalho e não para a vida fraterna. Uma sociedade que prioriza a vida e não o lucro certamente contará com pessoas mais abertas ao diálogo e à construção contínua de um ambiente onde o outro não é um adversário, mas parceiro. Para que tudo isso aconteça basta que tomemos a consciência de que somos todos irmãos!

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ASSIM COMEÇOU O NATAL

ASSIM COMEÇOU O NATAL 

Então o silêncio se fez e um cheiro de céu tocou o olfato de uma jovenzinha que se chamava Maria. Naquele momento, suas mãos seguravam um rústico galho em cujas pontas haviam folhas que serviam como vassoura. Ao sentir o ambiente divinamente perfumado e a paz que ele trazia, Maria encostou a vassoura e instintivamente ajoelhou-se. Era esta sua atitude sempre que respirava aquela paz. Sim! Ela estava acostumada a inalar aquele aroma celestial. Certa vez, quando o cheiro dos anjos lhe penetrava as narinas, perguntou a uma amiga que estava em sua casa se também estava sentindo aquele perfume angelical. A companheira respirou profundamente e disse:
– Não! Só sinto cheiro de casa mesmo!
Novamente quando o mistério aromático envolveu Maria, estava ela com outras amigas e também as interrogou sobre o perfume divino no ar. Elas respiraram profundamente e nada sentiram. Acontece que as amigas de Maria começaram a pensar que ela estava ficando esquisita e comentavam entre si sobre a possível loucura daquela que sentia cheiro de céu. Ninguém pode sentir cheiro de céu. Aliás, Deus não tem corpo e, portanto, não tem suor. Muito menos os anjos poderiam ter algum tipo de cheiro, pois, são seres espirituais. Maria estava esquisita, diziam. Por saber que somente ela podia sentir o cheiro divino e sabendo sobre o que diziam dela, Maria decidiu nunca mais falar sobre aquela experiência com ninguém.
Naquele dia em que varria a casa sozinha, o cheiro divino a envolveu de maneira mais forte. Diferente das outras vezes, junto com o aroma divino veio junto uma luz bonita. Maria largou a vassoura, e ajoelhou-se com o rosto voltado para o feixe luminoso. Caso fosse qualquer outra jovenzinha, que não tivesse tido experiências anteriores com o aroma divino, certamente sairia correndo, pensando tratar-se de fantasma ou coisa assim. Mas Maria foi exercitada aos poucos para que pudesse ter aquela experiência profunda de contato com o céu.
Aquele fio de luz aumentou e foi assumindo a forma de uma pessoa. O silêncio foi quebrado por uma voz angelical
– Salve, agraciada; o Senhor é contigo!
A jovem Maria não se assustou. Apenas considerou o cumprimento estranho. Mas também era estranho que somente ela pudesse sentir o aroma celestial. Ainda ajoelhada manteve atento os ouvidos e escutou as palavras seguintes do ser angelical:
– Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.
Embora jovem, Maria,  conhecia as coisas da vida e sabia que para ficar grávida precisaria unir seu corpo ao de um homem. Era certo que estava noiva de um jovem chamado José e o casamento ainda demoraria algum tempo para acontecer. O anjo entretanto falava como se a gravidez fosse rápida. Para que isso acontecesse, ela teria que conhecer os segredos do corpo masculino e deixar-se penetrar por ele para que fosse fecundada. Por isso perguntou ao anjo:
– Como se fará isto, visto que não conheço homem algum?
Diante da pergunta sobre o processo da gravidez, o anjo respondeu:
– Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.
Certamente ficar grávida pela ação divina seria o maior presente que uma mulher poderia receber. Mas como toda mulher, a jovem Maria tinha vontade de compartilhar a experiência com as amigas. Mas se só com a notícia do cheiro já a consideravam endoidecida, imagine se dissesse que estava grávida de Deus? A experiência do cheiro divino para Maria era maravilhoso. Porém, era uma experiência que não podia compartilhar com ninguém, pois as pessoas não acreditavam nela. Então, o coração da jovenzinha ficou ainda mais perturbado, pois, se realmente ficasse grávida não poderia partilhar com ninguém as suas alegrias. Mas o anjo logo disse:
– E eis que também Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril. Porque para Deus nada é impossível.
Ao saber do milagre na vida de sua prima, o coração de Maria vibrou de alegria. Teria alguém para compartilhar a sua experiência divina. Tranquilizada pela notícia da gravidez da prima, confiou no chamado divino e tomou consciência de que não estava louca. O cheiro do céu era real e Deus estava muito próximo dela. Por isso disse com segurança:
– Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.
Quando o anjo ausentou-se e a luz e o cheiro do céu desapareceram, Maria logo se preparou para uma grande viagem. Estava decidida a visitar a sua prima Isabel, que também tinha sentido o cheiro divino, e com ela compartilhar a divina experiência. Inexplicavelmente Isabel, ao avistar a prima, nem precisou saber sobre o relato da experiência do cheiro divino e da luz angelical. Ao ouvir a voz daquela que foi agraciada pela gravidez divina, exclamou:
– Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre.
Hoje, Maria continua buscando pessoas que já sentiram um pouco do perfume divino para com elas compartilhar as alegrias e a divina experiência de sentir-se plenificada pela graça de Deus. Quem sabe você seja uma destas pessoas agraciadas que podem sentir o perfume do céu no coração.
Mas, para sentir o perfume do céu é preciso paciência, perseverança e, principalmente silêncio. Silenciar a mente e o coração e centrar a atenção somente no ato de respirar. Aspirar profundamente e expirar. Fazer este exercício várias vezes, durante por bons minutos. Lembre-se que o sopro divino é que nos deu a vida. Foi também através do sopro de Jesus que os apóstolos puderam receber o Espírito Santo.
O melhor lugar para sentir o aroma divino é, sem dúvida, em torno do altar onde se celebra a Santa Eucaristia. E quando Jesus Eucarístico lhe é entregue pelo ministro, deposite-o sobre a língua e deixe que a Hóstia Consagrada se dissolva em sua boca. Então, você e Jesus serão um só. Pode ter certeza de que não sentirá o perfume divino, mas seu corpo é que vai exalar o divino cheiro para as outras pessoas. Você será o frasco do perfume de Deus que vai exalar o cheiro divino para a sua família, para as pessoas em seu ambiente de trabalho.  Neste natal, seja você também o perfume de Deus para o mundo!!!
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes (perfumardes) uns aos outros.” (João 13, 35

FELIZ NATAL PARA TODOS OS LEITORES DESTE BLOG

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O MISTÉRIO DAS ROSAS BRANCAS

O MISTÉRIO DAS ROSAS BRANCAS

     Não era algo esperado para já.  Sua morte, por conta das muitas doenças, era prevista, mas a esperança alimentava os corações  com a certeza de que teria ainda alguns anos pela frente.  Após um mal súbito, uma dor forte no peito, ela desmaiou.  Levada para o hospital, foi imediatamente internada na Unidade de Tratamento Intensivo. A  família podia vê-la apenas alguns minutos por dia, sem que vissem da enferma nenhuma reação. Era um corpo inerte na cama, rodeado por luzes, enfermeiras e envazado por tubos.

        Alguns dias antes do mal súbito  havia sonhado que estava num carro cheio de luzes que tocava uma música de apenas duas notas. Contou este sonho para os filhos e o marido. Ninguém soube interpretar o  que significavam tais imagens.  Na saída da UTI, uma das filhas relembrou o sonho.

       – Era da ambulância que ela falava, disse a filha

       O marido ouviu quieto. Sim, pensou, era a ambulância com as luzes vermelhas e o som tocando alto…

       Outro filho lembrou-se de um sonho que Amélia tivera muito tempo atrás. Sonhara que fazia uma viagem sozinha, para um lugar desconhecido. Estava com medo. Porém, três semanas após ter chegado ao destino da viagem, a família inteira viera ao seu encontro e nunca mais se separaram.

       Todos começaram a tentar decifrar o sonho da viagem. O que seria?

      Enquanto ainda conjecturavam acerca da viagem fictícia, uma das enfermeiras veio ao encontro da família de Amélia

      – Infelizmente tenho que informá-los que ela morreu

     – Foi um baque! Todos choravam copiosamente. E nem mais se lembravam do sonho da viagem. Providenciaram o velório e o enterro. No dia seguinte ao féretro, uma das filhas procurou o pai à noite, e lhe disse:

       – Pai, o sonho da ambulância se realizou. E aquele da viagem?  Será que daqui três semanas iremos todos morrer?

       – Minha filha, é hora de dormir… Vamos deixar esta conversa para amanhã…

       Mas quem disse que o esposo de Amélia dormiu? Era um assunto sério.

       Após três semanas, uma coisa aconteceu. Uma velha tia veio visitá-los e tinha um pedido muito estranho a fazer.

      – Meus sobrinhos, preciso que vocês venham comigo até minha casa. Há algo lá que pertencia a Amélia.

       Imediatamente pai e filhos a acompanharam.

      Na frente da casa da tia havia um bonito jardim

. A velha senhora disse para os parentes enlutados:

– Aqui, nesta terra deste jardim, Amélia plantou certa vez uma muda de rosas brancas. Acontece que o galinho da flor murchou e morreu. No dia do falecimento dela, antes mesmo de saber da notícia, vi um pedacinho de verde neste local. E agora, após três semanas, vejam a linda rosa branca que desabrochou… Creio que é um sinal…

        Era de fato um sinal. Amélia queria novamente desabrochar na vida de todos. E não queria ser lembrada como a mulher na UTI ou dentro do caixão.

        Há pessoas que sepultam seus entes queridos duas vezes. Enterram o corpo e a história, pois só se lembram dos momentos da doença ou do velório. Amélia queria, a partir daquele momento, ser lembrada como a Rosa que perfumou a vida de todos durante todos os anos que com eles conviveu.

        Misteriosamente as rosas brancas continuaram a florir e até hoje há sempre uma delas  colocada num vaso sobre a mesa central da sala da família de Amélia. Quando uma murcha, logo outra é colhida e depositada ali.

 

 

 

 

 

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O SONHO QUE VIROU PESADELO

O ROUBO DO PORTÃO

Fato verdadeiro: um rapaz roubou o portão da entrada de uma chácara. Imagine alguém com um martelo, chave de fenda e outras ferramentas retirando o portão de um domicílio sem permissão. Talvez se fosse de uma casa, o barulho alertaria o morador que cuidaria de logo espantar o meliante. Mas o fato aconteceu em um ambiente quase rural. A distância entre o portão e a casa é considerável. Pequenas batidas ouvidas ao longe não despertaria a atenção de ninguém. Depois de um tempo de esforço (afinal de contas, também para roubar o portão ou qualquer outro objeto há uma ação que redunda em cansaço), o objeto do desejo daquele jovem estava em suas mãos. Ele colocou-o nas costas e foi embora.

Mas o proprietário daquela chácara ouviu o estranho barulho e de forma discreta foi ver o que estava acontecendo. Foi tão discreto que o ladrão nem percebeu a presença da vítima, que acompanhou todo o “trabalho” do meliante à distância. Portão nas costas, passos lentos – era um portão grande e pesado – lá foi aquele que gosta de pegar coisas do alheio caminhando cambaleante, e a vítima atrás, seguindo-o. O destino foi um ferro velho. A conversa entre o surrupiador das coisas alheias e do comprador e vendedor de sucatas, imagino que deva ter sido esta:

– Trouxe um portão velho para vender.

O proprietário do ferro velho olha o objeto e faz uma avaliação da coisa e de quem a quer vender. Digamos que o pobre rapaz não tem características de quem pudesse ter um portão daqueles. Obviamente que algo está errado.

– Quem lhe deu este portão?

– NInguém me deu. Ele é meu. Não o quero mais, por isso quero vendê-lo.

Quem tivesse um portão daquele tipo provavelmente também teria uma bela casa. Era um portão trabalhado, ferro de primeiríssima qualidade. E se tivesse uma bela casa, por certo também teria uma caminhoneta ou recursos para contratar uma que o ajudasse a conduzir o portão até o local da venda. Mas ali, na frente do negociador de sucata, estava um jovem maltrapilho, descalço, suado por ter carregado um belo portão. Tudo indicava que o objeto era produto de roubo. E a resposta foi um sonoro não!

– Não me interessa o portão. Pode levá-lo embora.

À distância o dono do portão acompanhava a conversa dos dois. Enquanto olhava tudo, cuidou de usar o celular para chamar a polícia. Viu que o ladrão colocar o portão de volta às suas costas, levando-o embora. O comprador de coisas velhas não permitiu nem que o pobre rapaz ladrão o deixasse ali.

Agora o dono da chácara que ficara sem o portão tinha dentro de si uma indignação. Como é que alguém em sã consciência poderia recusar um portão tão bonito? E provavelmente o ladrão o estivesse vendendo a preço de banana. Aquele portão fora desenhado por ele mesmo. Levou muitas noites rabiscando, pensando, até que a obra estivesse pronta. Pagou o serralheiro pelo trabalho em quatro vezes – prestações, aliás, bem salgadas. Mas ele queria um portão bonito para enfeitar a entrada da sua chácara – a chácara dos seus sonhos – era o que estava escrito em uma placa logo acima do portão furtado: “Chácara dos meus sonhos”.

Sem ter conseguido vender o objeto que lhe dera tanto trabalho, o ladrão não quis carregá-lo mais. Viu um terreno baldio ali por perto e tratou de jogá-lo em meio ao matagal. Não deu muitos passos e foi abordado pelos policiais que vieram atender ao chamado da vítima.

– Mãos na cabeça! – disse o policial com armas em punho.

– O que foi que eu fiz? – perguntou o rapaz!

– Você roubou o meu portão – disse o dono da chácara.

Enquanto um policial tratava de algemar o meliante, o outro foi buscar o portão. Era pesado, por isso pediu ajuda ao dono do objeto furtado que o ajudasse. Logo todos estavam reunidos em frente ao terreno baldio: portão, vítima, ladrão, vendedor de sucatas e dois policiais. Diante das evidências o rapaz não teve como negar o crime.

– Fui eu mesmo quem roubou o portão.

– Mas por que? – perguntou o policial.

– Tava precisando de dinheiro para dar de comer aos meus filhos.

– Isso é mentira. Acho que nem casado ele é! Devia usar o dinheiro para comprar drogas – disse indignado a vítima.

Todos foram para a delegacia. As pessoas – cada qual cumprindo o seu papel (vítima, ladrão, policiais) seguiram em automóveis e o portão levado em uma velha caminhoneta pelo proprietário do ferro velho. Devido à nova lei cautelar que manda que delitos que não redundem em mais de quatro anos de reclusão seja arbitrada fiança em vez da prisão, depois de feito o registro o delegado informou ao meliante:

– Pagando um salário mínimo você responderá ao inquérito em liberdade.

– Posso ligar para alguém trazer o dinheiro?

O delegado indicou o telefone para o rapaz, que se comunicou com um colega de serviço, ou seja, um outro ladrão. Ninguém sabe de onde, mas depois de duas horas – mais ou menos – o dinheiro foi entregue para o delegado. O dono do ferro velho, depois de ter dado suas declarações, foi embora. No calor dos fatos, a vítima nem tinha se dado conta de que agora tinha um portão a ser levado embora, mas o carro que o trouxera já não estava mais ali.

– Posso ir embora? perguntou o rapaz que roubara portão.

– Sim! Disse o delegado.

O dono da chácara não compreendeu o porque estava sendo solto aquele que lhe fizera perder tanto tempo naquele dia e que também tinha danificado a entrada da chácara.

– É a nova lei cautelar – respondeu o delegado, mesmo antes de ser questionado pela vítima. A lei manda arbitrar a fiança e temos que fazer.

– E como é que eu levo o meu portão de volta agora?

– Isso é por sua conta. Nós o trouxemos aqui para fotografar e constar nos autos a imagem do produto do furto. Levá-lo embora e recolocá-lo no lugar é por sua conta.

Depois de algumas ligações, o proprietário da chácara conseguiu alugar uma caminhoneta para transportar o portão. Somados o aluguel do veículo e os pedreiros que colocaram o portão de volta ao seu lugar, a vítima teve que desembolsar quase quatrocentos reais.Mas seu prejuízo não ficou só nisso. Teve que colocar um equipamento de segurança com câmara de vigilância na entrada da chácara. Mesmo assim, depois de um mês, teve uma nova experiência da violência urbana. Desta vez os bandidos pularam o portão e entraram na casa da chácara. Mediante grave ameaça sob a mira de revolver, reviraram todo o imóvel e levaram vários objetos de valor, inclusive o dinheiro que seria usado para pagar a prestação do equipamento de segurança instalado à entrada da chácara.

Na semana seguinte o chacareiro colocou um anúncio no jornal: “Vende-se Chácara”.

Infelizmente a chácara dos sonhos se tornara a chácara do pesadelo.

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