ASSIM COMEÇOU O NATAL

ASSIM COMEÇOU O NATAL 

Então o silêncio se fez e um cheiro de céu tocou o olfato de uma jovenzinha que se chamava Maria. Naquele momento, suas mãos seguravam um rústico galho em cujas pontas haviam folhas que serviam como vassoura. Ao sentir o ambiente divinamente perfumado e a paz que ele trazia, Maria encostou a vassoura e instintivamente ajoelhou-se. Era esta sua atitude sempre que respirava aquela paz. Sim! Ela estava acostumada a inalar aquele aroma celestial. Certa vez, quando o cheiro dos anjos lhe penetrava as narinas, perguntou a uma amiga que estava em sua casa se também estava sentindo aquele perfume angelical. A companheira respirou profundamente e disse:
– Não! Só sinto cheiro de casa mesmo!
Novamente quando o mistério aromático envolveu Maria, estava ela com outras amigas e também as interrogou sobre o perfume divino no ar. Elas respiraram profundamente e nada sentiram. Acontece que as amigas de Maria começaram a pensar que ela estava ficando esquisita e comentavam entre si sobre a possível loucura daquela que sentia cheiro de céu. Ninguém pode sentir cheiro de céu. Aliás, Deus não tem corpo e, portanto, não tem suor. Muito menos os anjos poderiam ter algum tipo de cheiro, pois, são seres espirituais. Maria estava esquisita, diziam. Por saber que somente ela podia sentir o cheiro divino e sabendo sobre o que diziam dela, Maria decidiu nunca mais falar sobre aquela experiência com ninguém.
Naquele dia em que varria a casa sozinha, o cheiro divino a envolveu de maneira mais forte. Diferente das outras vezes, junto com o aroma divino veio junto uma luz bonita. Maria largou a vassoura, e ajoelhou-se com o rosto voltado para o feixe luminoso. Caso fosse qualquer outra jovenzinha, que não tivesse tido experiências anteriores com o aroma divino, certamente sairia correndo, pensando tratar-se de fantasma ou coisa assim. Mas Maria foi exercitada aos poucos para que pudesse ter aquela experiência profunda de contato com o céu.
Aquele fio de luz aumentou e foi assumindo a forma de uma pessoa. O silêncio foi quebrado por uma voz angelical
– Salve, agraciada; o Senhor é contigo!
A jovem Maria não se assustou. Apenas considerou o cumprimento estranho. Mas também era estranho que somente ela pudesse sentir o aroma celestial. Ainda ajoelhada manteve atento os ouvidos e escutou as palavras seguintes do ser angelical:
– Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.
Embora jovem, Maria,  conhecia as coisas da vida e sabia que para ficar grávida precisaria unir seu corpo ao de um homem. Era certo que estava noiva de um jovem chamado José e o casamento ainda demoraria algum tempo para acontecer. O anjo entretanto falava como se a gravidez fosse rápida. Para que isso acontecesse, ela teria que conhecer os segredos do corpo masculino e deixar-se penetrar por ele para que fosse fecundada. Por isso perguntou ao anjo:
– Como se fará isto, visto que não conheço homem algum?
Diante da pergunta sobre o processo da gravidez, o anjo respondeu:
– Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.
Certamente ficar grávida pela ação divina seria o maior presente que uma mulher poderia receber. Mas como toda mulher, a jovem Maria tinha vontade de compartilhar a experiência com as amigas. Mas se só com a notícia do cheiro já a consideravam endoidecida, imagine se dissesse que estava grávida de Deus? A experiência do cheiro divino para Maria era maravilhoso. Porém, era uma experiência que não podia compartilhar com ninguém, pois as pessoas não acreditavam nela. Então, o coração da jovenzinha ficou ainda mais perturbado, pois, se realmente ficasse grávida não poderia partilhar com ninguém as suas alegrias. Mas o anjo logo disse:
– E eis que também Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril. Porque para Deus nada é impossível.
Ao saber do milagre na vida de sua prima, o coração de Maria vibrou de alegria. Teria alguém para compartilhar a sua experiência divina. Tranquilizada pela notícia da gravidez da prima, confiou no chamado divino e tomou consciência de que não estava louca. O cheiro do céu era real e Deus estava muito próximo dela. Por isso disse com segurança:
– Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.
Quando o anjo ausentou-se e a luz e o cheiro do céu desapareceram, Maria logo se preparou para uma grande viagem. Estava decidida a visitar a sua prima Isabel, que também tinha sentido o cheiro divino, e com ela compartilhar a divina experiência. Inexplicavelmente Isabel, ao avistar a prima, nem precisou saber sobre o relato da experiência do cheiro divino e da luz angelical. Ao ouvir a voz daquela que foi agraciada pela gravidez divina, exclamou:
– Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre.
Hoje, Maria continua buscando pessoas que já sentiram um pouco do perfume divino para com elas compartilhar as alegrias e a divina experiência de sentir-se plenificada pela graça de Deus. Quem sabe você seja uma destas pessoas agraciadas que podem sentir o perfume do céu no coração.
Mas, para sentir o perfume do céu é preciso paciência, perseverança e, principalmente silêncio. Silenciar a mente e o coração e centrar a atenção somente no ato de respirar. Aspirar profundamente e expirar. Fazer este exercício várias vezes, durante por bons minutos. Lembre-se que o sopro divino é que nos deu a vida. Foi também através do sopro de Jesus que os apóstolos puderam receber o Espírito Santo.
O melhor lugar para sentir o aroma divino é, sem dúvida, em torno do altar onde se celebra a Santa Eucaristia. E quando Jesus Eucarístico lhe é entregue pelo ministro, deposite-o sobre a língua e deixe que a Hóstia Consagrada se dissolva em sua boca. Então, você e Jesus serão um só. Pode ter certeza de que não sentirá o perfume divino, mas seu corpo é que vai exalar o divino cheiro para as outras pessoas. Você será o frasco do perfume de Deus que vai exalar o cheiro divino para a sua família, para as pessoas em seu ambiente de trabalho.  Neste natal, seja você também o perfume de Deus para o mundo!!!
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes (perfumardes) uns aos outros.” (João 13, 35

FELIZ NATAL PARA TODOS OS LEITORES DESTE BLOG

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O MISTÉRIO DAS ROSAS BRANCAS

O MISTÉRIO DAS ROSAS BRANCAS

     Não era algo esperado para já.  Sua morte, por conta das muitas doenças, era prevista, mas a esperança alimentava os corações  com a certeza de que teria ainda alguns anos pela frente.  Após um mal súbito, uma dor forte no peito, ela desmaiou.  Levada para o hospital, foi imediatamente internada na Unidade de Tratamento Intensivo. A  família podia vê-la apenas alguns minutos por dia, sem que vissem da enferma nenhuma reação. Era um corpo inerte na cama, rodeado por luzes, enfermeiras e envazado por tubos.

        Alguns dias antes do mal súbito  havia sonhado que estava num carro cheio de luzes que tocava uma música de apenas duas notas. Contou este sonho para os filhos e o marido. Ninguém soube interpretar o  que significavam tais imagens.  Na saída da UTI, uma das filhas relembrou o sonho.

       – Era da ambulância que ela falava, disse a filha

       O marido ouviu quieto. Sim, pensou, era a ambulância com as luzes vermelhas e o som tocando alto…

       Outro filho lembrou-se de um sonho que Amélia tivera muito tempo atrás. Sonhara que fazia uma viagem sozinha, para um lugar desconhecido. Estava com medo. Porém, três semanas após ter chegado ao destino da viagem, a família inteira viera ao seu encontro e nunca mais se separaram.

       Todos começaram a tentar decifrar o sonho da viagem. O que seria?

      Enquanto ainda conjecturavam acerca da viagem fictícia, uma das enfermeiras veio ao encontro da família de Amélia

      – Infelizmente tenho que informá-los que ela morreu

     – Foi um baque! Todos choravam copiosamente. E nem mais se lembravam do sonho da viagem. Providenciaram o velório e o enterro. No dia seguinte ao féretro, uma das filhas procurou o pai à noite, e lhe disse:

       – Pai, o sonho da ambulância se realizou. E aquele da viagem?  Será que daqui três semanas iremos todos morrer?

       – Minha filha, é hora de dormir… Vamos deixar esta conversa para amanhã…

       Mas quem disse que o esposo de Amélia dormiu? Era um assunto sério.

       Após três semanas, uma coisa aconteceu. Uma velha tia veio visitá-los e tinha um pedido muito estranho a fazer.

      – Meus sobrinhos, preciso que vocês venham comigo até minha casa. Há algo lá que pertencia a Amélia.

       Imediatamente pai e filhos a acompanharam.

      Na frente da casa da tia havia um bonito jardim

. A velha senhora disse para os parentes enlutados:

– Aqui, nesta terra deste jardim, Amélia plantou certa vez uma muda de rosas brancas. Acontece que o galinho da flor murchou e morreu. No dia do falecimento dela, antes mesmo de saber da notícia, vi um pedacinho de verde neste local. E agora, após três semanas, vejam a linda rosa branca que desabrochou… Creio que é um sinal…

        Era de fato um sinal. Amélia queria novamente desabrochar na vida de todos. E não queria ser lembrada como a mulher na UTI ou dentro do caixão.

        Há pessoas que sepultam seus entes queridos duas vezes. Enterram o corpo e a história, pois só se lembram dos momentos da doença ou do velório. Amélia queria, a partir daquele momento, ser lembrada como a Rosa que perfumou a vida de todos durante todos os anos que com eles conviveu.

        Misteriosamente as rosas brancas continuaram a florir e até hoje há sempre uma delas  colocada num vaso sobre a mesa central da sala da família de Amélia. Quando uma murcha, logo outra é colhida e depositada ali.

 

 

 

 

 

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O SONHO QUE VIROU PESADELO

O ROUBO DO PORTÃO

Fato verdadeiro: um rapaz roubou o portão da entrada de uma chácara. Imagine alguém com um martelo, chave de fenda e outras ferramentas retirando o portão de um domicílio sem permissão. Talvez se fosse de uma casa, o barulho alertaria o morador que cuidaria de logo espantar o meliante. Mas o fato aconteceu em um ambiente quase rural. A distância entre o portão e a casa é considerável. Pequenas batidas ouvidas ao longe não despertaria a atenção de ninguém. Depois de um tempo de esforço (afinal de contas, também para roubar o portão ou qualquer outro objeto há uma ação que redunda em cansaço), o objeto do desejo daquele jovem estava em suas mãos. Ele colocou-o nas costas e foi embora.

Mas o proprietário daquela chácara ouviu o estranho barulho e de forma discreta foi ver o que estava acontecendo. Foi tão discreto que o ladrão nem percebeu a presença da vítima, que acompanhou todo o “trabalho” do meliante à distância. Portão nas costas, passos lentos – era um portão grande e pesado – lá foi aquele que gosta de pegar coisas do alheio caminhando cambaleante, e a vítima atrás, seguindo-o. O destino foi um ferro velho. A conversa entre o surrupiador das coisas alheias e do comprador e vendedor de sucatas, imagino que deva ter sido esta:

– Trouxe um portão velho para vender.

O proprietário do ferro velho olha o objeto e faz uma avaliação da coisa e de quem a quer vender. Digamos que o pobre rapaz não tem características de quem pudesse ter um portão daqueles. Obviamente que algo está errado.

– Quem lhe deu este portão?

– NInguém me deu. Ele é meu. Não o quero mais, por isso quero vendê-lo.

Quem tivesse um portão daquele tipo provavelmente também teria uma bela casa. Era um portão trabalhado, ferro de primeiríssima qualidade. E se tivesse uma bela casa, por certo também teria uma caminhoneta ou recursos para contratar uma que o ajudasse a conduzir o portão até o local da venda. Mas ali, na frente do negociador de sucata, estava um jovem maltrapilho, descalço, suado por ter carregado um belo portão. Tudo indicava que o objeto era produto de roubo. E a resposta foi um sonoro não!

– Não me interessa o portão. Pode levá-lo embora.

À distância o dono do portão acompanhava a conversa dos dois. Enquanto olhava tudo, cuidou de usar o celular para chamar a polícia. Viu que o ladrão colocar o portão de volta às suas costas, levando-o embora. O comprador de coisas velhas não permitiu nem que o pobre rapaz ladrão o deixasse ali.

Agora o dono da chácara que ficara sem o portão tinha dentro de si uma indignação. Como é que alguém em sã consciência poderia recusar um portão tão bonito? E provavelmente o ladrão o estivesse vendendo a preço de banana. Aquele portão fora desenhado por ele mesmo. Levou muitas noites rabiscando, pensando, até que a obra estivesse pronta. Pagou o serralheiro pelo trabalho em quatro vezes – prestações, aliás, bem salgadas. Mas ele queria um portão bonito para enfeitar a entrada da sua chácara – a chácara dos seus sonhos – era o que estava escrito em uma placa logo acima do portão furtado: “Chácara dos meus sonhos”.

Sem ter conseguido vender o objeto que lhe dera tanto trabalho, o ladrão não quis carregá-lo mais. Viu um terreno baldio ali por perto e tratou de jogá-lo em meio ao matagal. Não deu muitos passos e foi abordado pelos policiais que vieram atender ao chamado da vítima.

– Mãos na cabeça! – disse o policial com armas em punho.

– O que foi que eu fiz? – perguntou o rapaz!

– Você roubou o meu portão – disse o dono da chácara.

Enquanto um policial tratava de algemar o meliante, o outro foi buscar o portão. Era pesado, por isso pediu ajuda ao dono do objeto furtado que o ajudasse. Logo todos estavam reunidos em frente ao terreno baldio: portão, vítima, ladrão, vendedor de sucatas e dois policiais. Diante das evidências o rapaz não teve como negar o crime.

– Fui eu mesmo quem roubou o portão.

– Mas por que? – perguntou o policial.

– Tava precisando de dinheiro para dar de comer aos meus filhos.

– Isso é mentira. Acho que nem casado ele é! Devia usar o dinheiro para comprar drogas – disse indignado a vítima.

Todos foram para a delegacia. As pessoas – cada qual cumprindo o seu papel (vítima, ladrão, policiais) seguiram em automóveis e o portão levado em uma velha caminhoneta pelo proprietário do ferro velho. Devido à nova lei cautelar que manda que delitos que não redundem em mais de quatro anos de reclusão seja arbitrada fiança em vez da prisão, depois de feito o registro o delegado informou ao meliante:

– Pagando um salário mínimo você responderá ao inquérito em liberdade.

– Posso ligar para alguém trazer o dinheiro?

O delegado indicou o telefone para o rapaz, que se comunicou com um colega de serviço, ou seja, um outro ladrão. Ninguém sabe de onde, mas depois de duas horas – mais ou menos – o dinheiro foi entregue para o delegado. O dono do ferro velho, depois de ter dado suas declarações, foi embora. No calor dos fatos, a vítima nem tinha se dado conta de que agora tinha um portão a ser levado embora, mas o carro que o trouxera já não estava mais ali.

– Posso ir embora? perguntou o rapaz que roubara portão.

– Sim! Disse o delegado.

O dono da chácara não compreendeu o porque estava sendo solto aquele que lhe fizera perder tanto tempo naquele dia e que também tinha danificado a entrada da chácara.

– É a nova lei cautelar – respondeu o delegado, mesmo antes de ser questionado pela vítima. A lei manda arbitrar a fiança e temos que fazer.

– E como é que eu levo o meu portão de volta agora?

– Isso é por sua conta. Nós o trouxemos aqui para fotografar e constar nos autos a imagem do produto do furto. Levá-lo embora e recolocá-lo no lugar é por sua conta.

Depois de algumas ligações, o proprietário da chácara conseguiu alugar uma caminhoneta para transportar o portão. Somados o aluguel do veículo e os pedreiros que colocaram o portão de volta ao seu lugar, a vítima teve que desembolsar quase quatrocentos reais.Mas seu prejuízo não ficou só nisso. Teve que colocar um equipamento de segurança com câmara de vigilância na entrada da chácara. Mesmo assim, depois de um mês, teve uma nova experiência da violência urbana. Desta vez os bandidos pularam o portão e entraram na casa da chácara. Mediante grave ameaça sob a mira de revolver, reviraram todo o imóvel e levaram vários objetos de valor, inclusive o dinheiro que seria usado para pagar a prestação do equipamento de segurança instalado à entrada da chácara.

Na semana seguinte o chacareiro colocou um anúncio no jornal: “Vende-se Chácara”.

Infelizmente a chácara dos sonhos se tornara a chácara do pesadelo.

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A CHUVA, A ESTRELA, O PASTEL E O AMOR

A CHUVA, A ESTRELA, O PASTEL E O AMOR

Lá em cima, no meio das nuvens, uma única estrela. A mudança do clima provocada pela frente fria trouxe nuvens espessas.  No meio delas uma única estrela insiste em brilhar. 

   Cá embaixo, no meio da rua olhando para o alto céu, está José, mirando os olhos para a única estrela que conseguiu burlar a barreira das nuvens.

   Pingos  de chuva, muitos deles e espessos, caem. As pessoas correm buscando proteção. Mas José insiste em olhar  para a estrela solitária.

   De repente uma mão em seus ombros. Uma mulher com seu guarda chuva cor de rosa ao seu lado, pergunta:

   – Você está bem?

   – Estou! – responde.

   – Se ficar aqui, no meio da chuva e da rua, vai pegar um resfriado ou ser atropelado.

   José aponta o dedo para a estrela e diz:

   – Aquela estrela, a única que insiste em brilhar, veja como é bela…

   A mulher olha para o céu, mas tem apenas segundos para contemplar o brilho estelar. Justamente naquele momento uma nuvem a encobre.

   – Sumiu! diz ela com uma voz embargada. Por sua face um risco d´água  escorre. Será  água de chuva ou lágrima?

    Então o braço de José  envolve o ombro dela  e encosta sua cabeça ao lado do seu pescoço. Ela instintivamente fecha o guarda chuva e fica inerte, abraçada a ele, olhando para o céu.

    Só despertam daquele olhar sonhador por causa do som de uma buzina. Estão bem no meio de uma rua estreita e um fusca quer passar.

    O motorista buzina novamente e dá luz alta no farol por duas vezes. O casal olha aquela luz vinda do fusca como se a estrela estivesse agora ali, bem ao lado deles. Sorriem juntos e ele a aconchega ainda mais ao seu ombro.

    O condutor do veículo, impaciente, coloca a cabeça para fora da janela e grita:

    – Idiotas! Vocês não têm outro lugar para namorar?

    Os dois sorriem, trocando olhares. E de forma surpreendente ele vê o brilho da estrela nos olhos daquela que veio em seu socorro. Do modo que olhou-o parecia que também via o mesmo brilho em seus  olhos. Naquele mágico momento os lábios quase se encostam.

     Ao som da buzina intermitente vinda do fusca e do pisca do farol intercalando em alta e baixa luminosidade, caminham, como se fossem personagens de um filme espetacular. E o motorista ainda grita impaciente:

     – Idiotas! Idiotas! Saiam da frente!!!

    – Quer comer um pastel, pergunta José.

    – Sim – responde a mulher. E saem  lado a lado com a certeza de que têm, cada qual, uma estrela particular para iluminar suas futuras noites de nuvens espessas.

 

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A DOR DA MORTE VENCIDA PELO AMOR

A DOR DA MORTE VENCIDA PELO AMOR

 

A dor provocada pela morte de alguém que amamos é horrível e só sabe o tamanho dela quem já a sentiu. Por 03 vezes fui vítima desta sensação dolorosa, que parece como um nó que do coração se alastra e vai apertando todo o corpo. A primeira vez, ela doeu com a morte de papai. A segunda foi com o falecimento de mamãe e a terceira foi a morte de José Eugênio, meu irmão. Vou narrar-lhes os fatos da morte de minha mãe.

Junto ao túmulo, vi o caixão de Jurema ser empurrado para a gaveta mortuária lentamente. Depois o coveiro foi colocando alternadamente cimento e tijolo, até que não se pôde ver mais nada a não ser uma parede. Uma vida partilhada na dor e na alegria, agora era separada por uma simples fileira de tijolos. Deu vontade de derrubar tudo, tirar mamãe de dentro daquela escuridão e voltarmos para casa, como se aquilo tivesse sido uma grande brincadeira. Não era brincadeira! Ela morreu.

As pessoas foram saindo uma a uma e meus irmãos e eu ficamos ali, perto daquela pequena parede, olhando-a em silêncio, apenas escutando os soluços um do outro.

Aquela dor intensa teve início quando ainda residia na Paraíba. Mônica, minha irmã, informou por telefone que mamãe estava com câncer de mama. Adiantei, então, minhas férias em dois meses para estar com ela no momento em que fizesse a primeira quimioterapia. Queria estar junto para fortificá-la. Não precisou! Ela subiu os degraus da clínica de oncologia muito confiante. E dizia para os filhos:

– Vou vencer essa doença! Basta que vocês me ajudem a chegar na hora e no local da luta. A batalha acontecia na sala de quimioterapia. Durante a primeira aplicação, que durou quase três horas e meia, pude ficar pertinho dela.

Foram quatro longos anos que me fiz presente somente através dos telefonemas diários, nos quais ela me falava sobre a batalha. Durante a luta contra a doença, viajava uma vez por ano para ficarmos juntos durante um mês. Depois, voltava para a missão, distante quase 2.600 quilômetros.

A cada retorno para casa, encontrava-a diferente. Um pouco mais magra, às vezes triste, outras, alegre e, no ano em que faleceu, sem os cabelos. Carinhosamente passei a chamá-la de minha Carequinha. E ela, sorrindo, respondia: Careca, mas viva! Graças a Deus!

Numa das férias em que estivemos juntos, mostrei-lhe uma música que estava compondo. Queria falar da saudade que sentia dos tempos de criança, do aconchego nos braços dela e do meu pai e de como isso tudo me ajudava a amar a vida.

Lembramo-nos de um fato que marcou a nós dois. Lá pelos meus dez ou onze anos, disse qualquer coisa que a fez chorar. E ela impôs-me o seguinte castigo: ficar sentado perto do tanque de lavar roupas durante quatro tardes, lendo a Bíblia. E não poderia ver televisão ou brincar.  Numa das tardes que cumpria a minha pena, resolvi escrever uma carta pedindo perdão. Depois de escrita, guardei-a entre as folhas das Sagradas Escrituras.

Na manhã seguinte, voltando da escola perto da hora do almoço, estendi a folha para ela. Enquanto lia, vi lágrimas escorrendo pela face maternal. Minha Carequinha, então, abriu os braços e encostou meu rosto em seu ventre. Senti o cheiro de alho e cebola que estavam sendo refogados para o arroz e o cheiro de mãe, parecendo que um temperava o outro. E naquele abraço gostoso e cheiroso, recebi um beijo e ouvi estas doces palavras:

– Eu perdoo você, meu filho.

Aquele perdão ecoa em minha alma como se fosse um carinho maternal que não tem fim.

O túmulo foi fechado, mas o amor que Jurema dedicou aos filhos nunca será enterrado.

 

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Homenagem a José Eugênio- meu irmão que será avô

Meu irmão  José Eugênio, que gostava muito de tocar violão e cantar, faleceu em 2015. Foi sempre um guerreiro. Às vezes perdia a batalha para o vício do álcool. Mas, conseguiu vencer esta batalha e teve muitas alegrias com a família. Minha cunhada sofre por ele não estar por aqui para receber mais dois netos que virão. Para ela não chorar mais, escrevi o texto abaixo.
Havia um menino tímido que conseguiu mais que a timidez lhe permitiria. Fez do violão um meio para superar a barreira do silêncio e soltar sentimentos. Cantando encantava. Mas ele próprio ficava assustado com o que o canto mostrava. Havia coisas no coração que não compreendia. Quem o ajudava nestes mistérios era a pessoa que ele um dia encantara com a voz.
A ajuda vinha por palavras e pela atitude de querer ser uma corda no seu violão. Outras cordas vieram. Não era mais um simples violão. A base das cordas agora era a família. As tarrachas para afinar eram o diálogo para as cordas grossas e a sinceridade as finas. Tendo dificuldade para usar estas tarrachas, durante um tempo a música desafinou. As cordas, que eram três sofriam com a música desafinada e sem ritmo.
Depois de um tempo juntou-se ao instrumento outra corda (o genro). Insistiu em afinar as cordas do seu jeito. Algumas ficavam apertadas e outras soltas. Foi somente com a chegada de uma corda nova é que aprendeu a afinar. Viu que a base delas, a família, somente ecoaria o som se ele respeitasse o jeito de cada uma. Aprendeu isso com a nova corda chamada neto. Aprendeu que para tocar certo precisava brincar com as cordas, de um jeito certo. Antes ele brincava sozinho. Com a corda neto ele aprendeu a tocar todas as cordas e a afina-las com o diálogo e a sinceridade.
E vieram mais cordas (outro genro, mais um neto e uma neta)
Era um lindo violão de oito cordas, todas afinadas. Ele se tornou um instrumentista exemplar.
Hoje ao seu instrumento juntou-se outras duas cordas. Não é mais um violão e sim uma harpa que ele toca. E não ecoa o som na terra e sim no céu, com os anjos. Francisca, o Eugênio não está ausente. Ele continua a tocar melodias. Algumas tristes, outras alegres. Mas será sempre ele a tocar a harpa das dez cordas. O mais importante é que com seus erros, ensinou-nos a tocar certo. E com seus acertos ensinou-nos a tocar com a alma
Abraço Tarcisio

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VIDA ALÉM DA VIDA – uma linda história familiar na cidade de São José dos Cordeiros – PB – BRASIL

Uma pequena criança embalada em grandes sonhos. É assim que o pai, Antonio, e a mãe, Maria, conhecida como Mariazinha, receberam o bem vindo Airton.

No meio da primeira infância um baita susto: Airton foi visitado pela temível meningite.  Mariazinha e Antonio não eram pessoas que se deixavam vencer, não importando o tamanho do desafio a ser enfrentado. Marido e mulher, agora pai e mãe de Airton formavam com a pequena criança o trio invencível. Foi com a força dos três membros daquela família que todos se colocaram na luta contra a doença terrível. E venceram a primeira batalha.

A vitória foi coroada com a chegada de Andressa. Agora a família era formada por duas mulheres e dois homens. Não era mais o trio e sim o quarteto invencível.

Airton seguiu sua vida com as sequelas da doença, leves, mas que sempre foram enfrentadas com coragem pela família, que fez da fé, além dos médicos e dos remédios,   a maior aliada na luta pela vida do valente menino.

O pequeno cresceu, frequentou a escola e até aprendeu música com seu pai, maestro da banda da pequena cidade que tem um nome diferente: São José dos Cordeiros.  Andressa, a irmã, cuidava do irmão com um carinho enorme e se orgulhava de vê-lo desfilando pelas ruas executando músicas, sempre orientado pelo pai, o maestro. Os olhos da mãe, Mariazinha, brilhavam ao ver o infante guerreiro enfrentando tudo com muita fé e, principalmente, amor pela vida.

Porém, aos vinte e um anos Airton recebeu outra visita, que não avisa quando chega: a morte. Não há guerreiro forte o suficiente que possa enfrentá-la e vencê-la na primeira batalha.  Quando a ceifadora da vida chega, o mais corajoso dos homens chora. É preciso dizer que a guerra contra a morte tem várias batalhas. E assim foi com o quarteto invencível de São José dos Cordeiros. No primeiro confronto, a morte levantou os braços bradando a sua vitória. Mas esta festa foi temporária.

Havia algo maior que a dor do falecimento de Airton presente no coração daquela família. A fé sempre esteve presente na vida familiar e foi ela  que deu para eles as forças para enfrentarem a segunda batalha contra a morte. Foi assim que  encontraram o sentido da vida de Airton para todos. Assim conseguiram ir para além do túmulo. Saíram do velório. A morte não se tornaria carcereira daquela família na prisão da tristeza.

Há famílias que não saem do velório. Choram copiosamente uma vida inteira pela morte de um ente querido. Não percebem que assim agindo entregam a vitória final para a morte. Não conseguem mais lembrar do falecido enquanto vivo, cantando, vivendo e lutando junto com todos pela vida. Sempre que se lembram daquele ou daquela que faleceu, logo trazem para a memória os momentos finais no hospital, o local do acidente e coroam estas lembranças com os momentos amargos do velório e do sepultamento. E assim se tornam prisioneiros da morte na cadeia da tristeza,s cujas grades são feitas com os sentimentos da revolta que são envolvidas pela falta da fé.

Antonio, o pai, Mariazinha, a mãe e Andressa, a irmã, não eram pessoas derrotadas e não se deixariam ser aprisionados pela morte. O corajoso Airton não nasceu para entristecê-los e sim para lhes ensinar a lutar pela vida.

Foi assim que Antonio, pai e maestro, que coordenava os músicos da banda, agora se tornara o regente da música do amor. Nos seus ombros as duas mulheres da família, Mariazinha, a mãe e Andressa, a irmã, encontraram aconchego para sustentar a dor que sentiam. E aprenderam com Antonio a também executarem a música da esperança.

Uma certeza aquela família tinha: ninguém, nem a morte, separariam o quarteto invencível. Antonio continua a reger a banda e no milagre do amor paterno sempre sente a presença de Airton entre os músicos. Não é presença física, que não existe mais. É Airton presente na vida de Antonio através da música do amor à vida que o filho lhe ensinou.

Andressa, a irmã, escolheu o trabalho com a juventude para perpetuar a força do irmão lutador. Ela sente que vários jovens, que nunca enfrentaram grandes lutas, vivem tristes, isolados e alguns até mesmo com sintomas de depressão. A irmã de Airton sabe que o problema destes rapazes e moças é não terem uma família que esteja ao lado deles para lutarem juntos pela vida.

Mariazinha, a mãe, no começo sentiu o colo vazio. Os braços maternais que carregaram o corpo frágil de Airton anos atrás, ferido pela doença, sentem a falta do cheiro, do sorriso e da valentia do filho querido. Mas ela também tem forças para preencher o vazio do colo de mãe com a disposição em ajudar outras mães que sofrem.

Quando temos ao lado mães e pais guerreiros, irmãos e irmãs que se tornam anjos uns dos outros, não existem problemas que possam derrotar a delícia da vida. Airton não está mais presente no corpo fragilizado pela meningite. Agora sua presença se faz pela força espiritual que envolve o valente e inseparável quarteto invencível.

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